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Carlos Esperança

11 de Setembro, 2007 Carlos Esperança

Marrocos – Eleições legislativas

A agenda mediática portuguesa ignorou praticamente as eleições em Marrocos cuja política é relevante para a Europa e de grande interesse económico para Portugal.

Em monarquias absolutas as eleições não passam de imitação grosseira do acto cívico que as democracias repetem regularmente, pelo que a abstenção de 63% do eleitorado encontra aí uma das suas justificações. A única surpresa eleitoral de Marrocos foi a vitória relativa do partido conservador e nacionalista (Istiqlal), fiel à monarquia alauita.

Não há democracias onde a cidadania dependa do poder discricionário de um monarca ou da violência tribal das teocracias. Em Marrocos o rei pretende conciliar o seu poder absoluto e a liderança religiosa com a abertura política –, equação difícil de resolver.

Marrocos está aqui ao pé de Portugal e o que aí se passa não é indiferente à Europa e, sobretudo, à Península Ibérica com democracias recentes e debilmente consolidadas, afirmando-se graças à protecção da União Europeia que dissuade os nostálgicos de Franco e Salazar.

Os países do Magreb abastecem de mão-de-obra e rejuvenescem a população europeia, mas, as alterações étnicas e culturais demasiado rápidas que induzem, são um elemento social perturbador e fonte de medos que recentes atentados terroristas islâmicos, embora frustrados, vieram aumentar.

Se Marrocos e Argélia se transformarem em democracias serão a retaguarda protectora do sul da Europa. Caso contrário, convertem-se na vanguarda do terrorismo islâmico, em santuário da al-Qaeda e numa ameaça permanente para novas tragédias fomentadas pelo proselitismo islâmico.

A Europa, que sofreu sangrentas disputas religiosas, que a dilaceraram, está a facilitar o poder religioso em vez de aprofundar a laicidade que a tem poupado à violência dos que julgam ganhar o Paraíso convertendo os outros à sua fé.

É mau confundir a liberdade religiosa, que deve ser defendida, com a mistura do Estado e das Igrejas, que deve ser combatida.

Resultados eleitorais: RTP

11 de Setembro, 2007 Carlos Esperança

Há seis anos

Há seis anos escrevi este texto, publicado no Expresso:

No dia 11 senti-me americano, sufocado pela orgia de terror que desabou num país que tem sobre os inimigos a superioridade moral (o que não é pouco) que lhe confere a democracia.

Parece ser o fundamentalismo islâmico responsável pelo holocausto provocado, a origem da demência assassina de quem gravita em torno de um credo como moscas à volta do seu alimento predilecto, a incubadora de suicidas beatos que acreditam na virtude do martírio porque descrêem da bondade do seu Deus.

Recordo a elegante e altiva silhueta de Manhattan pela câmara de Woody Allen, hoje uma memória dolorosa com milhares de vítimas sepultadas sob os escombros do cenário rasgado. Olho a estátua da Liberdade, rodeada de morte e sofrimento, dolorosa metáfora duma civilização ferida. E os valores de que nos reclamamos foram desafiados.

Apesar da dor e da revolta, da raiva e do sofrimento, penso que devemos sobrepor a justiça à vingança, o castigo dirigido ao ódio cego.No Expresso de 15 de Setembro, para além da sensatez do P.R. e do 1.º Ministro, dois artigos estimulantes de Mário Soares e Freitas do Amaral podem servir de alerta a comportamentos desajustados.

Não podemos permitir que, à sombra de uma terrível emoção, se deixe arrasar a Palestina ou se permita a caça ao árabe. Não é nos crentes que está o perigo, é no poder do clero que os conduz. Jeová, Cristo ou Alá são inofensivos. Perigosos são os funcionários que agem em seu nome.

E, tal como nós, que nos libertámos do poder clerical que há século e meio se não conformava com a separação do poder espiritual e temporal, que considerava a Igreja incompatível com a democracia e o progresso, também eles, os islamitas, hão-de conquistar o direito à liberdade religiosa e política, reconhecer os direitos das mulheres e apreciar a democracia.

O horror está nos estados teocráticos, nos totalitarismos com que nos conformamos, na pobreza, na ignorância e no analfabetismo que os sustentam.

9 de Setembro, 2007 Carlos Esperança

Áustria – Viagem de Bento 16

O papa Rätzinger esteve na Áustria, em viagem de negócios, onde a ICAR tem sofrido intensa hemorragia de crentes e padres.

A devoção e o intenso amor a Hitler e ao Papa já passaram. Então, a Conferência Episcopal da Áustria, com a unanimidade dos seus bispos, pediu aos católicos para receberem as tropas de Hitler em festa, o que fizeram com zelo nazi e em comunhão com o clero.

