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Carlos Esperança

6 de Fevereiro, 2008 Carlos Esperança

Mutilação genital feminina

Em nome da tradição tanto se pode defender a morte do touro em Barrancos como a lapidação de uma mulher por adultério. Não há selvajaria, malvadez ou crueldade que não tenha na tradição argumentos de peso e trogloditas defensores.

As mulheres foram, sempre, vítimas predilectas do pecado original e da selvajaria dos homens ou de outras mulheres. Foram queimadas por bruxaria, vergastadas por adultério, repudiadas pelos maridos, casadas por imposição dos pais e exoneradas dos direitos cívicos e humanos pela legislação sexista. O martírio, a desonra e a humilhação foram o ónus do género que as religiões acolheram e as tradições consagraram.

Dentre as tradições mais abjectas conta-se a «mutilação genital feminina» uma forma de impedir à mulher o prazer sexual, de lhe causar sofrimento atroz e de lhe provocar, com frequência, a morte.

Dir-se-á que esta selvajaria não é, tal como outras, imposição religiosa. É verdade, mas não deixa de estar associada a costumes onde, quase sempre, há uma forte implantação do Islão. E, naturalmente, a componente mercantilista de um próspero negócio.

Não há grande diferença entre o facínora que se aluga para disparar um tiro de escopeta num inimigo a abater e a mulher que se contrata para fazer a excisão numa menina. Há nesta selvagem crueldade o peso de séculos e na condescendência ou cumplicidade uma cobardia que envergonha o género humano.

Malditas tradições, maldita gente que respeita um negócio destes, maldita fé que o consente.

Adenda: Vídeo sobre a «mutilação genital feminina»

5 de Fevereiro, 2008 Carlos Esperança

Espanha – PSOE compromete-se a rever privilégios da ICAR

 A luta deixou de ser entre o PSOE e o PP, os dois partidos hegemónicos que asseguram a alternância do poder, em Espanha, e passou a ser um braço de ferro entre o Governo legítimo e a Conferência Episcopal Espanhola.

Quiseram os bispos disputar as eleições e fazer do PP o braço armado da ICAR. Acabaram por remeter o PP para o lugar secundário de sacristão de uma Igreja toda-poderosa que não abdica do poder que a cumplicidade com o franquismo lhe outorgou.

A agressividade episcopal e a ostensiva participação na campanha eleitoral através dos púlpitos está a deixar vários padres e muitos católicos à beira de um ataque de nervos. Seja qual for o resultado eleitoral a primeira vítima será a fé.

O clero espanhol não se conforma com a sociedade plural, tolerante e democrática que nasceu dos escombros do franquismo e a democracia é um caminho longo e difícil para quem gostaria de ver canonizados os impiedosos reis católicos, Fernando e Isabel.

A partir de 9 de Março, se Zapatero ganhar as eleições, a Igreja católica espanhola pode sofrer a mais severa e dolorosa punição que a sua gula merece, perder o financiamento público. Perde onde mais lhe dói, nos generosos benefícios financeiros que o PSOE lhe tem prodigalizado.

4 de Fevereiro, 2008 Carlos Esperança

As diversas faces do totalitarismo

Jorge Sampaio é o primeiro alto representante da ONU para o Diálogo das Civilizações, a convite do secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-Moon. Pode dizer-se que, pela sua cultura, humanismo, tolerância e capacidade diplomática, foi escolhido o homem certo para o lugar certo e, no entanto, subsistem as mais legítimas dúvidas sobre o êxito dos esforços.

O conflito de civilizações é um mito para esconder o carácter totalitário e o proselitismo das diversas religiões. Não se trata, pois, de estabelecer pontes entre quem aprecia carne de cão e os que preferem leitão assado, entre os que aprenderam a comer arroz com dois pauzinhos e os que precisam de uma colher para o transportarem do prato à boca.

 Não há qualquer conflito entre esquimós e índios, entre indianos e europeus ou árabes e americanos. Não são os usos e costumes que acirram ódios mas sim a vontade de Deus interpretada pelos profissionais da fé, sempre obstinados a converter ou exterminar.

Há hoje um anti-semitismo demente do Islão que o sionismo exacerba, uma islamofobia crescente e generalizada perante o terrorismo que nasce do ódio transmitido às crianças nas madraças e alimentado nas mesquitas aos adultos.

O que está em causa é o ódio entre religiões ou entre seitas da mesma fé, todas com o exclusivo do Deus verdadeiro e portadoras do único alvará da agência de transportes para o Paraíso.

Não são a cruz, o kipá, o crescente islâmico ou o véu islâmico a cobrir a cara que repelem as pessoas, embora sejam muitas vezes a afirmação da identidade e uma provocação ostensiva. O que verdadeiramente divide, intimida e agride é a exigência de cada um a que todos os outros se submetam à sua fé.

Só a separação Igreja/Estado pode assegurar a paz religiosa e a liberdade para todos os credos e para ausência deles e sobrepor a vontade humana livremente manifestada em eleições livres à vontade de Deus tirada de velhas cópias de um livro da Idade do Bronze, adulteradas pelos desejos e tradições tribais dos guardas dos velhos mitos.

