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17 de Agosto, 2012 José Moreira

A confissão (excertos)

(…)

A velhota acabou por sair. Pelo tempo que demorou, não devia ter rezado mais que dezassete ave-marias, provavelmente mais dois padre-nossos, presumivelmente ainda uma salve-rainha, mas isto já são conjecturas. A senhora saiu e, já no adro, ainda se voltou para o edifício, fazendo um último sinal da cruz, em jeito de quem se despede de Deus, esquecendo-se de que Ele está em toda a parte e, portanto, não há hipótese de nos vermos livres d’Ele. Seguidamente, depositou uma moeda de vinte e cinco tostões[1]  na suja mão estendida do pedinte, enquanto murmurava seja em desconto dos meus pecados. Mesmo sem cuidar de saber a quantos e quais pecados corresponderia o desconto equivalente a 2$50[2] , a idosa afastou-se e acabou por desaparecer na esquina à esquerda, e o largo ficou quase deserto, e este quase não aparece aqui fortuitamente, o largo só estaria deserto se não houvesse ninguém nele, ora, nós sabemos que havia, pelo menos, uma pessoa, qual seja o vosso desconhecido, e digo vosso com toda a propriedade, porque eu, autor, sei perfeitamente de quem se trata, você, leitor, é que ainda não sabe, mas não se preocupe, que esse seu desconhecimento tem os minutos contados. Bastantes, certamente, mas contados mesmo assim.  Agora, olhando assim a igreja, esta parecia-lhe bem maior do que quando, ainda na “Taberna do 21”, sorvia lentamente a cerveja loira – pálida e loira, muito loira e friae o seu lábio tristíssimo sorria. Sentiu um certo temor. O calor apertava, e o nosso jovem desconhecido, porque de um jovem se tratava, digamos que ainda não tinha atingido a idade para poder ser eleito presidente da república, embora pouco faltasse, transpirava.

Decidiu-se.

Entrou.

Cá ao fundo, de costas para a porta, e para a “Taberna do 21”, o padre Cristiano lia o breviário. Soletrava, para melhor o compreender. Saboreava-o, estão a ver?

O desconhecido e, ainda por cima, forasteiro, foi-se aproximando, lentamente, até chegar junto do sacerdote:

— Padre eu quero confessar-me,

“Meu Deus, como Tu és grande”, pensou o padre – Cristiano, de seu nome – para com os botões da sotaina, erguendo os olhos para um enorme crucifixo que dominava a nave central (e única) da capela. “Eis uma ovelha tresmalhada que quer regressar ao Teu rebanho. E uma ovelha ranhosa”, concluiu depois de observar de relance o jovem, que fungava ferozmente.

— Então meu filho, que tens para me dizer? Podes confessar-te mesmo aqui, que a igreja está vazia, não há necessidade de irmos para o confessionário.

Suspendeu-se por momentos, e prosseguiu:

— Um dos requisitos para uma confissão bem-feita, já tu estás disposto a cumprir, que é a confissão de boca. Mas há outros requisitos que terás de preencher, sem os quais a confissão não terá qualquer valor. São eles o exame de consciência, a dor de coração, o propósito firme de emenda e a satisfação de obra. Queres que te explique em que consistem estes requisitos?

— Não haverá necessidade, padre. Quando andei na catequese o padre Gaudêncio explicou-me isso tudo muito explicadinho.

— Então, muito bem.

O padre Cristiano compenetrou-se por momentos, e deu início ao ritual da confissão:

— Ave Maria Puríssima…

— …Sem pecado concebida. Abençoe-me padre, porque pequei.

— Quando foi a última vez que te confessaste?

— Fiz a minha última confissão quando tinha dez anos, aquando da comunhão solene.

— Muito bem, meu filho. E quais são os teus pecados?

O confessando titubeou, visivelmente perturbado:

— Padre, eu não sei como dizer, tenho vergonha… é só um pecado, mas é um pecado tão grande…! Hesito, tergiverso, não sei se terei perdão… será que vou ter uma grande penitência?

— Meu filho – disse o padre – a penitência será sempre em função do, ou dos pecado ou pecados cometido ou cometidos. Depois, levarei em conta as circunstâncias agravantes, atenuantes e dirimentes. De qualquer modo, a indulgência é sempre possível desde que haja propósito firme de emenda e arrependimento. Deus é grande, e infinita é a Sua misericórdia.

Padre Cristiano, porém, começava a ficar em suspense. Não era costume haver tantas hesitações, nas confissões. Começou a perder a longanimidade que, diga-se em abono na verdade, nunca tinha sido muita e que ia minguando na razão directa do cumprimento dos aniversários. Que já eram muitos, diga-se de passagem, os que tinham ficado para trás e, o que é mais grave mas terá de ser dito, o padre Cristiano, quando perdia a paciência perdia, também, por efeito directo, a capacidade de cuidar da língua, adoptando expressões pouco católicas e nada cônsonas com a sua condição pastoral:

— Mas, afinal, que raio de pecado é esse?

O desconhecido parecia não saber o que fazer às mãos. O tempo escoava-se lentamente, esvaindo-se em gotas que os ponteiros do relógio da torre da direita (de quem entra, entenda-se) iam sublinhando.

— Padre, eu roubei.

A igreja pareceu ruir. O silêncio, absoluto, tornou-se completamente inaudível. No relógio da torre, o ponteiro dos minutos hesitou alguns segundos antes de se decidir avançar mais um espaço. Da “Taberna do 21” chegava um ténue mas inconfundível cheiro a pataniscas de bacalhau, enquanto o padre empalidecia, a face a tornar-se lívida, em oposição à sotaina.

— TU, meu filho, ROUBASTE?! Mas roubaste o quê?

— Um relógio.

— Um quê????

