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Categoria: Cristianismo

7 de Setembro, 2026 Onofre Varela

GUERRA DA OPUS DEI CONTRA O PAPA

Soube-se agora (notícia do jornal espanhol El País de 3 de Setembro último) que o Papa Francisco foi ameaçado por clérigos afectos à seita extremista católica de Direita, Opus Dei (OD) criada pelo fascista espanhol Escrivá de Balaguer em 1928 e metida no Vaticano, como prelatura pessoal, pelo Papa João Paulo II, em 1982. Balaguer acabou por ser canonizado em 2002, sendo cumprida a sua grande “meta biográfica”.

A organização OD é dona de várias empresas e universidades, tem elementos dispersos por partidos políticos e Parlamentos e, à semelhança do que acontecia com os agentes da polícia política nazi de Salazar, a PIDE, nunca sabemos quem se senta ao nosso lado no café ou no Metro, com a intenção de nos espiar. Também é dona de um santuário em Aragão (o Santuário de Torreciudad – Huesca) que na sua origem foi um forte muçulmano ocupado pelos cristãos no século XI.

A guerra que a OD movia ao Papa Francisco acabou por ser herdada por Leão XIV perante o dilema de decidir de que lado está nesta guerra intestina que os extremistas religiosos ultraconservadores mais agarrados à tradição e contrários à modernização da Igreja que o Papa promovia, alimentavam contra Francisco.

A OD anda de “candeia às avessas” com a Santa Sé desde Julho de 2023, por ver destituído o reitor de Torreciudad, que foi substituído por um bispo da confiança do Papa Francisco. Numa carta de Francisco, dirigida no mesmo ano de 2023 a Pérez Pueyo, bispo de Barbastro (município que tem a jurisdição do Santuário de Torreciudad) e agora divulgada, Francisco recomendava: “Não cedas”… e dizia mais isto “… procuro livrar-te de todas as intrigas mafiosas que estão em curso”, traçando um novo destino para o Santuário.

Angel Javier Pérez Pueyo foi nomeado bispo de Barbastro pelo Papa Francisco em 2014, o que nunca agradou à OD que o quer destituir daquele posto. Nas cartas de Francisco é notório o apoio que o Papa dava a Pueyo e a sua vontade de cortar a influência da OD.

Para além disto, Francisco anulou o carácter exclusivo de “Prelatura Pessoal” da OD, em 2022, título de que gozava desde 1982… o que, evidentemente, não agrada à “obra” do fascista Escrivá de Balaguer. Na biografia de Pérez Pueyo consta que na “Conferência Episcopal Espanhola” ele é membro da “Comissão para os Laicos, Família e Vida”.

Estas questões de interesses de poder numa organização bi-milenar como é a Igreja Católica, não configuram nenhuma novidade. São tão antigas quanto o credo, e em cada tempo a minoria tradicionalista tenta impor as suas vontades numa guerra intestina de colocar “os nervos em pé” a quem deseja viver pacificamente consigo e com os outros… e, ainda mais, no seio de uma Igreja que se diz “pacificadora e distribuidora de amor”… o que vindo do lado mais bafiento da instituição só pode causar riso se não, mesmo, horror… mas também, e principalmente, preocupação, não só para os religiosos católicos, mas para todos os “Homens de Boa Vontade”… como são os ateus.

CURIOSIDADE: Uma universidade espanhola detida pela OD é a Universidade de Navarra. Eu tenho um certificado de jornalista, numa formação que fiz no Centro de Formação de Jornalistas, no Porto, em 1995, ministrada pela Universidade de Navarra!… E esta, heim?!…

6 de Setembro, 2026 Carlos Silva

«O ateísmo não existe…»

Imagem: Internet

«O ateísmo não existe… e a culpa é dos ateus»

Observador, Ricardo Ferreira, 26 abr. 2026

«O ateísmo não existe… e a culpa é dos ateus»

(…)

O ateísmo enquanto certeza, enquanto afirmação positiva da inexistência de Deus, tem ainda outro problema adicional, que apenas alguns ateus mais honestos reconhecem aceitando o custo. Para afirmar com certeza que Deus não existe em nenhum lugar, sob nenhuma forma, em nenhuma dimensão possível da realidade, seria necessário um conhecimento total e exaustivo de tudo o que é. Seria necessário o conhecimento total do passado, do presente e do futuro. Tanto quanto sei, nenhum humano tem esse conhecimento.

Quando falamos de ateísmo como certeza, falamos de uma fé. Uma fé invertida, mas ainda assim, fé. E esta fé exige o mesmo que os ateus criticam aos crentes em Deus: um salto além do que a evidência permite. Com uma importante diferença: os crentes em Deus admitem-no e os ateus torcem a narrativa para não admitir o salto.»

(…)

O ateísmo nada conclui e nada prova. É uma identidade que, como qualquer outra identidade abstracta, não passa no seu próprio teste. O que tem a sua piada, porque o lugar onde o ateísmo claramente não existe é exactamente o lugar onde o ateu mais insiste em verificar as coisas: na evidência empírica.

Ricardo Ferreira


Não foi pela indiferença de saber quem é, mas apenas pela diferença de análise que optei por não efetuar qualquer pesquisa sobre a sua pessoa…

Assim, após uma segunda leitura algo mais atenta ao texto…

Meu caro desconhecido Ricardo Ferreira,

Como ateu, “confesso” que a minha postura não foi nada “comovente”; pelo contrário; diria que senti uma misericordiosa necessidade de responder, sobretudo pela sua animosa referência ao ateísmo. É realmente um grandioso texto, do qual, depois de bem exprimido, não resultou praticamente nenhum sumo.

Quero, antes de mais, salientar que é impossível comparar o incomparável!

Ateísmo é simplesmente uma consequência do pensamento racional. Não implica existência, mas sim ausência de crença. Ausência de crença num ou mais deuses.

Não se pode comparar o ateísmo a uma crença!

O ateísmo, tal como o teísmo, só existe como conceito mental abstrato, porque um qualquer iluminado, baseado num simples ato de fé pessoal, afirma que existem entidades supranaturais. Se existisse alguma entidade supranatural, obviamente que não se justificaria a sua existência, uma vez que a crença esvaziar-se-ia deixando de fazer qualquer sentido. Se não houvesse pessoas a acreditar no que não vêm e não podem provar, obviamente que não existiria ateísmo nem teísmo.

Ateísmo não é uma filosofia em que possamos acreditar ou desacreditar, como devotamente procura confecionar. É um posicionamento de ausência de crença. É a admissão do óbvio com base na leitura racional que a ciência e a realidade nos mostram e demonstram. É a simples escolha do evidente e faz parte desta liberdade que hoje a laicidade nos concede; tal como a escolha do dogma religioso por mais absurdo ou ridículo que seja.

O ateísmo é simplesmente uma postura intelectual baseada na lucidez, na capacidade de duvidar, de analisar, de quem continua permanentemente a evoluir na sua compreensão e resulta de um processo de evolução pessoal, intelectual e ético.

