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Carlos Esperança

15 de Junho, 2007 Carlos Esperança

Se Deus existisse

Se Deus existisse, há muito que estaria em prisão preventiva e os seus serventuários a garantir que nunca o tinham visto, uma verdade, talvez a única, que apresentariam no pelourinho da opinião pública.

Quem semeia ventos e tempestades, guerras e terramotos, epidemias e pragas, não pode esperar o mais leve gesto de consideração ou estima. Deus é filho do medo e pai dos que vivem à sua custa, uma criação bizarra que explica tudo e o seu contrário sem provas ou recurso à inteligência.

O Deus de cada crente é talvez um mito tolerável, mas o Deus da religião é sempre um ente cruel, vingativo e caprichoso. Quanto mais atrasados forem os crentes mais odioso é o Deus que trazem.

O Deus do Islão é um ser pusilânime e misógino que desata aos pulos quando assiste à decapitação de um infiel, à lapidação de uma adúltera ou à tortura dos ímpios. Porta-se, na presença do toucinho, pior do que um garoto à frente de um prato de sopa e odeia o álcool quase tanto como a liberdade.

O Deus cristão, um pouco mais civilizado graças à cultura helénica e ao direito romano, anda com um colete-de-forças desde a Revolução Francesa, refreado pela separação do Estado e debilitado pela secularização, a liberdade e a democracia.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi a gota de água que fez transbordar o copo do descrédito em relação às baboseiras que Deus proferiu no Monte Sinai ou que segredou a Maomé entre Medina e Meca.

Deus gosta de humilhar os homens e, especialmente, as mulheres. Gosta de os ver de joelhos e de rastos, sempre a caminho dos templos (espécie de casas de alterne para os ofícios religiosos), ocupados na oração e a meterem-lhe cunhas para fazer uns milagres cada vez mais idiotas e ridículos.

Deus está com a cotação em baixa no mercado da razão. É um mito que persiste preso aos interesses dos clérigos, um veneno que se serve na infância e que corrói a inteireza de carácter e a felicidade dos homens.

15 de Junho, 2007 Carlos Esperança

Palestina – A religião só prejudica

A Palestina explodiu. As milícias islâmicas do Hamas venceram os últimos focos de resistência do presidente Mahmud Abas. Alá é grande e Maomé o seu profeta.

A faixa de Gaza, com cerca de 330 quilómetros quadrados, está separada da Cijordânia. Até há pouco a Palestina era um Estado à espera de território e de paz, agora é um lugar de mais violência à espera de Estado e com o território em risco.

Sem água, comida, paz ou recursos, a Palestina deixou de ser a pátria ansiada para se transformar num Inferno garantido, por mérito próprio, sem precisar da ajuda sionista.

Apesar de afirmações em contrário, o Hamas não resiste a criar um Estado confessional. «Chegou a era da justiça e da lei islâmica», disse, ontem em Gaza, Islam Shahawan, um porta-voz da milícia do Hamas. Aliás já começaram as execuções sumárias de membros da Fatah.

Parece que a irracionalidade e o ódio vão tomando conta do mundo. Às religiões chegou o momento de serem lideradas pelos movimentos mais sectários e cruéis. A demência da fé e o nacionalismo deram as mãos. O resultado é dramático.

Não tarda que a violência alastre à Cisjordânia.

DA/Ponte Europa Ler artigo de Ricardo Alves

14 de Junho, 2007 Carlos Esperança

O Irão e a pornografia

Sem me atrever a dizer que as outras são boas, o Islão não é uma religião recomendável, é um anacronismo entre a crueldade e a demência, o sistema de valores de primatas que sofreram mutações genéticas e perturbações mentais.

Uma religião que discrimina a mulher não é um caso de fé, é um problema de polícia. O clero que aceita casamentos de meia hora e condena à morte quem se prostitua não é um corpo religioso, é uma associação de malfeitores com requintes de hipocrisia e laivos de malvadez.

Se 148 imbecis, com apenas 5 votos contra e 4 abstenções, votam no parlamento, um decreto-lei que pode condenar à morte quem trabalha no cinema pornográfico, não se limitam a impor a moralidade, aplicam a barbárie do totalitarismo religioso.

Se não combatermos ideologicamente a imbecilidade mística que brota dos antros da fé, corremos o risco de oferecer o pescoço ao cutelo, o corpo à lapidação e a liberdade aos fanáticos de Deus. O mundo regressará à Idade Média com fogueiras em nome de Cristo e apedrejamentos para glória de Maomé.

Deus é grande, do tamanho da insânia dos homens e da maldade dos clérigos. Se não pudermos vencer a demência dos seus padres é a civilização que entra em agonia e as sociedades livres e tolerantes que estão condenadas.

Deus é a grande maldição da modernidade, o mito abjecto que odeia a felicidade e que dispõe de exércitos de sotainas capazes de nos tirarem, mais do que a vida, a liberdade que o mundo penosamente conquistou em luta contra as Igrejas.

13 de Junho, 2007 Carlos Esperança

Exploração do trabalho infantil

A pobreza está na origem da violência e crueldade que grassam pelo mundo. Não é a única desgraça mas é uma das mais terríveis e de efeitos mais devastadores.

