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11 de Novembro, 2005 Carlos Esperança

A azia dos crentes

Não sei se o III Congresso Internacional da Nova Evangelização, a decorrer em Lisboa, ou uma síndrome de privação da hóstia torna alguns leitores do Diário Ateísta mais agressivos.

São fundamentalmente três as acusações com que fazem, nas caixas de comentários, a catarse freudiana dos medos, dúvidas e terrores do inferno que povoam as suas mentes:

1 – a pretensa superioridade moral e intelectual ateia, que nunca senti e jamais exibi.

2 – a referência reiterada a facínoras não católicos, como Stalin, Mao, Lenine e outros, acrescentando o cristão Hitler que em «A minha Luta» citava o Génesis deliciado com a violência de Cristo a agredir os Fariseus, referência que pretende confundir e absolver a ICAR da cumplicidade nazi/fascista.

3 – a afirmação de que há, entre os cristãos, pessoas boas, generosas e beneméritas, como se algum dia o Diário Ateísta tivesse duvidado.

Direi mais, tenho pelo patriarca Policarpo, o mais destacado quadro português da ICAR, consideração e respeito pela sua craveira intelectual, moral e cívica. Conheço grandes personalidades e tenho bons amigos crentes. Ninguém é perfeito.

Mas isso não faz virgem a mãe de Jesus, não transforma em infalível o Papa B16, não torna imaculada a concepção de Maria (fertilização in vitro?), nem altera a credibilidade dos milagres, aparições e exorcismos com que a ICAR ganha a vida e extasia os fiéis.

Em suma, as qualidades que exornam os crentes não tornam verdadeira a religião, não expurgam a violência e crueldade dos livros sagrados, não transubstanciam em corpo e sangue de Cristo o pão e o vinho sob o efeito de palavras e sinais cabalísticos.

JC deixou a doutrina que justificou a Inquisição, o Índex, a contra-reforma, o genocídio dos ameríndios, dos índios e de todos os que fossem avessos à conversão. Eis a verdade.

Vamos à cumplicidade nazi/fascista da ICAR. Não há sistema mais totalitário do que a teocracia. Não há religião que não se encoste ao poder quando, de todo, não pode ser ela a detê-lo. Será por acaso que eram católicos Franco, Salazar, Mussolini, Pinochet, Hitler e Pétain e cristãos os coronéis gregos?

Por que motivo a ICAR excomungou a democracia, o socialismo, o livre pensamento, o liberalismo, o comunismo e a maçonaria e nunca excomungou o nazismo? JP2 reiterou a excomunhão ao comunismo, já depois da queda do muro de Berlim, mas nunca fez o mesmo ao nazismo. E porque recusou o reconhecimento do Estado de Israel até 1993?

Por que preparou o Vaticano a fuga de Adolf Eichmann e outros próceres nazis para os livrar do julgamento de Nuremberga?

Que fez JP2 quando os Hutus católicos do Ruanda massacraram centenas de milhares de Tutsis com a participação activa do clero no genocídio? Ficou calado e cúmplice. Isto é recente.

Eis a razão:

Os versículos da Tora abençoam o assassinato de islamitas, passagens dos Evangelhos justificam a protecção de Pio XII a Adolf Eichmann pelo genocídio cometido contra os deicidas judeus e os surahs do Corão abençoam o massacre de judeus e cristãos (por esta ordem).

Yavé abençoa a guerra e os guerreiros e promete a destruição total dos palestinianos – a «guerra santa»segundo a expressão do livro de Josué. Jesus mandou «ir e evangelizar», justificando o proselitismo e os horrores de que parcialmente JP2 pediu perdão. Maomé, o mais rude e incivilizado, recomenda a jihad.

Os ateus são os inimigos comuns a abater pela demência mística dos três monoteísmos.

10 de Novembro, 2005 Carlos Esperança

As crenças e os crentes

Os que acreditavam que o Sol girava à volta da Terra não eram, por isso, malfeitores. A ignorância da física quântica ou da energia atómica não torna ninguém indigno ou mau.

