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29 de Março, 2012 José Moreira

Como “nasce” um padre (uma das inúmeras hipóteses)

Um pequeno desgosto, porém, ensombrava a visível felicidade do casal: o Senhor não lhes concedera, ainda, a suprema ventura de ter um filho, filha que fosse. Apesar disso, o casal nunca desistia, e para essa perseverança muito contribuía a fogosidade que a juventude proporcionava. Nos intervalos, iam rezando ao Senhor para que lhes concedesse a graça de deixar descendência, prometendo que o nascimento de um fruto do grande amor seria um contributo ad major Dei gloriam. Até que, um dia, ou antes, um mês, a jovem D. Esmeralda reparou que não se tinha sentido incomodada, como acontecia todos os meses. Acorreu à farmácia da zona, onde expôs os seus anseios e as suas dúvidas à D. Henriqueta, farmacêutica licenciada.

Foi, pois, com inebriante alegria, que receberam a notícia, via teste à urina, da gravidez de dona Esmeralda. As suas, dele, casal, preces, haviam sido ouvidas pelo Altíssimo, pelo que a Ele decidiram consagrar o rebento. Um tanto ou quanto desastradamente, como adiante veremos, mas infinita é a misericórdia do Senhor. O primeiro tropeção na consagração foi a aposição onomástica. Logo que padre celebrante do baptismo perguntou o sacramental qual é o nome da criança? suspendeu, por momentos, o movimento da concha cujo conteúdo era uma amostra metafórica das águas do Jordão:

— Adeodato Inácio – respondeu o babado papá.

— Desculpe…? – inquiriu o padre, sem acreditar nos seus ouvidos.

— Adeodato Inácio – reiterou a mamã, para que não restassem dúvidas. E insistiu:

— Em homenagem a Santo Adeodato I, que foi o 68º Papa – mas o celebrante nem a deixou continuar, mais que não fosse para não deixar os créditos por mãos alheias:

— Eu sei, minha filha, eu sei. Também usava o nome de San Diosdado, que, em latim, se diz São Deusdedit. Foi Papa no Séc VII depois de Cristo – prosseguiu, sem reparar na enormidade mandada boca fora já que, tanto quanto de sabe, antes de Cristo não havia Papas. — Mas… e o Inácio? Sim, porque a criança chama-se Adeodato Inácio, não é verdade?

— É verdade, senhor padre. Esse nome é dedicado a Santo Inácio de Loyola – desta vez, foi o feliz papá a mostrar os seus conhecimentos religiosos.

Entretanto a pobre criança, sem hipóteses de se defender e, como se fosse insuficiente, com as fraldas completamente cagadas, berrava como se lhe estivessem a arrancar a jovem alma sem anestesia geral, local que fosse. Berreiro que prosseguiu durante as diversas fases da celebração — DIÁLOGO COM OS PAIS E PADRINHOS, CELEBRAÇÃO DA PALAVRA DE DEUS, INVOCAÇÃO DOS SANTOS, e por aí fora, perto de vinte fases, o celebrante teve de elevar a voz vários decibéis para que as palavras pudessem ser audíveis lá em cima, pelo Altíssimo, e os circunstantes começavam a sentir atrozes dores nos tímpanos, enquanto o padre berrava Naquele tempo, Jesus aproximou-Se dos seus discípulos e disse-lhes: “Todo o poder Me foi dado no Céu e na terra. Ide e ensinai todas as nações, baptizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a cumprir tudo o que vos mandei. Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos”, os presentes suplicavam mentalmente Pai, afasta de mim este cálice, o respeitável e solene momento estava a pontos de degenerar em anarquia, aliás já estava mais próximo da acracia, já sei, as duas palavras são sinónimos mas a redundância tem todo o cabimento, é um reforço da imagem, eis senão quando se dá o milagre: o celebrante começava a recitar  “Deus todo-poderoso, que, pela água e pelo Espírito Santo, nos fez renascer para a vida eterna, abençoe com infinita bondade estes seus fiéis, para que sejam, sempre e em toda a parte, membros vivos do seu povo e gozem da sua paz, em Jesus Cristo, Nosso Senhor”, a cerimónia aproximava-se do seu termo e a criança calou-se, como que adivinhando o fim do ritual. Os circunstantes, pais, padrinhos, convidados e penetras, entreolharam-se surpreendidos com o súbito silêncio. O padre não se apercebeu do inesperado fim da poluição sonora e, lançado com o volume vocal no máximo, prosseguiu, aos berros, a sua piedosa missão. Apesar de tudo, o barulho tornou-se ligeiramente mais aceitável, graças à falta de participação de Adeodato Inácio. Quando o celebrante, já com as cordas vocais perto da ruptura, pronunciou o sacramental Ide em paz e o Senhor vos acompanhe e os presentes responderam o também sacramental Graças a Deus, ficando-se sem saber se este Graças a Deus era o institucional ou o desabafo de alívio, pois bem, quando isso se passou já o recém-baptizado dormia na paz dos anjos. As pessoas foram saindo ao som do Magnificat de Nossa Senhora e o baptismo prosseguiu, agora de uma forma bem profana e mais pragmática, com os pés debaixo da mesa.

