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Carlos Esperança

13 de Março, 2006 Carlos Esperança

Afinal fala

Quaresma para escutar Jesus

«Escutar Cristo e obedecer à sua voz: este é o único caminho que leva à plenitude da alegria e do amor» – disse B16.

Afinal ele fala. Só lhe falta aprender a escrever.

10 de Março, 2006 Carlos Esperança

Liberdade religiosa

O Vaticano está de acordo com o ensino da religião muçulmana nas escolas.

A pequena e colorida teocracia, um dos dois últimos Estados totalitários da Europa (o outro é a Bielorrússia) concorda com o ensino do Corão nas escolas públicas, desde que haja alunos suficientes para ingerir o veneno sagrado.

Desconheço a legitimidade de Vaticano para interferir nos assuntos internos da Itália, país que só em 1984 aboliu a religião de Estado, essa droga que se cultiva nos campos do Vaticano e viceja em vários continentes – o catolicismo.

Não sei se o Tratado de Latrão, que envolveu tratantes dos dois lados, ainda submete a Itália de Garibaldi ao jugo do bairro das sotainas e ao alvitre das mitras que gravitam em torno de um déspota medieval de sapatinhos vermelhos.

Não é o Corão, a mais retrógrada e demente versão da vontade divina, que está em causa. É o veneno da fé que não deve ser ministrado nos santuários da ciência – as escolas públicas, à semelhança do que faz a ICAR.

A fé tem salas de chuto próprias (igrejas, mesquitas e sinagogas). É aí que os traficantes devem esperar as vítimas que aliciam, os filhos que os pais desprevenidos ou coniventes lhes entregam e os incautos que resvalam no pântano da religião sedados com a liturgia.

Se querem curtir em grupo, há sítios como Meca, Roma, Fátima, Jerusalém, Medina ou Lourdes, onde, em místico transe podem apedrejar o diabo, rezar em grupo e acordar em ressaca numa cama de hospital com as cabeças partidas e as almas purificadas.

9 de Março, 2006 Carlos Esperança

Mensagem da Associação República e Laicidade


A «Lei da Liberdade Religiosa» (Lei nº 16/2001, de 22-06) diz — isto é: manda, determina, estabelece — que «o Estado não adopta qualquer religião (…)» e que «nos actos oficiais e no protocolo de Estado será respeitado o princípio da não confessionalidade» (pontos 1 e 2 do Artº 4.º – Princípio da não confessionalidade do Estado).

Na cerimónia de posse do novo Presidente da República, o ordenamento de precedência das entidades que participaram na apresentação de cumprimentos foi a seguinte:

– Primeiro-Ministro;
– Presidente do Supremo Tribunal de Justiça e Presidente do Tribunal Constitucional;
– Chefes de Estado, primeiros-ministros e equiparados estrangeiros convidados;
Cardeal Patriarca de Lisboa;
– Vice-Presidentes da Assembleia da República e Presidentes dos Grupos Parlamentares;
– Deputados;- Titulares dos restantes Órgãos de Soberania;- Embaixadores;
– Altas Individualidades estrangeiras convidadas;
– Altas Autoridades portuguesas;
– Outros convidados…

A forma como, na associação República e Laicidade, olhamos para esta situação (bem como para as demais situações semelhantes a ela) é bastante fácil de se imaginar; muito mais difícil, contudo, será saber-se — e entender-se — o modo como os muitos «políticos» que participaram naquele evento encaram a presença «oficialmente destacada» que o cardeal patriarca católico aí teve…

Saudações republicanas e laicistasLuis Mateus
REPÚBLICA e LAICIDADE – associação cívica

Perguntas:

– Os vice-presidentes da AR passaram a bispos auxiliares e os deputados equiparados a cónegos?

A ética republicana foi exonerada da Assembleia da República?

9 de Março, 2006 Carlos Esperança

Jeová

Deus não é uma anedota, é uma piada de mau gosto. Pior, é um pretexto para a humanidade se digladiar enquanto, à sua custa, multidões de parasitas lhe interpretam a vontade e a impõem a ferro e fogo.

