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8 de Março, 2007 jvasco

Calculem…

Pelos comentários que recebi (aqui e em privado) parece que não ficou claro porque é que a dificuldade de calcular a estrutura de uma proteína é irrelevante para o argumento criacionista. A proposta criacionista é que se uma célula produz proteínas com formas que nem um supercomputador consegue calcular, então os seres vivos só podem ter sido criados por um ser inteligente e omnipotente.

Este tema interessa-me porque trabalho em modelação, e sei bem o que custa calcular estas coisas. Sei também que a dificuldade de cálculo não tem nada a ver com ser vivo ou não, e que a proposta criacionista é treta.

Imaginem que estão na Lua e atiram uma pedra. A trajectória da pedra é fácil de calcular porque o sistema é simples: uma pedra, aceleração constante (a gravidade da lua), e uma velocidade e posição inicial. É uma parábola, e pronto. Mas se fazem o mesmo na Terra num dia de vendaval estão tramados. A resistência do ar, o vento variável, a pedra com forma irregular a rodar em relação ao vento, e lá se foi a parábola ou qualquer hipótese de resolver o sistema de forma simples.

A alternativa chama-se integração numérica, mas é mais simples de compreender que de pronunciar. Se conseguirmos parar o tempo e medir naquele instante a velocidade e posição da pedra e a velocidade do vento, conseguimos calcular a força que o vento exerce sobre a pedra, e quanto é que essa força vai alterar a velocidade (e direcção) da pedra. Se andarmos um instante de cada vez podemos fazer isto a cada passo e calcular a trajectória da pedra até cair no chão.

A vantagem é que quanto mais pequeno for o passo maior é a precisão. A desvantagem é que quanto mais pequeno for o passo mais passos temos que calcular. Mas com uma pedra e um computador bom se calhar o cálculo acaba antes da pedra cair.

Se em vez da pedra atirarem um balde de areia, o caso muda de figura. O cálculo é o mesmo, mas enquanto que a areia do balde vai toda ao mesmo tempo, o desgraçado do computador tem que calcular um grãozinho de cada vez, passo a passo, e já vocês acabaram de varrer a areia verdadeira ainda a virtual não saiu do balde.

A estrutura das proteínas é difícil de calcular porque são milhares de átomos a interagir de formas complexas. Mas isto não é uma característica única dos seres vivos, nem indicativo de origem milagrosa. Também é preciso muito poder de computação para cálculos de aerodinâmica, para simular reacções nucleares, para prever o estado do tempo e alterações climáticas, e muitas outras coisas.

E se é preciso um deus para explicar uma proteína, o que será preciso para explicar um deus?

——————————–[Ludwig Krippahl]

8 de Março, 2007 Ricardo Alves

O cardeal no protocolo da TV pública

Na comemoração dos 50 anos da RTP, lá estava a sotaina de José Policarpo, sempre um passo atrás do Presidente da República e um passo à frente de dois ministros do governo da República. Como se não bastasse, benzeu o monumento dos 50 anos da RTP, um gesto «mágico» cujas consequências se ignoram.

Tendo em conta que se fez uma lei de protocolo de Estado, há menos de um ano, pela qual o cardeal-patriarca de Lisboa deixou de ter lugar no protocolo de Estado, como deve ser interpretada a atitude de uma das mais emblemáticas empresas públicas, ao colocar o cardeal Policarpo no protocolo da TV pública? Foi uma provocação deliberada?

[Esquerda Republicana/Diário Ateísta]
8 de Março, 2007 Ricardo Alves

Conferências :«Análise Evolutiva da Religião» (na Gulbenkian)

Um leitor indicou-nos esta informação interessante:
Conferências sobre religião e evolução, na Fundação Calouste Gulbenkian (em Lisboa).

«Evolução e Religião: o secundário e o principal»,
por David Sloan Wilson (12 de Março de 2007, 18 horas, auditório 2).

É o autor de «Darwin´s Cathedral: Evolution, Religion and the Nature of Society».

«A origem evolutiva da religião», por Lewis Wolpert
(13 de Março de 2007, 18 horas, auditório 2).

É o autor de «Six Impossible Things Before Breakfast – The Evolutionary Origin of Belief».

(Deve valer a pena, para quem puder…)

7 de Março, 2007 Helder Sanches

O deus de Darwin

Um recente artigo do New York Times sobre a razão ou razões por que os seres humanos são tendencialmente crédulos no sobrenatural tem dado muito que falar na blogosfera mais atenta a estes fenómenos.

