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Carlos Esperança

5 de Outubro, 2006 Carlos Esperança

A Procissão da Senhora da Conceição (Crónica)

Para animar a fé e variar a liturgia eram frequentes as festas canónicas que esgotavam os ovos, o açúcar e a capacidade de endividamento na mercearia da aldeia.

A missa iniciava as festividades e prolongava-se com rituais e padres paramentados a rigor, vindos das paróquias vizinhas, e o sermão de um outro, contratado para enaltecer a santa e avivar a fé. O pregador subia ao púlpito e distinguia-se pela desenvoltura com que se exprimia, tanto mais apreciado quanto menos percebido, podendo confundir as virtudes e trocar os santos sem beliscar a fé ou pôr em risco os honorários.

Depois da missa a procissão percorria as ruas da aldeia com uma ou outra colcha nas janelas e mantas de farrapos garridas, que era pobre a gente e a intenção é que salvava.

À frente iam os pendões, empunhados por braços possantes que contrariavam o vento, seguidos de bandeiras com imagens pias e anjinhos, apeados, de asas derreadas. A seguir viajavam alinhados os andores do Sagrado Coração de Jesus e de alguns santos que aliviavam o mofo e o abandono na sacristia. Por último vinha a estrela da companhia, a Senhora da Conceição, de comprovada virtude e milagres ignorados.

Os padres viajavam sob o pálio, conduzindo o arcipreste a custódia que exibia a hóstia consagrada, com acólitos a empunhar as varas.

Em meados do século que foi os cruzados gozavam ainda da estima de quem prevenia a salvação da alma e desconhecia a história das guerras religiosas. Assim, ladeando os andores, exultavam os garotos, meninos com uma faixa onde, a vermelho, se destacava a cruz e as meninas com uma touca que lhes escondia os cabelos e exibia uma cruz igual.

Depois dos padres e dos mordomos, orgulhosos dentro das opas, viajavam pelas ruas enlameadas as Irmandades. As Irmãs de Maria traziam o pescoço enfaixado com fitas azuis. Seguia-se a Irmandade do Sagrado Coração de Jesus com fitas vermelhas e, finalmente, as Almas do Purgatório com fitas roxas atrás de um estandarte que as anunciava, não fosse o diabo tomá-las como suas.

A cobrir a retaguarda a banda da Parada atacava música sacra enquanto os foguetes estalejavam no ar. A passo lento se o tempo convidava, ou mais apressados se a chuva fustigava, os crentes regressavam à igreja com deserções antecipadas a caminho de casa onde aguardavam as vitualhas.

Eram assim as procissões da minha infância percorrendo as ruas tortuosas da aldeia e os rectos caminhos da fé.

5 de Outubro, 2006 Carlos Esperança

Viva a República

Viva o 5 de Outubro

Fizeram mais pela liberdade alguns homens, num só dia, do que Deus desde sempre.

3 de Outubro, 2006 Carlos Esperança

O Papa e o Islão (2)

Se uma andorinha não faz a Primavera, uma verdade não transforma um aldrabão numa referência ética.

O Papa usou um subterfúgio para dizer que o Islão é incompatível com a liberdade e a democracia. Dizendo o óbvio esqueceu que Pio IX disse o mesmo da Igreja católica.

De facto, as igrejas são incompatíveis com a liberdade porque atribuem a Deus a autoria de uns livros que denominam sagrados e consideram imutáveis. Os golpes de rins dados por exegetas mais sagazes limitam-se a tornar suportável a vontade divina que os padres divulgam. Emendam a fraude criada em épocas mais bárbaras e cruéis.

Não devemos confundir religião com crentes. Uma é o veneno, os outros são as vítimas. Os islamitas apreciam no Ocidente sobretudo a liberdade religiosa e os árabes podem ser ateus e agnósticos. A islamização é um processo de submissão imposto pelo terror. A pena de morte é um risco para a dúvida e o método para evitar deserções ou cismas.

A Europa conseguiu impor a laicidade e domesticar o cristianismo. O Médio Oriente não tem actualmente condições para corrigir o fascismo islâmico, impor a separação do estado e da igreja e o reconhecimento dos Direitos Humanos.

Os livres-pensadores têm a obrigação de defender o direito à liberdade de expressão do Papa, por maior certeza que tenham da sua vontade em suprimi-la aos outros.

O que não podem nem devem conformar-se é com o aproveitamento de quem pretende opor-se ao perigo islâmico sob a égide de um novo perigo – outra religião, sob a sua influência.

Não se combate o cancro com a SIDA.

O remédio está no aprofundamento da laicidade do Estado e na ajuda aos sectores laicos das sociedades submetidas à tirania religiosa. O resto é preconceito.

1 de Outubro, 2006 Carlos Esperança

O Papa Bento XVI protege a pedofilia

O Sapatinhos Vermelhos, que publicamente tem a obsessão da castidade, desempenhou um papel primordial no encobrimento dos crimes de pedofilia praticados por padres católicos.