O ateísmo não é apresentado como imposição ou superioridade, mas como consequência natural do pensamento racional, crítico e científico. Valoriza a liberdade individual, o humanismo, a tolerância, a solidariedade e a paz como pilares para uma sociedade mais equilibrada e sustentável.

O ateísmo não é negação ou combate à fé alheia, mas uma constatação baseada em factos e evidencias, afastando a crença no sobrenatural. Mais do que um rótulo, trata-se de uma forma consciente de estar no mundo, de viver o presente e procurar o conhecimento e a verdade através da razão.

Nenhum ateu parte da premissa que já conhece a verdade. O ateu analisa, erra, muda de opinião, acerta, erra, muda de opinião, acerta… até conhecer a verdade.

Nenhum ateu nega a existência de uma alegada entidade supranatural, vulgo «deus». Constatando a inexistência de provas ou evidências da sua existência, simplesmente não acredita no que o crente afirma existir com base num intrínseco ato de fé. Tendo em conta que essa suposta entidade supranatural se limita a uma imagem mental abstrata que varia conforme a imaginação do criador ou imputador, parece evidente que, qualquer mente minimamente ciente, não pode negar o que não existe, ou simplesmente confirmar a materialidade do amigo imaginário criado pelo próprio homem. Não podemos provar a sua inexistência porque só a existência pode ser provada. Daí que o ónus da prova esteja do lado do crente. O que negamos é a crença e não o conhecimento!

Resumindo…

Ser ateu não é negar ou lutar contra qualquer crença alheia.

Ser ateu é simplesmente constatar a inexistência de qualquer entidade divina.

Ser ateu é simplesmente raciocinar sobre a realidade dos factos.

Ser ateu é simplesmente retirar conclusões com base em provas fidedignas.

E concluindo…

O ateísmo não é nenhuma crença. O ateísmo não se impõe. É uma opção que resulta duma forma racional de estar e lidar com a realidade!

P.S. Como ateu, “confesso” que não acredito que uma mente realmente inteligente acredite no sobrenatural. Reconheço que o ateísmo não implica inteligência, mas realmente a inteligência pode levar qualquer mente minimamente racional ao ateísmo.


TEU ATÉ AO FIM, 2026-09-06 Carlos Silva

26 de Agosto, 2026 Onofre Varela

VIDA DEPOIS DA MORTE (8 e Fim)

Por Onofre Varela

A Consciência não é uma faculdade exclusiva dos seres humanos. Outros animais também a terão de um modo mais rudimentar, mas em nós ela permite reagir à “experiência do sofrimento ou do prazer com a invenção de novos objectos, acções ou ideias, os quais se traduziram na criação de culturas”… o que, obviamente, não acontece aos outros nossos companheiros da vida que no planeta eclodiu e de cujo reino animal fazemos parte.

As religiões só poderiam ser desenvolvidas em torno dessa consciência que nos formata, e sem a qual a nossa espécie seria outra que não a que realmente é.

Há um significado da palavra “consciência” reconhecido por neurocientistas, biólogos, psicólogos e filósofos contemporâneos, que diz assim: “Consciência é um sinónimo de Experiência Mental. E o que é uma experiência mental? É um estado da mente e tem uma característica notável: os conteúdos mentais que o constituem são Sentidos e adoptam uma perspectiva singular. Uma análise mais aturada revela que essa perspectiva singular pertence ao organismo no interior do qual se encontra a mente”.

A Consciência acaba por ser um sistema mental enriquecido, produzindo a escolha moral, a criatividade ou cultura humana, as quais só fazem sentido à luz da Consciência. Porém, não é líquido que a integração de um determinado indivíduo numa determinada sociedade, construa a sua consciência de acordo com uma “bitola” hipoteticamente existente nela, e na qual o indivíduo se integra já depois de ter desenvolvido a sua consciência noutro meio cultural.

A capacidade mental de cada indivíduo é como uma mala onde se vai guardar a bagagem que cada um possui… ou não possui! Não é só o conteúdo da mala que faz a qualidade do que nela se guarda. A própria mala terá de ter robustez e capacidade hermética para que o conteúdo não se danifique. Aqui entra a “construção da mala”, que é a nossa realidade biológica, e cada um terá a sua.

Nas várias capacidades do Ser Humano também entra a Homeostasia, que é a propriedade de determinados seres vivos, a despeito das variações do meio ambiente, manterem o equilíbrio de todas as funções, mas também a própria constituição química dos tecidos.

De facto o “Homo Sapiens” é um animal especial entre todos os outros animais nossos companheiros de vida na Terra. O cérebro que nos dá a consciência é único… e todos os dias vemos tanta gente desperdiçando as suas melhores capacidades, ou a usá-las do pior modo (que também é um desperdício)… como os ditadores que já desilustraram a Humanidade, como Hitler no meu tempo de bebé, mais os actuais e horrendos Netanyahu,  Putin e Trump, na minha terceira idade…

E aqui, no final desta série de textos, eu volto ao princípio: não sei explicar as experiências que a minha filha garante ter, inseridas na “secção mental” rotulada “Vida depois da Morte”.

Não lhes encontro lógica (a minha lógica) mas sei que ela não mente quando me afirma “a sua lógica”, que também ela diz não saber explicar… mas que a sente… o que me leva a aceitar a minha ignorância: não sei responder a questões que me são narradas como “sobrenaturais” porque parto do princípio que tudo quanto existe é natural… e se é “sobrenatural”… então não existe!…

É preciso que me expliquem, muito bem explicadinho, as razões naturais que nos levam a evocar a sobrenaturalidade em que não creio. Só então (depois de perceber) aceitarei o fenómeno como coisa natural… mas já com a devida explicação incluída no modo de usar!

(Fim)

26 de Agosto, 2026 Onofre Varela

VIDA DEPOIS DA MORTE (7)

As escolas estabelecidas em todas as sociedades não são apenas lugares de transmissão de saberes… também desenvolvem estilos de consciência… e de esquecimento de outras capacidades, orientando as consciências para comportamentos locais, distanciando-as do entendimento universalista das coisas naturais, construindo um modo de pensar limitado a uma facção, como acontece no xamanismo e também é notório na aprendizagem de cultos religiosos e políticos ministrados pelos interesses instalados em cada grupo.

Carlos Stepanoff é membro do Laboratório de Antropologia Social do Colégio de França e director da École des Hautes Études en Sciences Sociales. Especialista nos rituais xamánicos, diz que o sonho, o devaneio (o sonhar acordado) ocupa 50% da actividade do espírito, desempenhando um importante papel no funcionamento da imaginação.

Estudos de neuropsicologia mostram que a imaginação é mobilizada quotidianamente durante toda a nossa vida, implicando incessantes “viagens mentais”. Esta construção da nossa consciência, do espírito humano, não evoluiu na contemporaneidade, no ambiente que hoje nos faz, construído por interacções acontecidas entre humanos, mas reporta-se, sim, a contextos que o Ser Humano viveu como presa de outros animais predadores.

