Quando amanhã o bispo Manuel Martins estender o pescoço ao laço da venera, não é o cidadão, aliás probo, que é premiado, é o primeiro chefe da delegação do Vaticano na cidade de Setúbal que vai ser condecorado.
Se o Presidente da República decide outorgar a grã cruz da Ordem de Cristo a um bispo católico, cria a obrigação de impor o grande minarete da Ordem de Maomé ao Sheik David Munir e a grã estrela de David da Ordem de Jeová ao rabino da sinagoga de Lisboa, Boaz Pash. E, no mínimo, deve convidar para um chá em Belém o Sr. Edir Macedo, bispo da IURD, com as respectivas esposas.
Se não existem ainda tais veneras é altura de as criar por razões ecuménicas e de não discriminação religiosa, embora fosse melhor, por razões de salubridade, a separação entre o Estado e a Igreja dominadora, como aconselha a laicidade do Estado.
O PR tem o direito de condecorar quem entender, sem perda da consideração e respeito que lhe são devidos, mas discordo da vassalagem da República a qualquer religião ainda que o clérigo, como é o caso, mereça a minha simpatia.
É provável que a condecoração do bispo seja levada em conta no tribunal divino onde os crentes são julgados, motivo que os leva a cuidar da vida eterna.
Mas o Presidente da República não pode confundir a representação pública do Estado, que exerce ao mais alto nível, com a louvável preocupação com o destino da alma que não passa de mero interesse privado.
A Procissão Eucarística na Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo sai à rua em numerosas localidades. Numa padiola viajará um Cristo fúnebre e infeliz, com ar de quem regressa ao quarto, de castigo, para fazer companhia a S. Sebastião furado de setas e à Maria Madalena de cabelos compridos, oferecidos por uma devota que nunca lavava a cabeça.
Antigamente ainda acompanhavam o andor anjinhos de asas derrubadas que chegavam ao fim da procissão, em dias de chuva, com as alvas túnicas mais sujas do que as calças de um pintor da construção civil. As mães vigiavam a compostura das criancinhas e a banda da música enganava-se na partitura.
Hoje é um ritual sem graça que se aguenta por hábito. Os devotos profissionais enchem as ruas para os turistas tirarem fotografias e o bispo arejar a mitra e exibir a custódia sob o pálio que uns mancebos seguram com ar de enfado.
Quando a GNR manda soldados a cavalo aumenta o folclore e a ofensa à laicidade do Estado. Os cavalos defecam nas ruas por onde passam.
Alguns presidentes da Câmara, confundindo as devoções particulares com os deveres oficiais, aproveitam a boleia do pálio e a companhia do clero com o mesmo ar com que os cavalos transportam os soldados com dragonas.
As procissões são restos de um mundo que se transformou, encenações de uma liturgia que deixou de ser levada a sério.
O corpo de Cristo, carcomido pelo tempo e pelos vermes, foi desprezado até ao Século XIII, altura em que o departamento de marketing resolveu aproveitá-lo para uma festa anual a ter lugar na primeira quinta-feira após o domingo da Santíssima Trindade, seja lá isso o que for.
O Papa Urbano IV foi o inventor da festa que realça a presença real do «Cristo todo» na hóstia. E quem não acreditar que naquela rodela está o corpo e o sangue do fundador da seita, é um herege.
Claro que causa alguma perplexidade que um corpo que subiu ao Céu, desça à hóstia em cada consagração e se meta na língua dos devotos, sem se saber qual a parte anatómica que pode calhar ao mais pudico dos crentes.
A primeira procissão temática teve origem em 1230 de acordo com visões de uma freira que as comunicou ao cónego que viria a ser o Papa Urbano IV.
Essas visões da freira exigiam uma festa da Eucaristia, à semelhança das visões da Irmã Lúcia que, menos de cinco séculos depois, obrigavam ao terço para conversão da Rússia e apaziguamento do «Nosso Senhor» que andava muito zangado e com humor lábil.
Esta festa da ICAR é festa «de preceito», isto é, uma festa que obriga todos os católicos a assistirem à missa. Assim, quem trocar a liturgia pela praia comete um pecado mortal e arrisca as perpétuas penas do Inferno onde o azeite fervente e o cheiro a enxofre eram os castigos certos antes de JP2 ter abolido o Inferno.
Na dúvida, católicos romanos, amanhã não faltem à missa nem à «Procissão Eucarística na Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo». Até o nome é uma delícia.
Ateu que vos avisa, vosso amigo é.
Os homens nascem ateus mas há bandos de avençados do divino à espera de lactentes para os iniciarem nos rituais cabalísticos que os tornam pertença da religião professada e não mais os abandonam.
O parto é profano mas não tarda que a criança se transforme em neófito, aspergido pela água benta e submetido a um ritual litúrgico com a conivência dos progenitores. Depois desse ritual outros vêm numa sequência que mantém as vítimas presas aos carcereiros.
O baptismo é o averbamento místico na Conservatória do Registo Religioso do Deus que tem o registo predial do local de nascimento.
Assim, em Portugal o Deus é normalmente o do Papa, seja qual for o Papa e tenha ele o entendimento que tiver do Deus que na altura for mais apelativo à perpetuação da fé.
As crianças nascem ímpias mas não tardam a mudar a fralda com conteúdo cristão.
É este proselitismo que faz dos inocentes, crentes, e, destes, prosélitos ensinados a odiar os que não amam o Deus deles e não se conformam com os seus dogmas.
No negócio da fé há uma geografia cujas fronteiras todos os fanáticos querem alterar como, outrora, nas aldeias se mudavam os marcos às propriedades.
