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Carlos Esperança

13 de Fevereiro, 2007 Carlos Esperança

D. Efigénia ficou doente (crónica)

A minha vizinha Efigénia (pseudónimo que uso para evitar agravar-lhe o mal), amiga da missa e da hóstia, ficou doente.

No período que precedeu o Referendo da IVG papou a missa diária, deixou queimar o arroz e a massa três vezes, vazou-lhe a sopa outras tantas e pegou fogo o fogão quando se distraiu a rezar a salve-rainha. Até o bolo de chocolate que fizera para o filho, que vinha de fim-de-semana, se lhe reduziu a carvão quando debitava o terço no oratório do quarto.

A D. Efigénia já me disse que era uma pena eu não ir à missa, tão boa pessoa, até reza pela minha conversão e não desanima de ver-me subir as escadas da igreja da paróquia, entregue a uns frades depois de começarem a escassear os padres seculares.

A D. Efigénia nunca pensou perder o Referendo, era pela vida, sabia que a Senhora de Fátima andava a desfazer-se em lágrimas de sangue, espécie de menstruação ocular, e que não permitiria que as forças do mal vencessem.

Aliás, ela bem sabe como os portugueses são atreitos ao medo do Inferno, embora este tenha sido abolido, e como sentem a falta das cantorias e do padre no funeral. Sorria feliz com o Cânone 1331 que excomungaria os que votassem SIM no Referendo: «não poderiam casar, baptizar-se nem ter um funeral religioso».

Julgava a boa da D. Efigénia que o medo era suficiente para dar a vitória à Senhora de Fátima, ao seu amado filho, ao pai do Céu e a todos os que se preocupam com pecados.

Quando viu que 2.338.053 desprezaram as suas orações, missas, novenas, terços e outros pios demonífugos começou a cismar que Deus não existe, a senhora de Fátima é uma burla, os anjos não voam, rastejam, e os padres são funcionários de uma empresa cujos produtos não têm certificado de garantia nem prazo de validade.

A D. Efigénia, continua a benzer-se, mas até julga que alguns defensores do Não são proprietários de clínicas clandestinas e que a despenalização do aborto lhes vai acabar com o negócio.

Entre a salvação da alma e a reflexão, a D. Efigénia hesita e aflige-se, adoece e cisma, mas nunca mais rezou um pai-nosso. Diz que tem muitos na conta e não resultaram. Finalmente, convenceu-se de que o aborto não é um sacramento e pode ser feito sem a ajuda do padre.

11 de Fevereiro, 2007 Carlos Esperança

O Povo achincalhou a Igreja católica

A vitória do SIM veio resolver um grave problema de saúde pública e mostrar que Portugal já não é um protectorado do Vaticano.

É a derrota da Igreja Católica às mãos do povo português, a primeira humilhação do clero pelos eleitores, o desprezo pela Conferência Episcopal Portuguesa, o vilipêndio do Papa e o desdém pelas lágrimas de sangue com que a Senhora de Fátima sujou as caixas de correio dos portugueses.

Em primeiro lugar foi uma vitória das mulheres que se libertaram da clandestinidade e dos riscos que lhe estavam associados: perigo de vida, perseguições judiciais, devassa da vida íntima e humilhações cruéis.

Ganharam depois todos os que defendem uma maternidade consciente e desejada, sem estigmas nem medos.

Há agora condições legais para ajudar as mulheres e evitar o recurso à praga do aborto, para relançar uma política de apoio à maternidade, sem a impor, para que a gravidez ou a sua interrupção sejam medicamente assistidas e não policialmente vigiadas.

Esta é uma vitória civilizacional que colocará a lei portuguesa a par da dos países mais laicizados da Europa, dos EUA e do Canadá, deixando a companhia pouco estimável da Polónia, Malta e Irlanda.

Finalmente, o pecado deixou de fazer parte do Código Penal e os clérigos da polícia dos costumes. A vocação totalitária da Igreja romana pereceu nas urnas com padres-nossos, missas, terços e novenas desperdiçados na campanha terrorista do Não. Nem as hóstias deglutidas pelos beatos ajudaram.