Tais ensinamentos de antanho, passados de geração para geração, são a base da consciência religiosa que hoje ainda nos domina. Na modernidade, estes “sonhos” da actividade espiritual favorecem uma inovação individual imprimindo alguma transformação na passagem de antigos conceitos para as novas gerações, o que se reflecte na criação constante de novas técnicas rituais, como é bem visível nas seitas ditas evangélicas que romperam com as missas tradicionais católicas, mas que têm, na sua essência, a mesma razão de ser que trazemos colada, como cromo de colecção, na caderneta que o nosso cérebro é.

Quem sabe muito sobre a consciência é o nosso cientista António Damásio, um dos mais reputados neurocientistas do mundo, radicado nos EUA há imenso tempo, onde dirige o Brain and Creativity Institute na Universidade da Califórnia do Sul. Nas suas obras “O Livro da Consciência” (2010) e “Sentir & Saber” (2020), ambas editadas pela Temas e Debates / Círculo de leitores, diz-nos o que é possível sabermos, hoje, sobre a consciência como produto do cérebro.

Começa por informar que o cérebro não é mais do que um aparelho físico-químico composto por objectos físicos, denominados neurónios, que se contam em número astronómico na ordem dos milhares de milhões. Várias são as características que o nosso cérebro nos oferece: a Inteligência, que nos dá a capacidade de resolver problemas colocados na luta pela vida; a Mente, como grande armazém de imagens; o Raciocínio, como ferramenta que nos permite recordar e resolver problemas; os Afectos, que provocam reacções emotivas e alteram o organismo numa dinâmica a que também chamamos “estado de espírito”; os Sentimentos, experiências mentais que acompanham vários estados do organismo, como a fome e a sede, mas também provocam emoções como o medo, a raiva e a alegria; e, por fim, a Consciência, que entra em nós guiada pelos sentimentos, já que todos eles são conscientes por definição.

“Sem consciência nada se pode saber […] [ela] foi indispensável para a ascensão das culturas humanas e mudou o rumo da História”.

(Conclui na próxima semana)

21 de Julho, 2026 Onofre Varela

VIDA DEPOIS DA MORTE (3)

Como disse no último artigo, só a História é o único modo de manter a memória daquele que morreu e deixou obra para ser recordado. Só assim se consegue a “eternidade” como cantou o nosso poeta maior Luís de Camões: “Por obras valerosas da lei da morte se vão libertando”.

Porém, na nossa sociedade cristã, quando se aborda o tema “Vida Depois da Morte”, é inevitável falar em Jesus Cristo (JC) e na mitologia da sua ressurreição. A maioria das religiões (não só a Cristã) tem como denominador comum a preocupação com a morte e a mensagem da vitória da vida sobre ela. O Cristianismo refinou esta regra, porque Jesus Cristo só existe… porque morreu!…

A sua crucificação foi a porta que se abriu à vida, fechando-a à morte, através da ideia da ressurreição como “a vitória final da vida”, onde a morte já não tem lugar!

O engraçado é que esta ingenuidade cristã da ressurreição acaba por se transformar numa pedra no sapato da crença, que é difícil de retirar… porque se JC ressuscitou, tem de estar algures. Tem de andar por aí!… Quem vence a morte, não morre outra vez (penso eu)!… E o que, ou quem, não morre, tem de se conservar vivo. E o que, ou quem, é, ou está, vivo, tem de conservar a sua forma material, consumir alimentos para manter a energia, mostrar-se e produzir ou provocar algo!

Onde está Jesus Cristo? Em que circunstâncias? Como sobrevive?!… São perguntas sem resposta que deveriam embaraçar a crença… só não embaraçam porque os crentes não se interrogam… só crêem!… E estarão convictos de que existe um céu para albergar almas caridosas, mas também o corpo material de JC!

O factor mais importante do Cristianismo, na vertente que mais afirma a sua característica de religião é, sem dúvida, o conceito da ressurreição. O vencer da morte. A ressurreição dá-lhe a dimensão mais deifica e religiosa… que é aquele factor que inebria a maioria dos crentes, relegando para segundo plano a ideia humanista contida nos “ensinamentos de Jesus”. Mas aqui estamos na presença de algo que não pertence exclusivamente ao Cristianismo. A libertação da morte é uma ideia que o homem persegue desde quando teve consciência de que o seu fim seria morrer, abandonando a vida, o que, convenhamos, não configura um fim simpático!…

Essa consciência alimentou a religiosidade que leva ao acto misericordioso do enterramento. Por isso os nossos antepassados mais remotos já enterravam os mortos, e os poderosos levavam consigo os mais ricos pertences para usufruírem deles para além da morte que não aceitavam como fim da vida, e acreditavam ir viver numa outra dimensão onde continuariam com a mesma importância.

A imortalidade é desejada desde a mais remota antiguidade e encontramo-la na mitologia egípcia. O Cristianismo não fez mais do que copiar, adaptar e reeditar conhecidos rituais, como é exemplo a narrativa mitológica de Átis, deus frígio da Natureza e da Primavera, amante de Cibele, cujo mito refere a sua morte e ressurreição. A própria missa pascal do rito cristão é cópia de antigos rituais nocturnos comemorativos da morte e ressurreição de Átis, com ligação a celebrações animistas na passagem do equinócio da Primavera.

A morte sempre foi uma das grandes preocupações do Ser Humano. Segundo o filósofo e sociólogo Edgar Morin (falecido recentemente com a bonita idade de 105 anos), o Homem de Neandertal não só enterrava os mortos; também os reunia como se prova na “gruta das crianças” perto de Menton.

O sepultamento dos mortos é um elemento cultural que demonstra a preocupação de prolongar aquele que morre, para além da vida que efectivamente perdeu. Prolongamento que os egípcios transformaram na conservação dos cadáveres pela mumificação.

Quando não abandonamos, ou não esquecemos, os nossos mortos, eles “sobrevivem”.

(Continua)

21 de Julho, 2026 Onofre Varela

VIDA DEPOIS DA MORTE (2)

O Ser Humano é, irremediavelmente, um animal. Não passamos de “orangotangos” com a faculdade de pensar, sonhar e executar. Não há animal algum (orangotango ou felino) que possa ser visto com vida depois de ter morrido, e o meu gato jamais viu o fantasma do seu bisavô persa. Mas nós (“orangotangos” Sapiens) afirmamos ter visto Jesus Cristo vivo depois de ele ter sido morto, e que também topamos com a sua mãe Maria, Vivinha da Silva, nas circunstâncias mais improváveis, incluindo aquela (de 1917) em que se encarrapitou no cocuruto de uma azinheira uma vez por mês durante meio ano, falando Português… Língua que só foi criada mais de 800 anos depois de ela morrer !…

Só nós, os Homo sapiens, somos capazes de tal façanha… e por uma razão muito simples: porque raciocinamos e sonhamos, e muito do que criamos fazêmo-lo à medida da nossa fé… que é sempre a medida das nossas necessidades e, principalmente, no rigoroso tamanho da nossa ignorância. Mas isto acontece porque possuímos um cérebro capaz de nos tornar interrogativos, criativos e inventivos… numa palavra: inteligentes… e noutra: religiosos.

