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Carlos Esperança

24 de Abril, 2006 Carlos Esperança

Viva o 25 de Abril. Sempre.

Há 32 anos floriram nos canos das espingardas cravos.

De madrugada, a longa ditadura fascista, apoiada pela igreja católica, soçobrou.

Desaparecidos os mecanismos de repressão que impunham o partido único, o Deus único e o pensamento único, a Igreja católica entrou em declínio. Esvaziaram-se os seminários, despovoaram-se as missas e, ao pavor do Inferno, o País preferiu os caminhos da liberdade.

Com a rarefacção das sotainas, o anacronismo da liturgia e o desvario dos dois últimos Papas, as aldrabices dos milagres parecem cada vez mais uma tentativa desesperada de conservar a fé dos supersticiosos e a sobrevivência dos embusteiros.

Viva o 25 de Abril. Viva a República. Viva a Liberdade.

24 de Abril, 2006 Carlos Esperança

A ICAR e o referendo

O Sr. Maurílio Gouveia, arcebispo de Évora, assinou a petição que pede a realização do referendo sobre a Procriação Medicamente Assistida (PMA) e apela a que «todos colaborem nesta iniciativa», refere em entrevista publicada na Newsletter do Comité Pró-Referendo PMA» – informa a Agência Ecclesia.
O Arcebispo salienta que «as novas tecnologias aplicadas à procriação artificial não podem deixar de levantar problemas éticos graves…»

Seria oportuno aproveitar o referendo para que os portugueses se pronunciassem sobre «direitos» da ICAR, em assuntos de mais fácil compreensão, perguntando aos eleitores se concordam com:

– A confissão que devassa a vida privada e interfere abusivamente na vida dos casais;

– O cárcere privado exercido em conventos sem vigilância das autoridades policiais, instituições de saúde mental e inspecções do Ministério Público;

– O fabrico de hóstias em padarias não licenciadas para o eleito, sem inspecção sanitária, prazo de validade e código de barras;

– A manutenção de água benta infecta nas pias das igrejas sem recolha de amostras periódicas destinadas ao Instituto Ricardo Jorge;

– A proclamação de milagres, sempre no exercício ilegal da medicina, sem o parecer da Ordem dos Médicos;

– O recrutamento de padres, só do sexo masculino, em contradição com a Constituição e as leis da República que impedem qualquer tipo de discriminação em função do sexo.

23 de Abril, 2006 Carlos Esperança

Ratzinger – 1 ano de conspiração

«B16: balanço de um ano na luta católica contra a modernidade» é um dos melhores textos sobre a actuação do último déspota de tiara. Ricardo Alves escalpeliza com precisão cirúrgica os 12 meses de despotismo, protagonizados pelo sucessor de JP2.

O Sapatinhos Vermelhos, que gosta de encobrir as orelhas dentro de um confortável camauro, tem a mesma sede de poder do seu antecessor, sem o ridículo da superstição nem a mais leve suspeita de acreditar no Deus que lhe alimenta o fausto.

A religião foi sempre uma forma de repressão, instrumento de poder absoluto, a Espada de Dâmocles suspensa sobre a cabeça dos livres-pensadores. O peso das religiões varia na razão directa do poder do clero e na inversa dos direitos dos cidadãos.

A ICAR tem atrás de si um passado pouco recomendável, que se esforça por minimizar, mas não deixa de reivindicar a influência passada quando pretende impor, em nome da tradição, a prepotência e os privilégios.

Apesar da desolação do movimento «Nós Somos Igreja», uma associação que pretende reconciliar o catolicismo com a modernidade e os Direitos Humanos, nomeadamente a igualdade entre os sexos, ninguém esperava deste inquisidor a mais leve hesitação no regresso às práticas mais retrógradas da ICAR.

O que surpreende muitos observadores é o silêncio das vozes moderadas, dos núcleos democráticos, dos crentes não fanatizados. Creio que há uma única explicação, essas vozes há muito trocaram Deus pela democracia, o Papa pela sua consciência e a hóstia pela liberdade.

Hoje, enquanto as igrejas ficam vazias e os seminários desertos, Ratzinger procura no modelo islâmico o paradigma da sua própria Igreja: o proselitismo demente, o martírio de crentes fanatizados e um Paraíso à medida das aspirações mais doentias, com casas de alterne cheias de virgens à espera das santas bestas que antecipam a viagem.

Por ora, enquanto perde crentes, vai conquistando poder. Ameaça governos, infiltra aparelhos de Estado e influencia partidos políticos. O sonho do autocrata é a teocracia católica.

O Papa não ignora que a democracia, a separação do Estado e da Igreja, a emancipação da mulher e a Declaração Universal dos Direitos Humanos são o triunfo do laicismo contra a tirania do poder eclesiástico.

É contra este estado de coisas que o pastor alemão espuma de raiva no antro do Vaticano.

13 de Abril, 2006 Carlos Esperança

O Sr. Teodoro da Madeira

Na Madeira, vai realizar-se o enterro do Senhor Jesus, funeral sem morto, uma paródia que se repete todos os anos, com o ar sorumbático dos gatos-pingados do costume e as orações que se repetem.

Apesar do funeral, o pessoal calejado nestas encenações já sabe que no Domingo pode mudar o ar sorumbático e pôr um sorriso domingueiro a que as vitualhas acrescentarão sinergia.

O morto é a fingir, tal como a ressurreição, um espectáculo encenado para manter a fé, entreter os crentes, pôr as sotainas em movimento e o bispo a passear o báculo, abanar a mitra, exibir o anel de brilhantes à fúria osculatória dos beatos e viajar debaixo do pálio com os vassalos a içar as varas.