Pessoalmente, independentemente da minha posição ateísta, este assunto fascina-me. Estaremos condenados, enquanto espécie, à superstição e ao sobrenatural? Que aspectos da nossa evolução nos condicionaram e nos predispuseram a acreditar em fantasias?

São referidas muitas experiências e são dadas muitas explicações para o fenómeno. É um artigo extenso mas vale bem a pena. Salvei-o em PDF para futuras referências. No New York Times está aqui.

(Diário Ateísta/Penso, logo, sou ateu)

7 de Março, 2007 jvasco

Se não pode ser julgado, não lhe chames bom

Já apresentei neste blogue alguns artigos sobre o paradoxo do mal (I, II, III, IV e V), e obtive várias respostas curiosas a respeito deste assunto.

Uma das respostas defende que «Deus não pode ser julgado pelos nossos padrões de moralidade». É uma afirmação que oiço ser repetida, com a qual muitos crentes concordam.

Mas se os crentes acreditassem num Deus que não pudesse ser julgado pelos nossos padrões de moralidade, então não faria sentido dizer que ele é bom. É que dizer que Deus é bom é precisamente julgar Deus pelos nossos padrões de moralidade.

Um Deus que não pode ser julgado por tais padrões não pode ser considerado bom nem mau.

7 de Março, 2007 jvasco

O que as proteínas nos dizem.

Agradeço mais uma vez ao Jónatas Machado, desta feita pela referência ao artigo criacionista «Did God create life? Ask a protein». Interessa-me porque trabalho em modelação de interacção e estrutura de proteínas, e não pelo artigo em si, que sofre de defeitos comuns da literatura “cientifica” criacionista. Rebate hipóteses há muito descartadas pela comunidade científica e usa uma analogia enganosa: a IBM montou um supercomputador para prever como uma proteína se forma, e o cálculo pode demorar um ano, mas a célula faz uma proteína em menos de um segundo.

E daí? Eu dou um salto no ar em menos de um segundo, mas se me pedirem para calcular os parâmetros de um modelo matemático que descreve a trajectória de todos os meus ossos, a força em todos os músculos, a aceleração, a pressão nas articulações e assim, nem um ano me chega. E eu sou mais esperto que uma célula – essa nem se safa com o 2+2. Mas em vez de dissecar o artigo vou vos contar o que as proteínas respondem à pergunta dos criacionistas. Vou começar do início.

Uma proteína é uma molécula com milhares de átomos, produzida ligando moléculas mais pequenas (aminoácidos) numa sequência determinada pelo gene. Conforme a «lombriga» vai crescendo, vai se enrolando numa forma complexa que depende da interacção dos diferentes aminoácidos na sequência. Vou ilustrar com a mioglobina, uma proteína com 153 aminoácidos que armazena Oxigénio nos músculos dos animais. A figura 1 mostra a estrutura da mioglobina de humano, foca, e tartaruga.


Figura 1 (clique para ver maior)

A laranja marquei os aminoácidos que são diferentes da mioglobina humana. A foca tem 25 e a tartaruga tem 48 aminoácidos diferentes da nossa mioglobina. No entanto têm todas a mesma estrutura. Isto é surpreendente porque sabemos, por experiência, que a estrutura é muito sensível aos aminoácidos na sequência. Se mudamos um aminoácido muitas vezes a estrutura é preservada. Mas se mudarmos mesmo que uma meia dúzia o mais certo é estragar tudo. 48 aminoácidos é um terço da mioglobina – é surpreendente que um designer inteligente mude um aminoácido em cada três quando quer que a proteína fique exactamente na mesma.

Do design inteligente de sistemas complexos, como máquinas ou seres vivos, esperamos uniformização de partes. Se comprarem móveis no IKEA vêem que há alguns tipos de ferragens e cavilhas que servem para todo o mobiliário. A primeira coisa que as proteínas nos dizem é que, se a vida foi criada com alguma inteligência, foi por vários criadores, provavelmente em comité.

Mas nem isso. Mesmo num design por comité, o criacionismo prevê que a foca fique algures entre nós e a tartaruga. Pelas diferenças, 25 para a foca e 48 para a tartaruga, a foca devia ficar sensivelmente a meio. Mas a figura 2 mostra que não conseguimos encaixar a foca assim. É que entre a mioglobina da foca e da tartaruga há também 48 diferenças.


Figura 2

Para um criador omnipotente tudo é possível. Podia ter feito as coisas exactamente assim. Mas podia ter feito de outra maneira, e por isso como explicação não serve. Não há nada no design inteligente que nos leve a concluir que é assim que as proteínas deviam ser. Antes pelo contrário; esperávamos que fosse de outra maneira.