O dicionário diz-nos que a inteligência é o “conjunto de todas as funções que têm por objecto o conhecimento, a faculdade de entender”. Ora… é aqui que começam os problemas… mas também as soluções. Quando não conhecemos a coisa que desejamos conhecer, a nossa faculdade de procurar entender o que nos acontece, que observamos e sentimos, leva-nos à procura de uma explicação; e esta, por tão desejada, corre o risco de, antes de ser encontrada, começar por ser inventada no formato de “mentira inconsciente”… aumentando o risco de se fixar como verdadeira. 

Quanto maior for o espaço de tempo em que a apresentamos como real, maior é esse risco. A razão de “isto ser assim” reside no facto de termos nós, Seres Humanos, ultrapassado o estatuto de orangotango (o que não aconteceu ao meu gato… que nem aí chegou). A “mentira em formato de explicação na fé” acaba por se fixar nas nossas mentes, tornando mais difícil a sua substituição por uma explicação verdadeira, real e autêntica, até porque a função da religiosidade é exactamente a de rejeitar a verdade histórica e natural, colocando no seu lugar uma hipótese sugerida pela fé que depositamos no impossível. 

É isto o que ocorre no nosso entendimento quando defendemos a ideia de haver vida para além da morte?

Vejamos… a frase “vida depois da morte” é uma incongruência, porque a morte anula a vida e nada mais há para aquele que morreu… ele tem a vida anulada. É como apagar uma vela de estearina… a chama apaga-se definitivamente; não se translada para outra vela. Morreu!… Deixou de ser… já não é! O que “há para além da morte”, já não tem a ver com o finado (que, como morto, deixou de existir, de sentir, de actuar… de ser!…), mas tem a ver com a vontade dos que cá ficam, familiares e amigos, perpetuando no tempo a memória do falecido. 

Este perpetuar da memória é a única forma que há de eternidade: a memorial, a histórica. A memória dos meus pais será tão longa quanto mais longa for a vida daqueles que os recordam. Na minha morte e na da minha mulher, fica a minha filha que os recordará. Os meus netos, embora não tivessem conhecido os bisavós, sabem das suas existências e histórias que ouviram contar sobre eles, pelo que os meus pais continuarão vivos nas suas memórias. Quando morrer a última pessoa que os recorda, acontecerá a segunda e derradeira morte dos meus pais. 

É assim com toda a “eternidade”, exceptuando a histórica… mas mesmo essa só é perene se for registada e duradoura. Sem um registo que perdure no tempo, mais a existência de quem a lembre… nem a eternidade é eterna!… 

(Continua)

21 de Julho, 2026 Onofre Varela

VIDA DEPOIS DA MORTE (1)

No passado dia 17 de Junho teve lugar, no Auditório Municipal de Gondomar, uma palestra subordinada ao tema “Ciência e Espiritualidade – A Vida Depois da Morte”, com a presença de Luís Portela, médico, empresário e Presidente da Fundação Bial, apresentado pelo meu amigo Mário Augusto, companheiro de lides televisivas e jornalísticas desde há 40 anos.

Luís Portela foi colaborador do Jornal de Notícias nas décadas de 1980/90, onde publicava artigos de opinião e eu ilustrei alguns deles. Sabia, desde então, do seu interesse no tema. É uma personalidade reconhecida pelo seu notável percurso profissional e pela abordagem rigorosa e científica que faz às questões da consciência, da espiritualidade e da relação entre Ciência e experiência humana.

Portanto, pela sua formação científica, Luís Portela não pode ser considerado “defensor do indefensável”, como à primeira vista pode parecer a frase “vida depois da morte”.

Eu fui assistir. Portela deu o exemplo de uma criança recordar “situações vividas noutra vida passada”… presumo que na Inglaterra ou Alemanha… não registei convenientemente a informação, o que levou um grupo de estudiosos a deslocar-se à cidade onde teria vivido (há imensos anos) a personagem que a criança dizia ser. Encontraram familiares da tal personagem que atestaram os factos que a criança disse ter vivido numa vida passada.

Isto remeteu-me a memória para uma série de artigos publicados no jornal O Primeiro de Janeiro na década de 1960, onde se registavam experiências idênticas sob o título genérico “Mais Estranho do Que a Ficção”. De um desses relatos (transformado em clássico, já divulgado com versões aproximadas) recordo a história: um automobilista (presumo que em Inglaterra), numa madrugada fria e chuvosa, encontrou na estrada uma mulher jovem, vestida de branco, que lhe fez paragem e pediu boleia para uma determinada morada. A meio da manhã o homem reparou que a jovem deixou uma pequena carteira no banco do carro. Voltou à morada para a devolver, bateu à porta, foi atendido por um casal idoso que garantiu não haver nenhuma jovem lá em casa, e muito menos que tenha chegado de madrugada!

No decorrer da conversa que o automobilista fez questão de salientar que não sonhou nem tinha bebido… o casal idoso foi buscar uma fotografia de uma jovem, que o homem reconheceu como sendo a mulher a quem deu boleia… era filha daquele casal… mas já havia falecido há três décadas!

Perante relatos destes, eu tenho duas reacções. De acordo com a personalidade do relator, eu acredito ou não acredito. Devo confessar que tenho “um caso enigmático em minha casa”: a minha filha tem experiências idênticas vividas por si… e eu acredito nela porque a eduquei e sei que não mente nem inventa as situações que diz ter vivido. Do mesmo modo reconheço ao doutor Luís Portela seriedade científica para aceitar a honestidade dos seus discursos, tal como aceito os da minha filha… mas não encontro racionalidade neles!… É um túnel sem luz ao fundo… o que não ajuda a dissipar o enigma de modo que me leve a compreender a narrativa com naturalidade e sem dúvidas, percebendo-a.

Vou dedicar dois ou três artigos a este caso para poder transmitir aos meus leitores a minha opinião sobre o assunto “Vida depois da Morte”. 

 (Continua)

23 de Abril, 2026 Onofre Varela

“Amai-vos uns aos outros”

Por Onofre Varela

O interesse da disciplina de História por Jesus Cristo (JC), tal como por toda a Bíblia, é tardio. As investigações mais sérias só foram encetadas cem anos depois de a Revolução Francesa (1789) ter aberto a porta ao livre pensamento com o advento do Iluminismo (1685-1815) e nos primeiros tempos a abordagem era dificultada pela profunda marca que o “sagrado religioso” gravou na mente dos fiéis.

Os Evangelhos são textos que pretendem narrar feitos e atitudes de JC à luz do pensamento de quatro personalidades: Mateus, Marcos, Lucas e João, que teriam recebido oralmente informações sobre JC, as quais, muito mais tarde, seriam transmitidas a terceiros que as registaram pela escrita.

São textos que, se por um lado, poderão estar mergulhados em dúvidas e incertezas, por outro lado, neles podemos encontrar ensinamentos poderosos, dos quais destaco a frase “Amai-vos uns aos outros” (João: 13; 34). É um conceito comportamental que não é, apenas, cristão; também se encontra no Velho Testamento (Levítico: 19; 18).

Se é verdade que a índole humana tem muita dificuldade em praticar este ensinamento, não é menos verdadeiro que nele se encontra tudo quanto é necessário para que a Humanidade seja um campo de paz, concórdia e ajuda mútua. Se tal fosse conseguido, transformaria o mundo inteiro no verdadeiro Paraíso que a mitologia religiosa nos apresenta como o lugar perfeito a ser habitado por gente perfeita.