— Sim, padre, um relógio. Roubei, mas não consigo aguentar mais. Roubei um relógio, mas ele queima-me, ele pesa-me, ele alucina-me, por favor, padre tome-o, fique com ele, eu não o aguento mais na minha posse, fique com ele, peço-lhe, suplico-lhe, imploro-lhe, rogo-lhe, reitero, depreco, solicito-lhe, peço deferimento.

O padre – Cristiano, de seu nome, não sei se já tinha dito – sobressaltou-se, como o Demónio ao ver a cruz. Nunca tinha ouvido, em confissão, um pecado daqueles! Lá na pequena freguesia, ninguém roubava nada a ninguém, pelo que as confissões eram uma pasmaceira de todo o tamanho. Nunca iam além de umas facadas no matrimónio, pronto, já se sabia que a Hermínia do Isildo andava metida com o Rodrigo Farroco, a mulher deste tinha feito uma escandaleira das antigas uma das vezes que a Hermínia foi à fonte buscar água, houve puxões de cabelos e tudo, enfim, de vez em quando lá havia umas sacholadas por causa da rega, de outra vez era o Libório que insultava o Germano porque a vaca da mulher ia pastar no lameiro dele, isto é, do Libório, o Germano bem argumentava que a vaca não lhe pertencia, pertencia à mulher, porque estavam casados com separação de bens, Eu não tenho nada a ver com o que a vaca da minha mulher faz, mas nada adiantava, Tu é que tens de ter mão na vaca da tua mulher, Eu?! Era o que me faltava, eu tenho trabalho que chegue para cuidar do meu boi, a partir dali era tudo insultos, filho desta, filho daquela, o padre Cristiano nunca percebeu lá muito bem o que é que o boi do Germano tinha a ver com aquilo tudo, o boi do Germano era manso, não se metia com ninguém nem incomodava, mesmo com os cornos do tamanho que tinha, já que era de raça barrosã, enfim, tricas sem grande importância, mas que davam sabor à vida e animação ao pequeno burgo, e que eram desfiadas no confessionário como se de contas de um rosário se tratasse, era o que ia valendo para quebrar o quotidiano medíocre da freguesia, pouco maior que uma pequena aldeia, e que ia permitindo ao bom padre Cristiano conhecer o ambiente da freguesia e ir controlando os fregueses. Agora, roubar um relógio?! Nunca se tinha ouvido tal desconchavo.

Padre Celestino olhou mais atentamente para o jovem

— Tu não és daqui, pois não?

— Não, padre. Sou dali, de Ilhós da Veiga.

— E porque vieste confessar-te aqui? Não achas estranho? Ou dar-se-á o caso de o meu colega já não ter mais absolvições para te dar? Sim, porque tudo tem um limite e as absolvições não são excepção, se um paroquiano passa a vida a pecar, é mais que certo que, a partir de certa altura, já não há absolvição possível. Faz-nos falta um cadastro a nível nacional, para ver quem são os reincidentes…

— Não, padre, não se trata de nada disso. Eu é que não tive coragem… Ali em Ilhós da Veiga toda a gente se conhece, e não queria que as pessoas começassem a desprezar-me e a olhar para mim com desconfiança…

— Tu não estás bom da cabeça, pois não? Já ouviste falar no segredo da confissão?

— Já, padre, já ouvi; mas também sei que a Henriqueta, a filha do Ambrósio, fez um desmancho, e ela não o contou a mais ninguém, mas já toda a gente sabe…

— Bom, bom, bom – atalhou o padre. – Isso não é para aqui chamado. Onde é que tens o relógio?

— Tenho-o aqui, padre. Fique com ele, por favor. Olhe que é a maneira de me sentir melhor. Quer vê-lo?

— Nem penses! Nem quero olhar para isso. Esse objecto é fruto do pecado, nem o quero ver.

— Mas… porque é que o padre não fica com ele?

— Nem penses! Nunca! Que diabo… Ia agora ficar com o relógio? E ir de cana[3]  como recepta?[4]  És besta, ou fazes-te?

Subitamente, apercebeu-se de que a linguagem que estava a utilizar não era a mais correcta. Parou por moimentos, respirou fundo para se acalmar e prosseguiu:

— Tens mas é que o devolver à vítima. Isso sim, é prova de arrependimento – prosseguiu, numa linguagem já mais católica. – Conheces a pessoa, ao menos?

— Sim padre. Conheço.

— Óptimo! Então, livra-te desse pecado. Devolve o relógio imediatamente!

— Desculpe, padre, não sei se conseguirei… Pegue no relógio, padre, fique o senhor com ele, que certamente terá meios de o fazer chegar às mãos do legítimo dono. Estou certo de que durante a homilia, se disser que foi encontrado um relógio alguém se há-de acusar…

— Meu filho, tem paciência, mas não posso aceitar. És tu quem terá de o devolver ao dono, pois só assim mostrarás a Nosso Senhor o teu arrependimento, aquilo que, na confissão, se chama dor de coração. Sem essa dor de coração, não há absolvição possível, meu filho.

— É que há um problema, padre, esquecia-me de lhe dizer: eu já tentei, mais do que uma vez, devolver o relógio ao dono.

— Ah! Graças a Deus! E o que foi que o dono disse?

— Pois, o dono disse que não queria o relógio. Não aceitou.

— Não aceitou? Não aceitou? Mas como não aceitou? — Custava-lhe a aceitar a explicação. Hesitou, algo aturdido: como é que era possível?

— Espera aí: tu estás a tentar dizer-me que furtaste o relógio, tentaste devolvê-lo ao dono, e ele não aceitou? E queres que acredite nisso?

— Padre, vai ter de acreditar. Que Deus me fulmine já com um raio, se estou a mentir!