Quem crê que a Virgem Maria saltitou de azinheira em azinheira à procura da Lúcia ou que a beata Alexandrina de Balazar passou anos sem comer nem beber, em anúria, a alimentar-se de hóstias consagradas, não comete um crime.

Quem reza a um patife de nome Josemaria Escrivá de Blaguer convencido de que o fascista virou santo com três milagres obrados pelo cadáver, pede uma Graça, não é um delinquente.

Entendamo-nos de uma vez por todas. Os crentes são pessoas iguais aos ateus. O direito a acreditar na virgindade de Maria ou na virtude da bruxa da Lousã é um direito que os ateus defendem. Não significa que a bruxa não deva responder por burla e a ICAR denunciada a uma associação de defesa dos direitos dos consumidores.

Estão em causa, e só, a publicidade enganosa que divulgam, as pressões psicológicas, os terrores que infundem, os ódios que acicatam, as guerras que fomentam. Ninguém no Diário Ateísta persegue os crentes, apenas combate o que julga ser mentira.

A minha posição para com os crentes é a mesma que tenho para com os drogados. Tolerante com estes e vigoroso contra os que produzem e traficam a droga.

As hóstias que cada um papa, as missas que consome, os terços que reza, as ladainhas que debita, o incenso que aspira ou a água benta com que se borrifa, são direitos que os países livres consagram e defendem. E defendem mais – o direito de mudar de religião e o de abdicar de qualquer uma.

As Igrejas não podem nem devem, na minha opinião, servir-se do aparelho de Estado, ameaçar, perseguir ou perturbar a opinião pública no seu proselitismo. E, naturalmente, têm o direito de combater o ateísmo, pela palavra, o mesmo que assiste aos ateus para desmascarar a burla religiosa.

É do confronto dialéctico de posições divergentes que nasce a luz, não é da palavra de Deus bolsada pela voz de clérigos ou vertida na violência dos livros sagrados.

9 de Novembro, 2005 Carlos Esperança

Insensibilidade católica

O acto de violação é um «crime horroroso», mas «praticar o aborto de um feto são, fruto, embora, de um acto abjecto, é fazer pagar a vítima inocente pelo criminoso».

A frase citada pertence ao médico Walter Oswald. Foram as palavras com que o director do Instituto de Bioética da Universidade Católica inaugurou as conferências do Congresso Internacional da Nova Evangelização a decorrer em Lisboa.

O referido médico é, há décadas, simultaneamente um dos mais influentes responsáveis das comissões nacionais de ética da Ordem dos Médicos e dos Hospitais portugueses.

Não vale a pena recordar o passado tenebroso de uma Igreja que gosta de se apresentar como campeã da defesa da vida. Não houve crime nem execração que não cometesse em dois mil anos.

Vale a pena reler a frase e ver a absoluta insensibilidade em relação à mulher violada, o desprezo que a Igreja, de que o referido médico é um dos leigos mais estimados, nutre pela mulher.

Não posso deixar de recordar João Paulo II, perante as gravidezes das freiras violadas por militares, no Kosovo. Pô-las perante a alternativa de darem os filhos para adopção ou abandonarem o convento.

Eis a moral e a sensibilidade de recalcados sexuais que desenvolveram uma mentalidade misógina nas piedosas leituras dos Evangelhos.

9 de Novembro, 2005 Carlos Esperança

Um encontro de crentes

Esta foto é dedicada aos novos leitores do Diário Ateísta que desconhecem a cumplicidade da ICAR com Hitler.

8 de Novembro, 2005 Carlos Esperança

E Deus criou o Mundo…

Quando Deus era um anacoreta sombrio, farto de Paraíso e da solidão, matutou em seu pensamento apanhar o barro que, em dias de chuva, se colava às botas e lhe borrava a oficina.

Recolheu a argila, amassou-a e começou a dar-lhe forma. Percorreu-a com as mãos e moldou o boneco que a água do lago lhe reflectia, nas raras vezes que ia tomar banho.

