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Carlos Esperança

8 de Dezembro, 2012 Carlos Esperança

Os outros animais deviam ter um deus

Se os cavalos fossem crentes, certamente que o seu deus teria relinchado mandamentos e concedido a ferradura de ouro aos mais devotos. Havia de proibir-lhes o pasto viçoso pela quaresma e a ração de aveia às sextas-feiras. E se, porventura, os cavalos de raça fossem lascivos, impor-lhes-ia restrições à cópula, limitando-a à égua própria e vitalícia para fins meramente reprodutivos.

Se os cavalos fossem dados à metafísica, saberiam converter em benta a água dos rios e a das fontes e aprenderiam a ajoelhar-se à passagem dos bispos dos cavalos e a rastejar perante o papa.

Se os cavalos se dessem à beatice, como os humanos, o deus estaria rodeado de éguas que relinchariam hinos e cavalinhos que o louvassem. Algumas éguas ficariam virgens para o glorificar e outras professariam em estrebarias com grades, para sua maior glória.

A fé tem obrigações e os cavalos haviam de arranjar burros que lhes levassem a palha e algum camelo que carregasse o andor com a Égua Lusitana ou com o cavalo de Alter do Chão, quando organizassem procissões equestres.

Não faltariam devoções pias, dias santos com rações suplementares de cevada e festas anuais, sem cabresto nem bridão, para poderem relinchar hossanas, mas não falhariam as esporas para punir o garrano que cobiçasse a égua alheia nem selins apertados para os que não cumprissem as devoções pias.

Se o deus que os homens da Idade do Bronze inventaram e nos legaram fosse amante de touradas, só os aficionados teriam direito ao Paraíso. Os toureiros seriam anjos, santos os forcados e o Campo Pequeno uma catedral.

Os cabos seriam apóstolos e os rabejadores bem-aventurados destinados aos altares. Os bispos trocariam a mitra pelo barrete e o báculo pela muleta. Os cavaleiros, forcados, bandarilheiros, novilheiros, campinos e outros intervenientes seriam os eleitos em vez de padres, freiras, diáconos, beatas e outros avençados do divino. E para agradarem a deus, os beatos fariam lides com o capote e cravariam ferros curtos por devoção.

O matador seria um cruzado com indulgências plenas e o forcado colhido numa tourada teria assegurada a ascensão ao céu onde o esperariam virgens, mel e outras iguarias.

Talvez os membros das associações protetoras dos animais tivessem de se remeter à clandestinidade e, denunciados pelo inteligente, pagassem o atrevimento servindo de churrasco na fogueira erguida para preservar das heresias as touradas e as boas pegas.

7 de Dezembro, 2012 Carlos Esperança

Egito – Luta entre democracia e teocracia

O Presidente do Egito, eleito democraticamente, Mohammed Morsi, recusa-se a anular um contestado projeto de Constituição ou a revogar os decretos que lhe garantiram poderes quase absolutos.

O líder dos Irmãos Muçulmanos imagina a Constituição à imagem do Corão e tem da democracia a visão islâmica.

Neste momento joga-se no Cairo o futuro da democracia nos países árabes, conforme a balança penda para a laicidade ou perpetue o fascismo islâmico que caracteriza o ocaso da civilização árabe.

7 de Dezembro, 2012 Carlos Esperança

Homens, deuses e violência

«Deus podia ter sido uma ideia interessante mas tornou-se numa tragédia insuportável.» Esta frase que um dia me ocorreu, e é várias vezes citada com referência à origem, tem vindo a tornar-se cada vez mais evidente. Os homens que criaram os deuses arranjaram forma de ter uma explicação por defeito para todas as dúvidas, incertezas e angústias.

Os deuses foram criados à imagem e semelhança dos homens e atingiram nas religiões monoteístas, reunidos num único ser imaginário, a síntese dos defeitos dos homens, dos piores homens, dos mais intolerantes e cruéis.

O Inferno é simultaneamente um desejo recalcado de vingança, para quem é diferente, e o detonador do medo que, incutido desde criança, leva os homens a interiorizar o terror e a sujeitar-se aos interditos que o deus criou para os eleitos a quem reserva o Paraíso.

Deus é o malfeitor que espreita pela fechadura das portas, percorre as partes desnudas das mulheres, range os dentes perante a sexualidade e se zanga com tudo o que agrada aos humanos. Tem polícia privativa e porta-vozes, através do clero. E, como é surdo ou distraído, confia aos padres a confissão, a arma tenebrosa ao serviço da multinacional da fé sediada no Vaticano.

Deus é um perigo que urge exorcizar, uma ameaça que provoca guerras, ódios e medos. Deus é uma fonte de receita para os parasitas que vivem à sua custa e um castigo para os milhões de seres humanos fanatizados desde crianças e embrutecidos pela vida fora.

Basta ver os milhões de homens e mulheres que andam de rastos ou de joelhos para que o déspota, criado por tribos patriarcais de nómadas violentos, apazigue a ira que produz a peste, a lepra, os terramotos, os tornados e todas as tragédias com que o omnipotente se compraz.

Valha-nos a ciência. À medida que explica os fenómenos a que era atribuído carácter divino, vai corroendo a fé e libertando a humanidade.