Deus não fulminou o anónimo confessando. Aliás, no céu, que se mantinha límpido e esplendoroso, nem sequer se vislumbrava nuvem, miserável que fosse, donde pudesse vir raio que partisse o pecador, pelo que só se pode concluir que estava a falar verdade. Conclusão a que também o padre Cristiano chegou sem grande esforço:

— Bom, isso é tudo muito estranho, mas…Se não aceitou, não há pecado… Ora vejamos: tu gamaste  o relógio; tentaste devolvê-lo e o gajo não aceitou. Foi? – interpelou o sacerdote numa linguagem mais do que discutível, considerando a sua posição pastoral.

— Foi, padre. Já lhe jurei que sim, e volto a jurar, se for preciso.

— Sendo assim, é mais fácil dar-te a absolvição. Se o lesado não quis o relógio de volta, significa, só, que se trata de uma alma nobre. Perante isso, Deus Nosso Senhor só tem uma coisa a fazer, que é perdoar-te também.

–…E posso ficar com o relógio?!

— Sendo assim, podes. Não vejo qualquer problema. Agora, repete comigo: Senhor Jesus, Cordeiro de Deus que tiras os pecados do mundo, reconcilia-me com o Pai pela graça da Espírito Santo; purifica-me de todos os meus pecados e faz de mim um homem novo. Amém.

O jovem repetiu a ladainha e o padre deu por finda a confissão:

— O Senhor perdoou os teus pecados. Vai em paz – ao mesmo tempo que traçava, no ar, o sinal da cruz.

O desconhecido levantou-se lentamente. Esfregou os joelhos doridos e beijou a mão do sacerdote.

— Deus o abençoe, padre.

Molhou os dedos na pia de água benta e saiu. Sem mais um pio.

O silêncio voltou ao templo, o tempo foi-se passando.

O santo padre – “santo”, era considerado pelos paroquianos – que tinha mergulhado novamente no breviário, breve se alheou do mundo circundante. O caso do jovem desconhecido foi remetido para o arquivo dos casos encerrados, mesmo sem despacho da hierarquia. O silêncio absoluto regressou à Casa de Deus.

Ouviu que os sinos da igreja tocavam às Trindades. O escuro da noite já ameaçava cair, a “Taberna do 21”, religiosamente começava a animar-se, como era costume todos os dias. Que horas seriam, ao certo? Meteu a mão ao bolso da sotaina, buscando o relógio… Não estava lá! Nem no outro bolso! Nem no outro! Nem no outro! Nem no…

— Valha-me Deus! Mas onde é que eu deixei o relógio? – perguntou aos botões da sotaina que, naturalmente, se mantiveram mudos. Aliás, nem outra coisa seria de esperar.

Entrou em ebulição mental. Diria, talvez, em erupção… Temeu começar a comportar-se como uma truta epiléptica e elevou aos céus uma silenciosa oração, pedindo ajuda divina para manter a calma. Sem grandes resultados, diga-se de passagem, mas isso nem é surpreendente. Deus é para rezar, mas quem quiser acalmar-se toma “xanax”, que é calmante e, além disso, ainda é palíndromo, coisa de que nem todos os medicamentos de podem gabar. Deus não é medicamento, aliás nem sequer é palíndromo, nada de blasfémias. Tentou reconstituir os passos dados desde a última vez que viu o relógio, assim a modos de quem vê um filme pela segunda vez. Já tinha experimentado essa técnica por várias vezes, a conselho da Alzira, a velha governanta, e sempre com bons resultados. A idade não perdoa, já naquela altura não perdoava, e o padre Cristiano era useiro e vezeiro em esquecer-se dos objectos o que, aliás, nem fazia de propósito, mas coisas há que o comum dos mortais não consegue controlar inteiramente, e a mente é uma delas. “Vamos a ver: a última vez quem vi o relógio foi antes de almoçar. Ou teria sido já depois, para ver se já eram horas do terço? Mas, a que propósito é que eu iria tirar o relógio do bolso da batina, se ele até estava preso com a corrente de ouro? Ná… devo tê-lo deixado em qualquer sítio… Mas onde, valha-me Deus, onde?

 

In “O Retrato de Judite” – José Carlos Moreira, Casa das Letras, 2005


[1] Moeda existente à época valendo dois escudos e cinquenta centavos. Equivaleria, aproximadamente, aos actuais €001,5.

[2] Era assim que se escrevia, em números; em letras, podia ser “dois escudos e cinquenta” vinte e cinco tostões”, ou “cinco coroas”.

[3] O mesmo que “ir dentro”,” ir de saco”. Ir preso.

 

[4] O mesmo que “intruja”, “invejoso”. Receptador.

17 de Agosto, 2012 Carlos Esperança

O 10 de junho, o ridículo e a Senhora de Fátima

Não vou falar da Senhora de Fátima, a única personagem que tem mais heterónimos do que Fernando Pessoa. Vou referir-me aos exóticos edis da Câmara de Ourém, aos seus anseios autárquicos e à frivolidade das reuniões camarárias.

Segundo o jornal «O Mirante», a edilidade de Ourém, “quer comemorações do Dia de Portugal em Fátima”. O delírio místico, próprio da região, partiu de um edil do PSD que pretende as referidas comemorações, em 2013, na Cova da Iria, um terreno de pastorícia que as cambalhotas do Sol e as visões da Irmã Lúcia transformaram num lucrativo local do setor terciário, quer no sentido da ciência económica quer na prática litúrgica, graças à promoção do terço.

A justificação baseou-se na importância «que o santuário de Fátima tem para Portugal e para o mundo», justificação que colheu a unanimidade do executivo municipal (PS/PSD/CDS) e levou à decisão de manifestar tão pia vontade ao Presidente da República.

Com tal argumento certamente se justificariam muitos outros eventos, nomeadamente de natureza desportiva, dadas as dimensões do santuário e as infraestruturas hoteleiras.