Sendo Deus criado pelo homens, nem sequer pelos melhores, não podia sair obra asseada. Foi, contudo, nas religiões monoteístas que Deus se tornou a síntese do pior que os homens sabem com o mais execrável que só deus pode.

É um Deus violento, vingativo, criador do Céu e do Inferno (o primeiro para quem os clérigos querem e o segundo para os outros).

Jeová, o Padre Eterno, ditou um livro em várias versões e fez de Moisés, Jesus e Maomé almocreves da sua vontade. Ditou-lhes cópias diferentes para confundir e pôr os crentes a afeiçoar a prosa e impô-la à bordoada.

Constantino, um biltre cruel, praticou uma política sistemática de erradicação da diferença cultural e encomendou a Eusébio de Cesareia que organizasse um conjunto minimamente coerente das 27 versões dos Evangelhos que hoje são vendidos (4) com o nome de Novo Testamento (primeira metade do séc. IV). Mesmo assim, só em 1546, no Concílio de Trento, foi aprovada a mentira definitiva.

Teodósio fez do cristianismo religião de Estado em 380 e, finalmente, Justiniano endureceu a legislação cristã contra a heterodoxia.

No islão houve um tal Marwan, governador de Medina, que, para garantir a autoridade do Corão, mandou recolher e, depois, queimar as versões existentes, guardando uma única para evitar confrontações históricas.

A Tora também levou séculos a tornar-se a versão definitiva.

Um dia o Humanismo despertou o Renascimento e desenterrou a cultura greco-romana esmagada pelo cristianismo. O movimento, que começou nas artes, alargou à ciência e à literatura e, em breve, influenciou o pensamento que rompeu com o obscurantismo clerical.

O iluminismo triunfou sobre o dogma e a Revolução Francesa empurrou as hóstias e o clero para a sacristia.

Foi assim que a laicidade fez caminho e, com ela, as democracias.

A Reforma fora um golpe no papado desacreditado e violento que usava o medo para impor a fé. Ainda recorreu à contra-reforma. Era tarde, a liberdade já estava em marcha.

As sotainas estão de volta. Atenção livres-pensadores.

8 de Março, 2006 Carlos Esperança

Mulher – Dia internacional

Nutro pelos dias do calendário, que a sociedade de consumo reverencia, saudável horror e o desprezo mais visceral.

No dia da mulher vacilo e soçobro. Evoco mãe e irmã e esmoreço; lembro companheira e amiga e descoroçoo. Lembro as mulheres, vítimas de todas as épocas, e enterneço-me.

Recordo a oração matinal dos judeus que convida os homens a bendizer Deus por tê-lo feito judeu e não escravo…nem mulher. Recordo a Tora que decidiu a inelegibilidade [da mulher] para funções administrativas e judiciárias e a incapacidade de administrar os próprios bens.

Lembro a submissão que o islão impõe, a burka que lhe cobre o corpo e oprime a alma, a lapidação, as vergastadas e a excisão. Os machos são superiores às fêmeas, «porque Deus prefere as homens às mulheres (IV, 34)».

A cultura judaico-cristã é misógina, submete e explora a mulher. Destina-lhe a cozinha e a procriação, a obediência e a servidão. É a herança que Abraão lhe deixou.

Quando a mulher irrompeu com a força contida por séculos de opressão, avançou nas artes, na ciência e na cultura, com o furor do vulcão que estoirou os preconceitos.

Antes do 25 de Abril, em Portugal, a mulher carecia de autorização do marido para transpor a fronteira, não tinha acesso à carreira diplomática ou à magistratura, nem à administração de bens próprios.

Não há países livres sem igualdade entre os sexos.

A libertação da mulher é uma tarefa por concluir, contra o peso da tradição, a violência dos homens, o abuso das Igrejas e os preconceitos da sociedade.

Hoje, dia internacional da mulher, é dia para, homens e mulheres, pensarmos que somos iguais. Todos os dias. Em qualquer lugar. Sempre.

