O último ditador europeu, regedor vitalício de um bairro mal frequentado – o Vaticano -, defende o regresso do latim às missas para tentar que Deus perceba os padres.
Segundo as últimas informações, transmitidas por aquela pomba estúpida a que chamam Espírito Santo, Deus entrou de baixa na psiquiatria quando as missas começaram a ser celebradas nas línguas autóctones e ainda não teve alta.
Senil e rabugento, já percebia mal o latim e não estava em condições de aprender novos idiomas quando o Vaticano II, na melhor das intenções, se convenceu de que o seu Deus era poliglota. Não era. Por isso, se lhe pedem a paz, vem a guerra; se rezam uma novena para que chova, calha um ano de seca; se pedem as melhoras de um doente, este estica o pernil; imploram-lhe que salve a vinha, vem o míldio; fazem uma procissão para salvar a seara, arma-se uma trovoada e lá se vai o grão. Enfim, as ligações com o Céu caíram.
Deus, além de surdo aos que passam o tempo de joelhos e a debitar orações, deixou de ser a cura e tornou-se a doença que aflige os crentes e desacredita o clero. Assim, não há milagres que restaurem a confiança em Deus. Este é a nódoa que cai na superstição dos devotos e não há orações que o reabilitem.
O regresso ao latim sempre tem uma vantagem, os crentes não sabem se é o padre que se engana no pedido ou Deus que não acerta com o desejo.
Além disso voltam ao redil os excomungados da Sociedade São Pio X, devotos de forte pendor fascista e seguidores do Concílio de Trento. A ICAR pode sonhar com cruzadas e, se as circunstâncias o permitirem, com novas fogueiras. Em latim, Deus vai ouvir o Sapatinhos Vermelhos e sair do manicómio.
É o mimetismo com o Islão, onde o Deus de lá só percebe árabe e faz dos crentes loucos e facínoras com uma legião de clérigos a servirem de tradutores da vontade divina.
O Sapatinhos Vermelhos bale metáforas, como a pitonisa de Delfos. Veio da Sagrada Congregação da Fé (ex-Santo Ofício) para a direcção da ICAR, montado no Opus Dei e com o boato posto a correr de que tinha sido por inspiração do Espírito Santo, a pomba estúpida homónima de banqueiros portugueses.
Dizer que a oração é uma questão de vida ou de morte é equipará-la a um medicamento, quando é placebo, e pensar que em doses terapêuticas pode curar e, em excesso, matar.
«A oração não é um acessório». Claro que não. Doutro modo seria usada nos bordéis sadomasoquistas e como cilício nas casas pouco recomendáveis do Opus Dei onde se usam pios acessórios.
Mas a mais idiota das afirmações é dizer que a «oração é o caminho» para a vida eterna. Imaginemos que uma beata adormece no pai-nosso e vai ter ao Purgatório, que um devoto tartamudeia a salve-rainha e se perde do Paraíso, que um bem-aventurado rumina o credo e se mete por um beco em vez da auto-estrada que, segundo B16, entra no próprio Deus, sem portagem. É o caos nos transportes celestes, uma viagem no deserto sem bússola nem GPS.
Se, quem reza, pode entrar no próprio Deus – como diz o Papa -, Deus não é o criador com que engana a clientela, é uma estação de serviço onde se chega pelos caminhos da oração, um nó rodoviário onde vão ter os ociosos que passam a vida a rezar, o centro viário dos pobres de espírito que olham para os vestidinhos do Papa sem se rirem e ouvem-no dizer asneiras com o ar bobino de quem espera um bilhete para a eternidade.
Afinal, o Céu não é um destino, é um autódromo onde as almas fazem ralis com o motor alimentado a ave-marias, salve-rainhas, credos, padres-nossos, terços, novenas e missas, almas adaptadas a combustíveis mistos e pias tolices, sendo o Angelus indicado para as almas-turbo.
O ateísmo é a posição natural de quem não acredita em anjos, nas mentiras repetidas dos livros sagrados, nas religiões, na trapaça dos milagres e no delírio do sobrenatural.
Ser ateu é cultivar a dúvida, manter a sanidade mental que as certezas metafísicas põem em xeque e não acreditar em Deus e na família disfuncional que lhe inventaram.
O ateísmo é a forma descontraída de negar o que os crentes afirmam de forma crispada, desprezar os dogmas, os rituais e a liturgia do divino que tanto trabalho deu aos homens a inventar.
Ser ateu é querer morrer de pé sem ter de viver de joelhos, viajar de rastos de templo em templo, dobrar a coluna aos parasitas da fé e contribuir para a difusão das religiões.
Ser anticlerical é denunciar os avençados do divino, mostrar onde escondem as cartas dos truques, o fundo falso da mala dos milagres, o espelho escondido das ilusões e minar o poder que fruem as matilhas clericais para se dedicarem às burlas e extorsão.
O anticlericalismo é a vacina que defende o povo do respeito pela sotaina, do temor da mitra e da reverência da tiara. Denunciar o clero é dizer às pessoas que a água benta é igual à outra, que a hóstia é uma rodela sem data de fabrico, verificação das condições de higiene e sem prazo de validade nem código de barras.
Um anticlerical acredita mais facilmente na pureza do azeite da cooperativa da aldeia do que nos óleos que o bispo leva da cidade para crismar os garotos que fazem a comunhão solene. É mais limpo o óleo de girassol do que a mistela com que o oficiante faz cruzes na testa do moribundo.
O anticlerical ama a vida, o padre vive da morte. Os homens gostam de entender-se mas o clero porfia em criar divisões, cada padre afirmando que o seu Deus lava mais branco.
