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12 de Fevereiro, 2008 Carlos Esperança

EMENTA: Costela de santa com procissão

Para festejar os 150 anos da aparição de Lourdes, uma procissão percorreu a Via da Conciliação, que une Roma ao Vaticano, até a Basílica de São Pedro para ali depositar uma costela de Bernardette Sobirous, a garota que aos 14 anos disse ter visto e falado com a Virgem Maria na aldeia francesa de Lourdes.

Nota: No Vaticano não há «defesa do consumidor».

12 de Fevereiro, 2008 Ricardo Alves

César conquista Bruxelas

Soube-se oficiosamente há poucos dias que João César das Neves, também conhecido como «Abominável» ou «Cavaleiro da Pérola Redonda», é o responsável da Comissão Europeia, nomeado por Durão Barroso, para o diálogo com as confissões religiosas.

Como os laicistas tinham alertado atempadamente, o «Tratado de Lisboa» arriscava-se a prever no seu artigo 15º (como todas as suas versões anteriores previam, aliás), que «a União [Europeia] estabelecerá um diálogo aberto, transparente e regular com as referidas igrejas». Ou seja, ao invés de ser uma comunidade política laica, a UE pretende dotar-se de um «departamento» para dar um papel às confissões religiosas nos debates políticos europeus.

Curiosamente, apesar de o tratado ainda não estar aprovado, a Comissão Europeia decidiu desde já «avançar trabalho» e proceder à criação de esta espécie de «assessor/director-geral» para o diálogo com as confissões religiosas. E o feliz nomeado para o lugar é João César das Neves.

11 de Fevereiro, 2008 Ricardo Alves

Clericalismos unidos contra a laicidade

    «O chefe da igreja anglicana afirmou que os muçulmanos que vivem no Reino Unido deviam ter os seus próprios tribunais, pois nem todos se conseguem adaptar ao sistema legal em vigor no país, nomeadamente, em questões de conflitos civis entre casais ou em questões financeiras.» (Rádio Renascença)

As declarações do líder da Igreja Anglicana a favor da introdução da chária no Reino Unido (já comentadas pelo Carlos) só podem surpreender quem ainda não compreendeu que uma das principais clivagens políticas deste início de século não é entre capitalismo e socialismo, esquerda e direita, ou «ocidente» e islão, mas sim entre o laicismo e os vários clericalismos (cristãos e islâmicos), que estão sempre prontos a unir-se para o combate contra um mundo onde a política, a ciência e, em breve, a ética, são cada vez mais áreas onde a religião não conta. No futuro, veremos os clericalismos unidos na defesa de uma sociedade em que cada comunidade confessional tenha as suas regras definidas pelas hierarquias das religiões tradicionais, contra o «reviralho» laicista que insiste em que as regras se definem em parlamentos democráticos onde os dogmas das religiões não entram.

Aquando da crise dos cartunes, esta tendência já fora diagnosticada pelos observadores mais atentos (nomeadamente, o Diário Ateísta). As declarações de Rowan Williams, e as reacções de outros representantes religiosos, demonstram que tinhamos razão.

10 de Fevereiro, 2008 Carlos Esperança

A Turquia e o véu islâmico

Nos estados laicos, sem risco de recidivas teocráticas, é inadmissível e paradoxal usar qualquer proibição para assegurar a liberdade individual. Vão longe os tempos em que as mulheres católicas eram obrigadas a usar véu, na igreja, porque o apóstolo Paulo de Tarso considerou o cabelo e a voz das mulheres coisas obscenas, convicção que teve outro efeito secundário – a castração de jovens para evitar mulheres nos coros sacros.

Surpreende que quem defende o direito ao uso do véu islâmico não reflicta nos motivos da sua proibição por Mustafa Kemal, o Atatürk, fundador da Turquia moderna, e na oposição, aparentemente paradoxal, dos sectores laicos e progressistas.

Em primeiro lugar a exibição pública do adereço é um confronto aberto com a laicidade estimulado pelos sectores clericais cujo proselitismo tem na agenda, logo que Alá o queira, a imposição da Sharia. Alá não se pronunciou mas o apelo das mesquitas fez-se ouvir e levou à emenda constitucional que permitirá às alunas o uso do véu islâmico dentro das universidades.

Não é preciso ser profeta para prever a pressão oriunda da função pública a exigir igual «regalia», sem ter em conta que o véu é um símbolo de opressão da mulher, visto com entusiasmo por homens conservadores e por uma sociedade cuja reislamização não tem parado.

O problema não reside na permissão, surge quando o direito se converter em imposição, os islamitas moderados se tornarem fundamentalistas e o véu for substituído pela burka.

Vital Moreira, sempre tão lúcido e perspicaz, não compreende a proibição e, no campo dos princípios, tem razão, mas quem lê o Corão e reconhece a frenética actividade das madraças não duvida da escalada clerical e dos constrangimentos sociais para fazerem da Turquia laica mais um Estado islâmico com os direitos, liberdades e garantias que o arcanjo Gabriel ditou a Maomé para serem impostos segundo a vontade de Alá.

8 de Fevereiro, 2008 Carlos Esperança

Tolerância e ecumenismo

O arcebispo de Canterbury, Rowan Willians, líder espiritual dos anglicanos de todo o mundo, sugeriu ontem a adopção de alguns aspectos da lei islâmica, a sharia, no Reino Unido.

Quando o mais alto dignitário da Igreja anglicana apela à derrogação do Código Penal do seu País, para o deixar substituir, ainda que parcialmente, pelo exercício da violência teocrática para um grupo étnico específico, não é o respeito pelas culturas alheias que o move, é a vontade de restaurar o direito canónico da sua Igreja.

O Iluminismo e a revolução Francesa substituíram o direito divino pela vontade popular e criaram o Estado de direito contra os costumes ancestrais. Hoje, nas democracias, vale mais a Declaração Universal dos Direitos do Homem do que as verdades reveladas cuja aplicação faria as delícias dos trogloditas da fé.

O arcebispo de Canterbury não é uma piedosa alimária a quem os jejuns perturbem a mente, um beato analfabeto que saia da missa dominical aterrorizado com o juízo final, um solípede alucinado com a falta da ração. A sua insólita sugestão, que fez exultar os mullahs, é mais uma ameaça nascida nas alfurjas das sacristias onde germina a raiva à modernidade e floresce o ódio à liberdade.

Os líderes muçulmanos vieram logo dizer que não apoiam as decapitações, enforcamentos e lapidações, EM PÚBLICO, tão do agrado do Profeta. Contentam-se com a aplicação discreta e com a abolição desse modernismo hediondo que exige a igualdade entre homens e mulheres, uma conquista civilizacional de que Maomé nunca ouviu falar ao arcanjo Gabriel ao longo dos vinte anos que viajaram juntos entre Meca e Medina, até aprender de cor o Corão.

A tolerância manifestada pelo arcebispo anglicano é o mais violento ataque aos direitos, liberdades e garantias que as sociedades democráticas conquistaram. No ano passado o Reino Unido removeu o Holocausto dos currículos escolares porque ofendia os muçulmanos, que afirmam que o Holocausto nunca aconteceu.

Os ataques orquestrados à laicidade debilitam a democracia e comprometem o futuro da paz, perante a cobardia face à escalada da violência religiosa.