As religiões pelam-se pela crueldade e pelo espectáculo público. O clero tende para o exibicionismo que a morbidez da fé exacerba.
A penitência é um deleite para o confessor. Depois de devassar a intimidade dos beatos que confiam no abutre que lhes espiolha a vida, embota a inteligência e aterroriza com as fogueiras do Inferno, convence os créus de que tem diploma para perdoar pecados.
Lembrar o espectáculo dos pios churrascos promovidos pelo Tribunal do Santo Ofício e o deleite beato com que se assistia à incineração de uma bruxa, judeu ou herege, é uma viagem ao mundo de horrores que deleitavam o Todo-Poderoso.
Os padres rejubilavam com a libertação das almas que fugiam do corpo a temperaturas indeterminadas e ficavam embevecidos com a devoção e gáudio com que os crentes esgotavam os lugares para assistir aos autos de fé.
Livrou-nos da insânia a luta contra a Igreja, o liberalismo e a Revolução Francesa. A secularização e o laicismo apararam as garras com que o clero dilacerava o corpo e o espírito dos livres-pensadores. Deus, na sua infinita crueldade e demência, foi sendo desmascarado e os padres, irados, assistiram ao triunfo da democracia e da liberdade.
Mas a tara não é apanágio do cristianismo e dos antros do clericalismo romano. No islão, uma forma grave de demência mística, cultivada com desvelo e crueldade, os patifes de Deus continuam a aplicar a justiça divina para gozo de Maomé.
Na Somália, o tribunal islâmico de Mogadíscio condenou à morte o assassino de outro homem e ordenou a um rapaz de 16 anos, filho da vítima, que o espancasse até à morte.
É esta a justiça que os crentes praticam em nome de um Supremo Facínora, a pedagogia cívica que exercem em nome da fé, a crueldade que justam às cinco orações diárias.
É esta demência mística, esta violência religiosa, esta crueldade tribal que em nome da Declaração Universal dos Direitos Humanos nos cabe denunciar e combater.
Se os cavalos, à semelhança dos homens, tivessem sido suficientemente burros para criar o seu Deus, ter-se-iam extinguido aos coices.
O Deus dos cavalos, feito à sua imagem e semelhança, teria nascido de égua virgem, com cascos de oiro, crinas de seda, estrela e beta.
Teria vivido no deserto, a reflectir, alimentado 40 dias de palha trilhada, caída do céu, enquanto reflectia no que ia relinchar quando voltasse à companhia dos cavalos seus discípulos.
O Deus-cavalo morreria exausto a fugir dos leões, a galope. Ressuscitaria ao terceiro dia e reapareceria a trote aos dilectos antes de subir ao céu mais veloz que o relâmpago.
Hoje o Deus-cavalo tinha um Cavalo de Deus que relincharia a sua vontade e diria quem era digno de viver a eternidade na sua companhia. Seria um cavalo selado a rigor, alimentado a palha escolhida por velhas éguas e a viver com vetustos cavalos dados à castidade e algum potro de estimação para as confidências.
No seu pio estábulo todos os solípedes se curvariam perante o Cavalo de Deus que, após a morte, teria solenes exéquias procedendo depois um grupo de provectos e destacados equídeos à eleição de um sucessor vitalício.
Se os cavalos fossem, à semelhança dos homens, suficientemente burros, ainda hoje se reuniriam em concílios para discutir se os póneis eram filhos dos cavalos e se as éguas poderiam ser iguais aos cavalos em dignidade como uma perigosa heresia sustentava.
Muitos cavalos morreriam mordidos e escoiceados na defesa da ortodoxia enquanto seriam excomungados os ímpios, execradas as éguas com cio e sangrados os muares do mesmo sexo que se envolvessem em brincadeiras suspeitas.
Assim, os cavalos mantêm o porte altivo e não andam de joelhos nem de rastos. Nem rezam.
Alexander Lukachenko, na Bielorrússia, e Bento 16, no Vaticano, são os dois últimos biltres que perseguem os adversários e se fizeram eleger em condições alheias às regras democráticas vigentes na Europa.
O Sapatinhos Vermelhos, além de interferir na vida interna dos países democráticos, é ditador vitalício, chefe de uma rede internacional de cardeais, bispos e outros clérigos disponíveis para trair os seus países em obediência à teocracia resultante dos acordos de Latrão, por vontade de Mussolini – um católico impoluto e ditador fascista.
O presidente da Comissão Europeia, entusiasta da invasão do Iraque, que garantiu a existência de provas de armas de destruição maciça, foi visitar o velho pastor alemão, sem uma palavra de censura pela ausência de uma Constituição democrática nem referência à luta que o ditador tem conduzido contra o preservativo no mundo infectado de SIDA.
José Manuel Barroso era um dos que exigia a referência ao cristianismo na Constituição Europeia, um dos que ignora que as referência confessionais são motivo de ódios entre pessoas e de quezílias entre as nações.
A visita ao ditador vestido de garridos trajos femininos não é um mero acto diplomático, é a manifestação de subserviência e falta de firmeza perante uma teocracia que fomenta a homofobia, o espírito misógino e o ódio à sexualidade.
