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21 de Junho, 2006 Carlos Esperança

O Papa é um homem… para pior

É uma violência esperar de um homem normal a castidade absoluta, a vida sem alguém com quem trocar afecto, confiança e entrega. Mas o Papa ou o fez e mente, ou não o fez e violentou a sua natureza, ou ainda, talvez as duas coisas alternadamente.

O Papa não é apenas um algoz, frio e cruel, porque a vida e o múnus o conduziram a semelhante postura. É assim porque o sistema, a cujo vértice chegou, o exige.

Há no ditador vitalício do Vaticano atenuantes que as pessoas devem compreender. O frio inquisidor já foi jovem e teve, como todos, necessidades sexuais que realizou na clandestinidade ou reprimiu por medo. Hoje, transporta a culpa do pecado ou o trauma do desejo recalcado. O certo é que nunca amou.

Quem pode esperar compreensão, tolerância e bondade de quem sofreu humilhações, recalcamentos e frustrações. O camauro não sublima tendências no fim da vida, apenas vinga o passado.

O dever de ofício fá-lo fingir que acredita na Bíblia, ele que conhece as circunstâncias e finalidades com que as mentiras foram inventadas e velhos mitos reciclados, que sabe as semelhanças entre as várias religiões e como os homens as criaram.

Basta a mentira do livro sagrado, a falsificação da história da ICAR e o negócio das relíquias e indulgências para envergonhar um Papa. Não precisava da homologação de milagres que de todo o lado lhe solicitam para fabricar beatos e santos numa competição a que JP2 abriu as portas e a que o ridículo e a vergonha já não conseguem pôr cobro.

B16 é, pois, mais uma vítima da trama de interesses da multinacional da fé sediada num bairro de 44 hectares donde se prega uma moral anacrónica e se vive a obsessão do sexo que não se pratica ou se pratica em ansiedade e com sentimentos de culpa.

É por isso que os inveterados celibatários pregam a castidade com uma obsessão que, a ser aceite, levaria em breve à extinção da espécie humana.

21 de Junho, 2006 Palmira Silva

Mulher à frente da Igreja anglicana nos Estados Unidos

Katharine Jefferts Schori, bispo do Nevada e cientista antes da sua ordenação, foi eleita para dirigir a Igreja Episcopal americana na convenção dos bispos anglicanos deste país, eleição realizada no domingo passado.

As relações entre a Igreja mãe e a delegação americana, especialmente tensas depois da ordenação do bispo abertamente homossexual Gene Robinson, agudizaram-se com a eleição de Katharine, uma liberal firmemente defensora do evolucionismo e que apoia quer o casamento homossexual quer a consagração de bispos homossexuais. O Bispo de Rochester, Michael Nazir-Ali, afirmou que nesta altura um cisma na Igreja Anglicana é um sério risco:

«Ninguém quer uma separação mas se pensarmos que praticamente temos duas religiões na mesma Igreja, algo tem de ceder em algum momento».

O risco de cisma é ainda acrescido pelo facto de que a Igreja Católica já fez saber, pela voz do Cardeal Walter Kasper, presidente do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos (CPPUC), que ordenar mulheres como bispos tornará a unidade entre ambas as Igrejas «inalcançável». Nesse sentido, o Cardeal Kasper exortou o líder da Igreja Anglicana e Arcebispo da Cantuária, Rowan Williams, a não realizar a ordenação episcopal de mulheres sem o apoio das Igrejas Ortodoxa e Católica (apoio que não se prevê nos próximos séculos).

Kasper acrescentou que o diálogo ecuménico entre as duas igrejas «mudará de tom» se a Igreja Anglicana não acabar com a «abominação». E avisou que esta «abominação» pode mesmo ameaçar a continuidade da Igreja Anglicana já que «Sem identidade, nenhuma sociedade, e muito menos uma igreja, poderá sobreviver».

Aparentemente o dignitário de Roma considera que a ordenação de mulheres é «uma perda da identidade» cristã, o que não está longe da verdade uma vez que a identidade do cristianismo assenta na misoginia.