 

O 10 de junho, há muito que perdeu o sentido republicano, com que o feriado foi criado, para se converter na lúgubre evocação da cerimónia com que o salazarismo glorificava a guerra colonial. O atual PR acedeu a ser presidente da comissão de honra da canonização de Nun’Álvares depois daquele milagre que o guerreiro medieval obrou no olho esquerdo de D. Guilhermina de Jesus, curando-a da queimadura provocada pelos salpicos do óleo fervente de fritar peixe, mas a República, apesar da ofensa da canonização ao herói de Aljubarrota e das genuflexões do PR, continua laica.

Será que os trogloditas que formam o executivo camarário de Ourém, habituados a andar de joelhos e a rastejar, sabem o que significa a laicidade do Estado?

Hoje pede-se que as comemorações do Estado se realizem num santuário mariano, quiçá à luz das velas, com o PR a ser recebido pelo batalhão de servitas de Fátima e com uma charanga de cónegos a tocar o Avé. No futuro assistiremos à procissão do «Adeus» a sair da Assembleia da República.

16 de Agosto, 2012 Carlos Esperança

O ‘acordo de Hamburgo’…

Por

E – Pá

O Land (Cidade-Estado) de Hamburgo concluiu, na passada 3ª. feira, um acordo com os representantes muçulmanos residentes visando a sua integração social, cultural e religiosa na comunidade hamburguesa. …”. link.
Uma interessante notícia vinda da Alemanha dirigida pela Srª. Merkel que, recentemente (em Outubro 2010), anunciou o fim (ou o falhanço) do multiculturalismo… link.


O tempo dirá da importância deste acordo.

16 de Agosto, 2012 José Moreira

Deus é omni… tudo

Do Génesis:

 

1.26 – E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo réptil que se move sobre a terra.

 

2.9 – E o SENHOR Deus fez brotar da terra toda árvore agradável à vista e boa para comida, e a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore da ciência do bem e do mal.

 

2.16 – E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda árvore do jardim comerás livremente,

2.17 – mas da árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás.

 

3.6 – E, vendo a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento, tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela.

 

Vamos partir do sacrossanto princípio de que Deus é, além do mais e sobretudo, omnisciente. Ou seja, sabe tudo: o passado, o presente e, pasme-se! – o futuro. Assim, no momento em que escrevo estas letras, Deus já sabe se você, leitor, as vai ler ou não. Mais: se você acabar por fechar o “site” ainda antes de as ler, assim como que numa súbita mudança de ideias, Deus já sabe que você vai fazer isso. Claro que se você já chegou a este ponto da leitura, isso significa que optou por não fechar o “site” antes de o ler. Porém se, apesar de tudo, você decidir fechar o “site” antes de chegar a este ponto, nem sabe o que perdeu. Mas Deus já sabia disso. Aliás, Deus sabe o que vou escrever a seguir, ao contrário de mim, que ainda não sei. Ele há coisas…!

Postos os factos neste pé, parece ser indubitável que Deus, quando fez Adão e Eva, já sabia:

a)    – Que Adão iria comer da árvore da ciência do bem e do mal, já que:

b) – Eva iria convencer Adão a comer do “fruto proibido”.

 

Se Deus não sabia isto tudo, então não é omnisciente. Mas é. Logo, sabia o que iria acontecer. Apesar disso, insistiu em fabricar Adãovalendo-se de umas habilidades de olaria, não hesitou em fazer Eva(mesmo à custa de uma costela do desgraçado do Adão) e, mais grave que tudo, deixou ficar a árvore da ciência do bem e do mal. Ou seja, nada fez para evitar que acontecesse aquilo que, afinal de contas, já sabia que iria acontecer. Se isto não é sacanice alguém, por favor, me defina o que é sacanice. Isto para além do facto de ninguém saber por que carga de água Deus colocou a árvore da ciência do bem e do mal lá no Éden, quando é certo que ninguém podia comer os respectivos frutos. Parece não restarem dúvidas de que a árvore da ciência do bem e do mal foi ali colocada de propósito para que Eva persuadisse Adão a comer o fruto, ou seja, para que ambos pudessem pecar. O que se compreende, uma vez que o conceito de pecado foi instituído por Deus mas, naquela altura, Deus ainda nada tinha dito nada acerca desse assunto. Mais: não havia motivos para pecar, nem havia como pecar, ainda que se quisesse. Por exemplo: cometer adultério? Impossível! Roubar? O quê e a quem? Dizer palavrões? E quem os ensinaria ao jovem casal? Matar a mulher? Porra, lá se ia mais uma costela! Matar o marido? E quem sustentava a casa?

Ora, acontece que Deus, na sua bondade infinita, tinha de arranjar maneira de dar largas aos seus sádicos instintos: “Não existe pecado, inventa-se! Estes gajos é que têm de ser castigados, seja lá como for, e a que pretexto for.” Sim, que isto de gente mal-formada tem muito que se lhe diga. Veja-se, por exemplo, que a Preguiça é considerada como um “pecado mortal”. No entanto, foi o próprio Deus quem privilegiou esse delicioso pecado (delicioso como todos os outros pecados, aliás). Não acreditam? Então, respondam: o que é que dá mais trabalho? Tratar da terra – cavar, plantar, adubar, colher – tudo isto numa altura em que ainda não eram conhecidas as alfaias agrícolas, não havia arados ou, sequer, simples enxadas – ou tratar de um rebanho de ovelhas que se limitam a tosar umas ervas, a cagar e a parir? Nem sequer havia tesouras para a tosquia?

