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Mês: Julho 2006

10 de Julho, 2006 Ricardo Alves

Religião e terrorismo

Fez na sexta-feira um ano que quatro bombistas suicidas mataram 52 pessoas em Londres. Nesse 7 de Julho de 2005, foi divulgado um comunicado de proveniência pouco clara em que uma «Organização Secreta da Al-Qaeda na Europa» se vangloriava pela «vingança contra o governo cruzado e sionista britânico em retaliação contra os massacres que a Grã-Bretanha está a cometer no Iraque e no Afeganistão». Esse comunicado começava «Em nome de Deus…» e terminava com uma citação do Corão.

Posteriormente, foi divulgado em Setembro um vídeo em que Sidique Khan (o líder dos bombistas do 7 de Julho), clarificava que «a nossa motivação principal não vem das comodidades tangíveis que este mundo tem para oferecer. A nossa religião é o Islão, obediência ao único Deus verdadeiro, Alá, e seguir no caminho do profeta final e seu mensageiro, Maomé».

Mais recentemente, a Al-Qaeda reclamou explicitamente a autoria dos atentados de 7 de Julho, num vídeo em que Al-Zawahiri afirma que Shehzad Tanweer e Sadique Khan receberam treino com explosivos em campos da Al-Qaeda. Os objectivos da Al-Qaeda são globalmente religiosos: conseguir que os EUA retirem da Arábia Saudita (por causa dos «lugares santos» de Meca e Medina), esmagar Israel (por ser um Estado judaico mantido «com apoio de Cruzados») e derrubar os regimes árabes que não sejam suficientemente islâmicos.

E no entanto, apesar de toda a evidência de que os terroristas do 7 de Julho, como anteriormente os do 11 de Março e os do 11 de Setembro, como outros islamistas que partilham da ideologia integrista da Irmandade Muçulmana, são todos homens profundamente religiosos que dificilmente matariam se não estivessem convencidos de que existe justificação religiosa para os seus actos, a maior parte da opinião pública persiste em negar a dimensão religiosa quer dessa ideologia integrista quer desses actos terroristas. Essa visão angélica da religião, que resiste a aceitar que se mate acreditando cumprir um dever religioso, é incongruente com uma Europa que sofreu séculos de guerras religiosas, contou milhões de mortos nas inquisições, iniciou Cruzadas e também teve os seus terroristas religiosamente justificados.

A utilização de uma ideologia religiosa para fomentar o ódio de grupo e convencer a matar é, porém, uma constante da história da humanidade. Compreende-se que assim seja: as religiões reveladas autorizam os crentes a imaginarem-se num plano ético superior aos seus semelhantes, e criam a ilusão de que estão integrados numa «ordem cósmica» unindo o natural e o sobrenatural, a vida e a morte, o passado e o futuro. Quando vividas em comunidade, podem até tornar «glorioso» o sacrifício do indivíduo a favor do grupo. A religião pode assim desculpabilizar aquilo que a maioria das pessoas, e até a maioria dos crentes, consideraria, noutras circunstâncias, repulsivo.
10 de Julho, 2006 Palmira Silva

Mais leituras de Verão

The Popes Against the Jews: The Vatican’s Role in the Rise of Modern Anti-Semitism , do historiador David I. Kertzer, duas vezes galardoado com o Prémio Marraro da Sociedade para Estudos Históricos Italianos.

Depois do The Catholic Church and the Holocaust, 1930-1965, de Michael Phayer, um livro de outro historiador mundialmente reconhecido que analisa a acção da Igreja durante e após o Holocausto, este livro é essencial para se perceber como ele foi possível. Ambos especialmente recomendados como antídoto para os revisionismos históricos da ICAR. Uma análise isenta dos acontecimentos por um dos poucos historiadores não ligados à Igreja Católica a quem foi concedida autorização para consultar os arquivos da Inquisição.

