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29 de Novembro, 2006 Palmira Silva

Menos fé, mais razão

Steven Arthur Pinker, durante 21 anos professor no Departamento do Cérebro e Ciências Cognitivas do Massachusetts Institute of Technology, MIT, antes de regressar a Harvard em 2003, um grande divulgador de ciência – recomendo os livros The Language Instinct, How the Mind Works, Words and Rules e The Blank Slate, The Modern Denial of Human Natureescreveu uma carta aberta em que critica o planeado requisito curricular «Fé e Razão» para o ingresso em Harvard.

Em primeiro lugar, a palavra «fé», neste e em muitos outros contextos, é um eufemismo para religião. Um exemplo egrégio são as «iniciativas baseadas na fé» da corrente administração [Bush], assim chamadas porque são mais comestíveis que «iniciativas baseadas na religião». Uma Universidade não deveria tentar esconder o que está a estudar atrás de códigos de palavras mornos-e-nebulosos.

Em segundo lugar, a justaposição das duas palavras faz parecer que «fé» e «razão» são formas paralelas e equivalentes de conhecimento e que temos de ajudar os estudantes a navegar entre ambas. Mas as Universidades tratam da razão, pura e simples. Acreditar pela fé em algo sem boas razões para o fazer não tem lugar em algo excepto uma instituição religiosa e a nossa sociedade não tem falta dessas instituições. Imaginem se tivessemos um requisito para «Astronomia e Astrologia» ou «Psicologia e Parapsicologia». Pode ser verdade que mais pessoas tenham conhecimentos sobre astrologia que sobre astronomia e pode ser verdade que a astrologia mereça ser estudada como um fenómeno histórico e sociológico significativo. Mas seria um erro terrível justapor astrologia com astronomia quanto mais não seja pela falsa aparência de simetria.

Gosto especialmente das conclusões, embora considere que a religião, nomeadamente o catolicismo, tenta recuperar na Europa a proeminência a que Pinker se refere, e eu concordo, como anacrónica:

Exponenciarmos a importância da religião como um tópico equivalente no seu alcance à ciência, à cultura ou à História do Mundo e assuntos actuais é dar-lhe demasiada proeminência. É um anacronismo americano, penso, numa era em que o resto do Ocidente progride deixando a religião para trás.

É reconfortante confirmar que o despertar da complacência e contemporização em relação às religiões por parte da comunidade científica não se restringe às ciências exactas!

29 de Novembro, 2006 Carlos Esperança

A fé e a superstição

Naquele tempo, se houvesse consulta de planeamento familiar ou o Espírito Santo usasse preservativo, o rumo do mundo teria sido outro.

O nariz de Cleópatra não teve mais influência na história da humanidade do que o aparecimento tardio dos contraceptivos. Enquanto um carpinteiro de Nazaré adormecia na oficina, cansado do trabalho, a mulher, ansiosa, aguardava-o. Vencida pelo cansaço, dormitava quando o pombo chegou, em voo picado, e se serviu.

Não se sabe o ano, muito menos o mês ou o dia em que o nascimento de um menino aconteceu. Convinha ao negócio e à superstição que haviam de nascer que o solstício de Inverno fosse a referência.

Que interessa ao Papa que Jesus nascesse no Verão ou no Inverno? Basta o óbolo que alimenta a concupiscência do Vaticano e uma multidão de parasitas espalhados pelo mundo. Não há Primavera que espere as religiões. Há apenas o medo e a ignorância a alimentar o Inverno do nosso descontentamento.

Permanecem as ameaças com que os padres mantêm subjugados os simples e oprimidos os supersticiosos.

28 de Novembro, 2006 jvasco

Galileu no Teatro Aberto

Infelizmente este artigo chega tarde de mais. Já não posso aconselhar uma peça que saiu recentemente de cena.

Ainda assim, não gostaria de deixar passar a oportunidade de elogiar a excelente interpretação que o Novo Grupo fez da peça de Bertolt Brecht, a respeito da vida desse incontornável cientista.

Como é natural a peça também foca o importantíssimo papel que a Igreja teve no atraso científico, tecnológico e cultural da sociedade. Ao longo do texto, é muitas vezes equacionada a oposição entre uma sociedade rica e desenvolvida e uma Igreja forte e poderosa.

Mas Bertolt Brecht foi mais longe, sendo mais profundo, na minha opinião. Optou por contrapor o obscurantismo (representado, naturalmente, pela religião) com tudo o que de reconfortante pode ter, à liberdade, com todos os desafios e lutas inerentes, associando-a ao conhecimento, à lucidez, à racionalidade. À verdade.

E creio que essa oposição é o coração de todo o seu texto.

Se porventura a peça voltar a estar em cena, não percam a oportunidade.

