27 de Julho, 2006 Carlos Esperança
Se…
Se a virgem Maria, farta de roncos e do abandono a que a votara o carpinteiro de Nazaré, não tivesse o hábito de dormitar à soleira da porta, descomposta, a rezar a Jeová;
Se não fosse noite de lua cheia quando uma pomba suspeita (as outras voam de dia) por ali passou e olhou e viu o que não devia;
Se a dita pomba continuasse a trajectória do voo em vez de poisar e ficar ali a humilhar o humilde carpinteiro;
Se a natureza não tivesse seguido o seu curso como soía;
Não seria necessário que um anjo de nome Gabriel, alcoviteiro de serviço ao Paraíso, fizesse tão longa viagem para avisar Maria de que era prenhez o volume que sentia.
Se quem conta um conto não acrescentasse um ponto;
Se a criança, em vez de ajudar na oficina, não tivesse enveredado pela pregação e feito carreira no ramo dos milagres;
Não teria florescido um negócio que leva dois mil anos de prosperidade e igual tempo a divulgar as peripécias de um curandeiro que fazia milagres à beira do lago Tiberíades e falsificava vinho para casamentos.
Como toda a gente sabe, o casamento católico é indissolúvel.
Durante todo este tempo que tem durado o processo do casamento entre duas pessoas do mesmo sexo, tenho ouvido, como é absolutamente normal, as mais díspares opiniões, quer contra quer a favor, seja do ponto de vista técnico jurídico, seja de uma perspectiva estritamente pessoal.



