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Carlos Esperança

9 de Fevereiro, 2006 Carlos Esperança

Fé e hipocrisia

Caricaturas de Maomé

O Islão não é a apenas a mais estúpida das religiões, consegue ser também a mais hipócrita.

A horda histérica que ulula contra a liberdade, que se prostra de joelhos cinco vezes ao dia e que jejua em público e come em privado, encontra-se possessa de Maomé, dependente da rede beata dos ayatollahs e mullahs e capaz de todas as ignomínias.

Acontece que as «caricaturas da ira» que os beatos cristãos acharam de mau gosto e, na sua vocação censória, entenderam que não deviam ter sido publicadas, já o tinham sido em outubro de 2005 no jornal egípcio Al Fagr, durante o ramadão.

Um blogger egípcio, «Sandmonkey» livre-pensador, lembrou-se do facto e resolveu denunciá-lo, afirmando que os manifestantes « provaram novamente que o mundo árabe é atrasado mental e não merece nada melhor que os líderes que têm».

O Jornal Globo Online, por sua vez acaba de anunciar o facto.

9 de Fevereiro, 2006 Carlos Esperança

Cristo e Maomé

Naquele tempo o anjo Gabriel era o alcoviteiro de serviço. Foi ele que disse a Maria que estava grávida o que qualquer mulher teria percebido. Foi ele também que, seis séculos depois, se encontrou com Maomé para lhe dizer qual era a sua ? dele, Maomé -, missão.

Os anjos viviam muito tempo embora poucos conhecessem notoriedade, levando uma existência discreta e anódina. Gabriel distinguiu-se. Fora criado por judeus, que faziam anjos como o Papa JP2 faria santos, que acreditavam em milagres com a mesma fé com que alguns padres rurais acreditaram na existência de Deus.

Maomé nasceu em Meca durante o ano de 571 e viria a morrer em Medina em 632. O Corão e as agências de turismo fizeram santas as duas cidades e há períodos do ano em que uma chusma de fanáticos aí acorre, apesar dos perigos que os espreitam.

Muito parecidas com as largadas de touros, um espectáculo ainda em uso no concelho do Sabugal e noutras localidades portuguesas, as peregrinações têm perigos idênticos. O apedrejamento ao Diabo, um ódio transmitido de geração em geração, salda-se sempre por várias mortes enquanto o Diabo fica incólume, à espera do próximo apedrejamento.

Maomé teve uma vida pouco recomendável, um casamento com uma menina de nove anos, coisa que a Igreja católica também não via com maus olhos, e um casamento com a rica viúva Cadija cuja fortuna lhe permitiu dedicar-se à guerra, à religião e ao plágio do cristianismo.

Depois aconteceu-lhe o mesmo que a Cristo. Começou a ser adorado, correu o boato de que tinha nascido circuncidado, de que tinha ouvido Deus, de que foi para o Paraíso em corpo e alma, enfim, aquele conjunto de coisas idiotas que se dizem dos profetas.

Hoje já ninguém pergunta se tomavam banho, se sofreram prisão de ventre ou foram vítimas das salmonelas, se urinavam virados para Meca ou para o Vaticano, que hábitos sexuais ou manifestações de lascívia tinham.

Cristo e Maomé tornaram-se cadáveres adorados e os incréus cadáveres desejados.

8 de Fevereiro, 2006 Carlos Esperança

Liberdade de expressão

A liberdade de expressão, pela palavra ou pela imagem, não pode estar condicionada a restrições nem deixar-se manietar pelo medo.

Após as manifestações de violência provocadas pela miséria, o atraso e a fé, elementos explosivos quando misturados, não faltaram piedosos censores de vários quadrantes, a invectivar os caricaturistas.

A liberdade não inclui «o direito de ferir os sentimentos religiosos dos outros» – foi a sentença do Vaticano que, se pudesse, restaurava a censura e impunha os valores do concílio de Trento.

No fundo, o Papa pensa que a liberdade ocupa um lugar subalterno em relação à fé, que o direito tem como limites a idiossincrasia beata, que não se podem beliscar os deuses que alimentam os clérigos espalhados pelo mundo.

Não se sabe o que pensa o toucinho de Maomé, sabendo-se o que este pensou daquele e sendo certo que nem um nem outro se encontram em condições de exprimir-se.

Os sentimentos religiosos são idênticos aos políticos, desportivos ou patrióticos. Quem define os limites do direito, estabelece a dimensão da ofensa ou mede o sofrimento?