28 de Novembro, 2006 Carlos Esperança

A fé e o ódio

A fé e a intolerância são irmãs gémeas. As Igrejas odeiam-se com uma veemência que estarrece as pessoas civilizadas e transmitem o ódio dos seus líderes à multidão de crentes que as seguem. Faz parte da sua natureza.

Os chefes religiosos estão menos interessados no martírio do Deus que promovem do que no poder que possuem. Não são as ideias que os separam, são os interesses e a disputa do mercado.

Os católicos e os protestantes mataram-se cristãmente, durante séculos, até que o Papa e os bispos foram metidos na ordem.

Em 1054 surgiu o grande cisma entre católicos e ortodoxos e, num acto de mútuo amor, as seitas divididas excomungaram os crentes da concorrência. Deus estava, há muito, de baixa e o Diabo desleixara-se na manutenção ao Inferno, desactivado e incapaz de supliciar os malditos.

Católicos e ortodoxos viveram mútua e reciprocamente excomungados durante 911 anos sem que a maldição os apoquentasse. Quando em 1965 Paulo VI e Atenágoras se desexcomungaram, ao mesmo tempo, nada se alterou. A maldição de Deus é fácil de suportar, difícil é aguentar as bênçãos do clero.

O Papa é de todos os ditadores o que tem mais poder económico e uma hierarquia mais rígida. Umas vezes alia-se ao Islão contra o Judaísmo, outras ao protestantismo contra a liberdade. Agora busca nos cristãos ortodoxos o apoio de que carece contra a demência islâmica.

Na viagem à Turquia, o velho autocrata tenta provar que o país não está em condições de entrar na União Europeia sem se dar conta que ele próprio não cabe no espaço de liberdade que o laicismo criou e onde os ditadores são indesejados.

28 de Novembro, 2006 Palmira Silva

Se não acreditas no Deus cristão vais para o Inferno

Matthew LaClair, um jovem que há um ano se tornou notícia quando recusou recitar o pledge of allegiance ou juramento de lealdade com que as crianças americanas iniciam o seu dia – jurando fidelidade à bandeira e a uma nação indivisível sob Deus -, volta a animar a blogoesfera americana e os media de New Jersey, estado onde se situa a Kearny High School onde estuda.

O professor de História de Matthew, um devoto pastor baptista que dá pelo nome de David Paszkiewicz, que não acredita na separação Estado-Igreja – a que chama «engenharia social» – e acha que desde o jardim de infância as crianças devem ser ensinadas a não tolerar «comportamentos sexuais desviantes», utiliza as suas aulas para proselitar os estudantes, ameaçando-os com o inferno se não acreditarem no Deus cristão e nos dislates que debita!

De facto, no meio das patetadas criacionistas usuais dos fanáticos cristãos – tais como terem os dinossauros estagiado na Arca de Noé ou serem anti-científicos o Big Bang e o evolucionismo enquanto o criacionismo bíblico é comprovado por … profecias bíblicas -, em vez de História Paszkiewicz ulula para os seus estudantes que a Bíblia é a palavra de Deus e que quem não aceita Jesus vai para o Inferno. Acerca de uma das estudantes da classe, muçulmana, o devoto cristão lamentou o seu destino inevitável se não se convertesse à única verdadeira religião.

Matthew LaClair, não-cristão, não achou muita piada que os delírios de Paszkiewicz fossem debitados numa escola pública e pediu uma entrevista com o director da escola em que essencialmente pretendia não só uma desculpa pelas ofensas vociferadas pelo devoto pastor como uma correcção das afirmações falsas e anti-ciência deste. Umas semanas depois, o director, aparentemente outro devoto cristão – Paszkiewicz não sofreu qualquer sanção, disciplinar ou outra – acedeu ao pedido do estudante.

Confrontado com as declarações de LaClair, o devoto pastor mentiu com quantos dentes tinha e negou ter debitado as afirmações que Matthew reproduziu, nomeadamente negou ter ameaçado com o Inferno os descrentes no Deus cristão.

Mas Matthew, que aparentemente conhece bem os fanáticos cristãos, temia exactamente isto: que como bom cristão o professor mentisse descaradamente por um mito e ninguém acreditasse na palavra de um estudante, nomeadamente um que a escola não tem em grande consideração devido à sua postura face ao juramento de lealdade, contra a de um professor e gravou as alucinações religiosas do pastor nas aulas supostamente de História! Delírios dos quais alguns podem ser escutados aqui (gravação a que cheguei via Pharyngula)!

Depois de Matthew mostrar dois CDs em que tinha gravadas as aulas do pastor este recusou continuar a conversa sem a presença de um representante do sindicato e lançou uma acusação de ateísta à «caça do grande (!) peixe, o grande (!) cristão que é professor» a Matthew.