Já no ano passado ano passado a Igreja de Roma tinha debitado um documento oficial de 10 páginas em que condenava a decisão da Igreja Anglicana não só em ordenar mulheres mas, especialmente, em elevá-las à posição de bispo, e em que avisava que consagrar mulheres «é um risco tremendo e intolerável» que pode causar «danos irreparáveis» dentro e fora da Igreja Anglicana.

E de facto, Katharine Jefferts Schori, que advoga abertamente o uso da razão e que afirma «Não usar os nossos cérebros para perceber o mundo que nos rodeia parece um pecado capital», é um «risco tremendo» para a Igreja de Roma…

20 de Junho, 2006 fburnay

A Raiz de Todo o Mal?

É o título de um documentário da BBC em que Richard Dawkins, o biólogo britânico ateu, mostra como o «processo de não-pensar», a fé, está na origem de crenças literais em mitologias que desafiam a Razão e nas certezas inabaláveis dos crentes que matam em nome da sua religião. Para ver os dois episódios, basta seguir os links:

The Root of All Evil? – Part 1
The Root of All Evil? – Part 2

20 de Junho, 2006 Ricardo Alves

O grau zero da liberdade religiosa

No Portugal anterior à revolução republicana de 1910, o culto religioso não católico era tolerado aos estrangeiros, e em espaços privados «sem forma exterior de templo». No entanto, antes de 1820, nem o culto privado praticado por estrangeiros era permitido. Os residentes do reino português ou se conformavam com a religião oficial do Estado, ou iam aquecer os pés (e o resto) nas fogueiras da Inquisição.

Existe, ainda hoje, pelo menos um país em que a situação é rigorosamente esta: o Islão é a religião oficial do Estado, os nacionais são legalmente obrigados a ser muçulmanos, e os estrangeiros nem na privacidade das suas casas têm liberdade religiosa. É a Arábia Saudita.

No dia 9 de Junho, a polícia saudita invadiu uma casa particular onde cerca de cem cristãos se encontravam em oração. No final da cerimónia, prendeu os quatro líderes cristãos que se encontravam no local. À semelhança de ocasiões anteriores, imagina-se que o seu destino seja a prisão, possivelmente a tortura, e finalmente a deportação.

A Arábia Saudita alberga neste momento sete milhões de imigrantes, nem todos originários de países muçulmanos. Residem no país de Meca e Medina quase um milhão de cristãos (sobretudo filipinos mas também etíopes e eritreus) e um número considerável de hindus (principalmente indianos).

Os xiitas sauditas (quase dois milhões de pessoas), apesar de serem muçulmanos são oficialmente discriminados no acesso às universidades e aos empregos públicos, e enfrentam restrições à abertura de mesquitas.

É normal serem conduzidas orações pedindo a morte dos judeus e dos cristãos, mesmo nas grandes mesquitas de Meca e Medina, devendo notar-se que os imãs que conduzem estas orações são (como todos os imãs sunitas do reino) salariados pelo Estado. A polícia religiosa (os mutawwa’in) prende e agride pessoas de minorias religiosas rotineiramente, e detém também muçulmanos sunitas que não se vistam de forma suficientemente conservadora ou que se desloquem acompanhados de pessoas de outro sexo que não sejam familiares.

E não há qualquer perspectiva de melhorias na situação lastimável do reino saudita.
20 de Junho, 2006 Palmira Silva

Violência em Teerão

Foto de Arash Ashoorinia. Mais fotos aqui e aqui.

Na passada segunda-feira em Teerão a polícia dispersou violentamente uma manifestação em defesa dos direitos da mulher, que acabou com inúmeras mulheres brutalmente espancadas – incluindo idosas – e cerca de 70 manifestantes (números oficiais) na cadeia.

A manifestação, a segunda consecutiva desde a revolução islâmica de 1979, tinha como objectivo o protesto pelas anacrónicas leis vigentes no Irão que, como em todos os países onde o fundamentalismo religioso (qualquer) é transcrito na letra da lei, manifestam um total desrespeito pelos mais elementares direitos da mulher.