Felizmente, temos uma teoria muito melhor. Há muitas gerações havia uma população de organismos com uma mioglobina. Quase todos nasciam com a mioglobina igual à dos pais, mas de vez em quando, por um erro acidental, um nascia com um aminoácido diferente. Se essa mutação afectava a estrutura da mioglobina provavelmente o desgraçado morria logo, porque a mioglobina já funcionava bem e não havia muito que se pudesse mudar. Mas se a mutação não afectasse nada o organismo vivia, reproduzia-se, e passava a sequência diferente aos seus descendentes.

Partes desta população foram se isolando, mudando independentemente, e dando origem a novas espécies. Ao longo do tempo foram-se acumulando as tais mutações neutras, que não mudavam a estrutura da mioglobina. E como eram aleatórias eram diferentes em linhagens diferentes. Hoje em dia temos uma árvore de família como a da figura 3.


Figura 3

Nós e a foca partilhamos um antepassado mais recente, por isso somos mais parecidos, mas a tartaruga está equidistante de ambos, partilhando connosco e com a foca um antepassado mais antigo. Os humanos e as focas são primos mais próximos, e a tartaruga um primo afastado dos dois.

Isto é válido para a milhares de proteínas e milhares de espécies. Estas árvores de família aparecem todas as vezes que olhamos para as proteínas de espécies diferentes, e são coerentes entre si. Quando perguntamos às proteínas se foi um deus que criou a vida, a resposta é clara: «Não, que disparate.»

Detalhes técnicos:
As estruturas estão disponíveis no Protein Data Bank. Usei a 2MM1 para a mioglobina humana, 1MBS para a de foca, e 1LHS para a de tartaruga. A estrutura da mioglobina humana é um mutante, com a Cisteína 110 substituida por Alanina, mas contei com isso para as diferenças (se não dava 24 em vez de 25 comparando com a foca, o que também não era muito importante). Para os bonecos e as contagens usei o meu software favorito de modelação molecular: Chemera, acrescentando umas linhas de código para facilitar mudar as cores dos aminoácidos diferentes sem ter que os seleccionar um a um. As fotos foram tiradas da net, e não encontrei uma decente de tartaruga marinha, por isso foi mesmo esta da sua prima direita.

——————————–[Ludwig Krippahl]

7 de Março, 2007 Carlos Esperança

Bento 16 defende regresso do Latim às missas

O último ditador europeu, regedor vitalício de um bairro mal frequentado – o Vaticano -, defende o regresso do latim às missas para tentar que Deus perceba os padres.

Segundo as últimas informações, transmitidas por aquela pomba estúpida a que chamam Espírito Santo, Deus entrou de baixa na psiquiatria quando as missas começaram a ser celebradas nas línguas autóctones e ainda não teve alta.

Senil e rabugento, já percebia mal o latim e não estava em condições de aprender novos idiomas quando o Vaticano II, na melhor das intenções, se convenceu de que o seu Deus era poliglota. Não era. Por isso, se lhe pedem a paz, vem a guerra; se rezam uma novena para que chova, calha um ano de seca; se pedem as melhoras de um doente, este estica o pernil; imploram-lhe que salve a vinha, vem o míldio; fazem uma procissão para salvar a seara, arma-se uma trovoada e lá se vai o grão. Enfim, as ligações com o Céu caíram.

Deus, além de surdo aos que passam o tempo de joelhos e a debitar orações, deixou de ser a cura e tornou-se a doença que aflige os crentes e desacredita o clero. Assim, não há milagres que restaurem a confiança em Deus. Este é a nódoa que cai na superstição dos devotos e não há orações que o reabilitem.

O regresso ao latim sempre tem uma vantagem, os crentes não sabem se é o padre que se engana no pedido ou Deus que não acerta com o desejo.

Além disso voltam ao redil os excomungados da Sociedade São Pio X, devotos de forte pendor fascista e seguidores do Concílio de Trento. A ICAR pode sonhar com cruzadas e, se as circunstâncias o permitirem, com novas fogueiras. Em latim, Deus vai ouvir o Sapatinhos Vermelhos e sair do manicómio.

É o mimetismo com o Islão, onde o Deus de lá só percebe árabe e faz dos crentes loucos e facínoras com uma legião de clérigos a servirem de tradutores da vontade divina.

6 de Março, 2007 Carlos Esperança

A oração é a A-1 para o Céu

«A oração não é um acessório ou algo de optativo, mas uma questão de vida ou de morte. Só quem reza, quem se confia a Deus com amor filial, pode entrar na vida eterna, que é o próprio Deus», referiu Bento XVI na oração dominical do Angelus.