Publicado simultaneamente no «Ponte Europa»

6 de Março, 2006 Carlos Esperança

Em defesa da liberdade


Resposta a um crente islâmico

O Diário as Beiras (3/3/06) publicou uma carta do leitor Cheikh Brahim Abdellahi, sob o título «Em defesa de humanidade, profeta MOHAMED, paz esteja com ele», dirigida ao primeiro-ministro dinamarquês Anders Fogh Rasmussen, em que condena as caricaturas de Maomé e lhe exige, sem atraso, «que apresente desculpa não só ao mundo muçulmano, mas também a toda a humanidade, porque o profeta MOHAMED, a paz esteja com ele, representa a conclusão de todos os valores humanos nobres e que são respeitados por qualquer ser humano equilibrado».

Respeito as minorias mas respeito ainda mais, louvado seja o livre-pensamento, a verdade e a liberdade. Defendo os crentes mas reservo-me o direito de combater as crenças, louvado seja o livre pensamento.

Assim, permito-me esclarecer o devoto Cheikh de alguns equívocos:

1 – O primeiro-ministro dinamarquês é certamente leitor assíduo do «Diário as Beiras» mas não vai responder à sua exigência pelo facto de não poder, nem querer, abolir a liberdade de imprensa;

2 – Apesar do respeito que merece o profeta Maomé, louvado seja o livre-pensamento, as sociedades democráticas preferem o respeito pelos direitos humanos;

3 – O direito à liberdade de expressão é mais sagrado do que a alegada vontade de Maomé, Cristo ou Moisés;

4 – Em democracia a fé é facultativa, contrariamente à teocracia onde é obrigatória, e defende-se a liberdade de todas as religiões, bem como do agnosticismo e do ateísmo.

5 – Nos países laicos e democráticos ninguém é perseguido por razões religiosas e o direito de abandonar ou abraçar qualquer religião é defendido pelo Estado de direito.

Quanto aos valores humanos nobres, que invoca para Maomé, convém ter em conta:

I – Não são respeitados por todos os seres humanos equilibrados, como alega;

II – A democracia e a laicidade do Estado não são consentidas nos países muçulmanos;

III – O respeito pela igualdade entre os sexos não existe;

IV – A Declaração Universal dos Direitos do Homem é ignorada;

V – A decapitação, lapidação e tortura são práticas correntes.

Os Árabes que contribuíram para o humanismo e favoreceram o Renascimento europeu eram, então, mais tolerantes e cultos do que os cristãos mas, agora, regrediram e dão ao mundo exemplos de intolerância e fanatismo.

Não há, pois, uma guerra de civilizações. Há um antagonismo entre o islão político, de contornos fascistas, e a democracia, uma luta entre a civilização e a barbárie, um conflito entre a fé e a liberdade. Louvado seja o livre-pensamento.

Publicado simultaneamente no «Ponte Europa»

2 de Março, 2006 Carlos Esperança

Humildade cristã

Bento 16 abdica do título «Patriarca do Ocidente», ficando reduzido a oito títulos: «Sumo Pontífice da Igreja Universal», «Primaz da Itália», «Bispo de Roma», «Vigário de Jesus Cristo» «Sucessor de Pedro», «Arcebispo Metropolita da Província Romana», «Soberano do Estado da Cidade do Vaticano» e « Servidor dos Servidores de Deus».

Esta tocante simplicidade papal tem precedentes. João 23 resignou ao título de «Papa do Reino Glorioso» trocando-o por «Servidor dos Servidores de Deus» e Paulo 6 prescindiu do excelente título de «Sua Santidade de Nosso Senhor».

A modéstia papal é um facto conhecido mas este desapego à solenidade dos títulos é deveras cativante e motivo de reflexão evangélica.

Com este alheamento dos bens terrenos em breve ninguém distinguirá o Soberano do Estado da Cidade do Vaticano do canalizador que desentope a sanita percorrida pelas santas matérias fecais do Pontífice Máximo.

Modéstia sim, mas não tanto.