Concretamente eram pedidas alterações nas seguintes leis: fim da poligamia (permitida por lei); direitos iguais no divórcio; direitos iguais na custódia dos filhos; direitos iguais no casamento; passagem da idade adulta para 18 anos (de acordo com a lei actual as raparigas são consideradas adultas aos 9 anos – os rapazes aos 15 anos- podendo a partir desta idade ser julgadas como um adulto ou dadas em casamento pelos pais); reconhecimento igual em tribunal do testemunho de uma mulher e de um homem e fim da exclusividade masculina em algumas profissões (a carreira da magistratura, por exemplo, é destinada apenas a homens).

De acordo com as autoridades iranianas as 42 mulheres e 28 homens detidos foram já libertados, com excepção de um homem que permanece na prisão, muito provavelmente o activista dos direitos humanos, presidente da Alumni Organization of Iran e ex-deputado reformista Ali Akbar Mousavi Khoini.

19 de Junho, 2006 Carlos Esperança

À conversa com o pregador João César das Neves

A homilia, de hoje, do santo pregador católico, João César das Neves, é portadora de avanços teológicos (V/ Diário de Notícias) no que diz respeito ao domicílio do Inferno (sito no Céu em regime de sublocação).

JCN – Vivemos numa daquelas raras épocas que não sabe bem o que pensar acerca do Céu e do Inferno – diz com a sabedoria dos eleitos, do Papa e da irmã Lúcia. Deixa-nos a convicção de que sabe muito bem, não por ouvir dizer, mas, tal como Bush, por falar com Deus.

Diário Ateísta: (em pensamento) O raio dos alcalóides!

JCN – O segundo elemento desta questão é que Deus nos ama apaixonadamente, a todos e a cada um, porque «Deus é amor» (1 Jo 4, 8 e 16). Assim, na Sua própria natureza, Deus quer a total felicidade para qualquer pessoa. Isso significa que Deus não condena ninguém. Ele leva sempre todos para o Céu.

D. A. – Com a paixão, Deus manda guerras, terramotos, maremotos, epidemias, pragas e outras manifestações da sua infinita bondade para mais depressa chamar as pessoas ao gozo da sua divina companhia.

JCN – Deus quer a total felicidade para qualquer pessoa. Isso significa que Deus não condena ninguém. Ele leva sempre todos para o Céu.

D. A. – Então o Inferno está às moscas!?

JCN – Tal significa que há zonas do Céu em que o egoísmo elimina o amor, em que a violência e o prazer são os objectivos, em que o orgulho expulsa o próprio Deus. A essas zonas do Céu chama-se Inferno.

D. A. – (verificando que Deus se converteu à economia de mercado e aproveita o direito de sublocação) – Então o Diabo existe?

JCN – Claro que existe.(…) De facto, quando deixámos de acreditar nessa personificação maléfica, baixámos as defesas e passámos a tolerar algumas das suas manifestações mais horríveis. Aborto, depravação, pornografia, gula, arrogância, e muitas outras, são hoje vistas como anedotas, expressões de personalidade, traços culturais, comportamentos excêntricos. Por isso o Diabo nunca foi tão visível como desde que deixámos de falar dele.

D. A. – Ah! E isso do lago do fogo, do Juízo final, dos condenados?

JCN (com evangélica paciência) – Trata-se simplesmente de uma forma sugestiva e colorida de dizer o mesmo, como uma mãe que assusta o filho com o papão se ele mexer em fósforos ou fichas eléctricas. O nosso tempo age como o rapazola insolente que, descobrindo que não há papões, vai meter os dedos na tomada de corrente.

Nota: As frases de JCN e algumas do Diário Ateísta são da homilia de hoje – «Ideias claras sobre o essencial».

19 de Junho, 2006 pfontela

Declaração de Guerra

Há quem se ofenda com a forma como muitos autores deste espaço tratam a religião organizada, considerando que estamos aqui a destilar veneno por puro prazer. A realidade da situação é bastante mais complicada que isso. Posso estar à vontade para dizer que o meu ateísmo nada tem de emocional, não me tornei ateu porque senti uma grande injustiça no mundo ou porque tive uma vida difícil e ninguém atendeu as minhas orações; Tornei-me ateu pelo empirismo, pela impossibilidade de aceitar dogmas, sejam eles de que natureza forem. Só os factos e indícios importam.

