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Carlos Esperança

30 de Novembro, 2007 Carlos Esperança

Diário Ateísta – 4.º Aniversário

O Diário Ateísta é o projecto conseguido de uns ateus fartos do poder do clero romano, de Governos que se ajoelham e de pessoas habituadas a viver de rastos. Não se poderá dizer que tenhamos privilegiado algumas religiões em relação a outras. Todas são más, todas trazem o veneno da superstição e da mentira e o vírus do proselitismo.

Nestes últimos quatro anos morreram milhões de pessoas vítimas de ódios religiosos e do fanatismo dos clérigos que acicatam os instintos primários de crentes fanatizados. Ninguém foi chacinado por ateus ou agnósticos, pelo menos nessa qualidade, mas foram muitos os que morreram às mãos daqueles a quem disseram que matar infiéis agradava ao seu deus e espalhar a fé era uma obrigação.

Os protestantes evangélicos encontraram em Bush o homem que fala directamente com Deus e que se deixa enganar pelo pantomineiro. Os judeus ortodoxos continuam a enrolar as trancinhas e a sonhar com o expansionismo sionista. Os muçulmanos matam a troco de 72 virgens que julgam de burka despida à sua espera no Paraíso. Os padres romanos, dirigidos pelo capataz do Vaticano, andam em cruzadas contra o divórcio, a IVG, o uso do preservativo e a pretenderem conquistar o poder político.

Nos países onde o clero foi remetido para as sacristias não há guerras religiosas. Não se é perseguido por recitar o terço, ir à missa, rezar virado para Meca ou ser encontrado a tentar derrubar à cabeçada o Muro das Lamentações.

Nos países onde a vontade de Deus se sobrepõe à dos homens decapitam-se pessoas, lapidam-se mulheres, amputam-se membros e o medo e a violência são as armas que mantêm os regimes de terror teocrático na coutada de tal Deus.

É contra o obscurantismo religioso, o fanatismo, o embuste dos milagres e o fabrico de santos que o DA, dia após dia, ridiculariza, acusa e blasfema. É na defesa da Declaração Universal dos Direitos do Homem que se esforça por manter um espaço que é trincheira contra o fundamentalismo que ressurge pela mão dos clérigos e se espalha por contágio dos beatos que nascem como cogumelos nas noites frias e húmidas de Novembro.

Vamos continuar, para gáudio de brasileiros e portugueses que nos visitam, mais de um milhar todos os dias, em peregrinação laica a este espaço não infectado por Deus.

28 de Novembro, 2007 Carlos Esperança

A morte do Miguel

Dia 27 de Junho o Miguel teve o seu funeral. Caíra no Sábado anterior quando saía do casebre. Quebrou o fémur e ganhou um hematoma na cabeça. Transportado ao hospital faleceu no dia seguinte.

O funeral foi na terça-feira. O Miguel teve missa, flores que os amigos lhe levaram e os responsos canónicos antes de baixar à cova. Já não o acompanharam os pais e avós, que partiram antes, mas estavam lá os amigos que com ele jogaram à bola na Praceta, quando companheiros da escola primária onde começou e terminou os estudos.

Para os que acusam os jovens de egoísmo foi tocante ver os que vieram de longe, alguns bem instalados na vida, outros à procura de uma oportunidade. E eram muitos.

O Miguel é que não teve vaga. Não conheceu o pai, falecido quando ele ainda não tinha dois anos. A mãe esqueceu-o na amnésia da droga e não o recordou quando partiu sob o efeito de uma dose reforçada.

Os avós recolheram-no. Partiu primeiro a avó e não se demorou o avô. O Miguel ficou aos baldões da sorte, ao abandono, não lhe faltando os pontapés da vida nem a companhia de outros desgraçados.

Tinha 31 anos e mantinha os olhos de criança no rosto já cansado. Passou fugazmente por várias drogas mas foi no álcool que se fixou, em doses cada vez mais vastas. Se os amigos o saudavam, sorria com gratidão. E não deixou que lhe virassem as costas, foi-se afastando entre carros que arrumava e garrafas de cerveja que consumia.

Ainda teve tempo para fazer um filho. Foi amado. A mulher quis levá-lo para o cuidar, mas não quis ser fardo. Andou por aí, sem querer ser pesado, sem se queixar, a desfazer o fígado e a vida, a acelerar para o fim, com um sorriso que guardou para os amigos.

Na morte teve a mulher que o amou, vestida de preto, e muita gente: um arrumador no intervalo da ressaca, o director de um estabelecimento do ensino superior, o dono do café, jovens que após os cursos foram pela vida mas voltaram à Praceta para dizer adeus ao Miguel e lhe levar as primeiras flores que recebeu. E todos nos sentimos tristes com vergonha de sermos felizes.

Chamava-se Luís Miguel Neves Caldeira, de seu nome. Era tudo o que tinha com a roupa que trazia e um velho rádio de que fez testamento oral. Dele só resta o rádio e o raio da nossa incapacidade para criar um mundo mais justo.

Vi o edital que anunciava a missa do 7.º dia para as 18H30, seis dias após a morte, pois o 7.º dia é quando um padre puder. Talvez a missa fosse pela remissão dos pecados de Deus. Para que outra coisa poderia servir?

