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Carlos Esperança

19 de Julho, 2006 Carlos Esperança

Maldito seja Deus

No Próximo Oriente os livros sagrados continuam a matar. Israel vê a terra prometida por Jeová ameaçada por milhares de mísseis que os beatos do Corão recebem de países esquizofrénicos cujos habitantes se viram para Meca cinco vezes ao dia.

Os judeus subvertem a ética, o direito internacional e a sensatez na resposta às pias provocações islâmicas. O Islão só conhece o ódio, a mesquita e o livro que Alá ditou ao estúpido pastor Maomé que levou vinte anos a decorá-lo entre Medina e Meca.

A administração americana estudou o Antigo Testamento e tem à frente um presidente que fala com Cristo, qual deles o mais ignaro, e acredita nas fantasias bíblicas.

É desolador ver Beirute, Bagdade e Damasco, cidades cosmopolitas, há cinquenta anos, reduzidas a escombros e orações. O Profeta é um energúmeno que os crédulos evocam, Alá uma santa besta, que rivaliza com o Deus apocalíptico, e os crentes padecentes do ódio, fanatismo e morte. Jeová está armado até aos dentes e não pára a ofensiva.

A Europa, dividida entre o servilismo ao pastor evangélico Bush e a tradição humanista, fala a várias vozes e capitula em diferentes tons. No Vaticano, o Sapatinhos Vermelhos debita lugares comuns e disfarça o anti-semitismo com orações.

Como combater o racismo, a xenofobia e o nacionalismo, se a fonte desses males se encontra nas páginas falsificadas dos livros sagrados?

Se fosse possível apagar as religiões sem magoar os crentes, despejar Deus na sanita sem o barulho do autoclismo, erradicar o tribalismo da humanidade e fazer de prosélitos gente civilizada, o mundo caminharia para um novo patamar de progresso e bem-estar.

Assim, são milhares as crianças sem lágrimas e sem braços, com feridas na alma e olhos desorbitados pelo medo, que vão aprendendo com o barulho das bombas e os estilhaços que lhes dilaceram o corpo, o ódio que hão-de cultivar e transmitir, a exaltação da morte que arrasa nações e destrói os povos.

Maldito seja Deus.

18 de Julho, 2006 Carlos Esperança

Guerra civil de Espanha

Hoje, 18 de Julho, completam-se 70 anos sobre o golpe de Estado que ensanguentou a Espanha e que, de algum modo, iniciou a carnificina que o nazi/fascismo prolongaria até 8 de Maio de 1945.

Na sarjeta da história jazem José Sanjurjo, Emilio Mola y Francisco Franco, os generais que derrubaram o Governo constitucional da Segunda República, de que era presidente Manuel Azaña e primeiro-ministro Santiago Casares Quiroga.

Já no dia anterior tinha havido tentativas de sublevação mas foi no final do dia 18 que se iniciou a guerra civil que havia de deixar um rasto de sangue, com centenas de milhares de assassínios e incontáveis feridos, entre espanhóis.

O requinte dos fuzilamentos nos campos de touros e o garrote, como instrumento de tortura e morte, foram a imagem de marca da ditadura de Franco que Hitler, Salazar e Mussolini apoiaram. Era o catolicismo jurássico personificado nos quatro ditadores.

É a memória sinistra de Franco, um católico amigo da missa e da hóstia, que, estátua a estátua, tem vindo a ser derrubada em Espanha. É tarde para julgar os cúmplices mas é tempo de divulgar a verdade sobre o mais baixo e inculto dos três generais, que acabou por tomar o poder.

A Espanha de hoje é o paradigma de um país livre e democrático, rico e culto, que sob as cinzas da infâmia soube erguer a tolerância e o diálogo. Sobre os escombros de uma sublevação fascista, apoiada pela Espanha católica e pelo clero rural e beato, há um país novo que se impõe pela sofisticação urbana e cultura democrática.

Zapatero é o ícone desta Espanha moderna que renasceu das cinzas dos horrores e se transformou num Estado de direito, progressista e civilizado, enquanto a Conferência Episcopal sente a nostalgia do ditador Franco que morreu com milhares de hóstias e um milhão de mortos e exilados.

17 de Julho, 2006 Carlos Esperança

Perigo religioso

As religiões são instrumento do nacionalismo e o rastilho de guerras. Se pertencessem à esfera privada e fossem usadas para conforto individual, à semelhança dos placebos, que deixam felizes os doentes convencidos do valor terapêutico de substâncias neutras, não havia perigo.