Mas isso por si só não chega para entender a minha participação neste espaço, muitos dos meus posts têm um teor que mais que ateu é 100% anti-clerical. E isso justifica-se com poucos argumentos: se o empirismo é a base do meu ateísmo o conservadorismo, obscurantismo e, acima de tudo, o ódio negro que vejo a grandes religiões organizadas debitar sem qualquer pudor ou bom senso tornaram-me ferozmente anti-clerical, e como cresci em Portugal sou principalmente anti-católico. Não tenho que me envergonhar das posições que tomo! Como cidadão da República estou a cumprir o meu dever cívico ao lutar para que o ódio religioso se extinga e que a manipulação política do estado por parte de organizações religiosas chegue ao seu fim.

Reconheço a boa vontade daqueles que tentam chegar a uma posição intermédia e que pensam ainda ser possível chegar a um acordo com as formas mais violentas de crença e clericalismo, mas também sei ver a sua ingenuidade. Há príncipos que não se podem negociar já que ao fazê-lo estamos a comprometer tudo o que somos (ex: não podemos ceder a pressões religiosas para suprimir vozes críticas ou regressaremos ao jogo do gato e do rato com uma censura religiosa imposta por meia dúzia de fanáticos que gostam de brincar aos inquisidores).

Não negociarei a liberdade (minha ou dos outros). Não negociarei a genuína dignidade humana (aquela que deriva do uso da razão – e não a falsificação que Roma nos quer impingir). Não renegarei o meu legado iluminista! Nao haverá “paz” entre os dois lados enquanto:

– Organizações religiosas abusarem do seu estatuto legal e da sua plataforma pública para lançar a ataques à razão e atiçar ódios ancestrais.
– Os abusos religiosos (camuflados enquanto liberdades religiosas) continuarem impunes.
– Todos os campos da ciência e da técnica não forem completamente liberados de amarras religiosas.
– Todas fés não renunciarem a todos os projectos de natureza política.
– As religiões tentarem mascarar os seus ódios e vicios com falsas virtudes.
– A religião não for totalmente confinada à esfera pessoal, que é a sua única posição possível numa sociedade livre.

Isto é um conflicto entre duas formas de ver o mundo, em que a negociação está fora de questão. Para o indivíduo, enquanto ser livre, poder prosperar e atingir os seus objectivos é necessário que a divisão que separa a política, a ciência e a lei da religião seja a mais forte possível. Sobre este ponto todos os defensores da laicidade têm a obrigação de travar o seu último combate – se tal for necessário.

19 de Junho, 2006 Carlos Esperança

A mentira da religião

A mentira, se não for contestada, triunfa e torna-se obrigatória se ninguém se opuser. A origem divina do poder apenas foi abandonada quando a correlação de forças se alterou a favor do voto popular, universal e secreto.

A liberdade religiosa conquistou-se com a derrota dos detentores do deus verdadeiro, imposto por métodos persuasivos que tornaram mais prudente a crença do que a dúvida.

O progresso é o caminho percorrido por homens e mulheres em busca da verdade, que exige sacrifícios, contra os preconceitos da fé, que dispõe de cumplicidades poderosas.

Até hoje, o progresso tem feito o seu caminho, às vezes com recuos brutais, mas quase sempre como prenúncio de novos avanços. Mas ninguém tenha ilusões, não há vitórias definitivas nem democracias vitalícias.

A religião é a superstição estruturada e hierarquizada. As religiões começaram por ser movimentos populares e acabaram em empresas de cuja sobrevivência depende o clero.

Não há lei sem sanções tal como não há Deus sem castigos. A ignorância, a angústia e o medo são ingredientes que dão vigor à fé e a punição e o terror são a força que perpetua o poder do clero.

Os homens vivem bem sem Deus mas este não pode prescindir daqueles. Padres, rabis e mullahs terão de procurar ocupação quando as religiões do livro fizerem companhia aos deuses gregos e romanos que dividiam entre si as virtudes e os defeitos dos homens.