Como sempre acontece nas atitudes dos homens desonestos, os ensinamentos mais puros, com marca religiosa, são aproveitados para enganar o próximo. Este “engano propositado” quando é praticado em Política torna-se mais perigoso ainda porque pode infestar toda a sociedade quando os eleitores são incautos e facilmente se deixam enganar (veja-se o que está a acontecer nos EUA).

Há, na extrema-direita do nosso espectro político-partidário, a tendência para enganar eleitores recorrendo à fé em Deus e em JC. Na frase que dá título a esta crónica está contido o conceito de “servir sem excluir”, o qual é letra morta para o líder da direita extremada que assiste a missas e diz barbaridades como esta: “os pretos para África”, e agora quer ser presidente da República… mas já garantiu que, sendo eleito, não o será de todos os Portugueses… porém, nos seus comícios já exibiu um crucifixo, e em entrevistas afirmou ter acabado de assistir a uma missa…

“Servir sem excluir” é a atitude que se pretende de qualquer instituição de um governo democrático e social, e que deve ser exigida por todos os eleitores. Contrariar este fundamento e representar teatralmente uma “atitude cristã” que não se sente, tem um nome: é vigarice!

Podemos dizer que neste único mandamento de JC, que nos manda amar (respeitar) uns aos outros, está a inclusão contra a exclusão; o servir sem excluir e a aceitação do outro, e não a sua expulsão.

Atitudes puramente humanas, atribuídas ao ensinamento religioso mas tão contrariadas por políticos que, manifestando-se tão cristãos, têm atitudes imensamente contrárias aos seus discursos, como por cá encontramos neste candidato à presidência da República.

Por esse mundo fora também vemos atitudes idênticas em Trump e Putin (que seguem religiões diversas, mas ambas de moral cristã) e Netanyahu (que, sendo judeu, na teologia judaica também se observa o respeito ao próximo)… tudo letra morta para quem apenas quer o Poder pelo Poder, sem respeito algum pelo próximo… nem por si mesmos…

OV

Imagem por Freepik

28 de Janeiro, 2026 Eva Monteiro

Quinta (!) Carta a Um Crente

A primeira carta está aqui, a segunda carta está aqui, a terceira carta está aqui e a quarta carta está aqui. Sem esse contexto será muito complicado entender o texto que se segue. Convém deixar claro que a dada altura desta conversa informei o meu interlocutor que estava a publicar esta troca neste blog.

Confesso que nesta altura da discussão, já estamos a chover no molhado. Não digo que a minha resposta diga algo de novo. É uma questão de ser obstinada em debater até que todas as perguntas sejam respondidas, mesmo quando já está visto que o interlocutor não é intelectualmente honesto o suficiente para se chegar a bom porto. Sabendo que a conversa é circular, também achei que não a partilhar seria injusto. Faria parecer que o crente desistiu, quando não o fez. Por isso, para quem queira ler, aqui vai:

Boa tarde.

É giro. ☺️

Mas se funciona para ti, tudo bem. 👌

Eu é que invadi o teu espaço e por isso peço desculpa.

Eu tenho as minhas convicções, que já não não fazem parte da fase da fé mas sim do saber.

Eu não acredito em Deus, eu sei que Ele existe.

A partir daí, tudo o resto ganha outra dimensão.

E independentemente das minhas convicções, nunca quis impor a ninguém, seja o que for.
Mas não posso nunca deixar de divulgar e acima de tudo tentar ser a melhor versão que posso ser, enquanto espírito encarnado.

Não me leves a mal, mas toda a tua explicação é única e exclusivamente baseada nos 5 sentidos, pois falas em vários avanços científicos, mas sempre com o apoio dos 5 sentidos. E está tudo certo 👌
Eu apenas acredito em mais, muito mais.

Falas em dinheiro 💰 😁

A base do espiritismo é dar aos outros de graça aquilo que nos foi dado de graça. Portanto, há uma tremenda mistura de que não posso concordar, pois estás a inserir o espiritismo no mesmo saco que o ocultismo. Nada tem a ver com oculto.

As bases do Espiritismo aceitam, na região, filosofia e ciência. Estavtrindade não pode ser separada, pois há uma correlação entre elas.

Percebo o que dizes, pois visto do teu ponto de vista, alguém dizer não há certo nem errada, há apenas diferentes visões para uma mesma coisa, seja complicado.
Mas do “meu” ponto de vista, faz sentido. ☺️

Pois tu acreditas, que a sociedade só obedece a leis sociais, ou seja – casos extremos, nós só não matamos alguém porque fomos educados a não o fazer e também temos leis que o proíbem. Mas imagina, se não houvesse alguém que a um determinado momento tivesse assassinado alguém, tu pura e simplesmente nem sequer sabias que matar era errado. Apenas o sabes porque alguém o fez. Neste sentido, alguém cometeu algo atroz mas serviu de ensinamento.
E isto é válido para tudo na vida. Tudo tem dois opostos, a não ser a inteligência suprema (Deus).

E para o teu problema de, então se Deus é bondoso e nos ama a todos por igual, porque permite toda esta atividade no planeta Terra? 😁

Muito simples, a ideia é evoluir, só vamos evoluir, experimentando, errando, mas todos lá chegaremos.
É uma maratona, não uma corrida de velocidade.

A Terra tem à volta de 4 mil milhões de anos. O ser humano homo sapiens tem 300 mil anos.
Olha o que nós evoluímos desde aí? ☺️

Já saimos do mundo primitivo, estamos agora num mundo de provas e expiações.
Iremos passar para um mundo de regeneração a seu tempo. 👌
E isso estamos a falar do planeta Terra.

Enfim… Muito há a falar e a discutir e é sempre bom questionarmos tudo. Até porque se assim não for, como iríamos evoluir?

Percebo se não me quiseres aturar, até porque à primeira vista, sou apenas mais um que vive uma fantasia. 😂

Sem stress, vivo bem com isso. 👌

Beijinhos, é sempre um prazer. 🙏

E mais uma vez, como um cão atrás da cauda, voltei a repetir argumentos e a reiterar a oferta de submeter o Espiritismo ao escrutínio da ciência:

Boa tarde!

Gosto imenso do novo tom. O “é giro”, é tão conciliador que quase soa a paternalismo. Quase. Mas convém não confundir simpatia com competência no debate de ideias. Agora já só te estás a repetir em argumentos que já desmontei. O padrão que noto nesta conversa é mesmo este. Eu desmonto argumentos, tu repetes a mesma coisa por palavras diferentes, vestidas de epifania. Já reparaste que ao longo desta conversa foste deixando cair temas que não te davam jeito, enquanto eu faço questão de ir ponto por ponto a todas as tuas afirmações? Estranho, não é? Há até questões que deixaste por responder. Mas não faz mal, eu não me importo de as ir repetindo. Pode ser que te surja outra epifania, tenho essa esperança. Afinal, o que acontece uma vez, pode acontecer mais vezes, não é?