De vez em quando regressava ao lago para recordar a face. O corpo ia-o esculpindo a olhar para o seu, embevecido como todos os narcisos. Quando acabou, tal como fazia com outras peças, pressionou o indicador sobre a estátua e fez o umbigo.

Extasiado na contemplação, continuou a aperfeiçoar o corpo, deteve-se num empenho devoto no baixo ventre e, de tanto insistir, a estátua ganhou vida.

Estava feito o homem à imagem e semelhança do oleiro.

Como ocorre com artistas em início de carreira, Deus não sabia que tinha feito a obra da sua vida embora o pressentisse pela afinidade que lhe encontrava.

Foi então que resolveu retirar algum barro e, com o que lhe sobrara, fazer outro corpo, ainda mais belo, onde reflectiu a geografia do Paraíso com vales acolhedores e montes suaves. Tinha criado a mulher e, sem o saber, dado início ao Mundo.

Então o velho cenobita, arrependido, desatou aos berros, praguejou, ameaçou e proibiu. Como tinha a paranóia das metáforas disse-lhes que não se aproximassem da árvore do conhecimento, isto é, um do outro, uma ordem que a natureza rebelde das criaturas não poderia acatar.

E, assim, de mau humor, enquanto expulsava Adão e Eva para a Terra, ficou a ruminar castigos, a congeminar torturas e medos para aterrorizar a humanidade. Demorou quatro mil anos – Deus é lento a reflectir -, e mandou-lhes a religião.

Moisés, Jesus e Maomé são os jagunços de Deus que assustam a humanidade e o ganha-pão de parasitas que dividem o tempo a dar Graças, a ameaçar os pecadores e a vender bilhetes para o Paraíso.

7 de Novembro, 2005 fburnay

Momento Zen de Segunda-Feira

João César das Neves presenteou-nos novamente com um número literário.
Escreve João César das Neves no DN de hoje:

«[…] eu sei que é difícil, mas suponha por momentos que Cristo não está vivo. Suponha por um instante que Jesus não ressuscitou, que não é o filho de Deus […]»

Não sei porquê mas não me parece lá muito difícil. Porque difícil, mesmo difícil, é acreditar que:

1) Jesus é filho de Deus e Deus ao mesmo tempo;
2) Jesus morreu e ressuscitou três dias depois, tendo subido para o céu onde sobreviveu em carne e osso mais de dois mil anos;
3) Jesus ressuscitou mortos, curou leprosos, cegos, paralíticos, multiplicou pães e peixes e transformou água em vinho;
4) A mãe dele deu à luz sem ter tido relações sexuais, morreu há dois mil anos e não obstante apareceu umas tantas vezes empoleirada em azinheiras ali para os lados da Cova da Iria;
5) A hóstia e o vinho transubstanciam-se no corpo e sangue de Jesus;
6) A Bíblia faz sentido;
7) A ICAR é uma instituição benemérita;
8) O cidadão Joseph Ratzinger é infalível e representa o criador do Universo.