Aquele súbito silêncio do novo recém-empossado católico, porém, não caiu em saco roto. Pelo contrário, foi entendido, pela entidade paternal e pela maternal também, como uma mensagem, um sinal do Alto, ou antes, e mais precisamente, um chamamento divino. E de tal modo foi entendido, que logo nessa altura, arrumadas as loiças depois de lavadas, e ajuntados os restos de comida que iriam servir de refeição nos próximos dias, decidiram responder Àquele que, de modo tão subtil, lhes dizia pssst, Eu Estou aqui… Adeodato Inácio seria padre!

 

José Carlos Moreira in “O Alfa das 10 e 10” – Editora Papiro

29 de Março, 2012 Carlos Esperança

A República, o feriado, a hipocrisia e a laicidade

Depois de o ministro da Economia ter escrito um livro, não sobre a forma de dinamizar a dita no país, mas lastimando-se da falta de vocações sacerdotais na diocese de Braga, outrora um alfobre de sotainas e hoje um deserto de talentos pios, eis que anuncia o fim do 5 de outubro e do 1 de dezembro como feriados nacionais.

Quanto ao fim de dois feriados católicos, a Igreja, num ato de tartufismo, invoca o afeto que lhes tem e mostra-se indecisa no sacrifício das datas enquanto aguarda a decisão do Vaticano.

Surpreende que a privilegiada religião de um país laico, para quem todos os dias são santos, não possa transferir para um domingo qualquer dos seus feriados, não estando aqui em causa a ofensiva contra os direitos dos trabalhadores, de que os feriados (e não as pontes) resultam mais da afirmação ideológica do que da necessidade económica.

Desconte-se o dia da Família, a que os católicos podem e devem chamar Natal, ainda que, desconhecendo o ano do nascimento de Jesus, possam adivinhar o dia e fazê-lo coincidir com o que o mitraísmo já comemorava no solstício de inverno. Esse é um feriado verdadeiramente nacional, de crentes e de descrentes.

A Igreja católica, a única a que o Estado laico consentiu a indicação de datas suas para feriados nacionais, não pode fazer chantagem sobre o Governo nem humilhá-lo com a Concordata que lhe impôs graças a crentes que não tinham o direito de sobrepor os interesses do Vaticano aos de Portugal.

A Assunção de Nossa Senhora ao Céu é uma efeméride de que se desconhece a data, o local de partida, o itinerário e o meio de transporte, duvidando de que sejam muitos os católicos que associem o feriado à improvável subida ao Céu, em corpo e alma, da mãe de Jesus.

Só por hipocrisia a ICAR pode insistir na comemoração de um dogma criado em 1950 por Pio XII, o Papa que colaborou com o nazismo e protegeu Ante Pavelic, o autor do holocausto croata, que assassinou cerca de um milhão de judeus, sérvios e ciganos, bem como monsenhor Jozef Tiso, o facínora homólogo da Eslováquia que a condição de nazi não exonerou do carinho, da tranquilidade e da sotaina que o Vaticano lhe preservou.