Podemos começar pelo ponto em que insistes em repetir uma frase feita que cheira ao mofo das igrejas: “eu não acredito, eu sei que Deus existe”. Continuas a usar o verbo “saber” num sentido que não corresponde ao que ele significa. Eu acho que já te expliquei isto, mas sou uma rapariga muito paciente. O facto de estares muito convicto, emocionalmente seguro ou existencialmente confortável não transforma uma crença metafísica em conhecimento. Chamar “saber” a uma convicção íntima e pessoal não a torna menos crença, pelo contrário. Torna o teu discurso mais vazio, mais emocional, e se calhar até mais apelativo às pessoas menos racionais, Enfim, é uma espécie de chantagem emocional. Se eu disser que não sabes porque não tens como saber, sou a vilã, que é precisamente a função retórica dessa formulação. Depois de várias trocas de mensagens acho que deixei claro que não me sinto na obrigação de albergar sentimentalismos alheios ou de concordar só para agradar. Não se coaduna nem com a verdade nem com a minha personalidade.

Qualquer sistema fechado de crenças ganha coerência interna a partir do momento em que aceitas o seu postulado central como sendo indiscutível. Neste caso a existência de um deus supremo e de um mundo de fantasmas que andam aí a flutuar com o objetivo de vir “cá abaixo” tomar um cafezinho com os vivos mas cuja sabedoria não se estende a oferecer soluções para os problemas da Humanidade. O Casper tinha mais utilidade. É uma estrutura circular de pensamento, em que um deus justifica a existência de alminhas penadas e as alminhas penadas são elas mesmas a prova de que esse deus existe. Não é sequer mais sofisticado do que o argumento mais comum dos meus debates semanais: “deus existe porque a Bíblia diz que existe, e a Bíblia é verdade porque deus existe”. Aplique-se o mesmo ao Corão, que é usado exatamente da mesma forma. O problema é o facto de não acrescentares qualquer poder explicativo verificável sobre a realidade.

Quanto à insistência nos “5 sentidos”, lá estás tu a repetir uma caricatura que já foi desmontada na minha mensagem anterior. Repara que contra-argumentar é apresentar razões fortes (no mínimo) para contrariarmos o que foi dito anteriormente. Mas se tu achas que faz sentido ficar só a papaguear o que já foi dito, então legitimas a minha própria repetição: não baseio nada exclusivamente nos meus cinco sentidos. Baseio-me, ou antes, confio em cientistas que se baseiam em métodos que corrigem, amplificam e vão além dos sentidos: instrumentos, medições, modelos matemáticos, testes cegos, replicação independente, entre os vários métodos que produziram as conclusões científicas que te permitem, por exemplo, tomar vacinas, ou estar agora mesmo a segurar num telemóvel. A ciência existe precisamente porque os sentidos são falíveis. O que tu chamas “acreditar em mais” não é nem ir além dos sentidos, nem é nada de transcendente. É só uma recusa em aceitar qualquer mecanismo de controlo do erro. Como opinião pessoal, que vale o que vale, é só uma forma de te sentires superior a outras pessoas porque sabes algo que não está ao alcance delas, coitadinhas. Eu reservo a inveja para gente que entende coisas como astronomia, física e matemática. Esses sim, são admiráveis. Mudam o mundo todos os dias. Se tens mais de 30 anos, deves isso a gerações e gerações de gente que ampliou o conhecimento científico, não a fantasmas e almas penadas. Muito menos a Allan Kardec.

Sobre o dinheiro: não falei de ti, nem de centros espíritas específicos. Falei do fenómeno geral da espiritualidade enquanto mercado, e ele existe, quer gostes quer não. Saberás melhor que eu porque é que enfiaste esse barrete. O facto de uma doutrina se autodescrever como gratuita e caridosa não a coloca automaticamente fora de escrutínio, e muito menos a livra de crítica. A maioria das religiões também dizem viver do amor, da partilha e da fraternidade. Isso nunca as impediu de acumular poder, influência e capital. E, já agora, o Espiritismo pode não ser “oculto”, mas é igualmente infundado. Não são sinónimos, mas também não são opostos. Carecem ambos de prova, são ambos baseados em experiências pessoais, ambos fazem afirmações fantásticas sobre a realidade. Naquilo que interessa, ocultismo, espiritismo, espiritualidade, religião, superstição, bruxaria, entre outras, são exatamente iguais.

A tal “trindade” ciência–filosofia–espiritismo é outro exemplo de colagem arbitrária. Acho sinceramente que podemos afirmar que a ciência e filosofia dialogam porque partilham critérios racionais e disposição para revisão. Acima de tudo, a filosofia não tende a apresentar verdades absolutas com base na revelação. O Espiritismo não partilha dessa vontade de falsificar as próprias hipóteses. Apropria-se da linguagem da ciência, cita-a quando convém, ignora-a quando contraria os seus postulados, tal como a religião e o ocultismo e qualquer outra forma de pensamento mágico. É parasitismo e espero que entendas que na prática não há diferença nenhuma entre um espírita e a vidente, médium, taróloga do TikTok (sim, os títulos são engraçados e vêm sempre aos trios, no mínimo). Se achas que há, convido-te a submeteres a tua prática religiosa ao escrutínio da ciência.

Quero só fazer mais uma observação quanto à ideia de que o mal é necessário para aprendermos que o mal é mau. Não precisamos de assassinos para sabermos que matar é errado. As crianças mostram, desde muito pequenas, empatia, aversão ao sofrimento alheio e sentido de justiça antes de qualquer enquadramento religioso. A moral nasce da capacidade de reconhecer o sofrimento humano. Isto é inato porque é biológico e evolucionário. É muito simples entender que uma espécie animal como a nossa necessita de controlar a sua violência e preservar o outro, como forma de garantir a continuidade da espécie. Somos primatas que evoluíram em sociedades que têm como principal pilar a cooperação. O teu raciocínio não só falha como justifica retroativamente atrocidades como etapas pedagógicas divinamente impostas. Não posso aceitar este argumento, que é o clássico de teodiceia, e continua tão fraco hoje como sempre foi.

Dizes que tudo tem dois opostos, exceto o teu deus. Olha que “giro”! Um sistema que começa por afirmar uma dualidade universal e imediatamente cria uma exceção absoluta para salvar a própria tese não explica nada. Tudo tem um criador exceto o teu deus. Afinal, se a regra universal tem uma exceção, quem te diz que não tem duas, ou três, ou mil? Quem te diz que não é o universo essa exceção?

Quanto à história da evolução moral da Terra, dos mundos de provas e expiações aos mundos de regeneração, desta forma religiosa, é apenas uma forma de apresentar uma cronologia religiosa. A questão não é se evoluímos, é se a nossa existência é fruto de um deus omnipotente, omnibenevolente, omnisciente e omnipresente. Esse deus é tão bom e tão poderoso que esta é a melhor ideia que consegue ter? Eu que sou humana e limitada consigo ter ideias melhores. Aposto que tu também. Esse é um deus pouco poderoso, pouco criativo ou pouco competente. Em todo o caso, é acima de tudo, pouco. Uma explicação estilo “é a vontade de deus nosso senhor” não explica nada, não prevê nada, nem resolve nada. É uma narrativa confortável apenas porque promete uma redenção após “esta vida”. Justifica emocionalmente o sofrimento, mas só se tiveres os olhos fechados, os ouvidos tapados e a boca cosida. Funciona bem como consolo. Agora, como descrição da realidade, é risível.

