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Carlos Esperança

30 de Junho, 2007 Carlos Esperança

Offshore do Vaticano – um Estado pária

As autoridades dos países civilizados estão atentas às burlas e exigem certificados de garantia às mercadorias que as Empresas comercializam.

A defesa do consumidor é hoje apanágio dos Estados democráticos preocupados com os mais vulneráveis à agressividade do marketing e aos embustes de multinacionais pouco escrupulosas.

Curiosamente, o Vaticano, apesar do longo historial de ardis e abusos de confiança de que é um bom exemplo a troca de indulgências por heranças*, goza de uma impunidade única. Inventa milagres e cria santos com a mesma facilidade com que o abade de Trancoso fazia filhos.

O Vaticano vai investigar o «possível milagre com Kubica». O acidente sofrido pelo piloto polaco Robert Kubica no GP do Canadá de Fórmula 1 pode ser um milagre a favor do papa JP2.

O piloto podia ter morrido e apenas torceu o tornozelo e sofreu escoriações. Ora sabendo que o excesso de velocidade é um dos mais recentes pecados inventados pelo Vaticano, ficamos a saber que os pecados (salvo os de natureza sexual) podem ser abençoados por um milagre se houver um Papa na linha de montagem das canonizações.

*Bula de indulgências de Alexandre VI ao Hospital Termal de Caldas da Rainha (1/6/1497)

30 de Junho, 2007 Carlos Esperança

A morte do Miguel

Dia 27 de Junho o Miguel teve o seu funeral. Caíra no Sábado anterior quando saía do casebre. Quebrou o fémur e ganhou um hematoma na cabeça. Transportado ao Hospital faleceu no dia seguinte.

Na terça-feira foi o funeral. O Miguel teve missa, flores que os amigos lhe levaram e os responsos canónicos antes de baixar à cova. Já não o acompanharam os pais e avós, que partiram antes, mas estavam lá os amigos que jogaram à bola na Praceta, companheiros da escola primária onde começou e terminou os estudos.

Para os que acusam os jovens de egoísmo foi tocante ver os que vieram de longe, alguns já bem instalados na vida, outros à procura de uma oportunidade. E eram muitos.

O Miguel é que não teve vaga. Não conheceu o pai, morto quando ele ainda não tinha dois anos. A mãe esqueceu-o, na amnésia da droga, e não o recordou quando se finou com uma dose reforçada.

Os avós recolheram-no. Partiu a avó primeiro e não se demorou o avô. O Miguel ficou aos baldões da sorte, ao abandono, não lhe faltando pontapés da vida nem a companhia de outros desgraçados.

Tinha 31 anos e mantinha olhos de criança num rosto já cansado. Passou fugazmente por várias drogas mas foi no álcool que se fixou, em doses cada vez mais vastas. Se os amigos o saudavam, sorria com gratidão. Não deixou que lhe virassem as costas, foi-se afastando entre carros que arrumava e garrafas de cerveja que consumia.

Ainda teve tempo para fazer um filho. Foi amado. E a mulher quis levá-lo para o cuidar. Não quis ser um fardo. Andou por aí sem querer ser pesado, sem se queixar, a desfazer o fígado e a vida, a acelerar para o fim, com um sorriso que guardou para os amigos.

Na morte teve a mulher que o amou, vestida de preto, e muita gente: um arrumador no intervalo da ressaca, o director de um estabelecimento do ensino superior, o dono do café, jovens que após os cursos foram pela vida e voltaram à Praceta para dizer adeus ao Miguel e lhe levarem as primeiras flores que recebeu. E todos nos sentimos tristes com vergonha de sermos felizes.

Chamava-se Luís Miguel Neves Caldeira, de seu nome. Era tudo o que tinha com a roupa que trazia e um velho rádio de que fez testamento oral. Dele só resta o rádio e o raio da nossa incapacidade para criar um mundo mais justo.

Hoje vi um edital a anunciar a missa do 7.º dia para as 18H30. Faz seis dias que morreu, mas o 7.º dia é quando um padre puder. Talvez a missa seja pela remissão dos pecados de Deus.