Um excerto do livro:

«Este argumento [referindo-se às mentiras descaradas constantes no «Nós lembramos – uma reflexão sobre o Shoah»] , infelizmente, não é o produto de uma Igreja que quer confrontar a sua história. Se os judeus adquiriram direitos iguais na Europa dos séculos XVIII e XIX tal foi conseguido contra os furiosos, estridentes e de facto indignados protestos da Igreja e do Vaticano. (…)

O Padre De Rosa nota com pena a campanha de um século contra os judeus do jornal Civilta cattolica observando que o jornal só alterou o rumo em 1965, na sequência do Concílio Vaticano II. (…) Ele então lista algumas das acusações feitas regularmente nas páginas do jornal: «que os judeus combatiam a Igreja, que praticavam o assassínio ritual de crianças cristãs, que tinham um poder político enorme nas mãos ao ponto de controlarem governos e, acima de tudo, que possuíam uma enorme riqueza, obtido por usura, e tinham assim uma inacreditavelmente forte influência económica, que usavam em detrimento do cristianismo e dos cristãos». O padre De Rosa acrescenta, com muita correcção, que o jornal jesuíta não estava sózinho na produção destas acusações porque elas enchiam as páginas de muitas das principais publicações católicas.

De forma a ilustrar o anti-judaísmo do Civilta cattolica (por oposição ao anti-semitismo [um sofisma da Igreja Católica, que pretende nunca ter sido anti-semita, apenas anti-judaica]) ele mostra algumas passagens de artigos do jornal da autoria dos padres Rondina e Ballerini nos anos 1890. Estes contam histórias da apetência dos judeus pelo domínio do mundo, a sua fome de ouro, e a sua crença de que os cristãos não eram melhores que animais. Onde quer que os judeus vivessem, nas palavras destes autores, elas ‘formam uma nação estrangeira e juram inimizade ao bem estar das pessoas’. O que deviam os bons católicos fazer a esta terrível ameaça à sua vida e felicidade? A resposta oferecida nas páginas do Civilta cattolica era clara: A igualdade civil dos judeus devia ser imediatamente revogada, porque ‘eles não tinham algum direito a ela’ permanecendo para sempre ‘estrangeiros em todos os países, inimigos do povo de qualquer país que condescenda em os albergar’».

Aliás, como nota o autor nesta introdução, forçar os judeus a usar tarjetas de identificação amarelas e mantê-los fechados em ghettos não é uma invenção dos nazis no século XX mas uma política advogada pelos Papas – e seguida religiosamente nos estados papais e em alguns países mais obedientes ao Papa – durante centenas de anos.

9 de Julho, 2006 Palmira Silva

O rapto de Edgardo Mortara

A recente preocupação da Igreja de Roma com a família, que se tornou a desculpa para as manobras jurássicas de recuperação do integrismo perdido, de que este Encontro das Famílias foi palco privilegiado, seria no mínimo bizarra não fora ser evidente qua a Cúria Romana se está nas tintas para a família e que este é apenas um tema populista com que podem acirrar as hostes ululantes de fundamentalistas católicos.

De facto, se olharmos mesmo para a história recente da ICAR não encontramos esta preocupação com a defesa da família. Assim de repente lembro-me da criança judaica de 6 anos, Edgardo Mortara, que foi removida à força pela polícia papal da tutela dos seus pais numa Bolonha à época – 1858 – integrante dos Estados Pontíficios.

Os inquisidores que ordenaram o rapto da criança usaram o pretexto de que esta tinha sido baptizada in extremis por uma criada. Segundo as leis estabelecidas pelos Papas, que governavam de facto metade da Itália, era proibido judeus criarem crianças baptizadas. Apesar de raptos de crianças judias supostamente baptizadas por graça de um qualquer católico anónimo ser uma prática recorrente da Igreja-Estado, desta vez o caso teve repercussões internacionais dada a atmosfera de rebelião contra o poder temporal ditatorial da Igreja em Itália.

Assim, cerca de 20 editoriais do The New York Times foram devotados ao tema e quer o imperador Franz Joseph da Áustria quer Napoleão III de França pediram a Pio IX, beatificado em 2000 por João Paulo II* e o tal que inventou o dogma da infalibilidade papal, que devolvesse a criança aos pais.

Todos os apelos, inclusive dos pais que protestavam ser impossível o seu filho ter sido baptizado, foram infrutíferos: Pio Nono enclausurou Edgardo num mosteiro onde, ao fim de anos de lavagem cerebral, acabou por ser ordenado padre.