Nem o professor (obviamente) nem algum responsável da escola emitiram qualquer pedido de desculpas pelo inaceitável comportamente de David Paszkiewicz…

27 de Novembro, 2006 Carlos Esperança

Em defesa do Papa Bento XVI

Os milhares de fanáticos que ululam nas ruas da Turquia não são meros manifestantes que detestam um homem de negócios que anda a vender a fé – Bento XVI -, são bandos de intolerantes que se julgam detentores da verdade única e do único Deus verdadeiro.

Impedir a livre circulação de um indivíduo contra quem não existe qualquer mandado de captura, é um acto de proselitismo que a demência da fé alimenta. Não interessa se o Papa é igual aos que o contestam, se o monarca absoluto do Vaticano pensa de Maomé o que este pensava do toucinho, se está igualmente convencido de que as mentiras da sua Igreja são verdades únicas e o seu Deus o único com certificado de garantia.

O que está em causa é a liberdade de circulação de pessoas e mercadorias, direito de que gozam o Sr. Ratzinger e a água benta. As bênçãos que leva, e não precisa de declarar à alfândega, destinam-se apenas a quem aprecia mercadorias sem existência física.

Nenhum país é livre se não assegurar a liberdade de circulação, mesmo aos charlatães, enquanto não transitar em julgado uma sentença de um tribunal independente que os reconheça como tal e os condene.

Não está em causa gostar ou não de um indivíduo de quem Deus, se existisse, também não gostaria. Está em causa a liberdade.

Eis a razão de um ateu para defender o direito do Papa católico, embusteiro de milagres, indulgências e outras trapaças, a viajar pelo mundo e a promover os seus negócios. É, aliás, o direito que os ateus reclamam para denunciar as mentiras da fé.

Combater ideias sem molestar as pessoas é um direito democrático que os beatos não aceitam. É por isso que a laicidade do Estado se torna tão necessária e urgente.

27 de Novembro, 2006 jvasco

Provado cientificamente

A palavra provar tem dois significados diferentes. A demonstração, como na matemática ou na lógica. E testar, como provar um fato ou prestar provas. Parece-me que uma grande dificuldade em compreender a ciência vem de confundir estes dois significados.

Um leitor deste blog (João Silveira) comentou que não posso provar cientificamente que a minha mãe gosta de mim. Engana-se. A minha mãe deu já muitas provas de gostar de mim, em muitas ocasiões que testaram o seu amor por mim. É assim que a ciência prova: testando. Está provado cientificamente que a minha mãe gosta de mim.

O problema é pensar que a ciência prova as coisas como a matemática. A prova dedutiva é útil na manipulação de modelos simbólicos (equações, proposições lógicas, e assim por diante), mas não é uma forma de adquirir conhecimento. Se todos os mafaguinhos são calafráticos, e se o Jibidim é um mafaguinho, então prova-se que o Jibidim é calafrático. Mas o que é que isso adianta?

Para tirar algum partido desta prova tenho que encontrar mafaguinhos, determinar se são todos calafráticos, e verificar se o Jibidim é um mafaguinho. E para isso preciso de provas no outro sentido. Preciso de definir os termos, especificar hipóteses, confrontar previsões com o que observo, para pôr à prova a adequação do modelo à realidade. Sem isto fiz apenas um jogo de palavras sem utilidade nem sentido, mesmo que provado por demonstração lógica. É por isso que a ciência nos dá modelos da realidade que são rigorosos, precisos, e úteis: tudo na ciência é para provar, no sentido de por à prova, e toda a ciência está provada, no sentido de ter prestado provas.

O Bernardo Motta revelou a mesma dificuldade quando propôs que a diferença entre esta abordagem e a fé (a Católica, pelo menos) é uma diferença de «visão do mundo»:

«A virgindade de Maria, para mim, é algo de perfeitamente natural e normal, porque tenho uma visão do Mundo que não é positivista. [… O] crente instruído não acredita num dado dogma “porque sim”. Acredita porque esse dogma faz todo o sentido dentro da “weltanschauung” católica. Perfaz um todo coerente de uma beleza que nos convence da sua veracidade.»

Isto é apenas um passo do processo científico: a construção do modelo. Criar uma representação simbólica coerente, elegante, mesmo bela. Pode ser o dogma Católico, pode ser a economia de Marx, pode ser a psicologia de Freud ou a mecânica Newtoniana ou a Relatividade de Einstein. São modelos; palavras e símbolos encadeados duma forma lógica e estruturada.

Mas, como disse Thomas Huxley, mesmo a teoria mais bela pode ser morta por um facto feio. Podemos dizer que o nosso modelo vem da intuição, ou é revelado, ou é metafísico, transcendente, o que quisermos. Mas enquanto não prestar provas de que corresponde à realidade não é mais que o Jibidim e os mafaguinhos calafráticos.