29 de Junho, 2007 Carlos Esperança

Viagem de autocarro

Há meia dúzia de horas, entrei num autocarro com um padre católico sentado no banco ao lado do meu, do outro lado da coxia.

Olhei aquele rosto triste de um homem de 70 anos, com o colar romano a apertar-lhe o pescoço como o cincho onde se estreita o queijo para extrair o soro. Há muito que não via tal adereço na via pública. O uso manteve-se com a resignada dedicação ao múnus.

Não pude deixar de apreciar aquele homem só, a caminho de uma casa da Igreja ou de um ritual que perdeu o sentido e de que a sociedade se desinteressou.

Que sofrimento ajudou a desenhar aquelas rugas? Quantos desejos reprimidos e quantos anos perdidos com o pescoço apertado por um colar e a lapela ornada com uma cruz?

Terá amado, teve sonhos, realizou-os? A meu lado um cidadão, sozinho, levava os olhos vazios e o ar de quem cumpriu a vida sem a viver.

Era preciso ser cínico ou mau para não sentir compaixão por quem dedicou o tempo e a juventude a uma quimera, perdeu a vida perseguindo o sonho do Paraíso e chega ao fim da estrada sem saber por que a percorreu.

Somos ambos da mesma massa. Com poucos anos de distância ensinaram-nos a ajoelhar e a rezar. Eu levantei-me, ele ficou de joelhos. Eu vivi a vida, amei e passei incógnito na estúrdia, sem um colar a que só falta a trela e sem a cruz a que não faltaram espinhos. Ele imolou a vida por um mito e esqueceu-se de si próprio por coisa nenhuma.

É injusto que aquele homem que sofreu o que eu não sofri, que trocou a vida por outra que não existe, tenha os mesmos sete palmos de terra à sua espera sem um filho que lhe recorde o nome ou guarde o retrato. Por um deus que inventaram para lhe tramar a vida.

28 de Junho, 2007 Carlos Esperança

ICAR perde exclusivo de casamentos (2)

A medida, tomada pelo Governo, alarga este direito às comunidades religiosas radicadas em Portugal há mais de 30 anos.
(.)
A partir de agora, “os membros de outras confissões religiosas poderão também celebrar os seus casamentos junto de ministros dos respectivos cultos”, sublinhou Alberto Costa.

Quando o Estado devia suprimir um direito anacrónico, acaba por estendê-lo às diversas confissões religiosas. Isto não é laicismo é pluralismo confessional.

Só faltava que as pessoas estivessem impedidas de realizar as cerimónias religiosas que quisessem, que a liberdade religiosa fosse um mito, que os rituais litúrgicos carecessem de autorização administrativa! Mas o Estado nada tem a ver com isso. Ou, melhor, não devia.

O casal pode, segundo as suas convicções, celebrar a união sob o rito que entender, jurar fidelidade eterna ou a prazo, e renunciar, se for caso disso, à igualdade de direitos de um dos cônjuges em relação ao outro.

O Estado é que não pode legalizar a desigualdade, recusar a garantia dos direitos de cidadania, impedir o acesso ao direito civil – o divórcio, por exemplo -, por mais juras e padres que testemunhem as promessas em contrário.

O Estado não pode tolerar a poligamia, a violação e os castigos corporais de um cônjuge sobre outro, por mais simpático que isso seja a Deus e agrade a profetas e empregados.

No meu ponto de vista, contrariamente ao João Vasco, o Estado foi por mau caminho para agradar à ICAR e manter a aparência de igualdade entre religiões. De futuro, daqui a 30 anos, o Estado terá de definir o que considera uma religião. Não vai ser fácil com o dinamismo e inovação que se observa no mercado da fé.

27 de Junho, 2007 Carlos Esperança

Vaticano – A ditadura consentida

Só perde a vergonha quem algum dia a teve. Não é o caso do Vaticano e da Cúria. Não é o caso de B16.