Ser anticlerical é desatar a rir quando uma multidão eleva o rabo e mete o focinho no chão julgando que Deus está a ver e leva a sério essas manifestações de ridículo.
Em suma, o anticlerical vê um padre com uma cruz com que julga espantar diabos e lembra-se do atleta que viaja pregado e cheio de chagas para comover os simples e sacar esmolas.
Deus é a pior invenção dos homens e o clero a sua única prova.
As aparições celebradas no santuário da discórdia escondem a lavagem ao cérebro de numerosos crentes, alguns deles portugueses.
Luz Amparo Cuevas é uma dessas mulheres que nasceu com uma vocação para vidente, como outras nascem com apetência para publicar as suas aventuras sexuais.
A Virgem das Dores, sem prova evidente de ter direito ao nome próprio nem de fazer jus ao apelido, apareceu à vidente do Escurial e deu-lhe instruções sobre a obra que devia promover e revelou-lhe mensagens apocalípticas e a terceira guerra mundial.
Apesar do truque ter sido experimentado com êxito em Fátima e noutros lugares não significa que o cardeal Ángel Suquia, arcebispo de Madrid, despreze as receitas e a demência mística promovidas por Luz Amparo.
A artista miraculosa, formada na escola da portuguesa Irmã Lúcia, já criou a «Fundação Benéfica Virgen de Las Dolores» uma espécie de banco onde os supersticiosos colocam os bens para os pôr a render ao serviço da salvação da alma.
O corpo de Luz Amparo – dizem crentes – «de um momento para o outro fica marcado pelas chagas de Cristo», dos pés, mãos e da cabeça «jorra-lhe sangue». Este milagre é inferior às cambalhotas que o Sol deu em Fátima mas muito mais difícil de fazer do que os de S. Josemaria Escrivá.
Os hereges pensam que as chagas de Cristo estão secas e que a Virgem anda no Céu a varrer quartos e a limpar retretes, mas enganam-se. Ela viaja por aí a assustar pessoas, a anunciar guerras e a convencer néscios dos horrores de que o seu divino filho é capaz.
E não há autoridades que defendam as vítimas deste tipo de burlas. A ICAR tem alvará para fazer milagres e direito a cárceres privados, chamados conventos.
No Vaticano o Sapatinhos Vermelhos rejubila com a criatividade dos seus lacaios e os lucros das burlas espirituais.
Gostava de ver a Virgem a fazer estes números num país protestante!
Deus é uma espécie de cão de guarda que rosna, ladra e ameaça morder os ímpios que acham o Papa e os outros dignitários religiosos uns impostores.
Cada religião tem o seu cão de guarda, mas o dono da fé é o biltre que ocupa o primeiro lugar na fila dos clérigos da religião que promove. É o que diz aos outros clérigos como devem ensinar os clientes a rastejar e a esportular o óbolo.
O Papa e os outros avençados do divino não pregam o que dizem que Deus disse, dizem que Deus afirmou o que eles pregam. Os prestidigitadores da fé precisam de um mito que dê credibilidade às intrujices com que se governam e enganam os supersticiosos.
Se Deus existisse não precisava de tantos intermediários, do bando de cadáveres que lhe metem cunhas a troco de esmolas e orações, da caterva de clérigos que desviam os créus para os ofícios pios e as desgarradas litúrgicas.
Deus é uma desculpa para os crimes da fé, para a vocação totalitária das religiões e para o parasitismo do clero.
Os crentes precisam de ser formatados desde a infância para se sujeitarem à fé dos que a promovem e viverem permanentemente das certezas que lhes impõem. Aos ateus, para o serem, basta-lhes um momento de reflexão e a intermitência da dúvida.
«Deve o cristão confessar-se, pelo menos uma vez por ano, pela Páscoa da Ressurreição».
(Catecismo da ICAR)
Deus caiu das alturas onde o medo dos homens e os negócios da fé o colocaram. Andou por lá demasiado tempo, graças à propaganda eclesiástica, à repressão do poder secular e à tradição.
Era difícil aguentar o mito nas alturas sem subverter a lei da gravidade. Deus caiu com o Renascimento, o século das luzes e a vitória da liberdade sobre as teocracias e entrou em coma com a secularização e o laicismo.
Apanhado nas malhas da evolução, sem fazer prova de vida, foi-se o mundo esquecendo dele enquanto alguns padres entraram em histeria e outros mudaram de rumo e de ramo. Só o Islão manteve o Deus violento, cruel e apocalíptico, graças à sobrevivência tribal e à concentração dos meios de produção na mão dos clérigos. A vigilância do clero e o medo do Inferno agravaram a devoção, a demência e o martírio.
Hoje, nas sociedades livres e democráticas, Deus é o papão que assusta as crianças que recusam a sopa, o mordomo invisível do Papa, a quem este atribui a autoria dos despautérios que profere, o abominável mito que os mullahs dizem ser grande e a quem adjudicaram um profeta que deseja ver o mundo rastejar a seus pés.
Se Deus existisse não havia necessidade de o inventar.
O Diário de uns ateus é o blogue de uma comunidade de ateus e ateias portugueses fundadores da Associação Ateísta Portuguesa. O primeiro domínio foi o ateismo.net, que deu origem ao Diário Ateísta, um dos primeiros blogues portugueses. Hoje, este é um espaço de divulgação de opinião e comentário pessoal daqueles que aqui colaboram. Todos os textos publicados neste espaço são da exclusiva responsabilidade dos autores e não representam necessariamente as posições da Associação Ateísta Portuguesa.