Pois bem, Caim era lavrador e Abel era pastor. Preguiçoso por natureza (se o não fosse, poderia tornar-se também lavrador) limitava-se a olhar para o rebanho. E mesmo isso não lhe dava qualquer trabalho, uma vez que não tinham, ainda, sido inventados os ladrões de gado e, ao que consta, não havia lobos no Éden.

Voltemos à Bíblia e ao Génesis:

 

 

4.2 – E teve mais a seu irmão Abel; e Abel foi pastor de ovelhas, e Caim foi lavrador da terra.

4.3 – E aconteceu, ao cabo de dias, que Caim trouxe do fruto da terra uma oferta ao SENHOR.

4.4 – E Abel também trouxe dos primogénitos das suas ovelhas e da sua gordura; e atentou o SENHOR para Abel e para a sua oferta.

4.5 – Mas para Caim e para a sua oferta não atentou.

 

Ou seja: Caim desunhou-se todo a colher – sabe-se lá! – uns frescos repolhos e umas couves-galegas, provavelmente umas alfaces e umas curgetes, quiçá umas cenouras e umas batatas, enfim, comida sadia, à base de fibras, e Deus mandou-o dar uma volta; mas atentou para uma oferta cheia de colesterol, que Abel trouxe. Como se não fosse suficientemente hipócrita, ainda determinou, tempos depois, que a Gula passaria a ser “pecado mortal”.

A sério: com deuses destes, quem precisa de demónios?

16 de Agosto, 2012 Carlos Esperança

O MEU ATEÍSMO

Por

ONOFRE VARELA

Já confessei aqui que não sou (ou não era) um atento leitor, nem frequente visitador, deste site sobre Ateísmo. Isso acontece porque os computadores não me atraem e sou informaticamente analfabeto por vontade e conta própria. E embora faça parte dos órgãos sociais de quatro associações (duas de arte, uma de jornalismo, e mais a
Associação Ateísta Portuguesa, cujo movimento para a sua formação iniciei no Porto em 1997), também confesso que as actividades associativas, bem como as empresariais ou políticas, ao nível directivo, não me cativam. Não tenho jeito para líder, nem para balir como cordeiro em redil.

Prezo muito a minha liberdade de acção, de pensamento e de expressão, e talvez este modo de estar na vida seja a consequência de sempre me dedicar às artes (sou pintor, ilustrador, caricaturista e cartunista, para além de escrever em jornais [escrevi e desenhei em todos os jornais do Porto desde 1969 até 2000] e já ter publicado meia dúzia de livros) cuja “praxis” é individual e solitária.

Mas, há dias, dei uma volta pelo arquivo deste portal e li o texto “Porque Sou Ateu?”, de Jaime Gralheiro, publicado em 16 de Julho último. Deste autor já li excepcionais textos, noutras fontes, e recomendo a releitura atenta das suas razões a quem, de religiosidade, de ateísmo e de Humanidades, tiver uma visão séria, e não se fique pelas picardias — que também li nos recados de rodapé do excelente texto que refiro — que denotam um total desrespeito boçal e ignorante, pelo homem de cultura que é Jaime Gralheiro.

Do seu sincero e humilde texto ressalta esta verdade incontornável:
O ateu faz-se, não só porque pensa (os religiosos também pensam, por suposto…), mas principalmente pela especial excelência do seu pensamento.

(O ateu que se faz por si próprio, é de melhor qualidade do que o ateu induzido. Este, será igual [em sentido inverso] ao religioso que sai do aviário da catequese). O acto de pensar, para além de ser subversivo, pode ser comparado com o gosto pela música: há quem se fique pela adoração do Marco Paulo e da Ágata, e há quem prefira Zé Mário Branco e Manuel Freire!
Quer dizer: há o pensamento “pimba”, e o outro!…

Num plano mais elevado de pensamento, subimos degraus até Bach, Haydn, Chostakovich, Richard Wagner, Boccherini… e passamos pelos mestres da casa, Emmanuel Nunes, Victorino de Almeida, Fernando Lopes Graça, Carlos Paredes…

No mundo da Religião temos aqueles que pensam ao nível de Bach, mas a esmagadora maioria dos peões-militantes-de-base, que são os alimentadores da mesa farta dos melómanos Bachianos, não passam do nível… Quim Barreiros!

Alguns dos meus amigos ateus começaram por ser religiosos, tal como Jaime Gralheiro confessa, embora outros nunca tenham entrado numa igreja com espírito de crente por não terem sido contaminados em meninos.
E é nessa contaminação que reside o problema, e a diferença!…

A minha história de ateu começa pelo importante facto de os meus pais nunca me educarem na filosofia religiosa, mas no comportamento ético do respeito pelos outros e pela Natureza, impedindo a Igreja de me agrilhoar a mente, como faz aos cérebros tenrinhos. Estou eternamente grato aos meus pais, também, por isso.

Devo dizer que não fiz a comunhão, por um triz e por acaso! O meu pai, que nasceu em 1912, foi influenciado pelo anti-clericalismo da primeira República, mas não era fundamentalista e deixou à minha vontade fazer, ou não, a aprendizagem do Catecismo Católico, quando eu teria doze ou treze anos. Essa história conto-a no livro “O Peter Pan
Não Existe”, (Caminho, 2007) pág. 178 e seguintes.

Na adolescência não alinhava em missas, nem me considerava ateu ou agnóstico. O fenómeno religioso era-me indiferente. Passava-me ao lado vertiginosamente. Já estava incorporado no Exército quando comecei a pensar com mais qualidade na história de Deus e no hábito religioso dos meus camaradas, e tudo isso foi motivado pelo discurso de um padre militar, alferes-capelão.

Ser militar não era coisa que estivesse nos meus intentos, mas foi uma inevitabilidade a que não soube fugir. Naquele tempo a juventude tinha a vida parada, no mínimo, por três anos (no máximo, ficava estropiado ou morria) por causa do conflito armado com as Colónias, e muitos recusaram servir o Exército de Salazar e, clandestinamente, partiram para França e por lá ficaram, evitando, desse modo, participar na Guerra Colonial com a qual não concordavam.