Um adepto cujo clube perdeu, o político cujo partido foi batido nas urnas ou um sérvio que se viu espoliado do Kosovo, talvez sintam uma dor enorme, mas não lhes assiste o direito de queimar viaturas, apedrejar embaixadas ou assassinar cidadãos.

Se não resistirmos à violência religiosa, em breve o adultério, o divórcio e, sobretudo, a blasfémia voltarão a estar sob a alçada do código penal, na melhor das hipóteses, ou, na pior, ao arbítrio de uma santa Inquisição.

Pior que o máximo excesso que resulte da liberdade de expressão é a mínima limitação que possa ser imposta.

Os crentes não têm legitimidade para apresentar queixa das pretensas ofensas. Não são parte interessada. Apenas Moisés, Cristo ou Maomé o podem fazer ou alguém por eles mas com uma procuração presencial passada no notário. Fora disso não há legitimidade para julgar a blasfémia.

7 de Fevereiro, 2006 Carlos Esperança

Padre católico assassinado na Turquia

Tal como o álcool passou a ser factor agravante nos acidentes de automóvel, também a religião devia merecer igual tratamento nos crimes cometidos sob o efeito da fé.

A demência da fé, a insensibilidade do fanatismo e o ódio que as religiões fomentam não podem absolver ou constituir atenuante para os crimes.

O sacerdote católico italiano Andrea Santoro foi baleado por um jovem turco que emitiu o grito selvagem «Deus é grande».

O Diário Ateísta lamenta mais uma vítima e combaterá com firmeza os crimes que a fé estimula.

7 de Fevereiro, 2006 Carlos Esperança

Um caso perdido

Não me revejo no entusiasmo místico com que os cruzados degolavam infiéis, na euforia com que a Inquisição incinerava bruxas, ímpios e judeus, no dever cristão de delatar pais, irmãos ou filhos, suspeitos de heresia, nem a saltitar de gozo com a combustão de livros.

Não aprendi a gozar jejuns, a deliciar-me com cilícios ou a atingir o êxtase com a castidade. Sou um caso falhado para a vida eterna e um problema para o qual a democracia e os hábitos actuais não têm solução.

Não discuto o valor nutritivo da eucaristia, o interesse terapêutico da missa, a qualidade da confissão como detergente nem o valor da oração para adquirir um lugar no Céu.

Duvido, sim, da influência das novenas na pluviosidade, da capacidade de santa Bárbara a amainar trovoadas, da autonomia de voo da Virgem Maria para poisar nas azinheiras de Fátima, dos anjos de duas, quatro e seis asas e de toda a fauna celeste cuja existência embevece os crentes.

Abomino o hábito de vergastar pessoas para agradar a Maomé, de decepar membros para cumprir o Corão, de lapidar mulheres para punir o adultério, de decapitar infiéis para satisfazer Alá e os suicidas obcecados por virgens e rios de mel.

Troco Moisés por Voltaire, Cristo por Pasteur e Maomé por Rousseau. À fé prefiro a dúvida e aos milagres a verdade. Desprezo Deus e a sua vontade e substituo qualquer encíclica por um livro de Saramago.

6 de Fevereiro, 2006 Carlos Esperança

Diário Ateísta silenciado

O Diário Ateísta esteve silenciado durante 41 horas, desde as 02H00 da manhã de Domingo até às 19H00 de hoje.

Não foram encontrados o vírus Moisés, a bactéria J.C. ou o verme Maomé. Foi uma heresia do servidor, uma blasfémia da Internet, um pecado mortal do ciberespaço.

O D. A. deu descanso ao charlatanismo e deixou os avençados do divino à solta.

Desde as 19H00, regressou ao convívio dos leitores. Aqui está para redobrar os esforços na luta contra o obscurantismo e na tentativa de desmascarar a crueldade, a violência e a insânia que as religiões espalham.