Para quem já goza de 52 feriados dominicais, num país cuja separação das Igrejas e do Estado está constitucionalmente consagrada e impedida de ser objeto de revisão, esta hipócrita indecisão é um ato de gula que exige, em nome da laicidade e da igualdade das diversas religiões perante o Estado, o mais vivo repúdio e a mais veemente indignação.

Quanto ao feriado do 5 de outubro, a matriz do regime em que vivemos, regime que também não pode ser objeto de alteração em sede de revisão constitucional, esperamos que um PR que o mereça e um Governo que seja digno dele, ainda que da mesma cor partidária do atual, hão de reintroduzi-lo como feriado no calendário cívico e celebrá-lo como merece.

Viva a República.

28 de Março, 2012 Ricardo Alves

A realidade sobre as Testemunhas de Jeová

No meu artigo anterior sobre uma associação (em preparação) de apoio a ex-Testemunhas de Jeová, o Vítor Máximo deixou um longo texto retirado do seu blogue («O Talho  e a Cidade»), justamente sobre esse tema. Para quem quiser saber como as Testemunhas de Jeová tratam os seus que deixam a organização, recomendo a visita ao blogue. De qualquer modo, fica aqui um texto de lá retirado (com autorização).

«Todos nós temos as Testemunhas de Jeová como indivíduos cordiais, educados e de trato fácil. Mas a realidade é bem mais complexa. Com certeza que existirá no meio Jeovista gente bondosa, mas estas mesmas deixam-se moldar por uma doutrina castradora que lhes comanda a vida ao mais ínfimo pormenor. A palavra “ínfimo” não é exagerada, pois a vida duma Testemunha de Jeová é regulada por um sem número de regras e ditames (ver aqui), desde de como agir no dia a dia nas mais diversas situações, passando pelo tratamento a dar aos que deixaram de pertencer à religião…

Certas regras de conduta, vão até interferirem na própria vida privada e íntima dos fiéis, chegando a roçar algumas delas o ridículo. A desobediência constante dessas mesmas normas, originam a expulsão do “prevaricador”.

Acontece que as Testemunhas de Jeová, são um grupo religioso, que apesar de não viverem à parte da sociedade onde se inserem, tem nos seus códigos de conduta, valores morais e religiosos que consideram superiores aos valores pelos quais a sociedade actual se rege.

Existe perseguição e discriminação por parte das Testemunhas de Jeová aos ex-membros da religião, submetidos aos processos de dissociação (abandono voluntário) e desassociação (expulsão) que vem desagregando famílias inteiras e promovendo intenso sofrimento às suas vítimas. As duas práticas impedem, por imposição de dogmas religiosos, divulgados nas publicações das Testemunhas de Jeová (ver alguns exemplos mais abaixo), a convivência familiar e social dos desassociados com membros que permaneceram na seita. As “verdades” de uma determinada religião não podem estar acima dos princípios de igualdade e liberdade de consciência religiosa, previstos na nossa Constituição. É inultrapassável o direito de optar por uma religião, ou de se desligar de qualquer uma. Ninguém pode sofrer a mínima pressão e/ ou coacção de qualquer espécie, seja proveniente de organizações públicas ou privadas posto que, se assim acontecer, está-se diante de uma franca violação aos ditames constitucionais, ferindo de morte direitos fundamentais cuja protecção, o Estado tem o dever de garantir.
(mais…)

27 de Março, 2012 Abraão Loureiro

27 de Março, 2012 Carlos Esperança

México – pedofilia persegue o Papa

Pedofilia mancha visita

Os abusos sexuais cometidos durante anos pelo já falecido sacerdote mexicano Marcial Maciel, líder da Legião de Cristo, ensombraram a visita que o Papa terminou ontem no México. Vítimas desses abusos criticaram Bento XVI por não aceitar recebê-los e a Igreja Católica por ter tolerado os crimes.

