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Carlos Esperança

25 de Dezembro, 2006 Carlos Esperança

A morte de Saparmurat Niyazov

O ditador, que se atribuiu o apelido de “Turkmenbashi”, ou “o pai de todos os turcomenos” governou o país com enorme violência desde 1985. Era provavelmente o tirano mais extravagante do mundo, a ponto de ter rebaptizado os meses do ano com nomes de familiares.

Faleceu de ataque cardíaco aos 66 anos e o seu funeral constituiu uma impressionante manifestação de pesar, tendo reunido dezenas de milhares pessoas que choraram a sua morte.

Por que motivo os ditadores mais violentos e irracionais suscitam tão espontâneas e sinceras manifestações colectivas de dor?

Desde a morte de João Paulo II que não me recordo de um funeral tão concorrido.

24 de Dezembro, 2006 Carlos Esperança

Glória a Frei Galvão – parteiro e santo brasileiro

Frei Galvão ultrapassou o padre Cícero na corrida para a santidade. O Padre Cícero Romão Batista tinha a mais elevada cotação na Bolsa da Fé mas viu as acções de Frei Galvão subirem com o anúncio da compra de dois milagres pelo Vaticano.

O Brasil, apesar da devoção que os portugueses levaram, juntamente com a varíola e sífilis, nunca tinha produzido um santo. Há terrenos mais férteis, destacando-se a Itália com toneladas de ossos de taumaturgos, relíquias fétidas a necessitar de incineração, para defesa da saúde pública, e santos detritos com cheiro a incenso e mofo.

A Pátria de Jorge Amado foi finalmente distinguida com um santo que interferiu num parto depois de ter morrido em 1822. Os obstetras estão obsoletos, basta um cadáver de que a parturiente seja devota para resolver os problemas de uma bacia estreita, um útero mal formado ou uma distocia.

É verdade que Frei Galvão já podia há muito ter-se estreado no ramo milagreiro, na área da obstetrícia, mas foi o impulso de João Paulo II para a produção de milagres em série, com certificados de garantia e atestados médicos, que fez nascer a onda de milagres que percorre o mundo católico.

Nesta noite, em que se comemora o mito cristão do nascimento de Cristo, o Brasil que se ajoelha e papa missas, o País que debita a Bíblia e reza novenas, os pobres que se atiram à hóstia para sentirem algo no estômago, devem agradecer a Bento 16 por ter reconhecido o segundo milagre de Frei Galvão e rubricado o primeiro alvará de santo.

Bendito seja o Brasil e o seu santo Galvão, já biografado pelo Daniel Sottomaior.

23 de Dezembro, 2006 Carlos Esperança

Finalmente… o alívio da morte

À semelhança de Ramón Sampedro, Piergiorgio Welby viu o seu desejo realizado. Repetiu três vezes a palavra «obrigado» antes de lhe desligarem a máquina que o mantinha agarrado ao sofrimento. Nos últimos meses negaram-lhe a caridade que reclamou, impuseram-lhe a agonia que não quis, obrigaram-no à tortura cujo fim implorava.

Os problemas da vida e da morte não são fáceis. Mexem com os nossos sentimentos e cultura. Podem tornar os doentes vulneráveis ao crime. Estão no limite de todas as emoções. Enfim, há um problema que a sociedade não pode continuar a ignorar, uma legislação que é preciso discutir, uma ponderação a fazer com a urbanidade e sensatez possíveis.

Que ninguém seja obrigado, algum dia, a prescindir de um segundo de vida, mas não deve alguém ser condenado a meses e anos de não-vida. A autodeterminação do indivíduo merece respeito. Não há o direito de ficar sadicamente a repetir que uma pessoa não é dona de si própria.

Se um dia me tocar a desgraça que atingiu Piergiorgio Welby quero ter junto de mim o anestesista Mario Riccio.

