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4 de Abril, 2009 Carlos Esperança

O Presidente da República e a canonização de D. Nuno

Quando o Sr. Presidente da República e outros cidadãos que ocupam elevados cargos no Estado aceitam integrar a Comissão de Honra para a canonização de Nuno Álvares Pereira, que vai ter lugar a 26 de Abril, em Roma, põem em causa o Estado laico que é condição essencial da democracia.

Ainda que o façam a título particular, estabelecem a confusão na opinião pública entre as funções de Estado e os actos pios, do foro individual.

Não podem, oficialmente, representar Portugal – um país laico – em cerimónias de uma religião que apenas obriga a convicções particulares e superstições individuais.

É, pois, de crer que as entidades referidas o façam a expensas próprias, discretamente, para não fazerem corar de vergonha os que não sabem distinguir a água benta da outra.

Quem conhece a honradez do Presidente da República sabe que não seria cúmplice de uma farsa e não se prestaria ao acto indigno de pactuar com uma burla. Assim, é de crer que acredita que D. Nuno, cadáver desde a Idade Média, curou o olho esquerdo da D. Guilhermina de Jesus, queimado com salpicos ferventes de óleo de fritar peixe, mas não deve misturar a sua condição de PR com a superstição do crente.

Se a deslocação de Sua Excelência se fizesse na qualidade de PR, os portugueses seriam moralmente obrigados a considerar o olho esquerdo da D. Guilhermina de Jesus como património nacional, D. Nuno como taumaturgo, a crença no milagre como fazendo parte das obrigações constitucionais e o Presidente da República como apóstolo do santo.

O Sr. Presidente da República não sujeitará, certamente, os portugueses a semelhante vexame.

4 de Abril, 2009 Ricardo Alves

Respostas ao «novo» Tony Blair

O ex-primeiro-ministro do Reino Unido, Tony Blair, descobriu-se muito religioso depois de abandonar o cargo. Como ele diz, «a minha fé foi sempre uma parte importante das minhas políticas» (já sabíamos). Blair acrescenta agora que escondeu deliberadamente a sua religiosidade durante a sua permanência no nº10 de Downing Street. Mas o «novo» Blair dedica-se a uma fundação que tem por objectivo promover o diálogo entre as religiões (mas principalmente as abrâamicas), e a mostrar como a religião pode ser «uma força para o bem».

Em resposta ao «novo» Tony Blair, a revista New Statesman organizou um dossiê especial, «Deus 2009». Recomendo em particular as respostas dos ateus Richard Dawkins e Christopher Hitchens. Como recorda Richard Dawkins, este é o mesmo Tony Blair que defendeu uma escola que ensinava que a Terra tem seis mil anos de idade. E, como argumenta Christopher Hitchens, Tony Blair faria melhor em dedicar a sua fundação a: «combater a mutilação genital das crianças de ambos os sexos; combater os casamentos entre menores de idade; fazer campanha pela contracepção; apelar a um édito islâmico contra o bombismo suicida; apelar a uma decisão rabínica contra o roubo de terra não judaica». A religião, nestes e noutros problemas, é parte do problema e não parte da solução.

3 de Abril, 2009 Carlos Esperança

A indústria dos milagres não pára

CIDADE DO VATICANO, Santa Sé (AFP) — Dois novos milagres foram atribuídos nos Estados Unidos e no Vaticano ao Papa João Paulo II por ocasião do quarto aniversário de seu falecimento, segundo testemunhos divulgados nesta sexta-feira pela imprensa italiana.

Comentário: Os milagres são de qualidade mas o segundo é uma substituição do cantil de aguardente por um rosário. Os cowboys não usavam rosários e as balas poupavam-lhes a vida mas deixavam-nos sem aguardente.

3 de Abril, 2009 Ricardo Alves

O preservativo e o significado da vida

Um preservativo não é apenas um pedaço de látex. É muito mais do que isso. Segundo um padre jesuíta,

  • «Um preservativo é mais que um pedaço de látex (…) é também uma declaração sobre o significado da vida» (Zenit).