Quem se ajoelha perante um déspota e é capaz de lhe lamber o anelão com ametista, não representa cidadãos, é um político que rasteja para gravitar em torno de um tirano.
São cada vez mais os mortos que povoam os cemitérios e menos os vivos que ficam. Os jovens saíram pelas estradas que invadiram o seu habitat. Fugiram das courelas que irmãos disputavam à sacholada e à facada, dos regatos que secaram a caminho das hortas, da humidade que penetrava as casas e os ossos e da pobreza que os consumia.
Não há estímulo para permanecer. Não se percebe que as penedias tivessem custado vidas na disputa da fronteira, que homens se tivessem agarrado aos sítios e enchido de filhos as mulheres que lhes suportavam o vinho, a rudeza e os maus-tratos.
Os tempos mudaram e os campos, abandonados, são pasto de chamas que lhes devoram os arbustos, no estio, e os entregam à erosão.
Os funerais são o momento de fazer o recenseamento dos que resistem. Nas missas, os padres em via de extinção debitam com ar sofrido a homilia, com pressa de passar à paróquia seguinte e sem coragem para falar do Inferno. Ora, sem medo, sem ameaças e sem convicção não há fé que resista ao ar lúgubre de uma igreja, ao frio do lajedo e às imagem abonecadas que substituíram as antigas que rumaram aos antiquários.
Falar de castidade a quem a idade condenou, dos malefícios do aborto a quem passou há décadas a menopausa e na obrigação de aceitar os filhos que Deus mandar a quem já não é capaz de os gerar, é persistir em rotinas que a desatenção e a demência cultivam.
Há dias fui à Beira onde nasci. São poucas as pessoas que ficaram e Deus, na sua eterna ficção, aparece apenas como pretexto para arejar umas imagens que adejam em padiolas, com um velho padre que tropeça sob o pálio erguido por braços frouxos que ameaçam deixar-lho cair em cima, enquanto carrega a custódia.
Por hábito, e bem parecer, enquanto uns ruminam orações, outros vão na procissão para acertar o preço da vaca ou das ovelhas de que querem livrar-se. A fé desfez-se com o tempo e a bíblia, que tanto medo infundia, enfeita o altar e apara as cagadelas das moscas que ornamentam as páginas do Levítico.
O número 666 é o número da Besta do Apocalipse, um número tão detestado pela Igreja Cristã Ortodoxa que pretendeu opor-se a que uma deliberação da União Europeia com o referido número fosse transcrita para a ordem interna da Grécia.
Todavia, há uma seita católica, fundada por um admirador de Franco, um entusiasta da ditadura que derrubou a República espanhola e assassinou centenas de milhares de adversários, que elaborou um manual com 999 máximas.
Não digo que o ora Santo Escrivá, o morto que logo desatou a fazer milagres, é a Besta do Apocalipse de patas para o ar. A superstição é apanágio dos beatos que percorrem de joelhos e língua de fora o espaço que os separa do cálice e da patena donde recolhem a rodela de pão ázimo convencidos de que o corpo e o sangue de Cristo aí foi parar pela alquimia dos sinais cabalísticos de um padre.
O Opus Dei está para a fé como os bordéis estão para o amor. Interessa-lhe o dinheiro, o poder e a influência. A «santificação pelo trabalho» é a forma de infiltração nos centros do poder e a tentativa do seu controlo.
«O Mundo Secreto do Opus Dei» de Robert Hutchison e «Uma vida na Opus Dei» vivida «do lado de dentro» pela autora, Maria del Carmen Tapia, que trabalhou directamente com Escrivá, são dois livros imprescindíveis para se conhecer a «associação secreta» que actua «ocultamente, com um máximo de opacidade nos seus assuntos», como reconheceu o Tribunal Federal Suíço, com sede em Lausanne.
Escrivá foi elevado a beato graças à cura miraculosa de um cancro da freira Concepcion Boullón Rubio, prima de um ministro de Franco ligado ao Opus Dei, e cuja doença era desconhecida da madre superiora do convento.
O processo de canonização foi aprovado em 20 de Dezembro de 2001 graças à intercessão num milagre na área da dermatologia.
A cura do médico Mário Nevado Rey, que sofria de radiodermite, confirmou a preferência que Monsenhor Escrivá, já em vida, nutria pelas classes mais favorecidas.
Não há evidência estatística que prove que a bênção das pastas traga benefícios aos proprietários ou que seja uma carta de recomendação para o primeiro emprego.
Não há ensaios duplo-cegos que provem a correlação positiva entre a fé e a preparação académica, entre a hóstia e o conhecimento científico, entre as orações e o domínio das sebentas.
Tirando o colorido fotográfico de um bispo paramentado a rigor e estudantes vestidos a imitar padres, não há nos borrifos de água benzida, arremessados a golpes de hissope, a mais leve suspeita de que a benta humidade conserve o coiro da pasta ou do próprio.
Há, todavia, no circo da fé, genuína alegria, uma absoluta demissão do sentido crítico, a força poderosa do «porque sim», que impele os universitários de Coimbra para a missa na Sé Nova a pedir a bênção da pasta e a prometer que vão espalhar a felicidade.