É preciso amansar os ímpetos prosélitos dos que não se contentam em transmitir os seus dogmas aos sócios e usam o terrorismo para os imporem aos crentes de outras religiões e aos descrentes de todas elas.
O remédio encontra-se no aprofundamento da laicidade do Estado.
O Cardeal Tarcisio Bertone, Secretário de Estado do Vaticano, anunciou este Domingo, em entrevista ao jornal católico italiano Avvenire, que “os EUA são um grande país e o actual presidente distingue-se particularmente por iniciativas positivas a favor da defesa da vida desde a concepção.”
…Até à morte no Iraque.
Numa capitulação perante os seguidores do Marcel Lefebvre, arcebispo tão reaccionário que até JP2 achou excessivo e o excomungou, B16 vai autorizar o regresso às missas em latim.
É o júbilo da Fraternidade Sacerdotal de São Pio X, intransigente defensora da tradição e da liturgia tridentinas, o que lhe valeu ao arcebispo dissidente a excomunhão em 30 de Junho de 1988 depois de ter sagrado quatro bispos sem passar cavaco ao Vaticano.
Agora é o regresso ao latim, depois a reabilitação do defunto arcebispo Lefebvre, quiçá com dois milagres às costas para obter a canonização.
Só faltam as fogueiras do Santo Ofício para que B16 se sinta um verdadeiro inquisidor ao serviço do Divino Impostor.
Num mundo à beira da guerra generalizada, por causa da carne de porco ou de um copo de vinho, só faltava que a igualdade entre os sexos fosse interdita pela vontade de um Deus misógino e pela vigilância policial dos clérigos de serviço.
Com pessoas de países ricos incapazes de fazerem dieta no consumo para prolongarem a vida do planeta, com predestinados que se julgam ungidos por um Deus volúvel como donos das riquezas do globo, com egoístas que preferem o desperdício à partilha, não é risonho, nem certamente pacífico, o futuro da humanidade.
Quando escasseia a água, se torna irrespirável o ar e tendem a acabar os combustíveis fósseis, é já dos alimentos que os ricos pensam apropriar-se, para os transformarem em combustíveis ao serviço do transporte individual. A vida dos pobres será cada vez mais curta e sofrida a menos que o princípio dos vasos comunicantes nivele por baixo a longevidade global.
No horizonte perfilam-se perigos que a intolerância e o medo se encarregam de agravar. Há meninos guerreiros em África, genocídio no Darfur, fedelhos escravos em muitos países, mulheres e crianças raptadas como escravas, na mais abjecta tradição medieval, para os mais repugnantes fins.
Eu sei que são pobres, feios e sujos; negros, analfabetos e desempregados: esfomeados, doentes e tribais. Há certamente uma vontade superior que quis o mundo assim dividido e um destino individual a que cada um está condenado. O pior é se as vítimas se agitam com o destino que lhes coube e, ai de nós, acabamos a comer o mesmo pão que o diabo amassou para todos.
É evidente que a maldade ou a bondade humanas não são um exclusivo da religião que se professa ou da sua ausência.
Alguns crentes, cheios de hóstias e missas, evocam déspotas que cometeram crimes hediondos sem irem à missa. Referem um antigo seminarista e psicopata (Estaline) e, numa atitude concertada, Hitler, cujas tropas usavam na farda «Deus está connosco» o que, a bem dizer, se existisse, era bem capaz. Assim, só Pio XII foi cúmplice.
Os crimes colectivos são típicos de sistemas totalitários. O saque, a escravatura, o assassínio e a violação, por exemplo, foram direitos consagrados em épocas onde os direitos humanos não existiam e a piedade era desconhecida. Mas era grande a fé.
Hoje, são os nacionalismos e as religiões que cometem os crimes mais execráveis, às vezes de mãos dadas. Ontem foram monarquias absolutas, impérios, evangelizadores e outros biltres que quiseram converter o mundo à mesma fé e ao mesmo chefe.
É curioso que os mais execráveis sistemas totalitários se aproximaram do paradigma religioso e o chefe de um demiurgo.
Acontece que os livros sagrados conseguem ser mais perigosos e duradouros do que os panfletos violentos de «iluminados» déspotas. «A minha luta» de Hitler é um livro que foi o suporte teórico de crimes terríveis, mas é fácil demonstrar que era a obra de um demente. Vários ditadores fascistas e comunistas cometeram as maiores atrocidades baseados em valores que a civilização deitou para o caixote do lixo.
Mas que fazer da Tora, Bíblia e Corão, com milhões de pessoas que ainda pensam que foi Deus que os ditou, geralmente a pessoas pouco recomendáveis, primárias, rudes e violentas? Como transformar esses repositórios de ódio, xenofobia e misoginia em meros documentos literários sem a crueldade e demência que são atribuídos a Deus?
A resposta cabe aos crentes. Aos ateus cabe a luta pela liberdade religiosa, sem permitir que uma religião destrua outra e aniquile os que se horrorizam com os crimes da fé.
O Diário de uns ateus é o blogue de uma comunidade de ateus e ateias portugueses fundadores da Associação Ateísta Portuguesa. O primeiro domínio foi o ateismo.net, que deu origem ao Diário Ateísta, um dos primeiros blogues portugueses. Hoje, este é um espaço de divulgação de opinião e comentário pessoal daqueles que aqui colaboram. Todos os textos publicados neste espaço são da exclusiva responsabilidade dos autores e não representam necessariamente as posições da Associação Ateísta Portuguesa.