A pouco e pouco as mentiras judaico-cristãs vão sendo desmascaradas, bem como o seu plágio mais grosseiro – o islão. As religiões não resistem à erosão do tempo e ao avanço da ciência, mas, à semelhança das feras, serão ferozes no estertor.

18 de Junho, 2006 fburnay

Imagens da História

Depois das reacções assoberbadamente fundamentalistas ao romance comercial de Dan Brown e de algumas manifestações de religiosos contra peças de teatro (será que as palavras ‘romance’ e ‘teatro’ já não vêm no dicionário?), aqui fica uma pequena amostra do infame constrangimento que durante séculos foi aplicado por Roma à Europa, e que ainda há quem ouse defender, em pleno século XXI: a censura. Neste caso o imprimatur do livro de Galileu, “Sidereus Nuncius”, publicado em 1610 e dedicado a Cosimo II de Medici, em que divulga algumas das descobertas feitas com a sua luneta.

«Os Excelentíssimos Senhores Cabeças do Concelho dos Dez, que abaixo assinam, tendo recebido certificação dos Reformadores da Universidade de Pádua por notificação dos Senhores encarregues desta questão, ou seja, do Mui Reverendo Inquisidor-Mor e do circunspecto Secretário do Senado, Giovanni Maraviglia, sob juramento, que no livro intitulado SIDEREUS NUNCIUS etc. de Galileu Galilei não há nada contrário à Santa Fé Católica, aos Princípios ou bons costumes, e que é digno de ser impresso, dão-lhe licença para que possa ser impresso nesta Cidade.

Escrito no primeiro dia de Março 1610

M.Ant. Valaresso
Nicolo Bon                                à Cabeça do Concelho dos Dez
Lunardo Marcello

O Secretário do Mui Ilustre Concelho dos Dez,
Bartholornacus Cominus

1610, a 8 de Março. Registado no livro na p. 39

Ioan. Baptista Breatto
Coadjunto da Congregação para a Blasfémia»

18 de Junho, 2006 Palmira Silva

Obscurantismo e ICAR, os tempos modernos – evolução

Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955), padre jesuíta, teólogo, filósofo e também paleontólogo francês, pioneiro a desafiar os teólogos cristãos a considerarem a proscrita evolução. Tenta reconciliar o cristianismo com a ciência, mas as suas obras não são autorizadas pelo Vaticano. Em 1933 é negado o imprimatur a Le Milieu Divine. Em 1938 a L’Enérgie Humaine. Em 1944, Roma proíbe Le Phénomène Humaine, para lá enviado em 1941. Instalado em França de 1946 a 1951, não obtém das autoridades eclesiásticas autorização para poder candidatar-se ao Collège de France, em 1948. Retira-se então para Nova Iorque, onde se instala desde 1951. Um decreto do Santo Ofício de 6 de Dezembro de 1957 determina que os seus livros devem ser retirados das bibliotecas dos seminários e instituições religiosas e não devem ser vendidos em livrarias católicas. Em 1962, ainda o Santo Ofício condenava as respectivas teorias. Só em 1981 o Vaticano reabilita (mais ou menos) Chardin.

Arrogando-se como «possuidores da verdade absoluta», uma pecha da Igreja de Roma que permanece actual, desde os seus primórdios que os teólogos católicos advogam a literalidade da «palavra revelada», inenarrante sobre todos os aspectos do mundo. Assim a incompatibilidade entre o Cristianismo e as ciências foi desenhada muitos séculos atrás, aquando da invenção desta religião. A disputa evolução e criacionismo, uma das mais mediáticas batalhas actuais, é apenas mais uma entre muitas, tais como a crença no geocentrismo, que foram perdidas pela Igreja há muito tempo.

Encurralada pela ciência, que provou os disparates de muitas «verdades absolutas» reveladas, a Igreja passa hoje a mensagem de que as escrituras são apenas alegorias, portadoras da verdade teológica, mas que não correspondem quer à verdade histórica quer à verdade científica. Este abandono de interpretações literais parece definitivo, muito embora ainda permaneçam sectores católicos que não o aceitam. No entanto, mesmos os sectores mais progressistas da Igreja não aceitam questões que envolvam a negação da infalibilidade da revelação contida nas escrituras.