O Sapatinhos Vermelhos bale metáforas, como a pitonisa de Delfos. Veio da Sagrada Congregação da Fé (ex-Santo Ofício) para a direcção da ICAR, montado no Opus Dei e com o boato posto a correr de que tinha sido por inspiração do Espírito Santo, a pomba estúpida homónima de banqueiros portugueses.

Dizer que a oração é uma questão de vida ou de morte é equipará-la a um medicamento, quando é placebo, e pensar que em doses terapêuticas pode curar e, em excesso, matar.

«A oração não é um acessório». Claro que não. Doutro modo seria usada nos bordéis sadomasoquistas e como cilício nas casas pouco recomendáveis do Opus Dei onde se usam pios acessórios.

Mas a mais idiota das afirmações é dizer que a «oração é o caminho» para a vida eterna. Imaginemos que uma beata adormece no pai-nosso e vai ter ao Purgatório, que um devoto tartamudeia a salve-rainha e se perde do Paraíso, que um bem-aventurado rumina o credo e se mete por um beco em vez da auto-estrada que, segundo B16, entra no próprio Deus, sem portagem. É o caos nos transportes celestes, uma viagem no deserto sem bússola nem GPS.

Se, quem reza, pode entrar no próprio Deus – como diz o Papa -, Deus não é o criador com que engana a clientela, é uma estação de serviço onde se chega pelos caminhos da oração, um nó rodoviário onde vão ter os ociosos que passam a vida a rezar, o centro viário dos pobres de espírito que olham para os vestidinhos do Papa sem se rirem e ouvem-no dizer asneiras com o ar bobino de quem espera um bilhete para a eternidade.

Afinal, o Céu não é um destino, é um autódromo onde as almas fazem ralis com o motor alimentado a ave-marias, salve-rainhas, credos, padres-nossos, terços, novenas e missas, almas adaptadas a combustíveis mistos e pias tolices, sendo o Angelus indicado para as almas-turbo.

6 de Março, 2007 jvasco

Coincidências.

Num comentário ao post anterior, o leitor «kota» escreveu que «houve de facto ajudas por parte de pessoas ditas videntes ou lá o que quiserem chamar. É pouco provável que sejam meras coincidências.»

Pouco quanto? A probabilidade é uma medida que é muitas vezes difícil de estimar de uma forma intuitiva. Imaginem que num grupo de pessoas há duas que fazem anos no mesmo dia. Tentem estimar o tamanho do grupo para o qual a probabilidade de isso acontecer é igual à de não acontecer (50%).

Muitas pessoas apontam para um número à volta de 360, os dias do ano, ou 180, a metade. Mas na realidade com um grupo de 23 pessoas a probabilidade de haver pelo menos duas com aniversários coincidentes é superior a 50%. Com 60 pessoas a probabilidade é de 99%. O cálculo está explicado na Wikipédia, e é fácil perceber porque é assim se consideramos que num grupo de 23 pessoas há 506 pares diferentes. Mas a estimativa intuitiva é completamente errada. O nosso cérebro não evoluiu para fazer facilmente este tipo de cálculo.

Outra dificuldade é a nossa tendência de dar mais importância ao que é mais saliente. Um bom exemplo são as “estranhas” semelhanças entre Kennedy e Linclon. Eleitos para o congresso em 1946 e 1846, presidentes em 1960 e 1860, ambos assassinados à sexta feira, e assim por diante. Parece demais para ser coincidência, mas é difícil de estimarmos o número imenso de coisas que ficaram de fora por serem diferentes (o nome da sogra, a padaria que frequentavam, a marca da bicicleta que tinham em criança, etc.), e o número de possíveis combinações de presidentes onde procurar semelhanças. Basta num grande número de acontecimentos há certamente alguns que são extremamente raros, mas por pura coincidência. Afinal, por muito difícil que seja para qualquer pessoa ganhar o Euromilhões, não é difícil que alguém ganhe.

Finalmente, a falácia comum da falsa dicotomia: se não é laranja, então tem que ser maçã. Isto leva a conclusões injustificadas só porque «não pode ser coincidência». Por exemplo, quando o Sol está na casa de Capricórnio há muito mais acidentes rodoviários. Isto não é coincidência, no sentido de ser por acaso, pois a diferença é estatisticamente significativa. Mas não tem nada a ver com a astrologia. O signo do Capricórnio inclui o Natal e o Ano Novo, e é o maior número de condutores embriagados que faz aumentar os acidentes.

Em suma, se alguém vos diz que não pode ser coincidência por isso qualquer coisa, o mais certo é estar errado em ambas. Provavelmente é coincidência e, mesmo que não fosse, não queria dizer nada.

——————————–[Ludwig Krippahl]