Significado da vida. Nem mais, nem menos.

3 de Abril, 2009 Carlos Esperança

O Sr. Duarte Pio, os milagres e o opúsculo

Se D. Guilhermina de Jesus, apoquentada com os salpicos do óleo de fritar peixe, desorientada com a dor da queimadela no olho esquerdo, em vez de evocar Nuno Álvares, tivesse apelado ao bem-aventurado Afonso Costa, era um insulto para o estadista mas um milagre maior para a fé.

Nas relíquias sacras permanece um mistério por desvendar: como é possível que se tenham obrado milagres com algumas que vieram a comprovar-se refinadamente falsas e outras, com certificado de garantia, nem o alívio de uma dor de dentes tenham logrado? Eis o obstáculo que impede a distinção da madeira da cruz do Gólgota da que foi usada na construção civil.

Sendo, como se insinua, insondáveis os desígnios de deus, seria aceitável que um ateu pudesse obrar milagres enquanto um homem pio coleccionasse fracassos? Duvidar da omnipotência divina é mais grave para a alma do que acreditar em milagres por intercessão de Afonso Costa.

O ilustre investigador, Sr. Duarte Pio, escreveu um opúsculo com a descoberta dos cavalos que se ajoelharam na Cova da Iria a marcar o sítio onde vários séculos depois o Sol faria piruetas, uma virgem mataria o ócio com três pastorinhos e um anjo acharia a pista de aterragem.

Se em vez dos cavalos de Nuno Álvares que, presume-se, acompanhavam na fé o dono, fossem solípedes de Afonso Costa, é de crer, que em tão pio local, em vez da genuflexão, desatassem aos coices e relinchassem blasfémias.

Enquanto os admiradores de Nuno Álvares Pereira, desiludidos com a magreza do milagre que lhe adjudicaram, aguardam que um soldado de infantaria passe a ver através do olho de vidro ou um mutilado de guerra veja crescer a perna que a mina lhe decepou, pode acontecer que Afonso Costa, por bondade divina, acabe nos altares por ser mais eficaz no combate á sida do que o próprio preservativo.

Se, tal como as relíquias falsas, os ateus entrarem no ramo dos milagres, é de crer que o Sr. Duarte Pio renegue o opúsculo pífio e faça um tratado sobre a bondade do seu deus.

2 de Abril, 2009 Carlos Esperança

Diário Ateísta – Pedido de excomunhão

De uma leitora que reside em França, cujo nome omito por não ter autorização para o publicar recebi o seguinte:

«Não sei se já ouviu falar do “Manifesto para a excomunhão voluntária” que circula na internet e na blogosfera francesa.
Tomei a liberdade de o traduzir para português e pergunto-lhe se seria possível publicá-lo no vosso blog».

Aqui fica:

Porque ninguém pediu a minha opinião no dia em que o padre me baptizou.

Porque, actualmente, contesto as posições de Bento XVI relativamente à contracepção.

Porque recuso ser assimilado/a a uma seita que condena as mães porque elas quiseram proteger as suas filhas de uma gravidez indesejada.

Porque recuso o obscurantismo.

Porque escolho a vida real e não uma ideia de vida que começaria antes das doze semanas de gravidez.

Porque reconheço o Holocausto e não suporto que um bispo que o negue não seja excomungado.

Porque não posso pertencer a uma Igreja que não reconhece a realidade da SIDA.

Porque utilizo métodos contraceptivos e por isso estou fora da lei canónica.

Porque não quero continuar a aparecer no ficheiro dos baptizados, por não me reconhecer nesta Igreja que só sabe condenar.

Decidi pedir hoje mesmo a minha excomunhão.

Se quiserem manifestar a vossa oposição ao dogmatismo e ao radicalismo católico que aumentam em Roma, enviem o vosso pedido à paróquia que vos baptizou e divulguem este manifesto.

2 de Abril, 2009 Carlos Esperança

Lúcia com milagre encomendado

Enviado de Roma irá reunir em Coimbra todas as fontes que provem a santidade da carmelita.

