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6 de Dezembro, 2013 Carlos Esperança

O Vaticano, o Papa e a tradição

O Vaticano recusou informações a uma comissão da ONU sobre investigações internas de abusos sexuais de menores, cometidos pelo clero, sob o pretexto de que é política da Igreja manter sigilo sobre tais casos.

Ao recusar partilhar informações com a ONU, o Vaticano revela uma duplicidade que pode anular a gigantesca campanha de promoção do Papa, ajudada pela figura retocada de simplicidade e determinação onde o despojamento pessoal, a atenção aos crimes do clero e as investigações ao Banco do Vaticano eram as linhas de força para o branqueio da imagem do Vaticano.

O Papa Francisco é uma fonte de contradições. Perante uma imagem de sinceridade e de bondade, permanece subjugado à Cúria que parecia estar a caminho da cura. Face a uma ideia de modernidade, insiste nos milagres e exorcismos que são mais mortíferos para a credibilidade da Igreja do que um PIM de Almada a fustigar o Dantas.

O Papa Francisco afirmou hoje no Vaticano que a fé na “ressurreição da carne”, referida no Credo, é uma “verdade”, que está ligada à ressurreição de Jesus. A fé e a razão detêm um litígio de difícil solução mas não se entende que a leitura literal de uma crença possa ser promovida sem reflexão crítica.

A antiguidade da Terra, biliões de mortos, 7,5 mil milhões de vivos e muitos biliões que ainda nascerão, são números colossais que o Antigo Testamento não previu. Como se convence um mortal, no pleno uso das suas faculdades, que no Vale de Josafá, ora Vale de Megido, terá lugar a Batalha do Armagedão, apenas para não deixar mal colocado o profeta Daniel, que a previu?

Quem pode crer na ressurreição física de todos os mortos no exíguo espaço do Vale de Megido, onde aos transplantados serão reclamados os órgãos de corpos alheios?

Do pavor que a Igreja insiste em infundir, escapam três anos e meio em que o anticristo, personagem escatológica que dominará provisoriamente o mundo, fará um reino de ‘paz mundial, estabilidade económica e liberdade religiosa’ antes do fim dos tempos ou Armagedão, a tragédia fatal para derrotar Satanás, como se o importante fosse dar razão ao profeta Daniel ou a Mateus (24:3, 21) cujas profecias eram o seu modo de vida.

Quem quererá a Igreja católica convencer, para além dos que se habituaram a crer nela desde o nascimento?

5 de Dezembro, 2013 Carlos Esperança

A frase

 

[O papa Francisco] Antes da profissão de fé, teve uma profissão de pé: porteiro de discoteca.

(Ferreira Fernandes, jornalista, hoje, no DN)

5 de Dezembro, 2013 Carlos Esperança

Espanha – Considerações sobre o Golpe 23-F de 1981

Com quase 94 anos, faleceu no dia 1 de dezembro o general franquista Alfonso Armada, nono Marquês de Santa Cruz de Rivadulla, envolvido na tentativa de golpe de Estado de 23 de fevereiro de 1981 (23-F).

Da tentativa de interrupção do processo democrático e regresso ao fascismo puro e duro do cruel genocida do século XX, Francisco Franco, ficou a imagem do grotesco tenente-coronel Tejero Molina, de tricórnio, aos tiros, com 200 guardas civis, no Congresso dos Deputados. Alfonso Armada foi esquecido, como se não fosse o chefe do golpe que teve como efeito mais visível o sequestro dos deputados, na tentativa de impedir a posse do governo de Calvo-Sotelo, para dar lugar a um governo presidido por si.

Alfonso Armada foi o perceptor indicado pelo ditador Franco para educar o futuro rei Juan Carlos, de quem se tornou amigo e assessor. Foi um dos generais mais influentes de Espanha e, durante 17 anos, secretário-geral da Casa Real, lugar de que abdicaria por confrontos com o primeiro-ministro, Adolfo Suarez, e pelo hábito de enviar cartas com o selo da Casa Real a solicitar o voto na Aliança Popular, nas eleições 1977.

Em 1983 foi demitido e condenado a 30 anos de prisão, sendo perdoado pelo Governo em 1988, alegando razões de saúde. Viveu ainda mais 25 anos.