A fraude de Deus foi posta à prova. Os cidadãos derrotaram o Deus misógino que odeia o sexo e a liberdade.

10 de Fevereiro, 2007 Carlos Esperança

A ICAR não acredita na vida eterna

Se, como diz a Igreja católica, há vida depois da morte, não pode, em nome da vida, tomar as suas opções éticas.

Sabe-se quanto gastam as famílias supersticiosas com a vida eterna, paga a prestações durante a vida terrena, através do pagamento de missas, indulgências, novenas e outras terapias sacras, sem comparticipação da Segurança Social.

Quem está familiarizado com a ICAR conhece os custos da terapêutica profiláctica para a vida saudável dos mortos, ou seja, o bem-estar vitalício das respectivas almas.

Que há vida depois da morte, passe o paradoxo, prova-o a quantidade de milagres que os mortos obram, as aparições de outros, com especial relevância para a Virgem Maria, e o próprio Cristo que já se tem deslocado a países amigos para aparecer a pessoas treinadas em visões, como aconteceu com a Irmã Lúcia.

Pode, pois, concluir-se que estão mais vivos os mortos do que os vivos, que a vida não acaba com a morte aparente, razão que leva as religiões a despachar prematuramente os ímpios, hereges, apóstatas e outros suspeitos de abominações.

Além disso, como tudo sucede por vontade de Deus, com que legitimidade se põe em dúvida essa vontade quando os actos desagradam ao clero, molestam o Papa ou põem a Senhora de Fátima a chorar? Que vá queixar-se a Deus e deixe os estados de alma com que participa na burla monumental dos santuários marianos.

9 de Fevereiro, 2007 Carlos Esperança

O Opus Dei e a IVG

O Dr. Gentil Martins não se limita ao fanatismo religioso que o caracteriza, substitui-se ao Estado e à Ordem dos Médicos de que foi Bastonário.

«Para mim são licenciados em medicina, não são médicos» – afirmou em relação aos que – no caso do Sim ganhar o referendo – passem a realizar abortos até às 10 semanas. (DN, ontem, pág. 5).

Neste caso, não é o ilustre cirurgião que se pronuncia, é o exaltado membro do Opus Dei. Não é o médico respeitável mas o inquisidor fanático que, se pudesse, suspenderia das funções abnegados colegas que pensam de forma diferente.

Que o Dr. Gentil Martins prefira o aborto assistido por polícias em vez de médicos, que queira mulheres judicialmente perseguidas, que considere a prisão até 3 anos uma pena insuficiente para um crime que só as fogueiras purificariam, é uma atitude pessoal que se respeita mas não a resposta de um Estado de direito.

Este referendo não procura averiguar as considerações éticas dos eleitores em relação ao aborto. Apenas pergunta aos eleitores se desejam que continue a ser crime a interrupção da gravidez, até às dez semanas, a pedido da mulher, em estabelecimento de saúde autorizado.

É por isso que as vozes de Gentil Martins e Bagão Félix parecem saídas do Concílio de Trento, eivadas da febre das fogueiras do Santo Ofício, ao serviço de um Deus violento, cruel e apocalíptico. Que demónios escondem duas pessoas que imaginamos pacificadas com a hóstia e a missa, incapazes de uma visão totalitária sobre as convicções alheias?

DA/Ponte Europa

8 de Fevereiro, 2007 Carlos Esperança

«Charlie Hebdo» em tribunal

Em nome da liberdade de expressão, manifesto, por pouco que valha, a minha inteira solidariedade ao jornal satírico que ontem começou a ser julgado em Paris, acusado de «injúria» ao Islão.

Se há injúria é no comportamento de islamistas que, em nome da fé, perpetram actos de terrorismo, querem converter o mundo a princípios anacrónicos, discrimina as mulheres, decapitam infiéis e impõem regimes totalitários, sem respeito pela separação da Igreja e do Estado.

Julgar os que têm a coragem de denunciar e ridicularizar princípios racistas, xenófobos e misóginos, é vigiar a liberdade, enfraquecer a democracia e pôr em causa conquistas civilizacionais.

As alegadas ofensas à fé não são mais, em qualquer religião, do que uma forma velada de censura, uma ameaça ao livre-pensamento, a imposição de valores particulares a toda a sociedade.