O padre Ildefonso Moriones, postulador do processo de beatificação da Irmã Lúcia, virá, em Maio, ao Carmelo de Santa Teresa, em Coimbra, para a segunda reunião da Comissão Histórica que vai agregar toda a informação necessária para o processo de beatificação da carmelita. Esta comissão, composta por sete elementos, reuniu-se ontem e foi, segundo o cónego Alberto Gil (vice-postulador do processo de beatificação da Irmã Lúcia), “o primeiro encontro entre os peritos de História convidados, e serviu mais de informação, pois, em Maio, nova reunião juntará, aqui no Carmelo, o postulador e esta comissão histórica”.

Comentário: Não faltam peritos em milagres. A indústria criou novos técnicos.

1 de Abril, 2009 Carlos Esperança

Centenário da República

Não podemos pensar na 1.ª República sem recordarmos a magnífica conferência proferida por Antero de Quental, em 27 de Maio de 1871, no Casino Lisbonense, em que sintetizou de forma lapidar as causas da decadência de Portugal (e também de Espanha):

1) A Contra-Reforma, herdeira do Concílio de Trento, dirigida pelos jesuítas;
2) A centralização política da monarquia absoluta, com a consequente perda das liberdades;
3) O sistema económico criado pelos descobrimentos, de pilhagens de guerra, que impedira o aparecimento de uma pequena burguesia.

Retomando e sistematizando teses de Alexandre Herculano, Antero abriu os horizontes para a interpretação do nosso crónico atraso e para o apuramento das responsabilidades históricas. O folheto publicado teve larga divulgação e enorme influência nas raras pessoas cultas da época e exerceu uma influência decisiva no historiador Oliveira Martins que, por sua vez, marcaria o início do último quartel do século XIX com a publicação da História da Civilização Ibérica e a História de Portugal, em 1879, e o Portugal Contemporâneo, em 1881.

Curiosamente, em Espanha e Portugal, onde jamais se fez sentir a Reforma, a Contra-reforma foi exuberante e atingiu níveis de violência e de perseguição política que só o efeito conjugado da Inquisição, da monarquia absoluta e do analfabetismo puderam lograr. Foi um pesadelo urdido pelo trono e o altar num país que o Vaticano tinha como protectorado e a família de Bragança como coutada.

Em Portugal, o triunfo da República, em 5 de Outubro de 1910, foi um furúnculo que rebentou. Das escassas tropas republicanas, cercadas na Rotunda, alguém disse: não podendo aguentar-se os sitiados, renderam-se os sitiantes. A alegria do povo de Lisboa sufragou a Revolução, tal como aconteceria no 25 de Abril, que iniciou a 2.ª República, depois de quarenta e oito anos de ditadura,

Não esqueçamos as velhacarias da ditadura de João Franco e a cumplicidade de D. Carlos que apoiou prisões arbitrárias, o fecho do Parlamento, o encerramento dos jornais, julgamentos sumários e deportações em massa de adversários políticos, monárquicos e republicanos, que o regicídio travou. A assinatura real na suspensão da Carta Constitucional instalou o terror e foi a causa da execução com que o autor expiaria o apoio à ditadura de João Franco.

Pode dizer-se da monarquia, parafraseando o Eça: «Não caiu porque não era um edifício, saiu com benzina porque era uma nódoa». E, caído o trono, estatelou-se o altar que o amparava.

A monarquia, que colocou Portugal no caos e na bancarrota, legou 75% de analfabetos, 80% de camponeses sem qualquer instrução ou assistência, uma crise financeira arrastada desde 1890, uma Igreja que cultivava a superstição e criaria Fátima e a desordem e o caos que iam da rua ao Paço.

A República suportou as conspirações monárquicas, as incursões de Paiva Couceiro e as cisões republicanas, numa réplica invertida das duas últimas décadas da monarquia. Sobreviveu à guerra de 1914/18, ao caos económico, à bancarrota, a Pimenta de Castro e a Sidónio Pais. Teve grandezas e misérias mas falta fazer justiça ao que Portugal lhe deve no centenário que se aproxima.