Loading

Carlos Esperança

1 de Abril, 2006 Carlos Esperança

Madre Maria do Lado



De visita a uma pessoa amiga, internada nos Hospitais da Universidade de Coimbra, percorri hoje um vasto corredor até atingir o último quarto onde convalesce de uma intervenção cirúrgica.

Numa mesa, uma senhora de Fátima, com ar rural e um terço enrolado ao pescoço, em jeito de quem espera que a icem pelo crucifixo e a estrangulem, olhava indiferente as pessoas aflitas que procuravam familiares e amigos.

Em frente, dependurado na parede, um molde, em barro, de um Cristo sofrido assustava as crianças. O rosto côncavo e a pintura a negro davam-lhe um ar sinistro e na cara tinha sinais de revolta de quem se sente exibido e explorado há dois mil anos.

Por trás do balcão que precede a sala de enfermagem um Cristo suplente vigiava as visitas pregado na cruz, incapaz de se soltar e de aliviar a coroa de espinhos.

Mas o que mais me surpreendeu foi a propaganda de Madre Maria do Lado, uma monja que ali foi parar à espera de orações e da promoção canónica que os milagres obrados lhe hão-de conceder.

O lema de vida da bem-aventurada, que continua morta desde 28 de Abril de 1631, foi «Louvar, Venerar e Exaltar o SS.mo Sacramento». Agora aguarda que os vivos metam uma cunha para que o Senhor Jesus a eleve a santa. Pobres crentes que não sabem que é o Papa que tem competência delegada para o fabrico de taumaturgos.

Aqui fica o verso e o reverso do santinho da Madre Maria do Lado. Os créus que nos visitam podem rezar a oração que ainda fala do Purgatório e contribuir para a obtenção de alguma Graça. O serviço que o Diário Ateísta presta é de graça.

30 de Março, 2006 Carlos Esperança

O Papa e o laicismo

Os dirigentes do Partido Popular Europeu, que integra alguns dos maiores paladinos da moral e da honestidade pública, como Berlusconi e Aznar, foram genuflectir-se a B16 que os recebeu na qualidade de Chefe de Estado do Vaticano, o Estado totalitário que vive de acordo com o direito divino.

Perante a maior associação de partidos políticos, amigos do Papa e da hóstia, o sátrapa exortou os representantes para se empenharem no «combate político contra o laicismo».

«O vosso apoio à herança cristã pode contribuir de forma significativa para a derrota de uma cultura que já está largamente espalhada pela Europa e que relega a manifestação da convicção religiosa para a esfera do privado e do subjectivo».

O ditador de sapatinhos vermelhos não se resigna à perda do poder temporal.

B16 afirma que as intervenções de Igrejas ou comunidades eclesiais no debate público «não constituem formas de intolerância ou interferências, dado que essas intervenções se destinam a iluminar as consciências».

Para o iluminador B16, a moral da ICAR, a prepotência e a interferência nos assuntos internos dos países destinam-se a iluminar as consciências, tal como as fogueiras da Inquisição se destinavam a iluminar cidades quando não havia electricidade.

A luta assanhada contra o laicismo é parte da agenda do Papa, que pretende mergulhar a Europa secular numa pia de água benta e impor aos povos o terço, a missa, a confissão e a devoção à Virgem.

Se o Papa incita despudoradamente ao combate político contra o laicismo, temos de ser determinados no combate político contra o Papa, na defesa da liberdade e do pluralismo.

29 de Março, 2006 Carlos Esperança

A libertação de Abdul Rahman

Regresso ao caso de Abdul Rahman , convertido ao cristianismo. O Supremo Tribunal afegão decidiu suspender o processo que inevitavelmente o condenaria à morte por alegada «incapacidade mental».

A decisão é jubilosa, os pressupostos execráveis.

As pressões internacionais desempenharam um papel de relevo mas os depoimentos dos familiares, «ele não tem todas as capacidades mentais», «é louco» e «diz ouvir vozes estranhas na cabeça», foram o alibi para libertar um cidadão que optou por uma religião diferente daquela em que foi criado.

Provavelmente se tivesse optado pela indiferença religiosa ou pelo ateísmo, decisões igualmente legítimas, não teria sido considerado louco, condição sine qua non para manter ligada a cabeça ao tronco, porque a solidariedade internacional seria mais frouxa e as pressões menos intensas.

Não podemos esquecer o silêncio e cobardia de vários Governos de países democráticos em relação à fatwa contra Salman Rushdie e a displicência com que parecem ser vistas as ameaças de morte a Taslima Nazreen.

É perante factos de que o caso de Abdul Rahman constitui um paradigma que devemos interrogar-nos até onde pode ir a defesa do multiculturalismo e a compreensão com o comunitarismo.