4 de Fevereiro, 2006 Carlos Esperança

Lúcia fez milagre na Argentina

[A menina foi submetida a dez dias de terapia intensiva e começou a fazer hemodiálise. Quando tudo parecia encaminhar-se para que melhorasse, contraiu uma infecção hospitalar. Para a curar da bactéria, os médicos precisavam de dar-lhe um antibiótico. Mas os rins podiam não aguentar o poder do medicamento.
Foi então, a 13 de Junho, que Alexandra Maria se ajoelhou junto à cama da filha, levou ao peito o livro «Memórias da Irmã Lúcia» e pediu à vidente que curasse a menina e a deixasse viver sem sequelas. Dias depois, a criança recuperou. «Fizeram análises e já não havia sinais da infecção, nem da doença», conta a mãe, salientando que até os médicos classificaram a cura de «milagre»].
(Correio da Manhã, 3/2/2006)

Como previsto, pelo Diário Ateísta, em 18 de Fevereiro do ano passado, no artigo «A canonização de Lúcia», a adjudicação de um milagre seria breve, apesar de, por hábito, a intercessão milagreira estar interdita a cadáveres menores de cinco anos.

O Vaticano prescindiu da cobrança dos 250 a 300 mil euros à postulação portuguesa, custo habitual de uma beatificação – excelente augúrio, tratando-se de dinheiro.

Menos de um ano depois, e antes de removido o cadáver, já chegaram às mãos do padre vice-postulador 13 quilos de milagres, em cartas, que referem graças recebidas.
E há um que não falha. É, pelo menos, a convicção do padre responsável pelo processo de canonização dos pastorinhos Francisco e Jacinta Marto. «É uma cura sensacional, já por intercessão da irmã Lúcia depois da sua morte», disse o sacerdote.

O Diário Ateísta soube pelo Correio da Manhã, um jornal com excelentes relações com o divino e com o antigo director da PJ, que se chama Rosário André, tem quatro anos e vive na cidade de Salta, no Norte da Argentina, a menina curada em Junho de 2005 por intercessão da Irmã Lúcia.

A mãe da criança, Alexandra Maria, é uma grande devota de Nossa Senhora de Fátima e dos Pastorinhos.

Está, assim, em vias de ser reparada a injustiça, provocada pela longevidade, em que a Lúcia se atrasou no caminho da santidade, apesar de ser a única confidente da Virgem, que a aturava nas conversas, a via e lhe fazia os recados.

Graças à Lúcia, os portugueses criaram pelo terço uma loucura só hoje comparável à do Euromilhões, a Rússia começou o processo de conversão e JP2 levou um tiro por não ter previsto que o 3.º segredo era com ele.

3 de Fevereiro, 2006 Carlos Esperança

Em nome da liberdade


A transferência do direito divino para a soberania popular foi um pequeno passo para a democracia e uma grande decepção para o clero.

A liberdade é um bem cada vez mais escasso. Devassada pela insegurança dos Estados, ameaçada pelo medo e tolhida pelo fanatismo religioso, a liberdade precisa de quem a defenda contra tudo e contra todos.

A publicação destas caricaturas de Maomé desencadeou a ira do islão e os desacatos, ameaças e violências dos fanáticos do pastor de camelos. Amanhã seriam os cristão a combater esta alusão ao calvário de Cristo e a liberdade de expressão regressava às mãos dos padres e coronéis que na ditadura exerciam a censura à imprensa.

Temos na memória o trauma das perseguições da inquisição, a celeuma recente de um aconselhável preservativo colocado em sítio menos óbvio – o nariz de João Paulo II -, pelo cartoonista António e o assassinato de um médico por um pastor evangélico, na sequência da prática de um aborto, nos EUA.

Temos o direito de caricaturar Deus, como afirmava intemerato o jornal France Soir «OUI, on a le droit de caricaturer Dieu».

Se nos deixarmos tolher pelo medo, não tarda que o poder seja de novo confiscado pelo clero, que sempre reivindicou procuração divina, e que sejam postos em causa direitos, liberdades e garantias arduamente conquistados ao longo dos séculos.

Dar publicidade aos testemunhos de irreverência, humor e heresia não é provocação aos crentes, é um acto de cidadania em defesa da liberdade de criação, uma ousadia contra a chantagem, uma advertência de quem resiste ao medo, à violência e à chantagem.

Este artigo, publicado em simultâneo no Diário Ateísta e no Ponte Europa, é um acto de solidariedade para com todos os criadores artísticos, órgãos de comunicação social que os acolhem e países que não se vergam à histeria da fé e ao fascismo religioso.

É também uma forma de homenagear Salman Rushdie cuja condenação à morte nunca foi censurada pelo Vaticano.

Não faltam cobardes a dizer que «deve haver um certo cuidado» e que «talvez não tenha sido sensato». A pusilanimidade não conhece limites.