24 de Março, 2007 Carlos Esperança
Crescei e multiplicai-vos
Amável deferência do leitor M.M.
Amável deferência do leitor M.M.
O director do jornal satírico francês Charlie Hebdo foi ontem absolvido por um tribunal parisiense da acusação de injúrias de cariz religioso.
Enquanto o Islão político procura multiplicar os véus na paisagem urbana das cidades europeias, conquistar direitos de proselitismo e erguer mesquitas para obrigar os que tiveram a desgraça de nascer na anti-cultura islâmica, os católicos semeiam nichos de virgens nas esquinas dos caminhos, plantam cruzes nas paredes das estradas e capelas no cimo dos montes.
No Islão os mujaidines chamam os fiéis para as orações e a pregação do ódio aos infiéis, no cristianismo os padres promovem a missa, a confissão, a eucaristia e a excomunhão.
Em terras de Maomé lapidam-se mulheres que amem e degolam-se os crentes que não resistam ao álcool ou à carne de porco. Nos países onde B16 lança a peçonha, combate-se o divórcio, a homossexualidade e o aborto.
No terreno da fé a intolerância marca o ritmo do amor a Deus.
De há anos a esta parte o catolicismo aparece com a mesma virulência do islamismo. Só não mata porque os governantes não usam mitra e báculo. Deve ser prodígio mimético.
As cruzes aumentam no pescoço dos cristãos e nos bolsos viajam crucifixos a substituir a velha navalha de ponta e mola. Nos automóveis adejam Cristos nos suportes dos retrovisores e espalham-se imagens de santos pelo habitáculo.
São cada vez maiores as cruzes dependuradas nos pescoços dos católicos, manifestação de fé ou provocação, vá-se lá saber, numa ostentação pública das convicções privadas.
Se as cruzes continuam a aumentar de tamanho, dentro de décadas não há católicos de cruz ao peito, há cruzes em movimento com católicos dependurados. E ai de quem não se render ao instrumento de tortura com que o Papa quer crucificar a humanidade.
Há quem se oponha a esta decisão, em nome da democracia e da liberdade individual, acusando os opositores de intolerância. Esquecem-se de que a Europa tem vivido em paz graças à laicidade do Estado que jovens muçulmanas desafiam, estimuladas pela família e pelos pregadores religiosos. Os constrangimentos sociais e o domínio sobre as mulheres são de molde a impor-lhes o símbolo da sua própria escravidão.
Só a França (até quando?) sobrepõe os direitos de cidadania aos desejos dos clérigos das diversas religiões. No exercício de funções públicas ou frequência de escolas do Estado não são permitidos os hábitos das freiras, as sotainas ou o véu islâmico. Alguém, de boa fé, nega a liberdade religiosa francesa?
Ninguém duvida do proselitismo que devora as diversas confissões, todas desejosas de convencer os ímpios da bondade do seu Deus e da única forma de salvação eterna – a sua -, impondo-a, se puderem, mesmo a quem a dispensa.
Sendo o Estado incompetente para se pronunciar sobre as convicções pessoais, só lhe resta manter a neutralidade que permita a efectiva liberdade religiosa e impedir que qualquer religião se aproprie de forma definitiva e permanente do espaço público.
Londres só agora começa a sentir o perigo do proselitismo e a reagir às provocações que faz uma multinacional do ódio que se serve de jovens com forte dependência da família, do clero e da tradição.
Desacreditar da superioridade moral da democracia em relação à teocracia e dos Estados laicos face aos confessionais, é renunciar à defesa dos direitos humanos sob o pretexto de cumprir a vontade de Deus.
DA/Ponte Europa
Bento 16 considera o segundo casamento uma praga. Mas que autoridade assiste a quem não teve um primeiro casamento, para condenar o segundo? Celibatário há 79 anos, o último teocrata europeu não é um líder religioso, é um inquisidor violento.
Sabe-se que nasceu em tempos de cólera, que a educação da infância o há-de ter persuadido de que é herdeiro de uma raça superior, mas escusava de ser de tão má raça.
Que negue a hóstia aos casados pela segunda vez, como se faz nas tascas com o vinho a quem bebeu demais, é um direito de quem administra a mercadoria e impõe as regras de distribuição. Agora que se meta na vida dos casais e que queira escoar a água benta nas cerimónias, é uma ingerência inaceitável.
B16 é um talibã romano, um veículo litúrgico em rota de colisão com a modernidade.
Deus é um mito que se alimenta da morte ou, melhor, do medo que inspira. A fome, a doença, a miséria, o analfabetismo e o subdesenvolvimento são instrumentos que lhe garantem a existência e restauram a vitalidade.
A juntar às desgraças humanas vêm os interesses de uma casta de parasitas que, como necrófagos, se alimentam do cadáver de Deus. E, como se isso não bastasse, interesses instalados e a máquina de poder erguida em torno do mito, apavoram e perseguem para que a fábula perdure e se fanatizem fiéis que a aceitem, promovam e morreram por ela.
Nunca uma ideia tão ingénua se tornou numa realidade tão perniciosa. Não faltariam dementes que, após uma lavagem ao cérebro, avançassem para a morte, na defesa de D. Afonso Henriques, capazes de matar o suposto assassino. Não podemos, pois, admirar-nos da quantidade de devotos capazes de percorrer de joelhos os santuários e viver de mãos postas perante a autoridade eclesiástica. Catequizam-nos desde a infância.
Claro que a liberdade exige tanto empenho na defesa da liberdade religiosa como no combate às mentiras das religiões.
