Por
João Pedro Moura
Fica aqui o meu ateísmo em suspensão, à espera dum milagre de S. Roque, a quem impetro pela passagem da seleção portuguesa de futebol aos oitavos de final, no mundial do Brasil…
Porquê S. Roque? Fundamentalmente, porque é o meu santinho favorito, e é favorito porque é padroeiro dos cachorros sem coleira…
… E dos desvalidos e dos tolinhos, também…
Segue uma oração do milagre…
… Vamos lá todos, crédulos e incréus, em uníssono:
Ó meu pobrezinho S. Roque,
padroeiro dos cachorros sem coleira,
põe a seleção a toque
e livra-os da pasmaceira!
A ti te impetro, S. Roque dos desvalidos,
santo dos canídeos e dos tolos,
põe aquela seleção de esvaídos
a chutar e a marcar golos!
Ó S. Roque, taumaturgo e benfeitor,
aclara Paulo Bento, dramaturgo e treinador,
e se este aos oitavos não passar,
põe-no dali a andar!…
Se Portugal passar aos oitavos, vou em peregrinação pedestre a uma capela de S. Roque, o mais perto possível da minha casa (para não sofrer muito…), a chutar uma bola, e, lá chegado, darei um número de voltas à capela igual à diferença de golos entre marcados e sofridos por Portugal…
Depois, colocarei a bola junto aos pés da estátua, amadeirada ou porcelânica, desse desprezado e esquecido santinho do jardim da celeste corte, com uma jaculatória em honra do mesmo…
Vamos lá, S. Roque, beneficiar essa cambada de alemães pós-nazis, contra os ianques dos States…
…E pôr Portugal a jogar e marcar golos contra aqueles GANAnciosos…
A não ser que o S. Roque prefira esses pós-nazis e os ianques, mais a negritude africana, como filhos mais diletos de Deus…
…Em vez desta nação fidelíssima e consagradíssima à Virgem santíssima…
Qual julga ser o impacto do 25 de abril no processo de estabelecimento da liberdade religiosa em Portugal?
Resposta – Antes do 25 de abril de 1974 não havia liberdade em Portugal. Vivia-se em ditadura e a própria Igreja católica, cúmplice do regime, silenciosa perante o exílio do bispo do Porto, António Ferreira Gomes, não gozava de total liberdade. A Concordata obrigava a que a nomeação de bispos fosse submetida ao Governo que podia recusar os nomes propostos.
Nas colónias, graças ao Acordo Missionário, os bispos e padres católicos eram uma espécie de funcionários do Estado. Os bispos eram equiparados em vencimento e categoria a Governadores de Distrito. Essa situação, além da repressão policial e da sintonia entre o poder político e religioso, tornava-os reféns felizes da ditadura.
Nas escolas primárias as aulas de Religião católica eram obrigatórias, tal como nos liceus, até ao 5.º ano, isto é, a doutrinação católica era obrigatória durante 9 anos, apesar do ensino ser obrigatório apenas durante 4, e, durante muitos anos da ditadura, apenas 3 anos de escolaridade para as raparigas.
O judaísmo podia ter mesquitas mas era-lhes proibido abrir portas para a rua. O acesso fazia-se por uma porta que dava para um quintal na única que conheci, em Lisboa.
As restantes igrejas cristãs eram discriminadas e o acesso às escolas do Magistério Primário ou às Escolas de Enfermagem era, na prática, impedido aos seus membros. O atestado de batismo católico e o atestado de bom comportamento passado pelo pároco católico era «documento» obrigatório em algumas escolas de Enfermagem.
Os privilégios da Igreja católica eram grandes. O casamento canónico era quase obrigatório e produzia efeitos civis, impossibilitando o divórcio.
As restantes Igrejas, mesmo as protestantes, eram objeto de constrangimentos sociais e de vigilância policial pela sinistra polícia política –a PIDE. Em suma, não havia liberdade religiosa em Portugal, havia conivência entre Salazar e o seu amigo e ex-colega cardeal Cerejeira na liquidação de todas as liberdades.
O 25 de abril de 1974, ao desmantelar o aparelho repressivo da ditadura, permitiu a explosão de várias confissões religiosas sem qualquer perseguição ou discriminação como viria a ser consagrado na Constituição da República, cuja separação do Estado e das Igrejas está consagrada e não pode ser objeto de revisão.
Apesar de a monarquia ser uma instituição obsoleta, sem legitimidade, onde o poder se transmite por via uterina e se torna vitalício, o rei de Espanha portou-se melhor do que alguns republicanos, como se vê no post anterior.
As sotainas recolheram o cálice e a patena, os bispos a mitra e o báculo, e os cardeais o barrete. A cerimónia insalubre não teve lugar. O clero limita-se a mandar rezar.
O novo rei de Espanha, Filipe VI prometeu, entre outras coisas, uma “monarquia moderna”. Embora isso me cheire a paradoxo, assim uma espécie de gigante pequenino ou preto claro, há sempre a esperança de que um rei jovem traga alguns sinais de modernidade quando se inicia uma nova etapa, assim uma espécie de “evolução na continuidade”, onde foi que já ouvi isto?
Afinal, parece que não se trata, apenas, de simples promessa de circunstância. O insuspeito “Jornal de Notícias” dá conta de que a cerimónia de proclamação não teve qualquer cerimónia religiosa o que, no entanto, não impediu os bispos de pedir aos espanhóis que rezassem pelo novo rei, numa espécie de postura em bicos de pés sem que, no entanto, se vislumbre qualquer utilidade nas orações.
Ou seja, Filipe VI absteve-se de benzeduras o que, queiramos ou não, é de bom augúrio, relativamente ao caminho que parece querer seguir quanto à questão de galhos e macacos. Mas será que os macacos alguma vez saberão quais são os respectivos galhos?
Na próxima semana começa o Ramadão, mês sagrado para o islamismo e durante o qual os muçulmanos praticam o jejum, desde o nascer ao pôr do sol. O Ramadã tem a duração de 30 dias e marca o começo do nono mês muçulmano, seguindo o calendário lunar.
“Fazer jejum é um dos cinco pilares do Islã. Jejum faz bem para a saúde porque sabemos que a doença sai do estômago e se a pessoa fica sem comer e beber a doença vai embora, ela fica boa e sem vontade de cometer pecados”, explica o sheikh Omar Omama, da Mesquita de Cuiabá.
O Diário de uns ateus é o blogue de uma comunidade de ateus e ateias portugueses fundadores da Associação Ateísta Portuguesa. O primeiro domínio foi o ateismo.net, que deu origem ao Diário Ateísta, um dos primeiros blogues portugueses. Hoje, este é um espaço de divulgação de opinião e comentário pessoal daqueles que aqui colaboram. Todos os textos publicados neste espaço são da exclusiva responsabilidade dos autores e não representam necessariamente as posições da Associação Ateísta Portuguesa.