3 de Fevereiro, 2008 Carlos Esperança

É preciso pará-los…

Dois atentados quase simultâneos, perpetrados em Bagdad, em mercados de animais, causaram a morte de 65 pessoas e feriram 149, segundo as agências de informação. Desde Abril que não havia notícias de um dia tão sangrento.

O Mundo, habituado ao terrorismo religioso podia pensar que a demência se devia à fé e a violência ao Corão. O livro está implicado, não a fé. As suicidas, que não esperam no Paraíso jovens apolíneos que lhes retirem as burkas e alimentem as fantasias, porque à mulher todo o prazer é negado, eram deficientes mentais usadas para o massacre.

Podiam os fanáticos religiosos deixar a Deus, a quem imploram em piedosas preces a chacina dos inimigos, o exercício da violência e a decisão da morte. Mas não. Talvez desconfiados da inércia divina, usam doentes mentais, pessoas sem o uso da razão, para espalhar o terror e cumprirem algum desejo do Profeta.

Os próceres da fé habituaram-se a usar os mais devotos para a execução de infiéis e dos que divergem da ortodoxia dos clérigos. Em democracia há adversários, nas teocracias inimigos.

Em nome do respeito pelo pluralismo cultural há bandos de terroristas, com motivações religiosas, vistos como portadores de uma civilização diferente. Enquanto não forem tratados como associações de malfeitores nunca mais se fará jurisprudência que distinga o crime da fé e a civilização da barbárie.

A demência da fé está sempre associada à mais boçal ausência de escrúpulos.

Como prova a utilização de deficientes mentais.

2 de Fevereiro, 2008 Carlos Esperança

Espanha – Bispos vão a votos

 Espanha: Documento pede vitória do PP

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Igreja apela a voto contra Zapatero

Os bispos espanhóis estão em guerra aberta com o governo de José Rodríguez Zapatero e começaram a fazer campanha declarada pela derrota dos socialistas nas eleições de 9 Março. Há muito que a Conferência Episcopal Espanhola critica as políticas implementas pelo executivo, mas até agora nunca tinha feito um claro apelo ao voto no Partido Popular.

Comentário: Igreja arrisca o futuro nas próximas eleições.

1 de Fevereiro, 2008 Carlos Esperança

Manuel Buíça e Alfredo Costa – Mártires da liberdade

A Guerra dos Trinta Anos, uma das guerras religiosas mais prolongadas e devastadoras da Europa (1618/1648), quando os príncipes tinham o direito de impor as suas crenças aos habitantes dos seus domínios, custou milhões de mortos. Só a Alemanha perdeu metade da população, reduzida de 16 para 8 milhões de habitantes.

Foi longo o sofrimento que conduziu à Paz da Vestfália, em 24 de Outubro de 1648, em que pela primeira vez é reconhecida a liberdade religiosa a protestantes e católicos sem que a conversão dos príncipes obrigasse à dos súbditos. Foi sangrenta a conquista da liberdade religiosa pelos luteranos e calvinistas mas o totalitarismo católico foi vencido, as fronteiras foram redefinidas e a secularização avançou. Ninguém se alegra hoje com a carnificina mas todos beneficiamos da liberdade então dolorosamente alcançada.

A Revolução Francesa pôs termo a um regime de mais de quinhentos anos e extirpou as raízes que eram obra da Igreja católica com mais de mil e duzentos anos. Em 1789 começou uma década em que o Iluminismo destruiu a autoridade do clero e da nobreza, aboliu o absolutismo monárquico e abriu as portas aos modernos Estados democráticos.

Ninguém exulta com o terror então vivido, com o sangue, a violência, as retaliações e, muito menos, com a decapitação de Luís XVI e de Maria Antonieta, mas aboliram-se o feudalismo, a monarquia, o absolutismo, o poder do clero e da nobreza e começou a Idade Contemporânea que os historiadores datam em 1789. A Revolução produziu as mais profundas transformações políticas, económicas e sociais de sempre, além de ter estado na génese da independência dos países da América Latina.

O dia 14 de Julho – tomada da Bastilha –, é justamente o dia nacional da França.

Em 1 de Fevereiro de 1908, a degradação ética, o caos económico e a bancarrota, eram em Portugal o saldo da ditadura de João Franco, em clima de vindicta política – prisões arbitrárias, fecho do Parlamento, encerramento de jornais, julgamentos sumários e anunciadas deportações em massa de adversários políticos, monárquicos e republicanos.

Instalou-se o terror após a suspensão da Carta Constitucional que o rei assinou com a frieza com que premia o gatilho na caça às perdizes e o entusiasmo com que apoiava a ditadura de João Franco desde 1906.

Manuel Buíça e Alfredo Costa evitaram o desterro e a morte de numerosos portugueses, pondo fim à ditadura opressora, e abriram o caminho para a implantação da República, desgraçadamente à custa das vidas de D. Carlos, do príncipe herdeiro e deles próprios, sonhando com a República sob os escombros da monarquia que agonizava e a que vibraram um golpe fatal.