Mas que grande sapo…

7 de Novembro, 2005 Ricardo Alves

Tentai evangelizar-me e eu vos responderei à letra

Caros católicos que tão devotamente ledes o Diário Ateísta,
chamo-vos a atenção para a prova gritante de «secularismo agressivo e intolerante» que os meios de comunicação social, inclusivamente os estatais, nos deram no passado fim de semana, e que ameaça repetir-se nos próximos dias. Efectivamente, nos espaços de emissão confessionais e nos programas noticiosos ou temáticos, nos intervalos e até, quiçá, nos programas de desporto ou de culinária, tem sido promovida uma campanha católica de proselitismo agressivo e fanático denominada «Congresso Internacional para a Nova Evangelização». O monopólio ateísta é de tal modo forte que os media, mesmo os estatais, não têm dado (nem se prevê que venham a dar) qualquer espaço para que os ateus ou agnósticos exerçam o direito ao contraditório que é reconhecido em todas as áreas à excepção da religião.
Esta operação de propaganda, para além de ser apoiada pelos mesmos media que daqui a uma semana voltarão a promover programas «imorais» e «desavergonhados», é apoiada por pelo menos duas autarquias locais de um Estado supostamente laico (a de Lisboa e a da Amadora), e promete importunar os cidadãos incautos em todo e qualquer espaço público da cidade de Lisboa, incluindo as praças principais e os centros comerciais mais frequentados, pressionando-os a voltarem a frequentar um culto que abandonaram de livre vontade, ou que jamais frequentaram.
Evidentemente, estou ciente de que os católicos, assim como as testemunhas de jeová e os seguidores da cientologia, têm legalmente o direito de ir pela rua fora tentando convencer as pessoas a mudarem as ideias religiosas que têm. Todos temos esse direito, aliás, embora eu e outros ateus prescindamos habitualmente de o exercer. Porém, já avisei publicamente aqui neste blogue, há mais de um ano, que sou ateu e que tenciono continuar a sê-lo até ao ocaso da minha consciência. Se me quiserdes bater à porta ou abordar na rua, ficais desde já prevenidos que vos convidarei a abandonar a vossa religião, que farei troça das aldrabices de Fátima e que criticarei o apoio público de que o vosso proselitismo, escandalosamente, beneficia.
7 de Novembro, 2005 Carlos Esperança

Naquele tempo…

Naquele tempo, Deus não era ainda o mito. Era apenas um mitómano a gabar-se de ter feito o Mundo em seis dias, há quatro mil anos, nem mais, nem menos, e ter descansado ao sétimo.

Era um celibatário inveterado que inadvertidamente criara Adão e Eva no Paraíso, onde vivia e tinha a oficina. Fez o homem à sua imagem e semelhança e a mulher a partir de uma costela do primeiro.

Preveniu-os de que não se aproximassem da árvore do conhecimento, advertência que a Eva logo desprezou, tentada por um demónio que por ali andava. O senhor Deus logo os expulsou do Paraíso, recriminando a malvada e com pena do imbecil que se deixou tentar.

Entretanto, na Terra, local de exílio, o primeiro e único casal logo descobriu um novo e divertido método de reprodução que amofinou o Senhor e multiplicou a espécie.

Deus era bastante sedentário mas as queixas que lhe chegaram pelos anjos, um exército de vassalos hierarquizados, levaram-no a deslocar-se ao Monte Sinai onde ditou a Moisés as suas vontades. Ensandecido pelo isolamento e pela castidade veio exigir obediência e submissão aos homens e fazer ameaças.

Após algum tempo, vieram profetas – vagabundos que prediziam o futuro -, lançando o boato de que o velho, tolhido pelo reumático, enviaria o filho para salvar o Mundo. Foi tal a ansiedade entre as tribos que alguns viram no filho da mulher de um carpinteiro de Nazaré o Messias anunciado.

Com a falta de emprego, algum pó e líquidos capitosos à mistura, inventaram a história do nascimento do pregador com jeito para milagres e parábolas.

Puseram a correr que Maria fora avisada pelo anjo Gabriel, um alcoviteiro de Deus, de que, sem ter fornicado, estava prenhe de uma pomba chamada Espírito Santo.

Nascido o puto, que nunca mijou, usou fraldas, fez birras ou fornicou, cedo se dedicou aos milagres e à pregação falando no pai e na obrigação de todos irem e ensinarem as sandices que debitava. Acabou mal e deitaram as culpas aos judeus, desde então os suspeitos do costume. Claro que JC também era judeu mas isso não quer dizer nada.

Sabe-se que foi circuncidado, que era um monoglota exímio em aramaico, língua em que discutiu com Pôncio Pilatos, que só sabia latim, sem necessidade de intermediário.

Quando se lixou, crucificado, esteve três dias provisoriamente morto e, depois, subiu ao Céu levando o prepúcio que tantas discussões teológicas havia de gerar. Os judeus ainda hoje são odiados porque o mataram mas há quem diga que isso foi uma calúnia dos que se estabeleceram com a nova religião e queriam substituir a antiga.