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Carlos Esperança

6 de Dezembro, 2007 Carlos Esperança

As três religiões abraâmicas

Às vezes dou por mim a pensar como foi possível, a partir de um texto bárbaro da Idade do Bronze – o Antigo Testamento -, desenvolver três negócios rivais: o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo, cada um deles dominando uma área geográfica e aspirando ao monopólio.

À semelhança das Máfias, surgidas na Idade Média, as religiões abraâmicas têm uma tradição violenta, guerreando-se de forma cruel, com a obsessão do domínio planetário. Assemelham-se no carácter tribal, na tendência para se infiltrarem na esfera pública, na protecção dos seus membros e na impiedade para quem quebre os códigos de honra. O afastamento, que nas religiões se denomina apostasia, é punido com a pena capital. Em regra as direcções são colegiais, só o catolicismo romano evoluiu para o poder pessoal de um único e infalível autocrata que acumula com a profissão de santo.

A conversão e a morte são armas tradicionais da fé. A Espanha, filha dilecta de Roma, atingiu o apogeu do proselitismo com os Reis Católicos, Fernando e Isabel, quando os judeus e os muçulmanos eram convencidos à conversão pela tortura, não descurando os churrascos na Inquisição quando suspeitavam da falta de convicção de um cristão-novo.

No Afeganistão libertado a Constituição mantém um artigo que pune com a morte o crime de apostasia. Em 1992, na Arábia Saudita, Sadiq Abdul Karim Malallah, após legalmente condenado por blasfémia e apostasia, foi decapitado em público, ao gosto do Profeta, dos clérigos e dos devotos autóctones.

Do mundo muçulmano soltam-se crentes desvairados, carregados de bombas, em busca do Paraíso, numa louca orgia de sangue e de proselitismo. Aquele Deus vingativo, cruel e apocalíptico que se esconde nas páginas do Antigo Testamento é a matriz genética do Deus dos judeus, cristãos e muçulmanos que continua a ser o único mito mais mortífero do que qualquer bactéria ou vírus.

3 de Dezembro, 2007 Carlos Esperança

Brasil – Freira foi para o Céu à facada

Salvador – Mais de 20 mil católicos acompanham a celebração eucarística de beatificação de Irmã Lindalva Justo de Oliveira, no Estádio Barradão em Salvador. Assassinada com 44 facadas, em 1993, por um interno do Abrigo Dom Pedro II, onde a religiosa trabalhava, Irmã Lindalva foi considerada Mártir no Dever pelo Vaticano e teve seu processo de beatificação acelerado pela Congregação Para a Causa dos Santos.

Comentário: Com 44 facadas demorou 14 anos a ser beatificada. Com 88 era logo canonizada.

3 de Dezembro, 2007 Carlos Esperança

O urso Maomé e a fauna devota

«Os homens nunca fazem o mal tão completa e alegremente como quando o fazem por convicção religiosa». (Pascal)

No Sudão, um obscuro país onde a fome e a fé dizimam o povo, uma professora de inglês foi condenada a 15 dias de prisão, seguidos de deportação, por ter permitido aos alunos que dessem o nome de Maomé a um urso de peluche, o que foi considerado uma ofensa ao Profeta e não ao urso.

Poupou-a às chibatadas a nacionalidade e a intervenção do primeiro-ministro inglês e às balas a polícia anti-motim. Os piedosos sudaneses que se manifestaram, junto ao palácio presidencial, contra a clemência da sentença, queriam vingar a afronta ao Profeta à saída das orações de sexta-feira, excelentes para estimular a violência.

Foi uma desilusão para os crentes terem sido impedidos linchar a professora. Estavam munidos de paus, facas e machados e só ansiavam por dar público testemunho da sua fé e agradarem ao seu Deus.

Há quem pense que a demência mística é mera manifestação tribal ou apanágio de uma única religião, talvez por desconhecer o Levítico, por exemplo, e a dívida para com o Iluminismo e a Revolução Francesa.

O fundamentalismo é uma palavra que serviu para definir, primeiro, o protestantismo evangélico americano que no início do século XX pregava um Deus apocalíptico, cruel e vingativo, e que actualmente ameaça transformar-se de novo na característica comum das diversas religiões.

É preciso um sobressalto republicano e laico em massa para evitar que as religiões destruam a civilização e comprometam a sobrevivência humana e que a blasfémia – um «crime» medieval – desapareça do Código Penal de todos os países civilizados.

2 de Dezembro, 2007 Carlos Esperança

Religião e ditaduras

Salvo o comunismo (sob Estaline e Mao), ele próprio transformado em religião, que glorificava o ditador de serviço a quem era rendido culto, nenhum sistema repressivo levou tão longe a opressão sobre os povos, a violência sobre os adversários e a limitação das liberdades individuais como as religiões.

Não é por acaso que as ditaduras se apoiaram quase sempre no poder das Igrejas, que o trono e o altar viveram em união de facto e de direito nas monarquias absolutas, nos impérios e nas numerosas ditaduras de pendor fascista que assolaram o mundo e nas que estão para durar.

Os homens que criaram as religiões foram certamente os piores do seu tempo no tempo em que os homens foram piores. Entre os ditadores destacam-se pela crueldade, ódio e espírito vingativo os dignitários religiosos. Dizia Pascal: «Os homens nunca fazem o mal tão completa e alegremente como quando o fazem por convicção religiosa».

Os ditadores laicos, por mais execráveis que sejam, limitam-se a ser cruéis, violentes e repressivos nos limites geográficos da ditadura que exercem mas os ditadores religiosos não se contentam com os antros em que se acoitam, lançam a peçonha através do mundo e castigam ou abençoam sem respeito por limites territoriais ou ideológicos.

O Papa excomunga um cidadão onde quer que viva, seja qual for a sua nacionalidade, a partir do Vaticano, tal como o aiatola Khomeini, do Irão, produziu idêntica sentença contra o escritor Salman Rushdie, que era britânico, neste caso com oferta pública de dinheiro para estimular a fé assassina de qualquer muçulmano que se prezasse.

Não sei se é a posição de joelhos, ou de rastos, que vai transformando lenta e eficazmente os líderes religiosos em répteis e em peçonha os seus actos.