Que sucederia se o Estado tivesse de dirimir confrontos entre os que se dizem ofendidos por aqueles que acusam Estaline, Hitler, Pinochet, Salazar Franco, Mussolini ou Pol Pot e os que acusam estas figuras de sinistras e criminosos?

A censura é a arma dos intolerantes contra os defensores da liberdade. A União das Organizações Islâmicas de França e a Grande Mesquita não podem obter num país livre uma vitória da fé contra a liberdade.

DA/Ponte Europa

7 de Fevereiro, 2007 Carlos Esperança

A Irmã Lúcia está a ser treinada para santa

Bispo de Coimbra vai pedir a dispensa do período de espera de cinco anos após a morte da Vidente de Fátima

A Igreja Católica é uma hidra poderosa que resiste ao tempo e aos escândalos, aos crimes e às mentiras, aos abusos e ao delírio místico. Nem os padres e os bispos conseguem dar cabo dela. Nem os Papas.

A Irmã Lúcia, a mais antiga reclusa do mundo, começou em criança a ter visões. Como eram escassos os médicos e numerosos os padres, em vez de a tratarem, exploraram as visões que o confessor lhe insinuava na luta contra a República e o Comunismo.

A pobre prisioneira, que chegou a receber a visita de Cristo, em Tuy, e que visitou o Inferno onde viu o Administrador de Ourém, que não ia à missa, tornou-se a promotora do terço e de pios embustes enquanto os primos curaram a D. Emília, de Leiria, no exercício ilegal da medicina reservado a mortos.

O bispo de Coimbra já tem certamente na manga alguns milagres para a elevar aos altares. A fé dos crentes precisa de ser avivada com feitos extraordinários, encerrados que foram o Inferno, devido à escalada dos combustíveis, o Limbo, por dar prejuízo, e o Purgatório por ser demasiado difícil de manter sem fazer obras de reparação.

Se um agnóstico montasse um negócio, como o de Fátima, e recebesse cordões de ouro e dinheiro a troco dos milagres que inventava seria preso por burla.

Um bispo pode dedicar-se ao negócio dos milagres sem que a polícia o incomode, a Ordem dos Médicos o processe, o fisco o persiga e as pessoas sensatas o levem a sério.

E a morta não se queixa.

7 de Fevereiro, 2007 Carlos Esperança

Sexo, Padres e Códigos Secretos

Eis uma análise feita por autores que pertencem (ou pertenceram) à ICAR e são profundos conhecedores da teologia e do direito canónico. Dificilmente poderão dizer os créus que nos visitam que o livro foi escrito por inimigos da ICAR e não sei que outros argumentos lhes sobram para continuarem a manter o crime e a hipocrisia.

6 de Fevereiro, 2007 Carlos Esperança

A ICAR e a fé

Dois mil anos de mentiras impostas por meios vigorosos, com a cumplicidade do poder secular, parecem verdades irrefutáveis que legiões imensas de supersticiosos e beatos se esforçam por perpetuar e disseminar.

As tradições e os interesses instalados jogam a favor das intrujices primárias e dos mais inverosímeis embustes. Todas as religiões se dizem criadas pelo único Deus verdadeiro, donde se conclui facilmente que são todas falsas menos uma, na melhor das hipóteses, e, provavelmente, todas.

Mas quem convence o clero das religiões monoteístas a exercer uma actividade normal, a ter uma profissão honesta e a abdicar do poder que as funções pias conferem?

Um dia Guerra Junqueiro disse para Tomás da Fonseca: «Ó Tomás, aos padres, com a barriga cheia, tanto lhes dá que as pessoas da Santíssima Trindade sejam 3 como 300».

O clero é quem menos acredita em Deus e quem mais se esforça por persuadir os outros. Depois de João Paulo II, supersticioso eivado do catolicismo jurássico da sua Polónia, não é provável que apareça outro Papa que acredite em Deus, mas nenhum terá a coragem de voltar a dizer:

«A fábula de Cristo é de tal modo lucrativa que seria loucura advertir os ignorantes do seu erro». (Leão X – Papa)