O assassínio é inaceitável, como insuportável era a repressão do ditador João Franco e a cumplicidade real. Por isso se lamentam as trágica mortes reais e a brutalidade exercida contra os regicidas mas, tal como o Mestre de Avis, os conjurados de 1640 e Machado Santos, Manuel Buíça e Alfredo Costa merecem um lugar no altar da Pátria que amaram e no coração da República por cujos ideais se imolaram. 

31 de Janeiro, 2008 Carlos Esperança

O 31 de Janeiro de 1891

Em Portugal, nos finais do século XIX, na ausência de qualquer solução para a crise económica, social e política, a monarquia agonizava. Depois da conferência de Berlim, em 1885, o projecto português de ligar Angola a Moçambique colidiu com o plano inglês de ligar o Cairo ao Cabo (África do Sul).

A disputa do território africano que ficaria conhecido por mapa cor-de-rosa culminou com o Ultimatum, imposição do império inglês a Portugal, tão humilhante que inflamou o fervor republicano e o ódio ao trono e à Inglaterra.

Os ideais republicanos continuaram a seduzir os portugueses e a ganhar força à medida que a monarquia se esgotava, a pobreza aumentava e o sentimento colectivo, de vergonha e ressentimento, se acentuava.

«A Portuguesa» foi o hino que surgiu do ódio generalizado que cada vez mais se identificou com as aspirações republicanas que germinam nos quartéis, na maçonaria e nos meios académicos. O Partido Republicano, até aí pouco expressivo, ganhou adesões e consistência.

Entre os militares destacavam-se os sargentos no fervor republicano donde viria a surgir a primeira tentativa para implantar a República. Coube ao Porto a honra dessa tentativa falhada que contou com alguns oficiais em que se distinguiu o alferes Malheiro e, ainda, o capitão Leitão e o tenente Coelho.

Com a banda da Guarda-Fiscal à frente, os militares republicanos avançaram ao som de «A Portuguesa» e assaltaram o antigo edifício da Câmara do Porto de cuja varanda, perante o entusiasmo da população que se juntou ao movimento, se ouviu o discurso de um dos lideres civis da revolta, Alves da Veiga, que proclamou a República.

Falhado o objectivo de ocupar o Quartel-General e o edifício do telégrafo, donde se anunciaria a todo o País a proclamação da República e a deposição da Monarquia, o movimento soçobrou perante a Guarda Municipal.

O exemplo dos revoltosos de 31 de Janeiro de 1891 frutificaria, menos de duas décadas depois, em 5 de Outubro de 1910. Eles foram os protagonistas de uma derrota que foi a semente da vitória que tardaria quase duas décadas.

Foi há 117 anos mas a memória histórica dos protagonistas do 31 de Janeiro está viva e é dever honrá-la.

 O trono e o altar iriam cair abraçados.

31 de Janeiro, 2008 Carlos Esperança

A Turquia e o véu islâmico

Todos conhecemos a obsessão divina pela roupa feminina e a preferência pelo homem, a ponto de ter feito este, primeiro, e dele, depois, uma espécie de subproduto, a mulher.

Claro que um santo doutor, Paulo de Tarso, certamente pela convivência com o criador, pôde desenvolver um fanatismo misógino que agradava a Deus e fazia as delícias dos homens a quem sempre o poder agradou. Não se pense que a mulher, cuja igualdade foi reclamada por homens corrompidos pelo Iluminismo e pela Revolução francesa e por mulheres que renegam os bíblicos ensinamentos da criação, não é também ambiciosa. Mas o que está em causa é o respeito pela vontade divina interpretada pela legião de profissionais que a estudam e promovem.

Foi a cópia grosseira e ampliada da misoginia judaico-cristã que levou os estudantes de teologia do Afeganistão à criação do ministério da Promoção da Virtude e da Prevenção do Vício.

À semelhança do que já se passa em terras cristãs, na Europa que julgávamos imune à tentação da convivência promíscua entre o Estado e as Religiões, na própria França onde Sarkozi pretende abolir a centenária lei da Separação, a Turquia ataca o laicismo.

O uso do véu não é apenas um desejo que as mulheres querem ver satisfeito quando os espíritos laicos não vêem que é a liberdade individual que está em causa, liberdade que qualquer bom muçulmano quer obrigatória.

Paulo de Tarso considerava o cabelo e a voz das mulheres coisas obscenas. Maomé, mais ousado, considera o corpo todo. É por isso que, num país que impôs o laicismo à força, se exige agora, para começar, a autorização do véu e, depois, a imposição da burka.

O véu islâmico não é um mero símbolo religioso, uma tradição que possa ser subvertida por um estilista, é o símbolo da humilhação da mulher, a condição imposta pelo Corão. A mulher é, como se sabe, propriedade do homem e um direito irrenunciável que agrada ao Profeta e dá imenso jeito aos homens que dele não abdicam.

Surpreende a cumplicidade dos países democráticos no regresso ao obscurantismo.