Segundo um documentário da BBC, Sexo, Crimes e o Vaticano, exibido esta noite na TV aberta britânica, o texto impõe um «juramento, em que a vítima, o acusado e eventuais testemunhas se comprometem a manter sigilo absoluto sobre o caso».

Segundo este documento a quebra do juramento levaria à excomunhão.

É o costume. Já aconteceu com João XXIII.

1 de Outubro, 2006 Carlos Esperança

Bento XVI e a tolerância

A Igreja não obriga ninguém a acreditar no Evangelho, segundo afirmou B16 ao novo embaixador da Alemanha no Vaticano.

É possível que assim seja pois o próprio Papa, por cultura e inteligência, certamente não acredita. O problema é que obriga a que se creia na Igreja católica o que é ainda pior.

Os mais desatentos hão-de julgar que a ICAR renunciou à violência e se converteu à democracia, que respeita as democracias, aceita o pluralismo e renega o proselitismo.

Nada disso. Em Timor o bispo Ximenes Belo proibiu o uso da pílula. Há pouco, os dois bispos actuais promoveram manifestações contra o Governo eleito e opuseram-se a que o ensino da religião passasse a ser facultativo, como determina a Constituição.

Derrubaram o Governo e a disciplina de Religião Católica voltou a ser obrigatória.

Em Espanha, A ICAR até o primeiro-ministro queria obrigar a ir à missa papal.

A América do Sul, sofre a opressão religiosa, sobretudo do Opus Dei, que se opõe com violência ao planeamento familiar, ao divórcio e à legislação sobre a IVG.

O defunto Papa JP2 foi amigo dos mais sinistros ditadores e chegou a interceder por um assassino e ladrão de nome Augusto Pinochet.

Talvez a ICAR tenha desistido, por vergonha, de obrigar a acreditar no Evangelho mas não renunciou a impor os dogmas e, quando pode, a exibir a sua força.

29 de Setembro, 2006 Carlos Esperança

A morte de João Paulo I

João Paulo I foi o Papa que ao ter anunciado, após a eleição, uma investigação ao Banco do Vaticano (IOR) mereceu de um jornalista italiano um vaticínio certeiro: «Não anda cá muito tempo».

Ainda não li o livro de Luís Miguel Rocha LMR) a que deu o título, em português, de «O Último Papa», título plagiado do romance de David Osborn, editado pela Disfel.

Ao apontar os nomes óbvios de Marcinkus, Calvi e Gelli, LMR esquece muitos outros e omite o papel sinistro de «A Santa Aliança» e os interesses do Opus Dei, bem como a protecção criminosa de JP2 a Marcinkus que nunca deixou julgar pela Justiça italiana.

Por outro lado, ao afirmar que o Terceiro Segredo de Fátima seria precisamente sobre a morte de João Paulo I, o livro perde qualquer credibilidade. Crer em visões e outorgar idoneidade à vidente é pactuar com uma burla e conferir valor probatório às alucinações que a ICAR confiscou para o seu negócio.

Os Papas sabem que a morte natural não é uma tradição ancestral do Vaticano, que uma cozinheira honesta é mais eficaz do que as rezas e que Deus tem menos influência do que os cardeais da Cúria.

O livro pode ser um excelente policial mas não é certamente uma obra que ponha a nu a imensa corrupção do último Estado totalitário encravado na União Europeia.

22 de Setembro, 2006 Carlos Esperança

Ali Agca avisa o Papa

Ali Agca, um turco enigmático, autor de um papacídio frustrado na pessoa de JP2 e prisioneiro profissional, não será o profeta indicado para predizer o futuro do Papa Rätzinger e fazer concorrência à Irmã Lúcia.

Aliás, o que tiver de acontecer será da vontade do Deus de B16 que é omnipotente, omnisciente e infinitamente bom como provam as tropelias que acontecem e as desgraças de que está o mundo cheio.

No caso de JP2 até a Lúcia sabia que ia ser baleado, pois era muito chegada à Senhora de Fátima que lhe contava essas coisas por não haver na altura as revistas modernas que se pelam por signos, vidências e cenas de faca e alguidar.

Ficará em segredo o motivo que juntou, a sós, numa cela de uma cadeia italiana, duas personagens sombrias – Ali Agca e JP2 , e por conhecer a eficácia e o motivo da bênção que o último deu ao malvado profissional.

Só não se compreende a maldade de JP2 que, conhecendo o 3.º segredo de Fátima, o que anunciava os furos na sua batina preferida e os rombos no próprio canastro, deixou ficar preso, um ror de anos, quem Deus escolhera para instrumento da sua vontade.

B16 acusa o mundo de estar surdo a Deus, como se o silêncio fizesse vibrar a membrana do tímpano. É altura de perguntar ao único Deus verdadeiro – o seu -, o que tramam os doentes mentais do falso Deus concorrente.

Para salvar o camauro, se o determinismo não for necessário à existência de Deus.