A canonização de Pio 12 nada acrescenta ao cão, às duas mulas e a outros pios enganos que fizeram a glória dos altares romanos e o gáudio dos incréus. Não desbota o lustro de numerosos biltres que fugiram à justiça humana mas não escaparam à canonização.

Pio 12 é mais um cúmplice do nazismo com que a ICAR atrai o ridículo e vergonha. É a prova de que o crime compensa e a cumplicidade pia com os algozes é uma virtude que o Deus romano aprecia.

Quando B16, disse que a evangelização da América Latina foi pacífica alteou um coro de protestos. Esqueceu as vítimas, as torturas com que a ICAR convencia os índios da bondade do Deus que viajava nas caravelas levado pelos jesuítas.

Pio 12 deve ser canonizado com urgência, enquanto houver vivos que recordem o Papa pusilânime e anti-semita que trocava uma concordata pela vida dos judeus, que nunca condenou o nazismo, que protegeu os criminosos nazis com passaportes do Vaticano e os albergou em conventos antes de os pôr a bom recato na América latina.

Livros recomendados:
– O Vigário de Rolf Hochhuth
– A Santa Aliança de Eric Fratini
– Uma dívida moral de Daniel Jonah Goldhagen
– O Papa de Hitler de John Cornwell

26 de Junho, 2007 Carlos Esperança

Os 10 mandamentos do trânsito, segundo o Vaticano



VATICANO – O gabinete do Vaticano emitiu os 10 mandamentos para os motoristas na última terça-feira, 19. Aqui ficam:

1. Não matarás.

2. A estrada deve ser para ti um meio de relação entre pessoas e não um local com risco de vida.

3. Cortesia, sinceridade e prudência ajudar-te-ão a lidar com ocorrências imprevistas.

4. Seja caridoso e ajude o próximo em necessidade, especialmente vítimas de acidentes.

5. Os carros não devem ser para ti uma expressão de poder e dominação, e uma ocasião para pecar.

6. Caridosamente convença os jovens e os menos jovens a não conduzir quando não estiverem em condições de fazê-lo.

7. Ajude as famílias das vítimas de acidentes.

8. Una motoristas culpados e as suas vítimas, no momento oportuno, para que possam passar pela libertadora experiência do perdão.

9. Na estrada, protegei os mais vulneráveis.

10. Sinta-se responsável pelos outros.
(Associated Press)
*****
Os 10 mandamentos resumem-se em dois:
a) Conduzir sem atropelar;
b) Não fazer amor dentro do carro (N.º5).
26 de Junho, 2007 Carlos Esperança

Efeméride

Em 1975, no dia de hoje, faleceu o cúmplice do franquismo Josemaria Escrivá, fundador do Opus Dei.

Depois disso já fez três milagres, foi beatificado e canonizado.

Para ser santo não é preciso fazer o bem, basta fazer o que convém.

26 de Junho, 2007 Carlos Esperança

H. U. C. – A gula dos católicos (3)

Sr. Carlos Esperança,

Adiciono algumas informações para que a sua informação seja correcta:

1. Na citada capela não há “sessenta cadeiras e genuflexórios”, mas sim 62 cadeiras e 2 genuflexórios”.

2. O panfleto não era A8, mas sim A5.

3. não é nos “anexos que dois capelães ganham a vida a meter medo com a morte”, mas sim em todo o hospital que os capelães vão ajudando a viver com a dignidade possível aqueles e aquelas que se encontram em situação debilitada e em grande sofrimento.

4. o vencimento dos capelães não é igual aos “chefes de clínica”. Um chefe de serviço da carreira médica ganha pelo índice 175 da carreira médica (sem serviço exclusivo), a que equivalem 2573.45 euros (imagine quanto não ganhará o “grau mais elevado da carreira médica”!); um chefe de secção da carreira administrativa ganha pelo índice 337 da carreira administrativa a que equivalem 1101,15 euros; um capelão ganha pelo índice 311 da carreira administrativa a que equivalem 1016,19 euros.

a) Um dos capelães
Cidade: coimbra – Segunda-feira, 25 Junho, 2007 05:36:51

Apostila – Agradeço ao pio capelão as correcções feitas.