Para ser mais correcta os apelos dos pais tiveram alguma reacção do Vaticano: foi-lhes respondido que teriam o filho de volta no instante em que se convertessem ao catolicismo. Ao que os Mortara se recusaram e como tal o beato Pio Nono considerou que foram eles e a sua obstinação em «fechar o coração» à revelação e piedade cristãs os responsáveis por não terem recuperado o filho.

Ironicamente o rapto de Edgardo foi um factor não despiciendo no processo de unificação da Itália, o Risorgimento, que ditou o fim do poder temporal da Igreja de Roma. De facto, o destino desta criança, arrancada dos braços dos pais por uma Igreja anti-semita e déspota, simbolizou toda a campanha revolucionária de Mazzini e Garibaldi para acabar com o domínio da Igreja Católica, tirar a Itália das teias do obscurantismo e estabelecer um estado moderno, democrático e laico.

Mais recentemente, na altura em que João Paulo II, que já tinha beatificado um facínora do Holocausto, o cardeal Stepinac que ainda voltarei a abordar, pretendia beatificar Pio XII, foi divulgado – pelo historiador Alberto Melloni, professor de história religiosa da Universidade de Bolonha e um dos maiores especialistas mundiais em história cristã – que Pio XII terá ordenado à Igreja Católica francesa que não devolvesse aos seus pais ou a instituições judaicas as crianças judias baptizadas durante a ocupação nazi.

A história completa, assim como uma tradução do documento comprovativo das ordens de Pio XII pode ser encontrada no excelente Rua da Judiaria.

* O beato Pio IX é o fazedor de um dos santos mais representativos da Igreja de Roma: um dos inquisidores mais tristemente famosos de Espanha, Pedro Arbues de Epilae, apenas ultrapassado no zelo e na «eficácia» por Torquemada.

Um dos teólogos liberais da época, Johann von Dollinger, protestou aquilo que considerou a «exaltação de um homem que determinou o baptismo compulsório de judeus e depois os torturava para se convencer que as conversões eram sinceras».

Dollinger, que considerava ser a Inquisição a mola impulsionadora do domínio mundano da Igreja e do seu poder sem limites sobre as vidas e propriedades dos homens, associava o anti-semitismo da Igreja com o poder temporal coercivo do papado e com o pretensão da Igreja que apenas ela era a detentora da «verdade absoluta». O Sílabo dos Erros e o decreto da infalibilidade papal, que não aceitou e foi por isso excomungado, foram o corolário das suas teses.

9 de Julho, 2006 Carlos Esperança

Navarro-Valls uivou contra Zapatero

O porta-voz do último teocrata europeu, Navarro-Valls, membro do Opus Dei, ululou azedume e raiva contra o legítimo primeiro-ministro de Espanha.

A anunciada ausência de Zapatero à missa, desporto que não pratica, serviu de pretexto para a ameaça, intriga e denúncia do serventuário de B16 cuja ingerência num país que julgava protectorado seu é um acto de incivilidade, ódio e provocação.

B16 foi em viagem de negócios presidir a um comício organizado pelo Partido Popular, Opus Dei e outros grupos religiosos de extrema-direita – 5.º Encontro Mundial das Famílias -, um acto de proselitismo inventado por um dos seus antecessores.

Esqueceu-se que Zapatero é um homem digno que não se ajoelha e, muito menos, se põe de rastos. Não compreendeu o enraivecido pastor alemão que já não é a ditadura de Franco que governa Espanha, em idílio com o Vaticano e em guerra com a democracia.
Desta vez ficou claro que a Espanha não aceita intromissões beatas na sua política interna.

9 de Julho, 2006 Palmira Silva

Bento XVI : guerra aberta em Espanha

Poster retirado do blog de um dos nossos leitores galegos


Por definição, toda religião – toda fé – é intolerante, pois proclama uma verdade que não pode conviver pacificamente com outras que a negam.
Mario Vargas Llosa

A deslocação em massa das cúpulas do Vaticano – vários Cardeais da Cúria Romana e de muitos dos mais próximos colaboradores de Bento XVI – ao V Encontro Mundial das Famílias organizado pela ICAR confirma o que a imprensa católica pretende ser mentira: esta é uma visita política cuja fim último é aumentar a tensão entre Igreja e Estado e demonstrar claramente a oposição da Igreja ao estado de direito.