Infelizmente, a associação de numerosos interessados na conquista do poder transforma as religiões numa arma ao seu serviço, num produto que exige o combate à concorrência e aos que desmascaram a fraude.

A humanidade tem evoluído no sentido de assegurar direitos, liberdades e garantias aos cidadãos, o que desola e enfurece os avençados do divino. Os padres aprofundam, nos seminários, o estudo da vontade do seu Deus e, quando os soltam, partem diplomados a vigiar e promover a fé.

Os clérigos são obstinados na promoção das suas verdades e intolerantes para as alheias. Recitam o catecismo como os papagaios articulam sons e debitam, frenéticos, preces e sermões.

Por todo o Planeta, multidões de parasitas de Deus vivem da pregação e dos ofícios pios como ilusionistas. Alguns, à força de persuadir incautos, acabam eles próprios convencidos de que é verdade a mentira que promovem. Mas o efectivo perigo resulta da conquista do poder e dos meios que usam para converter os outros.

As guerras religiosas aí estão para o demonstrar. Hoje, como sempre, Deus é das piores desgraças que assolam a humanidade.

16 de Julho, 2006 Carlos Esperança

O Vaticano e as Caldas da Rainha

O Vaticano está para a religião como as Caldas da Rainha para a cerâmica. No Estado teocrático fabricam-se santos e virgens, nas Caldas fazem-se à mão o que lhes faltou para deixarem de ser.

Nas Caldas presta-se culto à fertilidade, no Vaticano combate-se a natureza com metáforas e exalta-se a castidade.

As operárias trabalham o barro com carinho e volúpia, pintam-no com gosto e exacerbam-lhe as cores. Levam-no ao forno para que o calor o endureça e lhe mantenha a forma.

Os padres esconjuram o falo, cozem a farinha e cortam-na às rodelas como quem reduz a fatias um salpicão, resumindo Deus a finas tiras de perversão castrante.

Nas Caldas os corpos cansados da olaria regressam a casa e ainda levam forças para o sortilégio do amor e o milagre da vida. Criam filhos com prazer enquanto no bairro das sotainas se criam cardeais para negócio e satisfação de clientelas.

No Vaticano rezam-se orações, debita-se a Bíblia, usam-se cilícios e escondem-se os desejos que despontam sob hábitos e batinas.

Nas Caldas da Rainha há um povo que vive, ri, canta, chora e se diverte. No Vaticano há uma cáfila que disfarça sentimentos e esconde a verdade, que ameaça as crianças com o inferno e os adultos com o juízo final.

Na pequena cidade reina a virtude e a felicidade, votam em eleições e escolhem o presidente da Câmara. No Estado do Vaticano há um ditador vitalício que se julga fiel testamentário de Deus e obriga as pessoas a porem-se de joelhos e a andar de rastos.

No Vaticano até os anjos perdem o sexo e, talvez por isso, é o único Estado do mundo onde não há maternidade. Nem o Papa tem sexo, quando muito pias reentrâncias talhadas para abominações recônditas.

Nota: Dez minutos antes da meia-noite o Diário Ateísta registou 500.000 visitas. Obrigado a todos os que nos visitam.

15 de Julho, 2006 Carlos Esperança

Aventuras e desventuras do arcebispo Emmanuel Milingo

Em 27 de Maio de 2001 decorreu sob os auspícios da Igreja da Unificação, mais um casamento colectivo – variante dos casamentos de Santo António à escala planetária – com a bizarria habitual de ser o líder religioso, reverendo Sun Myung Moon, a escolher os casais.

Os esponsais de um curandeiro zambiano e experiente exorcista, com uma médica de acupunctura sul-coreana, deram à cerimónia um picante suplementar por ser o noivo bispo da igreja católica – o arcebispo Emmanuel Milingo.

Após uma audiência com o Papa, menos de três meses decorridos sobre a boda, com a mulher na incerteza de uma gravidez, o arcebispo desapareceu para parte incerta, em retiro espiritual, a reflectir sobre a indissolubilidade do celibato dos clérigos católicos.

Maria Sung, inconformada com a abstinência matrimonial, ameaçou com o jejum e acusou o Vaticano de lhe ter sequestrado o marido. O Vaticano, por sua vez, declarou que foi de livre vontade que o prelado deixou o seio da senhora e voltou ao seio da Igreja.

Sabe-se agora que o prelado viveu enclausurado num mosteiro donde se evadiu para contestar a obrigatoriedade do celibato e – diz-se -, para se encontrar com a cara-metade.