“O Vaticano ignorou sistematicamente a sua responsabilidade. Não só sabia, como também tolerou e protegeu Maciel. O Vaticano mentiu”, declarou Bernardo Barranco.

27 de Março, 2012 Carlos Esperança

Milagres e exorcismos_1

Os judeus eram exímios em milagres. Sem exclusivo, gozavam de larga experiência no ramo com peritos conceituados como os profetas Elias e Eliseu e o próprio Moisés.

Melhor em curas só Asclépio, também conhecido por Esculápio, com vários templos espalhados pela Grécia onde era deus e curandeiro, tão famoso que ainda hoje empresta o nome aos médicos. Perdeu-o, diz a lenda, a mania de ressuscitar mortos, tendo-o Júpiter fulminado a pedido de Plutão que temia que os seus reinos – os  Infernos –, se despovoassem.

No tempo em que Jesus nasceu, além dos milagres estavam em voga os exorcismos, imprescindíveis para expulsar demónios que procuravam o corpo dos humanos como as bactérias o intestino.

Foi nessa cultura que Jesus nasceu, quando o demo ainda não se afligia com o sinal da cruz nem se deixava intimidar com água benta. Temia os profetas e estremecia com o aramaico como mais tarde havia de fugir dos padres, da cruz e do latim.

Jesus seguiu cedo a carreira de pregador e ofícios correlativos – milagres e exorcismos.

A cura de um possesso em Cafarnaum tornou-o conhecido e em breve outros vieram para que os curasse e ele curou. À Galileia chegaram possessos de Jerusalém,  da Judeia, da Idomeia, de além-Jordão, de Tiro e de Sídon e a todos ele curou.

Jesus expulsou inúmeros demónios, incluindo sete alojados em Maria Madalena, sendo-lhe mais difícil contá-los do que espantá-los.

Isaías profetizou que os leprosos seriam curados, os profetas acertam sempre, e Jesus curou os que lhe apareceram na consulta. Tempo viria, mas Jesus não sabia, em que as sulfonamidas, os antibióticos e a higiene erradicariam a doença.

O Vaticano já não adjudica milagres em leprosos, por falta de doentes, na Europa e na América latina, regiões privilegiadas na agenda das canonizações. É mais eficaz um médico de segunda do que a intercessão através do cadáver de um padre do Opus Dei ou de um mártir que na guerra civil de Espanha tivesse tomado o partido de Franco.

Hoje, perdido o caldo de cultura onde medravam Deus e o Diabo, restam famintos que estrebucham e rolam pelo chão em locais recônditos de países pobres onde os padres com a cruz e o hissope enxotam demónios, em latim, sem sacrificar porcos como Jesus soía.

Jesus foi pioneiro a atravessar a pé o mar da Galileia a caminho de Gerasa, para quem acreditaem Marcos e Lucas, ou de Gadara,  para quem prefere Mateus. Talvez soubesse o caminho das pedras mas o feito ainda hoje é debitado nas homilias para gáudio dos crédulos e proveito dos oficiantes.

Depois de morrer, Jesus apareceu ressuscitado a Pedro, depois aos Doze, mais tarde a mais de quinhentos, depois a Tiago, a seguir a «todos os Apóstolos» e, em último, ao próprio Paulo. Hoje, só a Virgem se desloca em viagens de propaganda e manifestações de piedade.

26 de Março, 2012 Carlos Esperança

As ditaduras repelem-se

Uma delegação do Vaticano que deveria ir ao Vietname para completar o processo de beatificação de um cardeal não obteve o visto, informou nesta segunda-feira a arquidiocese de Hanói.

A delegação deveria interrogar nesta semana testemunhas da Igreja em quatro dioceses onde viveu o cardeal François-Xavier Van Thuan, sobrinho do controverso ex-presidente sul-vietnamita e aliado dos Estados Unidos Ngô Dinh Diêm, no âmbito da investigação aberta em 2010 para sua beatificação.