Aliás, o título de uma das notícias da Agência Ecclesia não deixa dúvidas sobre o objectivo desta visita papal: «Bispos espanhóis recebem apoio de Bento XVI na luta contra a secularização».

Desde a sua eleição que Zapatero deixou claro que pretende ser o líder de um país europeu do século XXI, cada vez mais secular e para tal é necessário que a Igreja abdique dos (muitos) privilégios na sociedade e na política espanhola que a ditadura fascista lhe concedeu. Como seria expectável, a Igreja Católica não quer abdicar desse privilégios anacrónicos e esta visita é uma demonstração de força que, como no passado, indica que a Igreja não olhará a meios para os manter.

De facto, pouco depois de se ter esboçado, em Julho de 1936, uma rebelião contra o governo democraticamente eleito da Frente Popular, Pio XI exortou os católicos espanhóis a lutarem lado a lado com Franco na «difícil e perigosa tarefa de defender e restaurar os direitos e a honra de Deus e da Religião».

A Igreja de Espanha declarou-se imediata e entusiasticamente do lado de Franco, nomeadamente através da pastoral «Las dos ciudades» do bispo de Salamanca, Enrique Pla y Deniel (nomeado cardeal por Pio XII em 1946, sem dúvida em reconhecimento pelos bons serviços prestados), datada de Setembro de 1936.

Uma rebelião sem pernas para andar, com o apoio da Igreja Católica e do Vaticano, de Mussolini e de Hitler, transformou-se na Guerra Civil Espanhola que causou um milhão de vítimas e o exílio de centenas de milhares de espanhóis.

As exortações do Arcebispo de Burgos, Francisco Gil Hellín, contra os «bezerros do poder», e o apelo às famílias cristãs para que não releguem «ao baú das memórias» a recomendação de João Paulo II para que «se for preciso ir às ruas em defesa do matrimônio e da família, teremos que ir» (ênfase da Agência Católica de Imprensa na América Latina) são um aviso para uma guerra aberta que não pode passar despercebido!

Assim como não são exactamente pacíficas as acusações do secretário da Conferência Episcopal Espanhola, Juan Antonio Martínez Camino, contra a disciplina de Educação para a Cidadania, que, contrariamente ao que se passa com a Educação e (I)moral Católicas, vai ser obrigatória para todos os níveis de educação. Ou as suas prelecções contra as iníquias leis espanholas que a ICAR considera «sectárias» e que «não favorecem a liberdade verdadeira nem o exercício da liberdade religiosa contemplada na Constituição» (aparentemente os dignitários espanhóis consideram que liberdade religiosa significa impôr a todos as barbaridades debitadas pelo Vaticano).

E as declarações do sucessor de Ratzinger à frente da ex-Inquisção, o cardeal Levada, são igualmente preocupantes. O prelado apela à desobediência civil, uma prática recorrente da ICAR, contra as leis humanas e as decisões judiciais que são contrárias «à lei de Deus». Este responsável lembrou que os cidadãos têm a obrigação de «não seguir as prescrições das autoridades civis» quando tal for contra os ditames do Vaticano.

As conclusões provisórias do Congresso -que entre outras pérolas perora contra as campanhas em favor da contracepção (!) – indicam que a guerra aberta do Vaticano contra a laicidade e modernidade não se vai circunscrever a Espanha, já que ululando contra «um laicismo de raiz niilista e relativista», o documento critica a «falsa (?) concepção da sexualidade humana e da laicidade do Estado» subjacente à resolução do Parlamento Europeu que pretende acabar no espaço europeu com a discriminação com base na opção sexual.

Os direitos humano, a tolerância, a pluralidade, a liberdade de expressão, opinião e religião, em suma os valores em que assentam a cultura democrática europeia, cultura, execrada por Bento XVI, que de facto «exalta a liberdade do indivíduo», estão sob ataque cerrado dos fundamentalistas católicos!

9 de Julho, 2006 Carlos Esperança

B16 em Espanha

B16 afirmou, em Valência, que a família é uma «instituição insubstituível nos planos de Deus» e que a Igreja não pode deixar de «promover» os valores da instituição familiar, «para que sejam sempre vividos com sentido de responsabilidade e alegria».