6 de Dezembro, 2012 Carlos Esperança

As religiões, o maniqueísmo e os partidos políticos

A origem persa do maniqueísmo e a sua teorização em aramaico pelo próprio Maniqueu acabou por ser inerente aos três monoteísmos, para quem um defeito nunca vem só. Foi seu admirador Agostinho de Hipona, conhecido pelo epíteto de Santo Agostinho, que o difundiu vigorosamente, embora, mais tarde, tenha vindo a combatê-lo.

Para cada religião só há um deus verdadeiro – o seu –, sendo falsos todos os outros. Por isso, em boa verdade, todos somos ateus, limitando-se, quem se reivindica ateu, a negar apenas mais um e a considerar falsa uma religião mais do que o mais inexorável beato.

As religiões monoteístas têm ainda uma outra tara – o proselitismo –, exceto o judaísmo que, sendo isenta dessa, guardou para si outra: considera-se a detentora de um registo da Conservatória do Registo Predial Celeste (CRPC), que lhe garante a posse da Palestina com a assinatura do conservador Jeová sob o selo branco da estrela de David.

O judaísmo, o cristianismo e o islamismo, este numa fase de exacerbamento fascista, à medida que o falhanço da civilização árabe se agrava, influenciam largamente a política global e transmitem aos partidos políticos o carácter maniqueísta que divide e subverte objetivos que deviam ser comuns.

Na religião, o dissidente é herege e na política é um traidor. Um convertido é venerado numa e noutra e, na religião, facilmente se torna santo. Hereges, renegados e traidores são os que pagavam com a vida a obstinação de serem livres-pensadores. O iluminismo e a Revolução Francesa vieram abalar os alicerces do dualismo maniqueísta e, por isso, devemos-lhes mais do que a todas as religiões juntas. Vale mais uma página de Voltaire do que todo o Pentateuco.

O pluralismo, a rotatividade política e o direito de nos arrependermos do voto errado, e de o corrigirmos pacificamente, são conquistas recentes na história da humanidade. O direito divino era um castigo demasiado cruel para que os homens livres o aceitassem. Preferiram trocá-lo pela vontade popular expressa no sufrágio universal e secreto.

É altura de nos emanciparmos politicamente e deixar para a fé os interditos, os ódios e o proselitismo que são apanágio das religiões. A política precisa da diversidade e exige de todos um esforço para evitar que a riqueza seja apropriada por uma única classe ou por um bando que assalte o poder.

Para isso não podemos ser maniqueístas. Não há verdades absolutas. A não ser para os crentes.

5 de Dezembro, 2012 Carlos Esperança

Quem trabalha no Vaticano usa pulseira eletrónica

Após o escândalo de documentos vazados, o Vaticano decidiu apertar medidas de segurança.

Em particular, cada funcionário terá um cartão de identidade com um microchip, informa o Daily Telegraph.

Os cartões com microchips, capazes de definir a localização do proprietário no palácio papal, serão introduzidos a partir do dia 01 de janeiro de 2013. Tais documentos ajudam também a controlar quando os funcionários vão e vêm. O endurecimento do controle tocará milhares de funcionários do Vaticano.

Diário de uns Ateus – É um Estado totalitário e a última ditadura europeia.

5 de Dezembro, 2012 Carlos Esperança

Egito – a sharia vem a caminho

Milhares rodeiam palácio de Morsi para dizer que não querem Constituição islamista

Juízes apelam ao boicote do referendo de 15 de Dezembro, jornais não saíram nesta terça-feira em protesto contra “ditadura do Presidente”. Manifestação da oposição levou milhares de pessoas até Heliópolis para gritar “o povo quer a queda do regime”.

Diário de uns Ateus – Só a religião consegur converter em ditadura uma eleição democrática.

4 de Dezembro, 2012 Carlos Esperança

Momento zen de segunda_03_12_12 da era vulgar

João César das Neves (JCN) voltou à cruzada contra o aborto e o casamento entre indivíduos do mesmo sexo.

Sofre como se um e outro fossem obrigatórios e parece temer que o primeiro tenha efeitos retroativos. Sangra-lhe o coração por, nas últimas eleições americanas, três estados terem votado a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo; dilacera-se-lhe a alma porque na França a medida foi aprovada há pouco e na Nova Zelândia, Inglaterra e Escócia se preparara decisão idêntica.

O pio JCN, bem procura exorcizar os pecados com a defesa da moral eclesiástica mas o mundo, que julga criado pelo deus do Papa, é o que é e não o que o clero gostaria que fosse. Pelo menos, na lei.

Mas nada faz sofrer tanto o devoto JCN como os «milhões de embriões chacinados pelo aborto todos os anos». Nem se lembrou da médica dentista, de 31 anos, que os médicos deixaram morrer, com septicémia, porque a legislação da Irlanda os impediu de a salvar enquanto o feto teve batimentos cardíacos.

JCN é um talibã católico que quer impor aos outros a moral que julga de origem divina. Lastima-se, na homilia de hoje, no DN, da facilidade do divórcio, dizendo que «custa mais despedir a criada [sic] do que o marido». E, sem se benzer, acaba a queixar-se da ideologia antifamília que considera responsável pela baixíssima taxa de fertilidade, 1.3 filhos por mulher.

Na obsessão pela abstinência sexual – virtude que sempre recomenda –, JCN nem se dá conta de que a castidade é o método mais eficaz contra a prossecução da espécie.