Há muito que o arcebispo Emmanuel Milingo perdeu a autoridade, se acaso a teve, sobre os bispos sufragâneos da sua província eclesiástica, mas não perdeu a dignidade que o título e o múnus lhe conferem.

Devia o prelado ter presente que o celibato é mais importante do que a castidade (no caso do clero) e que as tentações da carne são próprias de gente vulgar que se enreda na volúpia e em paixões mundanas.

Aconteceu ao bispo pedir a Deus, nas longas noites da arquidiocese, que lhe enviasse um anjo para lhe coçar as costas ou o divino Espírito Santo para abanar as asas e lhe refrescar os calores enquanto recordava as confissões do dia.

No abandono do seu Deus, foi descurando a bênção da água e a pureza dos óleos santos. Eram outros fluidos que o apoquentavam e, por isso, trocou a mitra pelo preservativo, o anelão de ametista pela aliança matrimonial, o báculo pela médica e o hissope pela luxúria.

Deus dorme enquanto o Vaticano vela.

Assim, após quatro anos de clausura, perante a distracção dos carcereiros de Deus, evadiu-se para desespero do Sapatinhos Vermelhos e das criaturas da Cúria que não entendem que um prelado troque a luz do Espírito Santo por um sorriso e a companhia do Anjo da Guarda, surdo-mudo, pelas carícias de uma mulher.

15 de Julho, 2006 Carlos Esperança

Remodelação no Vaticano

O primeiro-ministro espanhol, Rodriguez Zapatero, pode ter sido o responsável indirecto pela rápida substituição de Joaquín Navarro-Valls pelo jesuíta Federico Lombardi.

A aleivosia, falsa, de que Zapatero era o único chefe de Governo que tinha faltado à missa do Papa pode ter apressado a saída do eterno porta-voz do Vaticano formatado nas pias leituras do «Camino» com que Santo Escrivá transformou pessoas normais em prosélitos dementes.

Pode concluir-se que a Companhia de Jesus foi reabilitada e o Opus Dei perde um lugar de grande prestígio e enorme influência no Politburo da fé católica. A substituição, que acabaria por acontecer, foi antecipada.

Haverá menos cilícios para mortificar a carne no piedoso bairro onde B16 é o regedor vitalício e todo-poderoso. Não faltarão jesuítas de todos os quadrantes políticos para assessores do Sapatinhos Vermelhos.

Para uma visão retrógrada e intolerante da sociedade basta B16. A sombra tutelar do Opus Dei no antro do Vaticano era redundante.

13 de Julho, 2006 Carlos Esperança

A alma, essa desconhecida

A alma é um furúnculo etéreo que afecta o corpo dos crentes. É um vírus que resiste à morte e tem direito a transporte gratuito para o domicílio que os padres lhe destinam.

A alma é um bem mobiliário que paga imposto canónico e, à semelhança das acções de empresas, hoje igualmente desmaterializadas, paga avença pela «guarda de títulos».

No mercado mobiliário as acções são transmissíveis e negociáveis. Apesar das fraudes sabe-se que correspondem a avos do capital social de uma empresa. A sua duplicação é burla e conduz à cadeia, salvo quando o Vaticano está implicado e impede a extradição do criminoso, como sucedeu com o arcebispo Marcinkus que JP2 protegeu, após a falência fraudulenta do Banco Ambrosiano.

Quanto à alma, há suspeitas de haver um número ilimitado em armazém, o que exaspera os clérigos, encarregados do negócio, com o planeamento familiar. Não se sabe bem se a alma vai no sémen, se está no óvulo ou se surge através da cópula, um método pouco digno para tão precioso e imaculado bem.

Os almófilos andam de joelhos e põem-se de rastos sem saber se a alma se esconde nas mitocôndrias, nas membranas celulares, no retículo endoplasmático ou no núcleo e nos cromossomas, sem nunca aceitarem que seja o produto de reacções enzimáticas.

Não sabem se é alguma coisa de jeito no ovo, no embrião em fase de mórula ou no blastocito. Juram que aparece no princípio, sem saberem bem quando e onde está o alfa, ou quando aparece Deus a espreitar pelo buraco da fechadura e a arremessar aos fluidos a alma que escusa o entusiasmo de quem ama.

Após o aparecimento dos rudimentos da crista neural, só às 12 semanas o processo de gestação dá origem ao feto e falta provar que a alma, embora de qualidade sofrível, se encontra num anencéfalo ou que é de boa qualidade a que Deus distribui ao fruto de uma violação ou do incesto.