Os escândalos de pedofilia e práticas homossexuais envolvendo o falecido cardeal Hans Hermann Groer, amigo de João Paulo II, e do bispo de St. Pölten, Kurt Krenn, abalaram a fé dos austríacos e a piedade dos seminaristas.

Groer, um pio e santo cardeal, teve de renunciar, em 1995, à arquidiocese de Viena e aos seminaristas, depois destes o acusarem de abusos sexuais. Krenn renunciou em 2004, a pedido de JP2, devido a um escândalo de pornografia infantil e supostas práticas homossexuais num seminário de St. Pölten.

O último teocrata europeu não teve, pois, na moderna e civilizada Áustria os banhos de multidão que a rural Polónia dispensa aos inquilinos da cadeira de Pedro.

Mais uma vez mostrou o seu azedume contra a civilização da Europa, por sinal, o maior espaço de liberdade e democracia, numa vontade oculta de ver dementes a imolarem-se pela fé, bandos de padres a aterrorizar crianças com o Inferno e reis que se ajoelhassem, para ele, Papa romano, lhes impor a coroa sobre o toutiço.

O autocrata lá vai fazendo pela vida desesperado por não encontrar a demência mística que os mullahs fomentam e o prestígio de que gozavam os seus antecessores medievais.

Com que legitimidade um líder religioso consagra, hipoteca, vende ou humilha um povo inteiro, confiando-o às suas devoções particulares? Mas o Sapatinhos Vermelhos bolçou estas frases:

Santa Maria, Mãe Imaculada de nosso Senhor Jesus Cristo,
A Ti confio a Áustria e os seus habitantes .

9 de Setembro, 2007 Carlos Esperança

Monsaraz – Touro morre na arena

A violência, transmitida através de gerações, entranha-se no código genético de pessoas pouco instruídas ou de tradição marialva.

Depois do infeliz foral de Barrancos eis que, em Monsaraz, a morte de um touro, na arena, fez exultar a populaça com a orgia de sangue e barbárie. É assim que se libertam os instintos primários, se acicata o gosto pela violência e se banaliza a crueldade.

O mais preocupante não é o desafio à autoridade do Estado. De vez em quando, ignotas aldeias, com pretensões a serem sedes de concelho, desafiam a ordem pública com o corte de vias de comunicação e em total impunidade. Os bandos surgem quando cheira o poder a um cacique e desaparecem ao primeiro sinal de derrota.

O que está em causa nos touros de morte é o culto das piores tradições, a satisfação dos mais baixos instintos e a crueldade, compreensível por se tratar de festejos religiosos.

Um povo que se diverte com o sofrimento dos animais não é um país de cidadãos, é um bando ululante de biltres à solta divertindo-se com a dor.

A Santa Casa da Misericórdia de Monsaraz ao patrocinar o espectáculo degradante não faz jus ao nome, participa num acto de sadismo em nome da tradição. Uma vergonha.

Uma violência em honra de Nosso Senhor Jesus dos Passos sob cujos auspícios se realizam os bárbaros festejos.

8 de Setembro, 2007 Carlos Esperança

O caso Madeleine McCann

O sumiço de uma criança loura e linda, filha de um casal elegante e fino, crente e culto, fez correr rios de tinta nos jornais de todo o mundo. Quilómetros de película ocuparam batalhões de fotógrafos e as imagens do casal circularam pelos mais importantes canais televisivos do planeta e percorreram a Internet, com a foto da criança sempre presente.

Enquanto morreram de inanição, doenças e vítimas de guerras centenas de milhares de crianças sujas e famintas, no mais escandaloso silêncio e na mais vil indiferença, o casal McCann guardava as chaves da igreja da paróquia da Luz, e tinha amigos do peito e da missa ávidos de rezarem com ele as orações que a devoção e a ansiedade impunham.

A fé tem um enorme tropismo para as câmaras de televisão. O Papa, sempre atento às desgraças do mundo, recebeu o casal e abençoou a foto da filha ausente num gesto que os crentes tomaram como auspicioso.

O Espírito Santo, uma ave que é assessora do papa no departamento da infalibilidade, devia estar de baixa e, em vez de iluminar a mente do pastor alemão, deixou-o à solta a ampliar a ansiedade mundial e o proselitismo da Igreja católica.

Não se sabe o desfecho da investigação policial mas, presumindo-se ainda a inocência do casal McCan, já a multidão que levava flores e rezava aflita por Madeleine passou a vaiar os pais como se uma sentença transitada os tivesse condenado. E o Vaticano, na sua milenar sabedoria, mandou retirar as referências ao caso Madeleine do seu site oficial.