Jornal do Fundão29-11-2007

27 de Novembro, 2007 Carlos Esperança

Apelo ao créus impertinentes

Andam por aqui uns crentes a ruminar ódio e espalhar lixo pelas caixas de comentários. Pela desenvoltura com que se exprimem não são solípedes que relincham ou asnos que zurram, são apenas lacaios do divino à cata de indulgências com a mesma sofreguidão com que os cavalos aguardam a ração de aveia.

Não se pode esperar muito de quem acredita em milagres e não se envergonha do Papa que beatifica carrascos, quiçá por engano, depois de o Espírito Santo se ter expatriado do Vaticano, farto de sotainas e escândalos.

Uma das mais interessantes decisões do ditador de serviço foi a extinção do Limbo, um destino das almas criado por um antecessor igualmente infalível e mais crente.

Já alguém pensou nos problemas logísticos de transferir as almas anteriores à criação da seita e as dos não baptizados nos últimos dois mil anos? E no trabalho da comissão liquidatária a quem cabe acertar as contas da água, da luz e do gás, depois de pagar à agência de transportes, por tantas almas, algumas em péssimo estado de conservação?

O Vaticano é um antro de surpresas com jagunços espalhados pelo mundo. Alguns vêm aqui ao Diário Ateísta, cuspir padres-nossos e babarem restos de hóstias que vazam pela comissura dos beiços como velhas azémolas que perdem os restos da ração.

Vão rezar novenas e, como são crentes, peçam ao vosso Deus pela sensatez do Papa. E não debitem lixo num local onde os ateus gostam de se encontrar.

25 de Novembro, 2007 Carlos Esperança

As religiões defendem a paz

Não há conflito de religiões, como se apregoa, há, sim, conflitos entre as religiões e a civilização, entre a fé e a modernidade, entre os dogmas e a razão.

As religiões do livro são plágios sucessivos a que mudaram os feriados e aumentaram a intolerância. Não é o espírito religioso que evita a crueldade ou impede o crime. Pelo contrário, é a obediência aos livros sagrados que transforma a fé em ódio, a piedade em raiva e a devoção em vontade de extermínio, enquanto os Estados modernos têm uma complacência para com os crimes religiosos ausente para outros de causas diferentes.

Um leitor ateu fica estarrecido quando lê o Deuteronómio ou o Levítico e vê aí prescrita a pena de morte para casos de adultério, para quem apanhe lenha durante o Sábado ou por refilar com os pais. É difícil imaginar um crápula mais detestável do que o Deus que os homens criaram nas páginas do Antigo Testamento – cruel, vingativo e violento.

Os cristãos não se cansam de louvar o bom Josué, da batalha de Jericó, que só descansou quando «passaram ao fio da espada quanto nela encontraram, homens e mulheres, crianças e velhos, e os bois, as ovelhas e os jumentos» (Josué 6:21). Nem a morte dos inocentes jumentos os indigna!

Os trogloditas do Islão e os cristãos evangélicos dos EUA aceitam que merecem a pena de morte os adúlteros, os que amaldiçoam os pais, os que têm relações com a madrasta ou com a nora, ou com animais (neste caso nem a vida dos animais deve ser poupada) ou que desposem uma mulher mais a filha (sempre o raio do sexo) e, pior ainda, os que trabalham ao 7.º dia. O Levítico é para ser levado a sério e não permite relaxações.

Esta gente é para ser levada a sério? Perguntem a clérigos de todas as religiões que castigo pensam que a apostasia merece e, depois, reflictam sobre a crueldade de que são capazes para impedir um direito inalienável.

24 de Novembro, 2007 Carlos Esperança

ICAR com 23 novos cardeais

O aviário do Freixial cria frangos, o Vaticano cria cardeais. Cada indústria cria os seus produtos a fim de satisfazer os gostos da clientela. Na Covilhã fabricam-se tecidos, em Gondomar artefactos de ouro e móveis em Paços de Ferreira, mas cardeais só o Papa os pode criar.

Já os santos são mais fáceis de fabricar. Das Caldas da Rainha ao Vaticano há muitas oficinas onde se esculpem com mais rigor e honestidade do que no bairro das sotainas. Dos santos das Caldas até eu gosto, pela saudável irreverência dos artesãos e pela boa disposição que os canonizados de barro transmitem aos fregueses das olarias.

Amanhã, todavia, é de cardeais a criação a que se dedica B16. O consistório deste fim-de-semana é destinado à criação de 23 cardeais. Podia criar mais um, pois sempre ouvi dizer que à dúzia é mais barato. Os bispos perdem facilmente a cabeça pelo barrete cardinalício e o Papa aproveita para escolher os apaniguados que perpetuem a forma de enganar o mundo.

Não se pense que é com a coluna vertebral direita que os novos purpurados recebem das mãos do Papa o respectivo barrete. É de joelhos, como soe acontecer com quem troca a honra pela crença. Aliás, nas Igrejas, é de joelhos ou de rastos que os homens perdem a dignidade e ganham as honrarias. Os próximos cardeais, que hoje recebem o barrete, têm amanhã, domingo, direito ao anel cardinalício.