Que sabe o eterno celibatário sobre a matéria? Enquanto os pais mudam as fraldas aos filhos os clérigos andam no negócio da fé e na aprendizagem da vontade de Deus, atrás de uma carreira profissional que B16 percorreu até ao cume.

O Papa, a quem o múnus impediu de constituir família, julga-se perito em matrimónio e bons costumes e no direito de impor as suas concepções sobre a matéria.

A presença do velho inquisidor no país dos Reis Católicos é já uma afronta ao espírito progressista do actual Governo e á democracia que a sua Igreja estorvou enquanto pôde.

O moralismo do teocrata terá de ser visto como uma censura velada à princesa Letícia que levou para a família real um casamento civil e um divórcio anteriores.

Não pode deixar de se considerar um gesto descortês a reincidência num tema que os reis de Espanha já digeriram, vindo de um hóspede a quem a educação e o respeito exigiam outra conduta.

Ao considerar-se o representante de Deus na Terra, B16 transforma um ser inexistente num biltre malcriado capaz de afrontar o Chefe de Estado de um país democrático e um provocador contra as decisões do primeiro-ministro.

B16 devia manter-se no antro para onde emigrou e reduzir o despotismo aos 44 hectares sob a sua tutela.

9 de Julho, 2006 jvasco

Ainda a IURD


Ainda a IURD, sempre a lucrar, enganando os crédulos.

Desta vez, existe quem contra-ataque, mas cabe aos tribunais decidirem se a IURD fica impune.

8 de Julho, 2006 Palmira Silva

Presunção e Bento XVI

Bento XVI não perdeu os tiques inquisitoriais que os anos passados à frente do ex-Santo Ofício lhe imprimiram. Esses tiques associados ao poder absoluto do papado resultaram num ditador autista e petulante.

Assim, e contrariando as expectativas do Carlos que escrevia ontem «Não repetirá a deselegância com que recebeu o embaixador espanhol e não vai faltar ao respeito devido a quem exerce o poder por mandato popular», Bento XVI cometeu uma gaffe imperdoável ao criticar o chefe do governo espanhol, o Zapatero que está a libertar a Espanha das garras opressoras e obscurantistas da ICAR, por este não ir assistir à missa que encerra o «Encontro Mundial das Famílias» organizado em Valência pela Igreja Católica.

De facto, não se percebem as críticas, nomeadamente as declarações ao jornal Corriere della Sera do cardeal italiano Mario Francesco Pompedda, membro da Cúria Romana, que qualificou de «acto de laicismo excessivo» a decisão de Zapatero.

Pensava eu que uma missa era suposta ser a forma de os crentes «comungarem» com a sua mitologia, ora se Zapatero não é um crente que cargas de água faria numa missa? Como é que não ir à missa pode ser qualificado como «laicismo excessivo»? Será que finalmente o Vaticano admite que as missas são apenas comícios políticos, destinados a perpetuar o poder do Vaticano? Ou será que o Vaticano se acha no direito de impôr a todos o catolicismo e merecedora de crítica a opção arreligiosa de alguém?

Por outro lado, a decisão de Zapatero em fazer representar o Governo espanhol na missa pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Miguel Angel Moratinos e pelo ministro da Justiça, Juan Fernando Lopez Aguilar, encarregue das relações entre o Estado e a Igreja, é de uma ironia e requinte de humor que certamente passou ao lado dos dignitários católicos…

De realçar igualmente a intervenção do Arcebispo de Burgos, Francisco Gil Hellín, que aproveitou o evento para ulular contra os «bezerros do poder» – subentendendo-se pelo teor da carpição que o prelado se referia ao governo de Zapatero – que vão «contra a lei natural» nomeadamente ao «modificar e enfraquecer a comunhão do homem e mulher» facilitando o divórcio e a contracepção.

O dignitário católico relembrou as palavras de João Paulo II «se for preciso ir às ruas em defesa do matrimónio e da família, teremos que ir» para advertir que a Igreja Católica não olha a meios para impôr a todos a sua (i)moralidade anacrónica!