A exploração de crianças é um reflexo dessa pobreza que começa na carência de água potável, alimentos e escolaridade e termina na exploração da mão-de-obra, na venda e escravatura de crianças. Não lhes faltam templos mas mingua a comida e as escolas.

Os países ricos devem alguma da sua prosperidade aos despojos desta tragédia, à manutenção de uma infâmia paga com sangue de crianças que não têm lágrimas.

A abastança em que vivemos, excluídas as bolsas de pobreza interna – reflexo local da injustiça mais vasta a nível planetário -, permite-nos viver muito e bem no mundo onde se morre depressa e mal, para maior glória divina.

A globalização abriu mercados a sociedades fechadas, mergulhadas em imensa pobreza e na opressão de déspota violentos. O acesso à sobrevivência de milhões de pessoas põe em risco alguns privilégios das sociedades ricas enquanto as empresas aumentam lucros e os trabalhadores vêem perigar o bem-estar e os postos de trabalho.

Quero ser optimista quanto ao futuro e pensar que o altruísmo seja globalizado porque, se não aceito as grandes desigualdades entre cidadãos de um mesmo país, também não devo tolerar as tremendas diferenças que separam os países ricos dos países pobres.

Enquanto nós queremos trabalhar cada vez menos e ganhar cada vez mais, há quem se contente em não morrer. Não é justo o mundo em que 218 milhões de crianças entre os 5 e os 17 anos trabalham e em que 126 milhões destas crianças têm trabalhos perigosos.

Enquanto não houver justiça à escala mundial a ameaça paira sobre a paz e o bem-estar. E não é com a fé em Deus que as injustiças são corrigidas. Pelo contrário, a exploração e a resignação aumentam com o logro de Deus.

12 de Junho, 2007 Carlos Esperança

Bento XVI, o último ditador europeu

B16 é uma excrescência dos sistemas totalitários e dirige a única teocracia europeia. O último ditador vitalício da Europa democrática insiste na cruzada obscurantista com a promessa de uma assoalhada no Paraíso.

No recalcamento celibatário chama «profanação» à exaltação do corpo e à sexualidade. Esquece que a ICAR exumou cadáveres para os queimar, tal era a vocação pirómana e a demência do ódio às heresias.

Para o Papa actual o «nu» é a encarnação do Diabo e o cio a arma de que este se serve para estorvar os negócios divinos. O conúbio de B16 com a Fraternidade Sacerdotal S. Pio X transformou o antro reaccionário – o Vaticano – na central de intoxicação mística ao serviço do anacronismo da fé e da liturgia tridentina a que sacode o pó e o bolor.

B16 zurze os órgãos de comunicação social porque «ridicularizam a santidade do casamento e a virgindade antes do matrimónio», mas não são os jornais e a televisão que são contra a virgindade, são as hormonas e o sortilégio do amor.

Quanto ao casamento, se é assim tão santo, por que motivo o proíbe aos padres e às freiras e ele próprio renunciou a tal santidade?

A necessidade de reprodução e a legítima aspiração ao prazer levam os crentes a trocar os rituais da religião pela liturgia dos afectos e a procurar o Céu no êxtase do amor.

O Papa é um primata com tiara em rota de colisão com a modernidade, um dinossauro que pretende extinguir a humanidade através da abstinência sexual. A castidade é a bomba atómica que o velho ditador sonhou para extinguir a vida.

10 de Junho, 2007 Carlos Esperança

O 10 de Junho

O 10 de Junho é um cadáver que se exuma anualmente para as soturnas comemorações oficiais e o desfile de gatos-pingados.

Os EUA exaltam o 4 de Julho, data da declaração da Independência, e fazem desse dia uma festa nacional. Que melhor razão para celebrar o dia do que o nascimento do país, que promulga uma constituição avançada e declara o direito à felicidade?

A França fez da tomada da Bastilha, em 14 de Julho, o símbolo da liberdade, a festa da Revolução que aboliu as velhas monarquias de direito divino e deu origem às modernas democracias governadas por cidadãos que o voto popular escrutina.

O Estado português escolheu, não a independência, não a glória das descobertas, não a liberdade, mas o óbito de um poeta, singular e grande, é certo, mas a morte, nem sequer o nascimento cuja data e local ignora.

Os EUA e a França festejam a liberdade e o povo exulta, Portugal evoca a morte e os portugueses deprimem-se. O dia 10 de Junho era na ditadura o «Dia de Camões, de Portugal e da Raça». Era um dia de nojo, na dupla acepção, com os carrascos a distribuir veneras pelas viúvas, pais e irmãos dos militares mortos na guerra colonial.

Hoje, em democracia, o dia 10 de Junho apenas perdeu a Raça. É o Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas. E permanecem as homenagens aos mortos adiados, embrulhados numa venera no palco das vaidades.

Portugal tem uma Revolução para comemorar, um dia que fez a síntese do melhor que herdámos do liberalismo e do 5 de Outubro, uma madrugada que emocionou o Mundo e libertou Portugal da mais longa ditadura do Século XX – o 25 de Abril.

Mas a mórbida evocação dos defuntos é um traço inapagável da nossa identidade.

Portugal prefere o velório à festa, a véspera da perda da independência à alvorada da libertação, a continuidade das cerimónias da ditadura à aurora de todas as liberdades, a missa de aniversário à grandeza épica de Abril.

Portugal prefere viajar de joelhos ao passado a combater de pé pelo futuro.