Se aceitarmos que a vontade de Deus, interpretada pelos clérigos, se pensarmos que o direito canónico pode, em qualquer circunstância, ser o fundamento do Direito Penal, é a barbárie que prevalece sobre os avanços da civilização.

Se pensarmos que Camilo foi preso por adultério, que o divórcio era praticamente proibido há 30 anos, que o ensino religioso era obrigatório nas escolas públicas, até há pouco, que a escravatura existiu até meados do séc. XIX e a inquisição até 1821, não temos razões para considerar a civilização europeia superior à árabe.

Efectivamente superior é a democracia comparada com a teocracia, a civilização face à barbárie e a supremacia do Estado de direito sobre a tradição.

Nota: Este caso já mereceu 3 artigos da Palmira: «Sentença de morte no Afeganistão», Insanidades mentais e «Abdul Rahman libertado».

27 de Março, 2006 Carlos Esperança

Momento Zen da segunda-feira

Após a confissão, a homilia beata e a eucaristia, os últimos padre-nossos produzem tal euforia mística que os devotos, desnorteados, querem ser internados …num convento.

João César das Neves (JCN) entre o convento para que lhe puxa a devoção e o Diário de Notícias para que o empurra a obrigação, opta pela segunda hipótese para gáudio dos leitores e remissão dos pecados.

Na homilia de hoje nota-se o catecúmeno muito excitado. No Afeganistão os talibãs refugiam-se nas montanhas, aqui acoitam-se nos jornais. No Irão os mullahs pregam nas mesquitas, em Portugal JCN usa a pág. 6 do DN.

Vejamos algumas pérolas da homilia de hoje:

JCN – «a esmagadora maioria da humanidade afirma pertencer a uma das grandes doutrinas…»
DA: Claro, o perigo é bom conselheiro. No islão, o apóstata arrisca a decapitação. No cristianismo já arriscou a fogueira. JCN esquece a Espanha de Franco, o Portugal de Salazar e os EUA de Bush, para dar exemplos recentes de perseguições e intolerância a não crentes?

JCN – Assiste-se à expansão aberta das devoções descafeinadas, sobretudo nas zonas de decadência cultural, como a Europa: (….)
DA – Sendo a Europa uma zona de decadência cultural presume o bem-aventurado que o Irão, a Arábia Saudita, o Uganda ou os EUA estão no apogeu da cultura, na apoteose do pensamento filosófico ou no dealbar de um novo iluminismo?

JCN – A juventude naturalmente não pode existir sem uma fé. Os que a assumem, vivem equilibrados; os outros são explorados por interesses sedutores.
DA – Para JCN a eucaristia é a pílula do equilíbrio e a oração o redutor de ansiedade.

JCN – Até a letra de muitas canções lembra o Livro dos Salmos. Nominalmente tratam do prazer, mas só ganham sentido como orações. Frases como «não posso viver sem ti» ou «amar-te-ei para sempre» são incompreensíveis se dirigidas à amada; mas referidas a Deus, tornam-se plausíveis e razoáveis.
DA – Isto é um caso de teofilia, uma parafilia mística, um erotismo contemplativo em que aos gemidos do crente responde o silêncio do deus. A menos que deus arfe.

JCN – Até o Papa pode rezar, quase sem mudar uma vírgula, com as nossas canções, da velhinha Always on my Mind (1972) de Elvis Presley até a I Do It For You (1993) de Bryan Adams.
DA – O Papa não perde tempo a rezar, tem a seita e os negócios para gerir.

JCN – O fervor beato dos ateísmos, jacobino ou marxista, o dogma inabalável do cientifismo panteísta ou a mística apocalíptica dos movimentos ecológicos e naturistas, contêm todos os elementos das igrejas tradicionais.
DA -JCN vê, finalmente, que as igrejas tradicionais (cristianismo e outras patologias) têm fervor beato, dogmas inabaláveis e mística apocalíptica. Faz autocrítica servindo-se dos inimigos de estimação, para os estigmatizar.

JCN – Nessa época, [guerras da Reforma] em que detalhes teológicos se tornavam pretextos nos campos de batalha, as pessoas pacíficas não podiam falar de fé, sob pena de combaterem os vizinhos.
DA – JCN chama detalhes ideológicos aos motivos que separaram Lutero e Calvino de Roma e, quiçá, escaramuças ao banho de sangue que dilacerou a Europa. As fogueiras da inquisição eram pias manifestações de fé.

JCN – O positivismo do século XIX fez do homem armado com a ciência o único deus, e Marx, Freud, Sartre, os seus profetas. Com o Holocausto, a bomba e o gulag, ele revelou-se o pior dos ídolos.
DA – JCN confunde Marx, Freud e Sartre com cardeais, bispos e Pio XII que, esses sim, foram cúmplices do Holocausto. Não consta que os citados tivessem apoiado Hitler.