Especialmente problemáticas para Igreja são as neurociências, que põem em causa conceitos fundamentais para o catolicismo como a alma ou o livre arbítrio, e outras áreas das ciências da vida que negam ou ameaçam as «verdades eternas» da Bíblia. O problema da Igreja em lidar com essas ciências «ameaçadoras» é patente na condenação do Vaticano de certas linhas de investigação, em áreas, cada vez mais restritas, que a Igreja ulula serem exclusivamente da «competência divina».

O papa do Holocausto, Pio XII, foi o primeiro a abordar o tema evolução na sua encíclica de 1955, Humani Generis, apropriadamente com o sub-título «Sobre opiniões falsas que ameaçam a doutrina católica». No documento, que evidencia a fervorosa esperança de Pio XII em que a evolução se demonstre uma «moda» científica passageira, são atacados aqueles que levados «pelas más inclinações, nascidas do pecado original» «admitem sem discrição nem prudência o sistema evolucionista, que até no próprio campo das ciências naturais não foi ainda indiscutivelmente provado, pretendendo que se deve estendê-lo à origem de todas as coisas, e com ousadia sustentam a hipótese monista e panteísta de um mundo submetido a perpétua evolução».

De igual forma, são deplorados os teólogos (como Chardin) que – para além de desprezo pela teologia escolástica e pelo magistério da Igreja que consideram «como empecilho ao progresso e obstáculo à ciência», esquecendo que o «sagrado magistério, em questões de fé e moral, deve ser para todo o teólogo a norma próxima e universal da verdade» e que é sua obrigação «observar também as constituições e decretos em que a Santa Sé proscreveu e proibiu tais falsas opiniões» – «atrevem-se a adulterar o sentido das palavras com que o concílio Vaticano define que Deus é o autor da Sagrada Escritura, e renovam uma teoria já muitas vezes condenada, segundo a qual a inerrância da Sagrada Escritura se estende unicamente aos textos que tratam de Deus mesmo, ou da religião, ou da moral».

No entanto, para jogar pelo seguro não fosse a comunidade científica insistir na evolução, Pio XII declara, em plena contradição com o que afirma sobre a inenarrância das Escrituras, que nada na doutrina católica é negado por uma teoria que sugere que uma espécie pode evoluir noutra:

«Por isso o magistério da Igreja não proíbe, em conformidade com o estado actual das ciências humanas e da sagrada teologia, que nas investigações e discussões entre homens doutos de ambos os campos se trate da doutrina do evolucionismo, desde que restrita à procura da origem do corpo humano em matéria viva preexistente – pois a fé católica obriga-nos a reter que as almas são directamente criadas por Deus».

Isto é, Pio XII pode tolerar a evolução desde que os cientistas não entrem nos campos proscritos da «animação» do corpo. As contradições óbvias desta aceitação reticente da evolução são ainda evidenciadas pela passagem em que Pio XII, que condena «o falso historicismo, que se atém só aos acontecimentos da vida humana», insiste na existência «histórica» de um Adão (e de uma Eva).

«Mas, tratando-se de outra hipótese, isto é, a do poligenismo, os filhos da Igreja não gozam da mesma liberdade, pois os fiéis cristãos não podem abraçar a teoria de que depois de Adão tenha existido na terra verdadeiros homens não procedentes do mesmo protoparente por geração natural, ou, ainda, que Adão signifique o conjunto dos primeiros pais; já que não se vê claro de que modo tal afirmação pode harmonizar-se com o que as fontes da verdade revelada e os documentos do magistério da Igreja ensinam acerca do pecado original, que procede do pecado verdadeiramente cometido por um só Adão e que, transmitindo-se a todos os homens pela geração, é próprio de cada um deles.»

Esta incompatibilidade entre a evolução e o pecado original, assim como a questão da «alma», continuam irresolúveis 50 anos depois…