A minha passividade reteve-me por cá, obrigando-me ao cumprimento do serviço militar obrigatório. Não declarei as habilitações académicas (3º ano de pintura) por recusa de dar o melhor de mim à ditadura de Salazar, e fui soldado raso, condutor. (De nada valeu esta minha repulsa pelo Exército, porque quem é portador de algo para dar, dá-o mesmo sem querer. No meu primeiro embate com a disciplina militar, fui condenado a quatro dias de prisão, que cumpri. E de África acabei por trazer três louvores!… Mas isso são contas de outro rosário).

Um dia, no quartel CICA 1, Porto, recebemos a visita do alferes-capelão e ouvimos o seu discurso. Estava ali para nos dar bons conselhos, disse ele. Já não recordo o teor da sua palestra, mas suponho ter sido semeada pela religiosidade alimentadora do espírito
de qualquer sacerdote, católico ou não, com a habitual e inabalável atitude de fé num deus supremo. Mas recordo o modo como ele rematou aquela sua apresentação, porque o registei numa espécie de diário que então fazia.

Disse-nos que devíamos seguir “um caminho certo” e “praticar o bem”, completando os seus anunciados conselhos com esta enigmática frase:
“Façam sempre o que a vossa consciência manda”.

Para mim era impossível ouvir aquilo e não reflectir… e ali andava surrealidade!
Imediatamente antes de aqueles recrutas entrarem naquela sala, tinham acabado de receber instrução de armamento, e uma arma é um objecto fabricado com o propósito de matar. O discurso do sacerdote teve como ilustração de fundo o som dos disparos que nos chegavam da carreira de tiro, os quais tinham o objectivo de apurar a pontaria para, na guerra, não se desperdiçar munições e ser-se certeiro na liquidação do inimigo. Cada tiro deveria corresponder a um cadáver.

Para além disso, não pertencíamos ao Exército de um governo democrático que, em princípio, usaria as armas na defesa de causas nobres. Não! Nós prestávamos serviço num quartel das Forças Armadas de um país que tinha um governo ditatorial, anti-democrático, e que alimentava uma guerra colonialista em África, contra os povos que
reivindicavam independência.

Era esta a surrealidade que emoldurava a presença daquele padre com discurso moralista no quartel (!?), como se houvesse moral que se aproveitasse, na acção bélica daquele exército!… Em tal contexto, o que é que se devia entender por “caminho certo?” E “praticar o bem”?! Será certo, e bem, pertencer ao exército de um ditador?
Será certo, e bem, partir para uma guerra colonial, lutando contra os povos que pedem a independência? Como pode um soldado fazer sempre o que “a sua consciência manda?”

Os exércitos obrigam a uma “consciência colectiva”, onde o indivíduo não é respeitado como tal, e recrutam jovens imaturos destituídos de consciência crítica. Aquele padre estaria a tentar dizer-nos que quem não concordasse com a política do governo colonialista não deveria, em consciência, estar ali? Estaria a incentivar a deserção e a rebelia?! E ele? Porque estava ali? Porque não desertava?!

A sua consciência estava tranquila e harmonizada com a situação política do país, que as Forças Armadas defendiam e ajudavam a manter? Na sua consciência não lhe pesava o facto, nem o fardo, de servir nas fileiras do exército de um ditador? Ou navegava contra-a-corrente e tentava, camufladamente, alertar-nos para a política de que estávamos distanciados?!…

O seu discurso não passaria de um conjunto de palavras de circunstância, no fingimento de, ao serem ditas por um sacerdote católico, serem exemplo de uma autoridade moral? Será que eu entendi mal o seu recado, transformando-o na lógica do meu pensamento cívico e arreligioso?…

Numa palestra posterior o padre acabou por destruir a boa imagem que eu estava a construir de si imaginando as suas intenções subversivas secretas a partir do seu discurso que, de algum modo, me parecia revolucionário. Dessa vez disse-nos:

— Deus vê-nos e escuta os nossos mais secretos pensamentos, portanto devemos pensar e executar só o bem… e, até, devemos dar a última gota de sangue, dar a nossa vida, pela Pátria… (!?)

Desilusão!… Senti-me traído por aquele sacerdote, e deixei de prestar atenção ao seu discurso que se revelou tão infantil… tão ao estilo de história da carochinha e do Pai Natal, em contraste com o outro que me pareceu ter “miolo”! Lembrei-me imediatamente daquela anedota do Zéquinha, a quem o padre disse que devia portar-se bem porque Deus estava sempre ao seu lado testemunhando as suas acções. Intrigado, o Zéquinha perguntou:

— Deus também está ao meu lado quando brinco no quintal da minha avó?
— Claro que sim, meu filho…
— Ora, vá-se lixar… a minha avó não tem quintal!…

Esta infantilidade anedótica do alferes-capelão, passei a detectar em todos os discursos de padres, a partir daquele dia! Nas igrejas onde assisto a casamentos, a baptizados e a funerais, mas também nas palavras de bispos e de papas, difundidas pela imprensa, pela rádio e pela televisão, e ainda nas palestras ridículas e vigaristas das seitas ditas cristãs (tão ridículas e vigaristas como as católicas, mas com nuances), em espaços televisivos e radiofónicos. (Se Jesus Cristo tivesse sabido do lindo serviço que fazia, tinha ficado quieto e caladinho e não havia milagres para ninguém!… Isto, se acaso a figura histórica JC existiu realmente, para além do mito sobre o qual foi, estrategicamente, construído o Cristianismo!… O que não é totalmente claro).