23 de Dezembro, 2006 Carlos Esperança

Notícias do Vaticano

1 – IGREJA VOLTA A CONDENAR VENDAS DE RELÍQUIAS DE JOÃO PAULO II

Comentário: É preciso evitar o comércio paralelo e excluir do negócio os ciganos;

2 – Abertas inscrições para a «Clericus Cup»

Comentário: É reservado a sacerdotes e seminaristas, não sendo as noviças autorizadas a assistir aos jogos;

3 – Vaticano reafirma castidade como melhor forma de evitar a SIDA

Comentário: A melhor forma de evitar os acidentes de automóvel é andar a pé.

4 – Vaticano defende arcebispo polaco, suspeito de espionar para comunistas

Comentário: a) Em termos de espionagem, os bispos têm contrato de exclusividade com o Papa; b) O cardeal Jozef Glemp espionava para a CIA e o seu sucessor, Stanislaw Wielgus, para o KGB, numa demonstração do pluralismo da ICAR

5 – Vaticano contra a eutanásia

Comentário: A ICAR quer que a última palavra seja a do patrão;

6 – Natal não celebra nenhum mito – diz B16

Comentário: É uma mera pantominice.

Post scriptum – Grécia: sete monges feridos em confrontos

Comentário: Os cristãos ortodoxos não são melhores.

22 de Dezembro, 2006 Carlos Esperança

A cruzada do Público. Carta ao Director

O Público de hoje parece ter sido escrito pela Conferência Episcopal. Do «Editorial» à estimável crónica de Vasco Pulido Valente, de Constança Cunha e Sá a António Marujo, é um mar de água benta, em prosa, com cheiro a incenso.

Fracassado o proselitismo evangélico de Bush, aparece agora, numa aparente coincidência, uma onda de proselitismo católico a rivalizar com a demente missionação do mundo islâmico.

Quando o sectarismo religioso está na origem de confrontos sangrentos e actos de terrorismo, mandava o bom-senso que o aprofundamento da laicidade do Estado e a sua defesa pela comunicação social dos países democráticos, servissem de vacina à insensata tentativa de submissão a uma verdade única, a livros únicos da fé e às imposições do clero.

Portugal, que não teve Reforma, partilhou com a Espanha o entusiasmo na violência da Contra-Reforma. O Público de hoje parece a voz da Igreja católica, saída das paróquias rurais, num ataque ao laicismo e na defesa descabelada do que não esteve nem está em risco – a comemoração do Natal cristão.

Pelo contrário, é a laicidade do Estado que tem sido posta em causa, não faltando bispos nas inaugurações, nomes de santos na toponímia, autarcas de joelhos, ministros de cócoras e o primeiro-ministro a benzer-se.

Basta lembrar a tragédia das teocracias para haver contenção na promiscuidade entre as Igrejas que se julgam maioritárias e os Governos que capitulam perante o incenso e a água benta. A neutralidade do Estado é uma condição indispensável à liberdade religiosa que a todos cabe respeitar e defender.

Dos EUA à Arábia Saudita, da Polónia ao Irão, sabemos o mal que a subordinação do Estado aos interesses confessionais tem provocado. É por isso que o Público, de hoje, me surpreende e entristece.

20 de Dezembro, 2006 Carlos Esperança

Quem tem medo de um cadáver?

«Ele está no meio de nós»
+ António, Bispo de Angra

Não há bispo nem padre que não nos ameace com o cadáver desaparecido, há cerca de vinte séculos, dizendo que está no meio de nós.

Os mortos e a morte foram sempre instrumento de promoção da fé, alimento dos medos colectivos e objecto de chantagem sobre supersticiosos e beatos. Vejam que os ociosos, que dedicaram a vida à oração e à contemplação mística – espécie de estado vegetativo – aproveitaram a morte para obrar milagres.

Vão-se esquecendo os crentes que da madeira da suposta cruz onde Cristo, depois de pregar, acabou pregado, foram vendidas toneladas, para relicários, quando o comércio de relíquias atingiu o auge em plena Idade Média. A ferradura, a figa e outros amuletos, de eficácia comprovada, pouco valiam perante uma apara de madeira com certificado de origem passado pelo Vaticano.