8 de Julho, 2006 Palmira Silva

Leitura de Verão

The Catholic Church and the Holocaust, 1930-1965, do historiador Michael Phayer. A capa é a reprodução de um quadro do sobrevivente do Holocausto, Fritz Hirschberger.

Michael Phayer escreveu alguns artigos para o «Holocaust and Genocide Studies», publicado pela Oxford University Press em associação com o United States Holocaust Memorial Museum. Destaco um artigo deste autor publicado no Volume 12, Nº 2, (1998), páginas 233-256 intitulado «Pope Pius XII, The Holocaust, and the Cold War».

Alguns excertos do artigo:

«Questões acerca da liderança moral de Pio XII vieram a lume pouco depois da sua morte em 1958. Estas questões iniciaram-se com as declarações de bispos alemães na altura do julgamento sensacional de Adolf Eichmann em Jerusálem e nas vésperas do concílio Vaticano II em 1960. Julius Doepfner, cardeal de Munique, falou de decisões lamentáveis que foram feitas pelos líderes da Igreja durante a era nazi e os bispos alemães pediram colectivamente desculpa pela inhumana exterminação do povo judeu. (…)

A dificuldade em entender o silêncio de Pio XII em relação ao Holocausto reside no facto de que católicos de todas as posições estavam sempre a lembrá-lo disso. O mais persistente foi Konrad Preysing, bispo de Berlim, que escreveu 13 vezes a Pio XII em apenas 15 meses. Quando Pio XII finalmente respondeu ao seu amigo da era Weimar não era o futuro dos judeus mas o futuro do catolicismo e da Igreja que o preocupava.

E enquanto o Vaticano demonstrou um interesse especial em conseguir libertar os perpetradores do Holocausto, e, como vimos, teve de ser restringido nesse propósito pelo seu enviado, o Bispo Muench, demonstrou pouco ou nenhum interesse na questão da restituição para os sobreviventes do Holocausto. (…)

Se o Holocausto não foi causa suficiente para Pio XII se desligar da Alemanha durante a guerra, não é surpresa que o antisemitismo, a restituição e a aplicação de justiça a criminosos de guerra não fossem as suas prioridades durante a Guerra Fria».

8 de Julho, 2006 Palmira Silva

Igreja Católica e Holocausto: perspectiva judaica

Ao longo da série de posts sobre o Holocausto, em que Pio XII ainda nem sequer foi abordado, a posição pessoal de alguns judeus louvando o Papa é um argumento recorrente utilizado pelos crentes que frequentam estas páginas para tentar, infrutiferamente, defender a versão revisionista da Igreja de Roma sobre a actuação do Vaticano durante a II Guerra Mundial, especialmente sob o papado do referido Papa. As nossas caixas de comentários foram inundadas com cópias repetidas ad nauseam das palavras de judeus proeminentes, Albert Einstein e rabis sortidos entre eles, como se a opinião deles fosse comprovação suficiente de que Pio XII se opôs aguerridamente aos regimes fascista e nazi.

Nenhum dos referidos judeus é um historiador, muitos dos testemunhos que são citados são-no de sobreviventes do Holocausto que foram salvos por católicos. Como escrevi logo na primeira série sobre o tema, o envolvimento do Vaticano com os nazis e seus regimes satélites não nega o facto de que muitos católicos, padres, freiras ou simples leigos, combateram heroicamente os nazis e foram solidários com os judeus e outros perseguidos.

Aliás, se considerarmos que quer a Alemanha – nomeadamente o Sul, o Norte era maioritarimente protestante – quer esses regimes satélites eram países católicos tal era apenas expectável: muitos são os crentes que desde os primórdios do cristianismo não seguem acefala e acriticamente os ditames das hieraraquias religiosas se esses ditames vão contra as suas consciências. E os posts analisam não as posições individuais de católicos mas sim a posição das cúpulas. E é inegável que a actuação das cúpulas da hierarquia católica, nesses países satélites e não só, do Vaticano, de Pio XI e especialmente de Pio XII, o Papa nazi para muitos, é matéria que incomodou e incomoda muitos crentes.

Compreendo que seja difícil reconhecer as culpas e os erros da hierarquia católica para um crente numa religião em que acima da razão e da crítica deve estar a obediência a Deus e aos seus «representantes» na Terra, mas factos são factos e negar e reescrever a História não é a solução para esse incómodo.