Se o regresso à monarquia foi um ato ignóbil do cruel genocida Francisco Franco, a sua continuidade ficou a dever-se à narrativa do golpe 23-F, onde Juan Carlos aparece como paladino da democracia, esquecidos os discursos de bajulação ao ditador e a formação fascista nas madraças franquistas às mãos de fascistas como Afonso Armada.

A memória da Guerra Civil, a conivência entre a Igreja católica e o franquismo, o medo e a urgência da transição pacífica fizeram democrata o rei e de Franco um estadista.

Mas já é tempo de julgar os crimes de Franco e de se contar a verdade sobre a atuação de Juan Carlos antes de se dedicar às várias espécies de caça, dos negócios aos elefantes e a outra espécies cinegéticas em que a rainha e a galinha não eram as únicas da sua ementa.

4 de Dezembro, 2013 Carlos Esperança

Sá Carneiro – aniversário da sua morte

Decorreu nesta quarta-feira a missa que assinalou o 33.º aniversário do desaparecimento de Francisco Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa, vítimas da queda de um avião em Camarate, que ocorreu a 4 de dezembro de 1980.

Esta é a notícia comum da comunicação social. Ninguém se lembrou de referir que o bispo de Braga, D. Eurico Dias Nogueira, afirmou que, segundo o direito canónico, não tinha direito a cerimónias litúrgicas, por ter vivido amancebado, situação em que morreu na trágica queda do avião.

Enquanto o bispo de Braga defendia o direito canónico, o cardeal-patriarca, os bispos e numerosos padres deram colorido à mórbida encenação com que quiseram levar a PR o general Soares Carneiro, adversário de Ramalho Eanes.

E nunca mais lhe faltaram missas, apesar de ter morrido em pecado mortal.

3 de Dezembro, 2013 Carlos Esperança

O risível senhor Duarte Pio e os seus defensores

Surpreende-me que alguém, com formação democrática, defenda direitos vitalícios e hereditários que julgava reservados às moléstias, como a sífilis ou a esquizofrenia. Não aceito que se retire a qualquer cidadão o direito de ocupar o mais alto cargo do País, e repudio quem o atinja sem escrutínio popular, ou nele se perpetue, e se atribua o direito de o transmitir. Todos os homens nascem livres e iguais.

Sei que há cidadãos e vassalos. Há quem renuncie aos direitos de cidadania e à própria liberdade. Não é com esses que se constrói o futuro ou se conquista a liberdade. Os que renunciam aos seus direitos podem fazê-lo, não podem é confiscar os direitos alheios e opor-se ao princípio republicano de que os cargos públicos não são vitalícios nem transmissíveis.

Dado que a monarquia portuguesa esteve sempre ligada à Igreja católica e que esta era a religião oficial do país, há quem, por opção pia ou astenia democrática, insista na defesa de um anacronismo que exigiria descobrir um primeiro rei para ser o último.

Perante o folclore em volta de um figurante das revistas mundanas, aqui ficam algumas considerações para reflexão.

Os súbditos conhecem-no por Duarte Pio João Miguel Gabriel Rafael de Bragança. Parece um catálogo de nomes e, afinal, é um rol com que o titular enfeita as penas da descendência miguelista. Legalmente, é apenas Duarte Pio de Bragança, tendo deixado cair o João e três arcanjos com que se ornavam os príncipes da Casa de Bragança.

O Sr. Duarte é descendente de família pouco recomendável, de que a própria monarquia se libertou, por higiene política, quando D. Miguel I foi derrotado, exilado e banido do País, assim como os seus descendentes, entre os quais o especialista em milagres e autor de um opúsculo sobre S. Nuno Álvares cuja santidade foi obtida no ramo oftalmológico com a cura do olho esquerdo de D. Guilhermina de Jesus, queimado com salpicos de óleo fervente de fritar peixe.

Quando o Sr. Duarte Pio nasceu, ainda sob a lei do banimento, foi logo batizado, tendo como padrinho da cerimónia católica, o Papa Pio XII, por procuração, pois o Papa de Hitler, como ficou conhecido, era mais dedicado ao nazismo e às Concordatas do que à família de seu pai, Sr. Duarte Nuno, banida de Portugal.