Vão ao confesso falar dos «pecados» para que se preparam, começam na eucaristia e continuam na cerveja, despacham umas ave-marias e mergulham na estúrdia de oito dias de todos os excessos.
Deus é um aperitivo amargo que a tradição manda, a festa é o ritual que o corpo e os sentidos exigem. O bispo leva Deus para o Paço episcopal enquanto os estudantes vão fazer a digestão da hóstia em hectolitros de cerveja ou acabar no banco do Hospital em coma – uma espécie de êxtase místico provocado por excesso alcoólico.
Até à data não há registo de qualquer lavagem gástrica por excesso de hóstias. Talvez a eucaristia tenha lugar no início dos festejos porque, no fim, não há estômago que ainda aguente.
Ontem, muitos alunos começaram a festejar o fim do curso, de joelhos. Vão acabar de rastos.
Os padres que criaram Deus não fizeram obra asseada. Adquiriram o meio de produção que lhes alimentou necessidades e vícios, um instrumento de terror que lhes manteve o poder e o medo, um algoz que lhes permitiu as malfeitorias de que só o clero é capaz.
No princípio, Deus, a troco de oferendas, sacrifícios e outras tolices, atendia os pedidos de chuva, sol e bom tempo, de acordo com a quantidade das orações e o desvario dos crentes.
Depois, a senilidade fê-lo mandar chuva quando a hortaliça necessitava sol e canícula quando o orvalho fazia falta. Na sua demência o Padre Eterno castigou os povos com tremores de terra, tufões e maremotos, com epidemias, pragas, fome e doenças.
As habitações não aguentavam o mau humor divino e os materiais eram impotentes para lhe fazer frente e as pessoas deixaram de aturar o sadismo do Todo-Poderoso.
Deus está cada vez mais surdo aos pedidos humanos e, em particular, aos dos padres. Ou conhece melhor a cáfila ou morreu sem que alguém reclamasse a certidão de óbito.
De Coimbra, o bispo Albino Cleto vai levar um bando de 5 mil crentes a Fátima, nos próximos dias 7 e 8, a pé, de bicicleta e de autocarro, a pedir a Deus que interceda pela falta de vocações sacerdotais. A média etária dos padres da diocese de Coimbra é de 69 anos.
Claro que, se Deus soubesse da aflição do Bispo já lhe tinha enchido o seminário. Não o obrigava a ir a Fátima onde a Virgem pousou nas azinheiras sem ter esfolados as partes pudendas, para ensinar à Lúcia o truque para apaziguar Deus e converter a Rússia.
Mas é de crer que Deus, farto dos Papas que alimentaram a burla de Fátima, tenha fugido com vergonha e não esteja lá para escutar a angústia dos crentes que sobram, do bispo que resiste e da Igreja que aguarda que a enterrem.

Há quem pense que a maior abertura do Papa ao preservativo (salvo seja) se deve à descoberta de que a pastilha elástica que costumava mascar, com sabor a morango, não era uma pastilha.
Aliás, em matéria de tolerância, a ICAR vence os mullahs e os ayatollahs. Os Papas da Idade Média eram devassos e libertinos, não perdiam o tempo a ler o breviário nem a Bíblia. Deus era mero pretexto para alimentar a pompa e circunstância em que viviam.
Os Bórgias tornaram-se tão célebres com as suas orgias que, ao pé deles, Bento 16 é um menino de coro com destino à santidade. Se tivessem uma fé tão exacerbada quanto as hormonas, fariam inveja aos anacoretas que se isolaram para estar a sós com Deus.
O ardor com que os Papas da Inquisição esturricavam hereges vinha-lhes do entusiasmo místico, da volúpia com que escorropichavam as galhetas e chupavam as rodelas de pão ázimo. O corpo, salvo o próprio, era um recipiente imundo de que urgia libertar a alma.
No Vaticano, um antro de vícios e intrigas, continuam os Papas a ocupar vitaliciamente o lugar, ultimamente sem que a Cúria lhes abrevie o sofrimento e lhes antecipe o fim.
Têm a obsessão do sexo e defendem a castidade, sonham orgasmos e execram o prazer, evitam a reprodução própria e incitam os outros à prossecução da espécie.
Sob a mansidão das falas é preciso estar atento à peçonha que brota do bairro de 44 ha, onde não há maternidade mas se reproduzem bispos, onde mingua a transparência e sobeja a intriga, onde a perfídia não impede o fabrico de santos nem as orações escondem a sede de poder temporal.
O Diário de uns ateus é o blogue de uma comunidade de ateus e ateias portugueses fundadores da Associação Ateísta Portuguesa. O primeiro domínio foi o ateismo.net, que deu origem ao Diário Ateísta, um dos primeiros blogues portugueses. Hoje, este é um espaço de divulgação de opinião e comentário pessoal daqueles que aqui colaboram. Todos os textos publicados neste espaço são da exclusiva responsabilidade dos autores e não representam necessariamente as posições da Associação Ateísta Portuguesa.