Os crentes têm o direito de viajar de joelhos e rastejar aos pés dos padres, fazerem sinais cabalísticos para afastarem os maus-olhados, debitar orações para seduzirem o Deus em que os treinaram, mas não têm o direito de impor a fé, perseguir apóstatas ou formarem uma sociedade de acordo com os seus preconceitos.
Sempre que o poder do clero avança, a liberdade e a democracia recuam.
Diário Ateísta/Pitecos – ZédalmeidaJoão César das Neves (JCN) acha que a Europa gasta o tempo na promoção do «aborto, homossexualidade, eutanásia, pedofilia, divórcio».
JCN deve ter a consciência pesada. Por penitência do confessor ou remorso dos pecados que precisa de exorcizar, todas as segundas-feiras é o paladino da virtude e dos bons costumes, a lembrar os sermões de um padre rural, com ameaças apocalípticas e horrores perpétuos no azeite fervente do Inferno.
JCN obceca-se pelo sexo. Aborto, homossexualidade, divórcio e sexualidade que não tenha em vista a prossecução da espécie, são pecados que execra com o vigor de um beato e a raiva de um inquisidor. O adultério e o deboche são temas recorrentes, que não faltam na homilia de hoje.
Para dar colorido à obsessão, junta-lhe a eutanásia e a pedofilia, sendo a primeira um assunto sério a discutir e a segunda um crime a punir, sem se dar conta da desonestidade intelectual de confundir as duas.
JCN, quando fala sobre economia, parece civilizado e urbano, mas quando lhe dá para o proselitismo torna-se um talibã que a extinção da Inquisição deixou sem emprego.
Quererá o devoto criminalizar o aborto, a homossexualidade e o divórcio e condenar a prisão o adultério? A homofobia era uma obsessão salazarista e o divórcio, que tanto apoquenta JCN, era interdito aos casamentos católicos, de acordo com a Concordata.
Mas será legítimo impedir o divórcio e condenar um casal cujos cônjuges se detestam à manutenção do vínculo contratual que o une, sem possibilidade de tentarem de novo a felicidade? Quanto à homossexualidade, teme JCN a sua insegurança ou a impensável obrigatoriedade?
Quanto ao aborto deve estar feliz com a decisão de Daniel Ortega, um velho comunista que conseguiu o apoio da Igreja católica graças à proibição do aborto terapêutico, mas é lícito tornar obrigatória uma gravidez que mate a mulher ou traga um filho deficiente?
Essa é a vontade de JCN, mas quem tem alguma clemência deixa a opção à grávida.
DA/Ponte Europa
Tal como os histéricos islamitas reagiram em relação às caricaturas de Maomé, também os católicos espanhóis execraram as fotografias de Montoya publicadas em dois livros, um de 2000, outro de 2003.
Há uma grande polémica em Espanha, particularmente na Estremadura, onde decorre a campanha eleitoral para os órgãos locais e provinciais.
O PP recorreu ao golpe baixo de incendiar as paixões religiosas, imitando os imans e os ulemas a propósito das caricaturas do Profeta.
As fotografias de Montoya devem ser divulgadas na defesa da liberdade de expressão.
Encontram-se no abnoxio:
O carácter criminoso e fanático do fascismo islâmico, o terrorismo global e a demência da fé são factos de que seria ingénuo duvidar e perigos que ameaçam as democracias.
A Al-qaeda já deu sobejas provas do ódio à liberdade, ao laicismo e à igualdade entre os sexos. As teocracias são a antítese da democracia e há um longo caminho a percorrer até à separação dos poderes e ao reconhecimento da igualdade dos sexos nos países párias.
À ameaça global responde-se com a vigilância global e não se percebe a liberdade que é dada aos mullahs para pregarem o ódio nas mesquitas europeias quando nos países de origem é negada a simples pregação da Bíblia ou da Tora e se impede a construção de templos de outras religiões.
Contrariamente ao que se julga, um estudo de opinião muito significativo e credível, o que os islamitas mais apreciam nas democracias é a liberdade religiosa. Não são, pois, os crentes os trogloditas que põem em perigo a liberdade religiosa, são os clérigos do Islão que não prescindem de obrigar os fiéis a gozar as delícias dos rios de mel e as 70 virgens que estão reservados para os mártires da fé (as mulheres não contam).
O multiculturalismo é o pretexto que outras religiões têm aproveitado para se infiltrarem nos aparelhos de Estado e ensaiarem o retorno ao passado, para contrariarem o processo de secularização em curso nas sociedades civilizadas da Europa.
A religião é um assunto privado cuja liberdade o Estado deve defender, assim como o direito de apostasia, de não ter religião ou mesmo de ser anti-religioso.
Quando a insensatez e ferocidade do clero islâmico aconselhariam os Estados dos países democráticos a afastar-se das religiões e a manterem uma estrita neutralidade perante os vários credos, vemos os políticos ajoelharem-se e ampliarem o potencial de proselitismo gerador de guerras.
No abandono da laicidade, os Governos são cúmplices dos desvarios belicistas que os beatos, das diversas confissões, provocam.
O Diário de uns ateus é o blogue de uma comunidade de ateus e ateias portugueses fundadores da Associação Ateísta Portuguesa. O primeiro domínio foi o ateismo.net, que deu origem ao Diário Ateísta, um dos primeiros blogues portugueses. Hoje, este é um espaço de divulgação de opinião e comentário pessoal daqueles que aqui colaboram. Todos os textos publicados neste espaço são da exclusiva responsabilidade dos autores e não representam necessariamente as posições da Associação Ateísta Portuguesa.