Duarte Nuno Fernando Maria Miguel Gabriel Rafael Francisco Xavier Raimundo António de Bragança era o nome do pai, imigrante que veio para Portugal em 1953, três anos após a Assembleia Nacional ter revogado a lei do banimento, por ordem do ditador e intervenção dos monárquicos fascistas. Foi-lhe atribuída uma residência, cedida pela Fundação da Casa de Bragança, com autorização do déspota de serviço, monárquico por convicção e ditador por decisão própria.

Tamanho nome recruta vassalos para o regime que expirou, para a família extinta e para um candidato a rei, que existe pela fé de dezenas de candidatos a súbditos. Com nomes tão extensos, bastaria referir duas gerações de primos e tios para, em vez do opúsculo, ter o Sr. Duarte matéria para um tratado, ainda que lhe faltasse o método e o objeto para o transformar em ciência.
O Sr. Duarte, mulher e filhos são, conforme o sexo, cavaleiros ou damas da «Soberana Ordem Militar de S. João de Jerusalém, de Rodes e Malta», locais onde os desconhecem e ninguém os reclama.

Se os portugueses ensandecessem ainda voltariam a ter, pela graça de Deus e desgraça nossa, um Rei de Portugal e dos Algarves d’Aquém e d’Além Mar em África, Senhor da Guiné e do Comércio, da Conquista e da Navegação da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia, Senhor Fidelíssimo, etc..

Estes títulos e a varíola foram erradicados e da sereníssima Casa de Bragança resta uma fundação. No passado foi uma instituição de geometria variável que começou a encolher com D. João II, que escusava ter degolado o seu 3.º duque, e que tem sofrido, ao longo da História, as vicissitudes políticas de quem detém o poder.

 

2 de Dezembro, 2013 Carlos Esperança

A Irmã Lúcia e o folhetim dos segredos

Irma_Lucia

 

 

Lúcia de Jesus dos Santos ou Irmã Maria Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado, Irmã Lúcia, para os mais chegados, fez a 1.ª comunhão aos 6 anos e aos 14 tornou-se reclusa, como pensionista, na escola das Irmãs de St.ª Doroteia, em Vilar, próximo do Porto.

A 3 de janeiro de 1944, já com letra aprimorada e intimidade com o divino, escreveu, a pedido, a “Terceira Parte do Segredo de Fátima”, quando ainda usava o pseudónimo de Maria das Dores e vivia enclausurada em Tui, Espanha.

Já era então vasto o currículo místico, com amplo traquejo no campo das visões, desde as entrevistas com a Virgem, que saltitava de azinheira em azinheira, até aos rodopios do sol, transformado em bola de fogo, a brilhar em numerosas cores, e à viagem ao Inferno onde encontrou o Administrador do Concelho de Ourém, a frigir como merecia, por, em vida, ter faltado à missa.

A Terceira Parte do Segredo de Fátima foi um ponto alto da sua bibliografia pois era a profecia que o papa João Paulo II, na sua superstição, entendeu ser a seu respeito. Esse recado celeste vai agora ser investigado por uma professora catedrática de Coimbra, Maria José Azevedo Santos, não porque tenha a santidade no apelido, mas por ser uma cientista em Paleografia, Diplomática e Codicologia, ciências terrenas que hão de ajudar a compreender as idiossincrasias do Paraíso.

A Congregação para a Doutrina da Fé, ex-Santo-Ofício, de passado pouco estimável, é a possuidora do valioso documento, ora emprestado, pelo prazo de 1 ano, ao Santuário de Fátima onde integrará a exposição «Segredo e Revelação», evento que acordará paixões pias e êxtases místicos.

Espera-se que no acervo dos alvitres da Senhora do Rosário – nome com que a virgem se apresentou aos pastorinhos –, não faltem as cartas que a experiente vidente dirigiu a Marcelo Caetano pedindo legislação adequada para a altura das saias e o tamanho das mangas dos vestidos femininos.

Sabe-se que a Ir.ª Lúcia está no Céu porque, no dia do seu funeral, o Papa João Paulo II e o futuro Papa Bento XVI disseram que ela iria para o céu e Deus seria incapaz de lhes contrariar as previsões.