Dizes que percebes se eu te achar mais um a viver uma fantasia. Não é uma questão de “achar”. Fantasia é o nome que se dá a um sistema explicativo que não tem correspondência demonstrável com os factos e que resiste à refutação porque redefine constantemente os seus critérios. O pensamento mágico é o Ventura da racionalidade humana.

Quanto a não impor nada a ninguém: divulgar convicções como se fossem conhecimento é uma forma suave (suave, no teu caso, suponho) de imposição. Tudo bem que não é coerciva, mas é real. Acima de tudo faz uso de uma chantagem emocional descarada. “Isto é a minha crença, eu estou a dizer-te que é verdade e se me contrariares és rude e estás a chamar-me de louco ou mentiroso. Como te atreves, sua herege??? Respeita a minha crença!!!” É feio, é paternalista, é o que faz persistir o incómodo em criticar ideias religiosas. As ideias competem no espaço público, quer queiramos quer não, e algumas fazem mais estragos do que parece. Sobretudo quando se apresentam como moralmente superiores e imunes à crítica. Lembra-te que o Espiritismo desde 1857 e nada vos impede de submeter as vossas conclusões ao escrutínio da ciência. Quando quiseres, eu própria faço os contactos necessários para submeter uma das vossas sessões à verificação de cientistas e céticos. Acho que já tinha feito esta oferta. És muito simpático e tal, mas esta parte não dá jeito, não é?

Por isso não, não te levo a mal, nem me cansas. Mas convém chamar as coisas pelo nome. Não estamos perante duas “formas igualmente válidas de viver o mundo”. Estamos perante um conflito claro entre pensamento crítico e crença metafísica escondida atrás de uma certeza subjetiva, emocional e logicamente inválida.

Por muito simpático que seja o tom, a falta de pensamento crítico não se resolve com emojis e beijinhos. Eu estou mais que disponível a entender melhor o teu ponto de vista quando te cansares de repetires sempre a mesma narrativa religiosa, supersticiosa e fantasiosa e quiseres entrar no ramo dos factos. Que conclusão consegues apresentar, dentro do Espiritismo que seja testável e repetível? Lembra-te que tem de ser falsificável, ter poder preditivo, ser internamente consistente, compatível com o conhecimento científico já existente, parcimoniosa, independente da crença do observador e passível de correção quando se revelar errada. Se os cientistas fazem isto diariamente, tenho a certeza de que as pessoas iluminadas, superiores e dotadas de poderes mediúnicos também o conseguem fazer e, quiçá, superar.

Fico a aguardar com expectativa a oportunidade de contactar cientistas e céticos para colocar o Espiritismo à prova. A menos que lá no fundo saibas que é uma fantasia mágica da qual não queres abrir mão e que tens medo de ver desconstruída de uma vez por todas. E está tudo bem, cada um anda com as bengalas que quer, ou das quais depende.

Espero, de resto, que a tempestade não te tenha afetado, nem aos teus entes queridos. Será que os fantasmas sentiram a ventania da noite passada?

Alcina Lameiras
27 de Janeiro, 2026 Eva Monteiro

Quarta Carta a Um Crente

A primeira carta está aqui, a segunda carta está aqui e a terceira carta está aqui. Sem esse contexto será muito complicado entender o texto que se segue.

Já tinha perdido esperança de receber uma resposta. Notei que a resposta anterior tinha sido gerada pelo ChatGPT ou outra IA qualquer, pelo que percebi que o meu interlocutor estava cansado do debate e com preguiça mental. Respondi com a terceira mensagem porque não conseguia deixar de o fazer, mas achei sinceramente que não ia receber resposta. Esta última pareceu-me, pelo menos, mais intelectualmente honesta:

Bom dia. Ando há meses para tentar arranjar algo que faça sentido para te responder.

E tive uma epifania agora mesmo.

Nós andamos a responder um ao outro com base naquilo que acreditamos, naquilo que estudamos, naquilo que nos faz sentido enquanto seres humanos pensantes.

Todavia nós esbarramos em algo muito peculiar e até caricato.

Ti respondes com base única e exclusivamente com I que achas que é a verdade, ou seja o que os teus 5 sentidos conseguem detectar. E aí é que está o cerne da questão, e ao qual este diálogo será sempre de sentido único tanto para mim, como para ti.

Já eu, acredito em muito mais do que aquilo que os meus 5 sentidos podem captar. Não há aqui certos nem errados, há apenas uma diferença de viver a vida e o mundo.

E se tu és uma pessoa com dois dedos de testa, ou seja, não praticas o mal, não desejas mal a ninguém, és fraterna, solidária, caridosa, tu até podes ser hippie, gótica, budista, hinduísta, etc.

É-me completamente diferente. ☺️

Se há coisa que aprendi com a minha experiência de vida é que isto não é uma corrida de velocidade e sim uma maratona tão longa quanto o infinito.

Portanto, não faz sentido usarmos literatura, frases feitas, pois nós os dois conseguimos defender a nossa crença, e não crença (de algo mais que a matéria) com alguma facilidade tendo em conta o nosso estudo contínuo.

Não quer dizer que não ache peculiar e deveras interessante as nossas discussões, saudáveis.

Mas realmente é um ponto engraçado.

Pois tu achas que tudo é fruto do acaso e não de uma inteligência superior.

Ben um acaso é mesmo inteligente, para conseguir criar um universo tao denso e tão perfeito. 😁

Não me interpretes mal mas é suigeneres e deveras engraçado, a forma como vês o mundo.

Tu podes dizer exatamente isso mesmo de mim, 👌.

No entanto o busílis da questão é, se é for boa pessoa qual é o problema deveu acreditar no Pai Natal e no Coelhinho da Páscoa? 😂

Um ótimo fim de semana para ti.

Desculpa, deixei de ser tão formal e espero que não me leves a mal.

Beijinhos.

Foto de Greg Rakozy na Unsplash.

Não pude deixar de responder porque, como já sabem, não resisto a contra-argumentar falácias:

Não imaginava que esta conversa pudesse gerar uma epifania, mas fico contente. Claro que a minha alegria não é tanta que não discorde dessa dicotomia entre os que se limitam aos 5 sentidos e os que vão supostamente além disso. Antes de mais, porque não me cinjo aos meus 5 sentidos. Confio em cientistas que dispõem de muito mais do que os 5 sentidos para investigar a realidade (e a base da minha confiança é a verificabilidade e repetibilidade das descobertas científicas). A ciência moderna baseia-se em observações e experiências que testam o mundo real com instrumentos que desenvolveu para esse fim (e que sabemos que funcionam porque produzem resultados). O que não faz e que eu própria recuso fazer é basear o conhecimento da realidade em raciocínios a priori, intuições ou (ainda pior) revelações. Gostava de te relembrar que muitos dos avanços científicos (como a existência de bactérias, ondas de rádio ou buracos negros) são invisíveis aos 5 sentidos, mas foram confirmados com recurso a instrumentos como telescópios e microscópios. Portanto, tratar a visão sobrenaturalista e o método científico como se estivessem no mesmo plano é cair num viés que eu recuso com repulsa. Não são a mesma coisa. A ciência, com os seus instrumentos, permite que tenhas coisas como a internet e o GPS, raios-x, hemodiálise, entre tantos outros. O paracetamol, porra! A espiritualidade permite, como único resultado palpável, verificável e repetível que meia dúzia de pessoas saquem algum ou muito dinheiro a outras. Não é o mesmo nível de resultados, utilidade ou factualidade.