27 de Março, 2006 Carlos Esperança

Deus é maluco

Deus é uma infeliz criação filha da depressão, angústia e sofrimento. A agressividade das tribos guerreiras fez o deus apocalíptico, cruel, , intolerante e avesso à modernidade. A superstição e a ignorância alimentam o medo e a ânsia do poder criou o clero para explorar a fragilidade humana, pôr o mito a render e perpetuá-lo.

Nos EUA o deus é um biltre que está contra o aborto e abomina homossexuais, que fez à sua imagem e semelhança. Os pastores evangélicos, que o representam, repetem que «é preciso resgatar a nossa república das mãos dos ateus» e informaram a comunicação social de que o furacão de Nova Orleães foi «castigo de Deus», sem que um só processo por perdas e danos tenha entrado nos tribunais contra tão pérfida criatura.

Foi esse deus, aliás, que outorgou o mandato de que Bush se reclamou na guerra contra os infiéis. O presidente americano afirmou obedecer a deus e garantiu aos compatriotas o seu apoio, promessa a cujo cumprimento o velho, surdo às orações, tenta esquivar-se.

Blair, outro crente, garantiu que obedeceu aos desígnios de deus, um parente próximo do de Bush e que, portanto, só responde perante ele. Os ingleses andam confusos, não porque julguem Blair mentiroso mas porque desconfiam de deus.

O deus do Islão não é muito diferente, mas é um boçal à espera de aprender a comer com faca e garfo. Tem por hábito recomendar fatwas e pela-se por mártires. Dá-lhe estatuto, nas reuniões de deuses, exibir o número de trogloditas que se imolam.

Nutre pelas mulheres o mesmo desprezo que lhe merecem os direitos humanos e, como é chanfrado, põe os homens a rezar cinco vezes por dia com o rabo virado para o lado contrário a Meca. Rabugento, ora quer peregrinações, ora exige jejuns, ansioso por ver exterminar infiéis, que são os fiéis do deus dos EUA e do deus dos judeus de trancinhas.

O deus do Papa é independente de direita. Vacila entre Pinochet e Hitler, é mais velho e gosta de ver empregados com rendinhas, sedas e adereços hilariantes. Adora latim como o do islão se pela pelo árabe. Tem um exército de sotainas que viaja de joelhos ou de rastos para lhe mostrar a subserviência.

Este deus não pode com judeus, acha que é o único verdadeiro e que todo o mundo lhe devem obediência. Anda sempre arreliado com os parentes protestantes e, de vez em quando, fica possesso com os primos dos ortodoxos.

Sabe que é o único deus verdadeiro e que, sem ele, não há salvação. A chatice é que os outros deuses pensam o mesmo. Por isso, se os homens não os meterem nos eixos, acabam a digladiar-se enquanto no Paraíso, aqueles ranhosos se rebolam de gozo.

24 de Março, 2006 Carlos Esperança

Evangelização ou terrorismo?

(Clique para aumentar a imagem)

Este folheto está a ser distribuído nos colégios da FOMENTO – Cooperativa de Ensino, propriedade da Opus Dei.

Nota: Foi entregue pela educadora a uma criança de 5 (cinco) anos.

24 de Março, 2006 Carlos Esperança

Lefebvre a caminho da canonização

O Papa B16, pastor alemão, santo por profissão e estado civil, confirma a aproximação aos seguidores de Monsenhor Lefebvre.

Não sei como se aproxima quem sempre esteve junto. Trata-se de legalizar uma união espiritual de facto.

O Vaticano é um Estado criado pelo Tratado de Latrão, a última excrescência totalitária que resta de Benito Mussolini, um católico que subsidiou o antro das batinas, reconheceu o catolicismo como religião oficial do Estado italiano e tornou o seu ensino obrigatório nas escolas.

A Constituição de 1947 incorporou este tratado com a bênção dos partidos amigos da hóstia e do Papa e do PCI.

A religião que considerava Mussolini enviado da Providência é a mesma que chamava porcos aos judeus. O Papa que se deita na cama dos sucessores de Lefebvre é o cardeal que silenciosamente assistiu à canonização de alguns dos piores indivíduos do século passado. Não saberia o Vaticano do apoio de Monsenhor Escrivá ao frio assassino Francisco Franco? E não lhe adjudicou três milagres?

Pio XII, Torquemada, os Reis Católicos de Espanha e João Paulo II fazem parte de uma galeria de futuros santos que, se não tornam a ICAR mais santa, a tornam, pelo menos, mais temida.

Dizem que o problema com a Sociedade São Pio X (SSPX) reside no facto de esses católicos não aceitarem mais nenhuma religião como verdadeira. Afinal o que os distingue? Todas as religiões do livro pensam o mesmo.

Curioso é a relutância dos Papas em receberem pessoas divorciadas e não se importarem de receber excomungados. Acreditar em Deus é obrigatório para os crentes e facultativo para os Papas.