Estas festas são um hábito sofrido que os proxenetas do morto a fingir têm o direito de viver em angústia mística até ao delírio alucinado da ressurreição do artista ausente.

Grave é a vocação totalitária do bispo, dos padres e outros parasitas de Deus que acham a sua dor, pela morte de Cristo, de sofrimento colectivo obrigatório, incompatível com festas profanas.

Vêem na música a heresia capaz de pôr de mau humor o cadáver. Consideram a alegria juvenil um pecado. A violência da fé não consente a liberdade da festa. Ainda que fosse verdadeira a morte, mesmo que a alegria dos jovens denotasse mau gosto, era um direito de cidadania.

As ameaças, intimidações e provocações à realização do «Madeira Paradise Dance Tour 2006» são uma manifestação de intolerância e de vocação totalitária.

Os apaniguados do bispo, avençados da hóstia e da procissão, têm a marca genética dos velhos padres rurais com um zero na cabeça que Guerra Junqueiro apelidava «a marca do fabricante».

Espera-se que Deus e os jovens não se envolvam em escaramuças. Dos padres sabemos que virá a gasolina que apaga os fogos – uma velha vocação pirómana de sabor cristão.

12 de Abril, 2006 Carlos Esperança

Um morto provisório

Reza a Bíblia (NT), o livro mais vendido e menos lido do mundo, que jaz nas gavetas dos hotéis de luxo ou serve de cunha, em casa pobres, a mesas com uma perna manca, que Jesus foi sepultado na noite de sexta-feira. Quanto ao ano é grande a confusão.

Soldados romanos montaram guarda ao túmulo por ordem de Pilatos, um sujeito que aparece no Credo tão a despropósito como viola em enterro. Para reforço, juntaram-se aos soldados outros homens com receio de que os discípulos roubassem o morto, numa época em que os cadáveres nem para as aulas de anatomia tinham préstimo.

Maria Madalena, com a saudade que se adivinha, e a mãe do defunto JC deambulavam por ali e encontraram a pedra do sepulcro levantada.

Esqueçamos as coincidências de a mãe e a nora não reconhecida andarem juntas, dar-lhes na veneta de rumarem ao sepulcro onde viram a pedra levantada e, logo, um anjo que por ali andava – a gripe das aves ainda não existia e tal espécie era frequente -, lhes ter anunciado a ressurreição de Cristo.

A mãe de Jesus estava familiarizada com tal fauna, por serem vulgares os bandos de anjos, naquele tempo, ou pela experiência adquirida com um tal Gabriel que a preveniu da gravidez daquele filho que estivera provisoriamente morto.

Jesus era entendido em milagres, dado a parábolas e danado para pregar partidas. Pedro e João, avisados pelas duas Marias, foram ao sepulcro e acharam-no vazio. Já o morto andava a fazer aparições e, para chatear o Tomé, que era um discípulo com algum tino, apareceu-lhe e convidou-o a tocar com o dedo nas chagas que tinha no flanco e nos pés.

Dessas chagas se havia de livrar para não contaminar o Céu com bactérias.

No fim de quarenta dias Jesus fez um número especial para os discípulos. Subiu ao Céu, na sua presença, sendo os Evangelhos omissos se os olhos dos devotos alcançaram tão longe ou foram vendo, apenas, o Mestre a desaparecer.

11 de Abril, 2006 Carlos Esperança

Depois de Maomé…o Papa


A Conferencia Episcopal Alemã (CEA) pediu a intervenção dos organismos que controlam a televisão e a Comissão de Protecção da Juventude para analisarem o conteúdo de um anúncio da MTV (na imagem), por entender que caricatura o Papa.

Segundo o comunicado da CEA o anúncio do canal televisivo musical contém elementos que «ridicularizam a fé cristã» e vai recorrer para o Conselho Alemão de Publicidade.

Os mullahs indignaram-se contra as caricaturas de Maomé. Os bispos insurgem-se contra a caricatura do Papa. Enfim, a liberdade de expressão colide sempre com as idiossincrasias eclesiásticas.

10 de Abril, 2006 Carlos Esperança

Igreja não quer festival de dança na Madeira

O senhor Teodoro de Faria, bispo do Funchal e luminar da fé, tornou-se mais pio e sorumbático quando o seu antigo secretário particular, padre Frederico, foi condenado por assassínio e envolvido em crimes de pedofilia.

Deixou de gostar de festas sem missa, eucaristia e orações. A música profana alterara as hormonas e conduz ao pecado.

Assim, um evento musical, programado para a próxima sexta-feira, mereceu do prelado severa advertência na homilia da Eucaristia de Domingo de Ramos: «Falta de respeito aos símbolos ofende aqueles que têm fé» – disse o casto bispo que odeia as tentações da carne.

Depois da indignação do prelado contra a realização do «Madeira Paradise Dance Tour 2006», os padres e leigos do costume subscreveram um documento contra a realização do evento, publicado pelo Diário de Notícias do Funchal – lê-se no J. N..

O Correio da Manhã refere-se à polémica: «farra coincide com Sexta-feira Santa».

Como todos os dias são santos, deviam ser proscritas as festas profanas. A Madeira está ameaçada por sustenidos e bemóis. A Igreja católica anda atormentada por fusas, breves e colcheias. Os decibéis podem atrasar a ressurreição do Deus que, todos os anos, faz de morto durante três dias.

Não se sabe ainda como vai terminar o confronto numa terra tão piedosa, onde as freiras libertaram a casa do padre Frederico do material pornográfico, enquanto este era ouvido na judiciária.

Isto é uma luta entre o Bem e o Mal. Na Madeira o Bem é o que o bispo quiser.