Parece-me que todos os padres falam para uma assistência de criancinhas de infantário, ou para adultos com um considerável atraso mental, colocando-os ao nível dos putos de cueiros! Se eu ouvisse esses recados religiosos desde o berço, o meu cérebro tinha sulcos, abertos como caminhos, por onde escorriam os recados religiosos transformados em “inegáveis verdades”. Mas quando se ouve desses recados, já com cérebro adulto, o crivo do sentido crítico funciona e não deixa abrir caminho por aí, porque já se percebe que esse não é o caminho.

Por essa razão é que a ICAR e o Islão teimam em “educar” as criancinhas na sua estética religiosa, sulcando os seus cérebros com um arado diabólico, semeando-o de mitológicos santos e demónios, impedindo que os seus intelectos amadureçam com qualidade. É assim que se fabricam soldados para alimentar o exército de religiosos, e assim queria fazer o actor Tom Cruise, recentemente, ao cérebro da sua filha, na seita Cientologia, mas a mãe da criança teve a sensatez de o impedir (mais uma vez agradeço aos meus pais o terem-me poupado a essa maldade).

O deus que espia no quintal de quem não tem quintal… e que condena à morte o seu amado filho-proveta… para nos salvar (!!??…), não pode ser coisa séria, nem convencer ninguém que pense e que não ouça Quim Barreiros!…

A experiência militar que me esperava nas matas dos Dembos, no norte de Angola (Dez. 1965 – Fev. 1968), foi trágica e mostrou-me a presença constante da morte. O medo pavoroso que sentimos pela irremediável morte, é o grande responsável pela sedimentação das crenças religiosas. Todas elas pretendem fintar a morte, propagandeando uma outra vida para além dela. É este o segredo do marketing religioso: aceitar a morte como passagem para o “reino de Deus” onde se desfrutará de felicidade inaudita! E a alma, que é etérea — logo, destituída de sistema nervoso — quando é enviada para o inferno, sofre abundantemente!… Mitologia pura, deglutida até à última garfada pelos religiosos seguidistas, incapazes de criticarem a ementa que lhes é servida em chip cerebral.

Nas matas dos Dembos vi de perto camaradas caídos em combate, e ajudei o médico numa autópsia. A morte rondava a cada hora de cada dia, e passei noites debaixo de fogo. Perante aquela situação de desespero prolongado, percebi a necessidade que os meus camaradas tinham de consumir o produto-droga-Deus, na procura de um conforto para as suas angústias. Assistiam fervorosamente às missas campais, movidos pela tal promessa de vida eterna, e na presunção de que se adorassem Deus e lhe rezassem com frequência desmedida, estariam protegidos em combate!

Conversei com camaradas protestantes que me diziam assistirem às missas católicas por ser “o sítio do encontro com Deus”. Compreendi todas as suas motivações, mas nunca senti necessidade delas. O que senti, isso sim, foi desconforto por ser o único, de entre os jovens militares que ali esperávamos o correr do tempo para regressarmos às nossas famílias a salvo, que não alinhava em conceitos religiosos. Não tinha ninguém com quem pudesse conferir os meus pontos de vista contra-a-corrente !…

A constante presença da morte não era agradável, mas era uma condição natural da vida, embora ali o drama do fim prematuro fosse ampliado pela situação de guerra, o que, certamente, valorizava o sentido religioso dos meus camaradas de infortúnio. O conceito de Deus estava nas suas cabeças, mas não na minha. Não havia deus algum que desviasse uma bala que viesse na minha direcção, e essa era a realidade científica que a fantasia de Deus não alterava. A diferença estava na qualidade do meu pensamento, e na qualidade do pensamento de todos os meus camaradas.

Era a tal questão da música !… Chostakovich ou Quim Barreiros ?… (Na altura, era mais Ray Charles ou Roberto Carlos ?). Percebi a infantilidade das suas crenças, e passei a interrogá-los sobre a sua fé, começando aí a fazer a minha colecção de conceitos
religiosos, com espírito de aprendiz de Antropologia. Não negava as suas convicções, nem os incentivava a prossegui-las ou a deixá-las. Só queria saber como era. Motivava a conversa como ignorante que era nas coisas que à “razão” da fé pertenciam, ouvia, aprendia e armazenava.

Assim fiz quando, em 1968, regressei à vida civil. Movido pela curiosidade religiosa que a experiência militar me proporcionou, obriguei-me a ler a Bíblia, a Tora, o Corão e textos budistas (Udãna, la Palabra de Buda. Barral Editores, 1972). Passei a frequentar missas católicas, com atenção e intenção crítica, conversei com padres e percebi o funcionamento do culto. Li filósofos e ensaístas. Os clássicos Feuerbach, Shopenhauer, Hobbes, Kant, Espinosa, Nietzsche… mas também o Catecismo Católico, Santo
Agostinho, David Hume, Pascal, Pierre Teilhard de Chardin… e mais Sartre, Roland Barthes, Bertrand Russel…

Tudo isto fiz durante um período de cerca de 25 anos, com sentido antropológico, numa atitude de aprender o comportamento humano perante o fenómeno religioso, e não animado de espírito guerreiro ao serviço do “anti-Cristo”, nem, tão pouco, na “procura de Deus”, do que não necessito absolutamente e em definitivo. Nem, ainda — como se vê pelo tempo dilatado —, com interesse de tirar um curso apressado de Religião, ao estilo dos cursos de Miguel Relvas!…

O fenómeno religioso, embora me interesse culturalmente, nunca constituiu matéria de extrema importância para a minha vida. Não é daí que eu tiro o meu sustento, apesar de me sentir bem lendo, pensando e escrevendo sobre o tema, e sempre fui muito passivo perante as religiões e as opiniões dos religiosos. Só me afirmei ateu, convicta e conscientemente, quanto já contava mais de 40 anos de idade. Mantenho-me tolerante, mas, às vezes (muito raramente), “salta-me a tampa” e assumo um discurso não habitual em mim, que não é antropológico do ponto de vista científico, mas que descamba mais para o estilo Gil Vicentino! Não sou santo e já não tenho idade nem paciência para aturar insolentes.