Também não posso aceitar a ideia de que “não há certo nem errado, apenas pontos de vista diferentes igualmente válidos”. Essa postura relativista absoluta destrói logo qualquer possibilidade de critério objetivo. Se todos os pontos de vista fossem colocados no mesmo plano, um especialista numa determinada área teria exatamente o mesmo peso que alguém a opinar sem qualquer base. Eu sei que é isso mesmo que acontece nas redes sociais, e por vezes até nos órgãos de comunicação social. Não devia acontecer. Que entende uma zé ninguém como eu de ciência para opinar sobre a administração de tratamentos médicos? Se calhar tenho opiniões ou experiências pessoais, mas não sou especialista. Acima de tudo, não sou suficientemente arrogante para achar que vou eu descobrir a pólvora quando há médicos que estudam a vida inteira para salvar vidas. Para quem acha isso, a solução é uma: estudar medicina e revolucionar o ramo científico a que se decida dedicar. O cientista não pode ser colocado no mesmo patamar que o tasqueiro que tem a solução para tudo e mais alguma coisa. Posicionar o conceito de verdade como inteiramente relativo impede que tenhamos parâmetros para distinguir facto de fantasia. Há pela internet gente que mete gotas de urina nos olhos para tratar a miopia. Consegues, em consciência, dizer que cada um tem a sua verdade quando há gente a provocar infeções oculares por pura ignorância e uma dose pouco saudável de estupidez? Reconhecer diferentes perspetivas é legítimo, também acho que cada um tem uma cabeça para pensar. Agora, afirmar que todas as perspetivas são igualmente válidas já não é coisa com que eu possa concordar. Caso contrário coloco um biólogo contra um padre e aceito que o padre tem uma posição válida por exemplo, quanto a questões do corpo feminino que supostamente nunca observou, estudou ou sequer tocou.

Quanto ao argumento de que o universo é “perfeito demais para ter surgido ao acaso”, desculpa que te diga, mas estás a assentar numa falácia que já foi desmantelada ad nauseam. A noção de “ajuste fino” (que é uma falsidade religiosa) não implica sequer design consciente, muito menos inteligente. Usar a improbabilidade como prova de intenção está errado. É que assim, confundes dizer “não sei como isto aconteceu” com “logo, alguém teve de criar o universo”. Isso é uma falácia do apelo à ignorância. A história da ciência está cheia de exemplos de fenómenos que noutros tempos foram atribuídos a inteligências superiores que hoje compreendemos perfeitamente por mecanismos naturais. A ignorância momentânea nunca foi boa base para postular entidades sobrenaturais e chama-se a isso o “Deus das Falhas”. Ou seja, à medida que a ciência avança, deus recua. Digo deus, poderia dizer deuses, é apenas o sobrenatural que dá lugar ao natural à medida que as explicações são dadas. Nunca um deus foi necessário à ciência ou à humanidade para avançar o conhecimento. O oposto já é verdade. Tens, aparentemente, um problema com o acaso, ou antes com a existência não intencional de alguma coisa. No entanto, vives todos os dias rodeado de acasos que não te confundem. Pior ainda, achas que há um grupo de pessoas que conseguem falar com os “espíritos” de quem já morreu e que desde 1857 a ciência não consegue estudar fenómenos supostamente testáveis e repetíveis. E eu é que tenho crenças sem sentido?

Passando, por fim, à tua comparação com o Pai Natal e o Coelhinho da Páscoa, a diferença é que essas figuras são assumidamente ficcionais, não têm como objetivo explicar a realidade nem orientar decisões sobre o dia a dia das pessoas. As crenças espirituais e religiosas é que fazem afirmações sobre a natureza da realidade, da consciência, da moral e da suposta vida após a morte, e influenciam comportamentos individuais e coletivos, aliás, sociedades inteiras. Dizer “qual é o problema de acreditar, se a pessoa for boa?” é ignorar que uma crença, por ser infundada, não é necessariamente inofensiva. A bondade de uma pessoa não valida a veracidade daquilo em que acredita, nem transforma uma crença falsa em verdade. O critério não é a intenção moral, é a correspondência com os factos. Por outro lado, como dizia Weinberg, as pessoas boas hão-de fazer coisas boas e as pessoas más, coisas más. Mas para pôr pessoas boas a fazer coisas más, é preciso religião. São crenças no sobrenatural que iludem, por exemplo, pessoas boas a acharem-se parte de um grupo especial. Por exemplo, acreditarem que têm poderes sobrenaturais, que conseguem ajudar outras pessoas que precisam de cuidados médicas e, no processo matá-las. Não houve neste exemplo uma transgressão moral, a pessoa acha que tem poderes e que há um médico que encarna no seu corpo para curar. Entretanto um cancro fica sem tratamento. Essa pessoa é má? Não. Talvez seja pouco inteligente, mas normalmente só foi endoutrinada e é (quase) tão vítima quanto a sua própria vítima. Normalmente quando digo isto a resposta é: “Ah, mas na minha doutrina/religião/grupo/etc. não fazemos isso! Quando vemos que a pessoa tem um problema de saúde encaminhamos para o médico!”. Pois… porque o que quer que vocês estejam a fazer é um placebo na melhor das hipóteses e desastroso na pior.

Uma questão muito diferente seria se eu julgo uma pessoa como imoral porque tem crenças religiosas, se a quero perseguir ou se quero proibir a crença que tanto a conforta. Se essa questão te tiver passado pela cabeça, a resposta é não. A maioria das pessoas que professam crenças religiosas ou que são supersticiosas não são más pessoas. Ter crenças falsas não é necessariamente ser-se cruel, ou mau. Mas que é um bom sítio para evoluir nesse sentido, lá isso é. A História comprova-o sem sombra de dúvidas.

A nossa evolução pessoal e coletiva depende da disposição de cada um de nós para submeter as nossas ideias ao escrutínio. Ficarmos presos a uma ideia falsa apenas porque nos dá conforto não é intelectualmente honesto nem válido e, acima de tudo, não nos ajuda a nenhum nível. Prezar o pensamento crítico não é uma questão de cinismo ou de arrogância. Pelo contrário, é recusar confundir conforto emocional com factos. Entre preservar crenças porque fornecem algum tipo de certeza inabalável (provavelmente o conforto de achar que esta vida não é o fim) e aceitar apenas aquilo que resiste à crítica racional, eu prefiro estar desconfortável mas entregue à verdade.

Posto isto, bom fim de semana, foi uma excelente conversa!