Há muitos anos, ainda era eu estudante de licenciatura, tive oportunidade de conhecer um ateu fascinante, sobrevivente dos ghettos e dos campos de trabalho da sua Polónia natal, Roald Hoffmann, um químico que colaborava com alguns professores do Técnico. O Roald, com quem mantive correspondência durante uns anos, era fascinante não só pelo seu trabalho pioneiro numa área que hoje em dia é indispensável a qualquer químico, a química teórica, mas igualmente pelo seu eclectismo de saber. Numa das conversas com ele o tema do post foi exactamente o assunto sobre que nos debruçámos.

O Roald e a mãe foram salvos do destino do pai, assassinado pelos nazis, por um ucraniano que os escondeu até ao final da guerra no sotão de uma escola. Apesar de ele ser uma criança à altura, não esquece nem os horrores por que passou nem a dívida de gratidão para com o seu salvador. O horror desse tempo escondido num exíguo sotão nunca o abandonou, horror exponenciado pela falta de informação, pela incerteza de um quotidiano tornado possível por um único homem, o centro da vida deles durante esse tempo, quasi um Deus omnipotente que podia ditar a sua sentença de morte com uma simples palavra.

Segundo o Roald, um ateu para quem a tradição judaica é importante exactamente por ser um sobrevivente do Holocausto, toda a objectividade para analisar as escassas informações disponíveis à época desapareceu dos sobreviventes face aos horrores da sua vivência e à gratidão por terem sido salvos. Por outro lado, durante o Holocausto, todos os rumores ou boatos que alimentassem a esperança, vindos de que quadrante viessem, eram aumentados e acarinhados em cada transmissão. Por isso, segundo ele, para um sobrevivente era difícil distinguir realidade de ficção especialmente se essa ficção fosse alimentada pelos seus salvadores.

Sendo assim, não é de espantar que muitos relatos de judeus sobreviventes ao Holocausto pela mercê da consciência humanista de católicos estejam tingidos pelos respectivos ordálios e vivências pessoais. Por outro lado, os rumores das tentativas de intervenção da hierarquia católica em favor dos judeus baptizados assim como os boatos (falsos) acerca de intervenções em favor dos judeus franceses causaram demonstrações de agradecimento por parte de lideres judaicos, verdadeiros disparates, como relata o historiador do Holocausto Avraham Milgram*, que atribuiram erroneamente a Pio XII feitos jamais por ele realizados.

Imagem errónea alimentada igualmente pelo facto de que a partir de finais de 1942, depois de ter sido informado pelos aliados que estes pretendiam uma vitória total contra os nazis e se tornou evidente que o conseguiriam, Pio XII decidiu que seria politicamente vantajoso para a hierarquia católica na Alemanha começar a insurgir-se, debilmente, em público contra o massacre de judeus.

Imagem errónea explorada pelo Vaticano no documento de 1998 – Nós lembramos – uma reflexão sobre o Shoah, em que são atribuídas a Pio XII as acções individuais de católicos que salvaram judeus : «[Pio XII] pessoalmente ou através dos seus representantes salvou centenas de milhares de judeus». A esmagadora maioria dos historiadores judeus não engoliu esta tentativa de lavagem da História nem de lavagem da imagem de Pio XII. As cartas individuais de agradecimento a Pio XII de judeus salvos por católicos, escritas a «quente» imediatamente após a derrota nazi, abundantemente citadas ao longo do referido documento, não são aceites pelos historiadores como provas testemunhais objectivas pelas razões que expus.

Na realidade, Pio XII pouco ou nada fez para salvar os judeus e pouco sucesso teve no auxílio a judeus baptizados, considerados membros efectivos da Igreja Católica. As tentativas de obtenção de vistos para a América Latina, católica e fora do conflito, para os católicos não arianos da Alemanha foram infrutíferas devido aos sentimentos anti-semitas da esmagadora maioria dos núncios apostólicos destes países, especialmente os do Chile e Bolívia.

Avraham Milgram Os judeus do Vaticano. A tentativa de salvação de católicos – não-arianos – da Alemanha ao Brasil através do Vaticano (1939-1942). São Paulo, Imago, 1994.