São cada vez mais exíguas as mercadorias que os pios devotos compram para protecção pessoal. Água do rio Jordão, saquinhos de terra de Jerusalém e ramos de azinheira, de Fátima, são dos raros artigos que ainda se vêem em casas de gente devota.

Cuecas de Santo Escrivá ou calcinhas de madre Teresa são tesouros que os museus das Ordens conservam mas que não estão disponíveis no mercado.

Com JP2 ainda se vendiam fotografias mas do actual Papa ninguém as compra a não ser para assustar crianças que recusam a sopa.

É por isso que o cadáver de Cristo, desaparecido em condições estranhas e exportado para o Céu depois do número da ressurreição, continua a ser anunciado como objecto de um jogo macabro para ver se alguém o encontra.

«Ele está no meio de nós». Cuidado, não o pisem.

Até agora ninguém tropeçou no cadáver de JC. Resta o cadáver da ICAR que não abdica de fazer retroceder a civilização e intimidar os crentes.

+ Carlos, colaborador do Diário Ateísta

20 de Dezembro, 2006 Carlos Esperança

Notícias do Vaticano

1- Vaticano altera tradução litúrgica da fórmula de consagração do Vinho:
[Sangue de Cristo derramado «por muitos» e não «por todos»]

Comentário: Há quem não goste que lhe sujem o fatinho.

2- Bento XVI: paz na Terra Santa, compromisso de cristãos, judeus e muçulmanos

Comentário: Cuidado, quando esta gente se une é contra alguém.

3- Vaticano afirma que vender ou comprar relíquias é “sacrilégio“, depois que foi descoberto que alguns objectos, que pertenceriam ao Papa João Paulo II, estavam a ser vendidos.

Comentário: Um golpe de génio no negócio paralelo

4 – Vaticano reconhece 2º milagre e frei Galvão deve ser canonizado

Comentário: A bolsa dos milagres abriu em alta esta semana.

5- Vaticano nega que planeie criar clube de futebol

Comentário: Um jogo de cardeais contra arcebispos podia acabar em discussões teológicas e com os paramentos rasgados.

19 de Dezembro, 2006 Carlos Esperança

Deus é pior que a sarna

Os homens, à força de ouvirem que Deus existe, tornam-se crentes e, à medida que o repetem a si próprios, fazem-se beatos.

Deus é uma infeliz criação, difícil de aperfeiçoar. Enquanto as máquinas se melhoram, a partir da dúvida de que nunca são suficientemente perfeitas, Deus só pode piorar porque os clérigos garantem que é infinitamente bom e não admitem a discussão.

Com tal mercadoria minam-se as bases da civilização, perturba-se a paz, impede-se a solidariedade humana.

Deus não é apenas uma criatura pior do que o seu criador – o Homem -, e um troglodita incapaz de se regenerar, é o princípio do mal, o acicate de todos os ódios e crueldades.

Na base do racismo e da xenofobia está Deus na sua despótica inexistência, no seu primitivismo demente, um ser misógino e delinquente, manejado pelos fios invisíveis, tecidos pelas religiões, através dos prestidigitadores profissionais – os clérigos.

Deus e o Diabo são irmãos gémeos, filhos do medo dos homens e explorados em benefício do clero.

As peregrinações são actos de insensatez colectiva em direcção a locais onde os homens inventaram marcas de Deus, centros de exploração da fé e da superstição, locais de receptação onde se esbulham os haveres dos crentes para maior glória dos parasitas de Deus.

Se Deus existisse, os crentes ficariam satisfeitos por serem os únicos com direito a uma assoalhada no Céu para gozarem o ócio eterno na companhia da fauna celeste. Assim, vivem cheios de azedume, envergonhados da sua estultícia, ávidos de converter os outros aos seus próprios erros e fazer deles uns infelizes, à sua semelhança.

Um mundo sem Deus, ou mesmo com muitos, seria certamente mais pacífico, mas a loucura das religiões monoteístas querem fazer do Planeta um antro de fanáticos, de um único Deus, uma perigosa quimera que ensandece os homens, os assusta e imbeciliza.

Deus é um déspota imprevisível com lacaios que não o discutem nem o deixam discutir.