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Mês: Junho 2013

26 de Junho, 2013 Carlos Esperança

Frases de crentes que um ateu nunca escreveria

Portanto, se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti; pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que seja todo o teu corpo lançado no inferno.
E, se a tua mão direita te escandalizar, corta-a e atira-a para longe de ti, porque te é melhor que um dos teus membros se perca do que seja todo o teu corpo lançado no inferno.
Mateus 5:29-30

E o irmão entregará à morte o irmão, e o pai o filho; e os filhos se levantarão contra os pais, e os matarão.
Mateus 10:21

Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada;
Porque eu vim pôr em dissensão o homem contra seu pai, e a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra;
E assim os inimigos do homem serão os seus familiares.
Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim.
E quem não toma a sua cruz, e não segue após mim, não é digno de mim.
Mateus 10:34-38

Pois eu vos digo que a qualquer que tiver ser-lhe-á dado, mas ao que não tiver, até o que tem lhe será tirado.
E quanto àqueles meus inimigos que não quiseram que eu reinasse sobre eles, trazei-os aqui, e matai-os diante de mim.
Lucas 19:26-27

Disse-lhes pois: Mas agora, aquele que tiver bolsa, tome-a, como também o alforje; e, o que não tem espada, venda a sua capa e compre-a;
Porquanto vos digo que importa que em mim se cumpra aquilo que está escrito: E com os malfeitores foi contado. Porque o que está escrito de mim terá cumprimento.
E eles disseram: Senhor, eis aqui duas espadas. E ele lhes disse: Basta.
Lucas 22:36-38

Então começou ele a lançar em rosto às cidades onde se operou a maior parte dos seus prodígios o não se haverem arrependido, dizendo:
Ai de ti, Corazim! ai de ti, Betsaida! porque, se em Tiro e em Sidom fossem feitos os prodígios que em vós se fizeram, há muito que se teriam arrependido, com saco e com cinza.
Por isso eu vos digo que haverá menos rigor para Tiro e Sidom, no dia do juízo, do que para vós.
E tu, Cafarnaum, que te ergues até aos céus, serás abatida até aos infernos; porque, se em Sodoma tivessem sido feitos os prodígios que em ti se operaram, teria ela permanecido até hoje.
Eu vos digo, porém, que haverá menos rigor para os de Sodoma, no dia do juízo, do que para ti.
Mateus 11:20-24

Quem não é comigo é contra mim; e quem comigo não ajunta, espalha.
Portanto, eu vos digo: Todo o pecado e blasfêmia se perdoará aos homens; mas a blasfêmia contra o Espírito não será perdoada aos homens
Mateus 12:30-31

E, no dia seguinte, quando saíram de Betânia, teve fome.
E, vendo de longe uma figueira que tinha folhas, foi ver se nela acharia alguma coisa; e, chegando a ela, não achou senão folhas, porque não era tempo de figos.
E Jesus, falando, disse à figueira: Nunca mais coma alguém fruto de ti. E os seus discípulos ouviram isto.
Marcos 11:12-14

25 de Junho, 2013 Carlos Esperança

Peregrinação a Fátima «contra o ateísmo»

 

 

 

Procissão das velas 12.05.2008

 

Esta peregrinação (13 de maio de 2008) sob o lema «contra o ateísmo» foi comandada pelo então chefe da Repartição «para a causa dos santos», Sr. Saraiva Martins, com a patente de cardeal.

24 de Junho, 2013 Luís Grave Rodrigues

Apostasia

24 de Junho, 2013 Carlos Esperança

O bispo da Guarda e a sexualidade

Segundo o JN, de ontem, o bispo Manuel Felício, quis silenciar um caso de pedofilia que tinha como suspeito o padre Luís Mendes, vice-reitor do seminário do Fundão e que só a PJ afastou dos alunos, detendo-o.

O bispo emérito da Guarda, António dos Santos, foi alvo de uma reação violenta da sua antiga diocese pois chamou imprudente ao padre Luís, porque «se deitava com alunos». O sucessor não se conteve e questionou a sanidade do bispo emérito, tendo declarado que «o seu estado de saúde  está gravemente afetado» e que “qualquer declaração por ele prestada ou que venha a prestar (…) carece de fundamento e só pode ser atribuída a boatos”  –  segundo o comunicado episcopal.