Hoje, perante o facto de um licenciado (médico, por exemplo) encarar o conceito de Deus com a mesma religiosidade demonstrada por um servente de pedreiro analfabeto, continuo a interrogar-me: Será que o licenciado não aprendeu nada, ou o analfabeto sabe muito?!…

Na verdade, crença e conhecimento (crer e saber) são matérias que não cabem no mesmo saco. São como água e azeite. Não se misturam nem têm índole semelhante. São, até, antagónicas, como o são os polos magnéticos. Repelem-se. Mas a primeira pode encontrar-se em cabeças recheadas com a segunda… quando se bebe da taça religiosa até ao fim, em catequeses e missas, na meninice!

Espanto-me com a recusa, ou incapacidade, que esse indivíduo intelectualmente superior tem, de apartar o mito do real! Acaba por fazer uma salada com ingredientes que não ligam! O resultado dessa experiência culinária, só pode ser… uma estupidificante diarreia mental !…

De facto o cérebro do Homem é complexo… e a música também. E a culinária… já agora !…

A religiosidade também pode ser manifestada em idade adulta, por quem não teve iniciação em criança, o que é mais raro mas acontece, e eu conheço um caso. Cada indivíduo, quando é dono da sua consciência, trilha caminhos próprios, motivados no seu querer e pelo seu crer. São interesses sempre iniciados por algo que vai funcionar como espoleta.

Na política aconteceu o mesmo depois do “Verão quente” de 1975. Filhos de comunistas, em regiões marcadamente de esquerda, filiaram-se no CDS. E alguns pais da ala mais direitista do espectro político da jovem democracia portuguesa, viram os seus filhos a militarem no PCP! A rebeldia contra o poder e a autoridade dos pais, pode criar destes fenómenos sociais, na política e na religião.

Obviamente (porque, realmente, não sou antropólogo, e não obstante a minha tolerância) não me coíbo de criticar costumes da Igreja, e de seitas religiosas que nascem como cogumelos em estrumeira para explorarem o sentido religioso dos mais despossuídos de tudo: de dinheiro, de sentido crítico, de qualidade de pensamento e de vida… e do resto.

Exploração que confirma o facto de Deus ser a pior invenção do Homem, porque tem, na subtil clonação das mentes, um dos aproveitamentos mais maldosos das religiões, criando “batalhões” que se servem de Deus para explorarem, chularem, sugarem e vigarizarem os crentes, que são, sempre, as vítimas culturalmente mais indefesas…

E isso devia constituir crime.

Onofre Varela

15 de Agosto, 2012 Carlos Esperança

O papa, o mordomo, o informático e a fuga de documentos

Imaginem caros amigos que eu, ateu há mais de 50 anos, era o mordomo do Papa. Esqueçam que sou eu quem seleciona as companhias e que não privo com pessoas de passado duvidoso e comportamento estranho. Esqueçam que eu nunca trabalharia para a última ditadura europeia, um Estado fantoche criado por Mussolini e pelo papa de turno e que, jamais, colaboraria na venda de água benta e de indulgências.

Imaginem, pois, por mera abstração, que era eu o mordomo do papa de turno, de B16, o papa que está a levar a cabo uma campanha de branqueamento da cumplicidade da sua Igreja com os regimes nazis e, em especial, a reabilitação de Pio XII, depois de o seu antecessor pedir perdão pelas perseguições aos judeus feitas ao longo da história com base no antissemitismo do Novo Testamento, uma publicação fantasista que teve em vista justificar a cisão cristã dentro do judaísmo.

Ora, se eu fosse o mordomo, bastava-me declarar que tinha sido Deus, enojado com a sua Igreja, que me tinha pedido para denunciar os crimes que o comprometem. Um Deus que se preze não enterrava numa basílica um padrinho da Máfia, não lavava dinheiro da droga e das armas num banco que tem o pitoresco nome de Instituto para as Obras Religiosas (IOR) e, provavelmente, nem teria um banco.

Num Estado onde não há divisão de poderes, onde o ditador se encontra vitaliciamente legitimado por vontade divina, onde a santidade é atribuída pelo exercício das funções e o poder discricionário se legitima na crença da improvável existência do Espírito Santo, é fácil dizer que foi da vontade de Deus a denúncia de documentos que provam a falta de ética do pouco recomendável bairro.

E, dito, isto não sobraria aos juízes, impossibilitados de darem uma sentença antes de a submeterem à apreciação da Cúria, outra saída que não fosse conformarem-se com um milagre bem mais honesto e menos pueril do que os que o Vaticano diariamente inventa para canonizar defuntos de passado duvidoso que rendem avultados emolumentos.

A luta pelo poder, a que não é alheio o Opus Dei, transforma figuras menores, um mordomo e um informático, em bodes expiatórios de uma conspiração silenciosa pela eleição do próximo papa.

14 de Agosto, 2012 Carlos Esperança

Um milagre que faz falta na Arábia Saudita

Um vídeo amador gravado em Presidente Médici-RO capturou a imagem de uma mancha avermelhada na Cruz da Jornada Mundial da Juventude, que percorre o País, vinda do Vaticano – Roma. O fenômeno é intrigante.

Desde que começou a circular pela cidade, após o evento, que aconteceu no último dia 05 de agosto, a gravação sugere duas vertentes: seria uma manifestação milagrosa com o Sagrado Sangue de Jesus ou um mero reflexo dos raios solares daquela manhã?

Diário de uns Ateus – Só pode ter sido milagre!