A crença e a ciência não se distinguem pelas suas visões diferentes do mundo. Visões do mundo tem a ciência às dúzias, e muda-as regularmente. Até o dogma Católico já fez parte da ciência ocidental, e nenhum Católico rejeitaria provas científicas da virgindade de Maria ou da ressurreição de Jesus por virem de outra visão do mundo. Apenas o faria se as provas fossem contrárias à sua doutrina. E aqui é que está a diferença. A ciência quer modelos para compreender a realidade, por isso além de os construir também os testa, corrige, rejeita, melhora, e substitui.

A religião quer modelos para acreditar que são realidade, por isso limita-se a enfeitar um modelo com palavras sonantes. Aceita tudo o que facilite a crença. Rejeita tudo o que indique erros no modelo. Como adora o modelo, nem percebe a necessidade de o pôr à prova. Não se testa; tem-se fé. Mistério. Milagre.

Treta.
——————————–[Ludwig Krippahl]

27 de Novembro, 2006 Ricardo Alves

A proibição do véu na Turquia

«No meu campus, ninguém pode aparecer com uniforme religioso. Se hoje levantássemos a proibição do lenço, amanhã apareceriam de chador e no dia seguinte de burqa. No fim, estariam a bater nas jovens com vestidos modernos. Vimos no Irão como pode acontecer depressa.»

(Ural Akbulut, reitor da Universidade Técnica de Ancara, no Público de 26/11/2006.)
26 de Novembro, 2006 Carlos Esperança

Iraque – Violência religiosa

Se, cada vez que morre um iraquiano, vítima da violência sectária, pensássemos no carácter pacífico das religiões, detestaríamos Deus e os seus prosélitos.

Os iraquianos que sucumbem na orgia de sangue, que o tribalismo e a fé se encarregam de levar a cabo, lembram aos agressores o maior erro histórico deste século, mas ilustram a crueldade que só Deus pode.

Quando as rivalidades étnicas entre xiitas e sunitas atingem uma violência intolerável, a que ninguém consegue pôr cobro, vêm à memória as guerras religiosas entre católicos e protestantes que dilaceraram a Europa.

Então era a obediência ao Papa que estava em jogo, misturada com um negócio de indulgências, hoje é o ajuste de contas por umas divergências antigas sobre Maomé, com um genro de permeio.

Os sunitas ganham o Paraíso a matar xiitas, estes têm acesso a matar aqueles. Se vissem o estado lastimável em que chegam, desistiam das 70 virgens que julgam à espera!

Talvez por isso as virgens que aguardam os dementes da fé permaneçam eternamente virgens.

26 de Novembro, 2006 Palmira Silva

In memoriam Mario Cesariny

Cruzeiro Seixas,Mário Henrique Leiria, Natália Correia e Mário Cesariny de Vasconcelos na galeria Otollini, por ocasião da exposição «O cadáver esquisito e pinturas colectivas no meio século da Revolução Surrealista», Fevereiro de 1975.

«O Homem só será livre quando tiver destruído toda e qualquer espécie de ditadura religioso-política ou político-religiosa e quando for capaz de existir sem limites»
Mário Cesariny, declarações reproduzidas em «A única real tradição viva», que o próprio Cesariny reuniu no substancial «A intervenção surrealista» (Assírio & Alvim, 1997).

«O ex-surrealista, o rigoroso e ateu e anti-clerical Mário Cesariny de Vasconcelos»* faleceu esta madrugada com 83 anos.

Com Alexandre O’Neil, António Pedro, José-Augusto França, Marcelino Vespeira, Moniz Pereira, António Domingues e Fernando de Azevedo fundou o Grupo Surrealista de Lisboa, um movimento inspirado no lançado, em 1924, pelo francês André Breton – que Cesariny conheceu em Paris quando frequentava a Academia de La Grande Chaumière- que se propunha a «mudar a vida» e «transformar a sociedade».

Um artista polivalente, com uma extensa obra plástica e poética pontuada de um corrosivo humor, Cesariny foi o dinamizador da prática surrealista em Lisboa, não só com a criação do referido grupo como de «antigrupos» – como Os Surrealistas, com Henrique Risques Pereira, António Maria Lisboa, Fernando José Francisco, Carlos Eurico da Costa, Mário-Henrique Leiria, Artur do Cruzeiro Seixas e Pedro Oom – com a mesma orientação mas questionando e procurando um grau extremo de espontaneidade, objectivo que permeia toda a sua obra poética.

Para Cesariny, homossexual assumido, o amor, «a única coisa que há para acreditar», é «o único contacto que temos com o sagrado. As igrejas apanharam o sagrado e fizeram dele uma coisa muito triste, quando não cruel».

*in Pacheco versus Cesariny – Folhetim de feição epistolográfica, Luiz Pacheco, Editorial Estampa, 1974.