Apesar das numerosas denúncias e provas que o incriminavam, o JN revela nas páginas 12 e 13, em artigo do jornalista Nelson Morais, que o atual bispo – segundo a mãe de uma vítima –, ficou zangado com a denúncia feita por ela à PJ. Em suma, teria querido abafar o caso sem preocupação com o sofrimento das crianças.

O artigo do JN trouxe-me à memória a conduta do bispo Manuel Felício para com outro padre que, ao contrário do arguido de pedofilia, logo afastou das paróquias onde exercia o múnus. Foi o caso do padre de Almofala, Vermiosa e Escarigo, as três paróquias onde esse padre era estimado e cujos paroquianos se revoltaram com a transferência.

Os fiéis destas localidades, indignados com a transferência do padre, entraram em rutura com o bispo que, após de lhe terem insultado a mãe, numa visita pastoral, excomungou as paróquias e privou-as de sacramentos durante longos meses, privação que por aquelas aldeias ainda incomoda os que se habituaram a ser crentes de nascença.

Soube-se depois que o padre castigado, não era suspeito de pedofilia, mas havia fortes indícios de ter cometido um horroroso pecado. Não era com crianças que se deitava, era com uma mulher. Isso, que os paroquianos aceitavam, bem como uma filha que lhe era atribuía, tornou-se insuportável para o piedoso bispo Manuel Felício.

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23 de Junho, 2013 David Ferreira

Hóstia dominical – I

A atitude mais perversa que se pode ter para com uma pessoa ignorante é convencê-la da existência indubitável de verdades estanques e invioláveis. O pensamento autocrítico tende a desvanecer-se progressivamente em todos os que julgam conhecer o essencial e o orgulho narcísico que o privilégio dessas verdades despoleta cega-os demasiado para que o possam reconhecer.

23 de Junho, 2013 Carlos Esperança

A Ivone ou de como o ódio se transformou em amor – Crónica de fim de semana

Em meados do século passado transbordava a fé nas aldeias de Portugal. O terço era, em Maio, uma obrigação quotidiana, exortada pela Irmã Lúcia, a rogo da Senhora de Fátima. Agradecia-se a ausência de Portugal na guerra de 1939/45 e o Salazar que a Providência nos designou.

Ninguém suplicava já o regresso do rei, implorava-se a conversão da Rússia.

As festas religiosas tinham data certa e regozijo garantido com um bailarico profano que amofinava o padre e alvoroçava a juventude e o acordeonista. As procissões reuniam os paroquianos e as missas diárias tinham boa clientela apesar da faina agrícola. As mulheres arranjam sempre tempo para a devoção por mais tarefas que lhes caibam ou solicitações domésticas que não possam alijar. Até nas rezas substituem os maridos e os filhos.

No mês de Maria o terço não se resumia aos cinco mistérios e respectivos padres-nossos e ave-marias. Havia cantoria litúrgica para seduzir o divino e desimpedir o caminho do Céu, quando a hora chegasse, à alma dos executantes. Para isso servia a igreja e para evitar que a fé desse lugar ao sono domiciliário onde, à lareira, chegava no primeiro mistério.

Ao excesso de fé, à pressa das orações ou a ânsias mais profanas se deveu a velocidade com que umas raparigas da aldeia passavam pela igreja, sem parar a tempo, indo cair na vinha em frente. Não lhes escasseava compaixão pelo martírio do seu Deus a avaliar pelos gemidos.

A aldeia murmurava que fora enganada a Pedra, desonrada a Ivone e muitas já não estavam como deviam. E não sabiam as pessoas, da missa, metade.

Andavam muitas na boca do mundo que é como quem diz nas conversas de quem gosta de falar da vida alheia. Honrava-se quem casasse e perdiam-se as enjeitadas.

Intimidaram-se com ameaças alguns mancebos e cuidaram de arranjar papéis, limitaram-se outros a ouvir gritos de coitanaxas ensinadas à porrada a conter o alvoroço e as hormonas. Mas, para as que encheram, vinha tarde a pedagogia e o sermão.

O Zé Ferreira preferiu a PSP ao enlace, e abalou para Lisboa deixando prenha a Ivone. Acabou polícia e casado, sem a Ivone que o pai prometera matar. Assustei-me ao escutar a ameaça e os nomes que lhe gritava para que a aldeia ouvisse. Adivinhei as lágrimas e a vergonha da cachopa, enganada e cheia, dentro das paredes da casa térrea.