11 de Julho, 2006 Carlos Esperança

Ainda o protocolo de Estado

PS e PSD acertaram lista do protocolo – D.N. ontem, pág. 7 (sítio indisponível)

O que está em causa, na discussão do protocolo de Estado, é mais o lugar das Igrejas na democracia do que a dimensão e o sítio em que se arruma um cadeirão para o cardeal da Igreja católica.

A relevância dos dignitários católicos é apenas um pretexto para justificar a manutenção de privilégios ancestrais e uma manobra para caçar votos à custa da influência religiosa nas opções políticas dos portugueses, discriminando as outras religiões.

O que incomoda alguns fundamentalistas é a incompetência do Estado laico em matéria religiosa, a sua incapacidade para se pronunciar sobre verdades divinas e o impedimento para decidir sobre a vontade de Deus. De resto, a separação Igreja/Estado só favorece as duas instituições e evita a promiscuidade que foi apanágio da ditadura.

Ninguém duvida da liberdade religiosa em Portugal a menos que entenda por liberdade o direito hegemónico de uma religião particular, incompatível com a Constituição e a sociedade plural em que vivemos.

Um cadeirão destinado a um prelado numa cerimónia de Estado é tão aberrante como a reciprocidade nas cerimónias litúrgicas para os detentores de altos cargos da República.

Já a exótica manifestação da vontade de incluir um descendente da família de Bragança nas cerimónias oficiais (um delírio do CDS) é ignorar que a República se ergueu contra a Monarquia e que semelhante privilégio não é concedido a nenhum descendente dos presidentes da República.

No fundo é pôr em causa o fundamento do poder e a sua origem, aceitar ou não o voto secreto e universal para cargos transitórios ou regressar ao direito divino para funções vitalícias e hereditárias.

10 de Julho, 2006 Carlos Esperança

B16 – O inveterado celibatário

O jurássico pastor alemão é um apóstolo da violência. Impõe o celibato indissolúvel ao clero e exige a indissolubilidade do matrimónio aos leigos, embora nunca fosse difícil dissolver um matrimónio canónico para quem tivesse dinheiro e influência.

O Vaticano não é um tribunal, é a casa de alterne onde se negoceia o direito canónico.

Quando o arcebispo Emmanuel Milingo se casou, sob os auspícios do reverendo Moon, o Vaticano envidou esforços para que o prelado zambiano rompesse o matrimónio com a esposa, María Sung, e regressasse ao múnus e à obediência a Roma. E conseguiu.

A coerência não é uma virtude apostólica mas a intolerância e a violência são apanágio da fé e o paradigma das religiões.

B16, na pouco gloriosa ofensiva prosélita em Espanha, que ainda julgava protectorado da ICAR, fingiu que foi proteger «a maravilhosa realidade do matrimónio indissolúvel entre homem e mulher, a origem da família», mas foi defender os interesses do Vaticano e o poder do clero espanhol, cooperando com a missa em comícios conjuntos do PP e do Opus Dei.

Este ataque à liberdade individual, em especial ao divórcio, é uma obsessão demente que o actual Papa interiorizou do seu predecessor. Os fanáticos das penas perpétuas não compreendem que a liberdade é um bem superior aos seus preconceitos.

9 de Julho, 2006 Carlos Esperança

Navarro-Valls uivou contra Zapatero

O porta-voz do último teocrata europeu, Navarro-Valls, membro do Opus Dei, ululou azedume e raiva contra o legítimo primeiro-ministro de Espanha.

A anunciada ausência de Zapatero à missa, desporto que não pratica, serviu de pretexto para a ameaça, intriga e denúncia do serventuário de B16 cuja ingerência num país que julgava protectorado seu é um acto de incivilidade, ódio e provocação.

B16 foi em viagem de negócios presidir a um comício organizado pelo Partido Popular, Opus Dei e outros grupos religiosos de extrema-direita – 5.º Encontro Mundial das Famílias -, um acto de proselitismo inventado por um dos seus antecessores.

Esqueceu-se que Zapatero é um homem digno que não se ajoelha e, muito menos, se põe de rastos. Não compreendeu o enraivecido pastor alemão que já não é a ditadura de Franco que governa Espanha, em idílio com o Vaticano e em guerra com a democracia.
Desta vez ficou claro que a Espanha não aceita intromissões beatas na sua política interna.