14 de Fevereiro, 2013 Carlos Esperança
O Vaticano e o IOR
Felizes os Papas que, depois do que se passou no banco do Vaticano (IOR), podem dormir sem pulseira.
Felizes os Papas que, depois do que se passou no banco do Vaticano (IOR), podem dormir sem pulseira.
Reação de François Hollande:
« La République salue le pape qui prend cette décision mais elle n’a pas à faire davantage de commentaire sur ce qui appartient d’abord à l’Église », a-t-il ajouté. « C’est une décision humaine et une décision liée à une volonté qui doit être respectée »
«Quero, nesta ocasião, sublinhar a admiração profunda do Povo Português por Vossa Santidade e por um magistério que constitui exemplo de fé e de esperança, na defesa dos valores universais da tolerância e da paz». (CAVACO SILVA – PRES. DA REPÚBLICA)
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Esta humilhante mensagem podia ter sido enviada por qualquer devoto, mas jamais pelo Presidente da República Portuguesa. Um país laico não se revê na subserviência do seu Presidente para com o chefe do único Estado totalitário encravado num país da União Europeia.
Cavaco Silva pode viajar de joelhos até Roma ou rastejar perante o único teocrata europeu mas não pode ferir a consciência dos ateus, agnósticos, livres-pensadores e membros de outras religiões.
O ato que julga protocolar é a ofensa gratuita e injusta de quem jurou a Constituição e tem o dever de a respeitar, comportando-se como representante de um Estado laico e não como regedor de um protetorado do Vaticano.
Num período de intenso desânimo e falta de amor próprio do País, as palavras de quem não distingue as convicções particulares das funções públicas que desempenha, são um ultraje a todos os portugueses alérgicos à água benta e de pituitária sensível ao incenso.
A atitude do devoto Cavaco Silva é simplesmente deplorável.
Há beatos que exoneram a inteligência e a credibilidade para estarem sempre de acordo com a sua Igreja. Por maiores tolices que diga o Antigo Testamento, é a palavra de Deus que não quer dizer o que diz, mas o que os exegetas dizem que quer dizer.
Quanto aos papas, já sabemos que são sempre santos por profissão e estado civil e que as suas posições são sempre excelsas, quer condenem o uso da pílula e do preservativo ou defendam o jejum e a abstinência. É difícil perceber que se atribua a defesa da vida a quem exalta a castidade, certamente a mais implacável atitude contra a natalidade.
Os beatos consideram de inspiração divina os lugares-comuns e os projetos de poder, as fogueiras e as Cruzadas, a evangelização forçada e vida carcerária de freiras e monges.
João Paulo II foi o herói capaz de morrer no seu posto enquanto o exibiam na mais cruel decadência física e psíquica, tentando que a morte, em direto, provocasse uma comoção geral que convertesse os mais suscetíveis. Os que incensaram tão desumana impiedade são os mesmos que ora glorificam o desapego ao poder, a lucidez e generosidade do ato de renúncia de Bento XVI.
Venha o Diabo entendê-los. Pela primeira vez, o Vaticano vai ter dois papas. Os beatos, habituados a chorar cada Papa que morre, arriscam-se a perder um espetáculo. Ninguém chora um papa reformado.
Aos anos que deambulo pela Terra sem nunca ter visto um raio que não iluminasse totalmente o céu mostrando as nuvenzinhas (porque com céu limpo não há trovões) e tudo o que os meus olhinhos viam cá em baixo agarrado ao chão. Neste milagre ainda não consagrado, a iluminação pública conseguiu ser mais forte que esse raiozinho tímido. Talvez tenha sido uma raiozinha.
Também é de estranhar que o Vaticano não tenha ficado às escuras após a descarga. Ver video montado: http://www.bbc.co.uk/news/world-europe-21421810
Resultado: Má qualidade na montagem.
Motivo: Uma encomenda urgente.
Hummm: Filippo Monteforte esperou duas horas pelo momento (escrito na notícia do site): http://www.tvi24.iol.pt/internacional/raio-basilica-papa-vaticano-fotografo-tvi24/1418998-4073.html
A comunicação social cada dia mais cheia de gente competente!
As equivalências não valem apenas para governantes.
A interrupção do pontificado de B16 foi um ato inédito. Há quase 600 anos que nenhum papa saía vivo da função. Algumas vezes foi o patrão servido de os chamar à sua divina presença, como se diz no jargão católico; outras, foram circunstâncias alheias à vontade dos próprios ou mera conveniência de serviço.
B16, cúmplice do predecessor, foi o papa designado pela Opus Dei que, no conclave, se substituiu ao Espírito Santo, e assim manteve o poder no Vaticano. A obsessão da Opus Dei pelas canonizações e pelo dinheiro, levou-a a controlar o IOR (Banco do Vaticano) e a canonizar todos os mártires da Guerra Civil de Espanha que combateram do lado de Franco. Houve um ou outro engano mas, entre tantas centenas de santos, era difícil não cometer erros crassos e fácil esquecer os padres bascos assassinados por Franco, por se terem colocado do lado errado.
B16 foi o intelectual que aguentou JP2, um papa rural e crente em Deus, cujos objetivos eram a libertação da Polónia do comunismo e a ocultação dos escândalos da sua Igreja. Converteu-se numa estrela pope enquanto o cardeal Ratzinger zelava pelo esvaziamento do concílio Vaticano II.
A pedofilia e a lavagem de dinheiro no banco do Vaticano convergiram para o desprezo da fé e abandono da ICAR por parte da Europa. A defesa da fé e das finanças ficaram a cargo da Opus Dei e dos Legionário de Cristo que, longe de prestigiarem a casa-mãe, se encarregaram de lhe granjear uma imagem ultrarreacionária. A Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) está no bom caminho para o regresso, mas, por estranho mimetismo com o Islão, a ICAR vai percorrendo o caminho de regresso à Idade média.
O Vaticano II foi sendo persistentemente substituído pelo concílio de Trento e a Igreja, cada vez mais retrógrada, afastou muitos dos que se habituaram a acreditar nela desde a infância.
A Opus Dei terá decerto a chave da porta de onde sairá o novo papa mas as guerras na Cúria não deixarão espaço ao novo pontífice para gozar a tiara. A ICAR deixa de ser a fonte de preocupação que ameaça a liberdade. Agora é o Islão que urge de ser contido.
O Diário de uns ateus é o blogue de uma comunidade de ateus e ateias portugueses fundadores da Associação Ateísta Portuguesa. O primeiro domínio foi o ateismo.net, que deu origem ao Diário Ateísta, um dos primeiros blogues portugueses. Hoje, este é um espaço de divulgação de opinião e comentário pessoal daqueles que aqui colaboram. Todos os textos publicados neste espaço são da exclusiva responsabilidade dos autores e não representam necessariamente as posições da Associação Ateísta Portuguesa.