Nem todas encheram mas foram sete as que em Fevereiro do ano seguinte deram à luz, unidas, umas, pelos santos laços do matrimónio e pela obrigação de continuarem a parir, ficando outras com a vergonha e um único filho.

Quando nas férias grandes voltei à aldeia roía-me a curiosidade e o medo de que a Ivone tivesse acabado às mãos do pai, vítima da honra que soía lavar-se. Passei várias vezes à porta para saber se vivia. Não a via e temi o pior. O Zé Ferreira – disseram-me – abalara para Lisboa.

No dia em que tive a certeza de que a Ivone vivia rejubilei. Era uma criança sensível que não me conformava com a morte embora soubesse que as famílias tinham, nesse tempo, códigos de honra que não permitiam que alguém fizesse pouco das filhas sem vingarem a afronta. Se a desgraçada tinha irmãos cabia a estes sangrar o machacaz, caso contrário a rapariga era posta na rua, levava uma malha ou as duas coisas.

A caminho da Fonte do Vale não vi a Ivone, mas, nos braços do avô, sentado na soleira da porta, uma criança de meses era embalada ternamente. Compreendi então que a vida vale mais do que os preconceitos e que uma criança é capaz de transformar em amor o ódio que explode em momentos de exaltação e de vergonha.

In «Alembranças» (A publicar)

22 de Junho, 2013 Carlos Esperança

Considerações sobre a liberdade

Caros leitores, amigos e adversários

Parafraseando Pessoa, a agenda do Diário de uns Ateus é não ter agenda. É o diário de cidadãos que julgam que a liberdade é um direito e a superstição deve ser afrontada. Há reclamações, mas raramente se perdem amigos e, muitas vezes, ganham-se outros.

Liberdade religiosa (ou política) é o direito de ser a favor, indiferente ou contra. Não é o simples direito à genuflexão, ao beija-mão ou ao dobrar da espinha. Quem se rege pelos dogmas acaba de joelhos ou de rastos, a lamber o chão ou o chispe do líder.

A liturgia da fé é a «ordem unida» dos exércitos, um exercício que nos leva a abdicar da razão, trocada pelo hábito. É preferível ficar com os calcanhares feridos do que acertar o passo ao compasso do tambor ou à litania da Igreja.

A liberdade conquista-se quando conseguimos dizer não ao caminho que rejeitamos, às ideias de que discordamos e aos símbolos que repudiamos. E, quando formos livres, aí dar-nos-emos conta que só atingiremos a liberdade quando a conquistarmos para todos.

O direito à troça, à ironia e ao sarcasmo é tão respeitável como o direito à submissão e à liturgia, mas, na minha opinião, a blasfémia é a catarse que emancipa e liberta, enquanto a devoção é uma forma de cristalizar a vontade e embotar a inteligência.

22 de Junho, 2013 Carlos Esperança

A tragédia das verdades únicas

Trinta e um anos de ditadura, quatro anos e 4 dias de tropa, com 26 meses de desterro em Moçambique, na guerra colonial, moldaram o homem que sou e a compreensão de que me sinto capaz, contra as aparências.

Não me surpreendem os homens e as mulheres que pensam o contrário do que eu penso, mas não aceito o pensamento que nega a expressão ao entendimento oposto e combato o que oponha ao direito de quem discorda de mim.

Não há verdades absolutas e, por isso, só o maniqueísmo pode defender a verdade única de uma religião, de um partido político ou de uma corrente filosófica. Na Matemática e na Física as verdades são elaboradas a partir dos factos e postas em dúvida por método. Na ciência tudo é verdade até prova em contrário. Na fé, a verdade é eterna e imutável ainda que todos os factos a desmintam. Por isso, os cientistas andam sempre carregados de dúvidas enquanto os crentes vivem cheios de certezas.

Não há regime político, partido, credo ou tradição que mereça respeito se não aceitar o contraditório.  O esclavagismo, a antropofagia e a misoginia foram tradições que ainda não estão completamente erradicadas. Ai de nós, se nos deixarmos convencer pelo peso da tradição ou vencer pela violência do dogma.

Uma sociedade discriminatória é uma sociedade doente. Por isso, valem mais os 30 artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos do que todos os versículos de todos os livros sagrados, quaisquer tradições, por mais consolidadas que estejam, ou qualquer utopia totalitária por mais risonha que pareça.