Loading
15 de Janeiro, 2008 Ricardo Alves

Nota sobre o acaso

Os crentes costumam afirmar que, na ausência de crença em «Deus», «nós estamos aqui por acaso». Esta afirmação presta-se a confusões.

Em primeiro lugar, os crentes costumam englobar no «acaso» dois conceitos distintos: a aleatoriedade e a ausência de propósito ético. Fazem-no porque na sua cosmovisão a distinção não existe ou é nebulosa, uma vez que atribuem ao universo simultaneamente uma criação divina (que inclui as leis que o regem), e um propósito ético, que remetem para a mesma entidade.

No entanto, a existência do nosso planeta, da nossa espécie animal, ou de cada um de nós individualmente, considerados os constrangimentos das leis físicas e as inevitabilidades dos sistemas biológicos, é tanto um acaso como a verticalidade da queda do meu telemóvel se eu o largar no ar. Não são acasos no sentido de aleatório.

E a existência da nossa espécie tem tanto propósito ético, à partida, como a existência dos chimpanzés ou dos caranguejos. O desenvolvimento de uma linguagem complexa, e depois de uma cultura, convenceram-nos do contrário. E quem conta estórias grandiosas, mesmo que falsas, engana os incautos.

14 de Janeiro, 2008 Ricardo Alves

O catecismo católico-fascista em Espanha

«[Franco é] o homem providencial, escolhido por Deus para governar a Espanha (…) é como a encarnação da Pátria e tem o poder recebido de Deus para nos governar».

As palavras são do Catecismo Patriótico espanhol, escrito por dois padres que, em pleno franquismo, produziram para as crianças uma descrição da síntese de fascismo e catolicismo conseguida por Franco. No livro em causa, classificam a Espanha de Franco como um Estado «totalitário cristão». Um caso típico que mostra como o fascismo e o catolicismo dos anos 30 foram duas realidades apenas separáveis no âmbito teórico.

13 de Janeiro, 2008 Carlos Esperança

Bento 16 celebra de cernelha

Papa celebrou de costas para a assembleia

Que o Papa celebre de costas, de cócoras ou a fazer o pino é irrelevante para os neófitos que, na sua inocência, recebem o baptismo como o gado o ferro do proprietário.

Grave é esta urgência em retirar do berço os bebés para lhes borrifar o corpo com água benta e os matricular no seio de uma Igreja, moldando-lhes a vontade, impondo-lhes as mentiras pias e incutindo-lhes as superstições da seita.

Impor um sacramento à nascença é impedir uma decisão adulta, colocar algemas num inocente e fazer de uma criança um membro de um bando. As 13 crianças que o Papa agora baptizou ficariam livres do Limbo, um condomínio para onde iriam as almas das crianças não baptizadas, se não tivesse sido encerrado por B16 em 2007, depois de ter sido inventado por Agostinho que recebeu a santidade a troco da imaginação.

Como não há actas de entrada, nem balanços certificados por Revisores Oficiais, é tão legítimo duvidar do limbo como descrer da Igreja que se dedicou à construção canónica.

Curiosa é esta febre de matricular bebés na ICAR, temendo que o entendimento actue como vacina, numa aflição prosélita de dependurar cruzes ao pescoço, queimar incenso e agitar o turíbulo.

É destes rituais cabalísticos que vivem os celibatários que exultam com a seda e rendas dos vestidinhos talares que agitam à frente de um Cristo espetado numa cruz com ar de passador de droga. 

12 de Janeiro, 2008 Carlos Esperança

Desejo macabro

 Cidade do Vaticano, 11 jan (RV) – Parentes e devotos de Padre Pio, um dos santos mais populares da Itália, ameaçaram processar o bispo de San Giovanni Rotondo, no sul da Itália, Dom Domenico D’Ambrosio, que quer exumar o corpo, para veneração, durante vários meses a partir de abril, no 40º aniversário de sua morte.

11 de Janeiro, 2008 Carlos Esperança

Malefícios da fé

O homem, à força de lhe dizerem que Deus existe, acredita e, à força de repeti-lo a si próprio, ensandece. Quando o proselitismo se dirige a crianças é fácil instilar o ódio e o desejo de vingança. Com a exaltação dos mártires, a celebração dos crimes religiosos e a promessa de recompensas perpétuas, para si e família, é fácil transformar uma criança em robô e um cidadão em bomba.

A crença inabalável na vida eterna é um obstáculo intransponível para a liberdade na única vida que nos é dado viver. Se não fosse a repressão política à Igreja, no Ocidente, ainda hoje seríamos regidos pelo direito canónico em vez de termos uma Constituição; e o divórcio, o adultério, a apostasia, a homossexualidade e a igualdade entre os sexos ainda seriam proibições absolutas e crimes duramente punidos.

Não há crentes moderados, há apenas fundamentalistas com pouca fé. Não há religiões humanistas, há credos submetidos às leis democráticas e padres com medo do Código Penal.

O respeito pelas religiões, isto é, o dever de não criticar, é uma exigência tão hipócrita como o respeito pelo canibalismo, a poligamia (sem poliandria), ou a pedofilia, esta ainda praticada pelo Islão e consentida pela Igreja católica desde que abençoada pelo santo matrimónio. Hoje a idade canónica para o casamento é, segundo julgo, de 14 anos para as raparigas, com homens de qualquer idade, mas lembremo-nos dos nossos reis que desposavam crianças muito antes da puberdade. As leis civis são mais exigentes.

Como dizia Sam Herris: «Temos de encontrar o caminho para um tempo em que a fé, sem verificação dos factos, desacredite as pessoas que dela se reclamam».

Há cinquenta anos que procuro esse caminho e desde o primeiro dia do Diário Ateísta que encontrei um novo espaço para o percorrer.

11 de Janeiro, 2008 Carlos Esperança

Religiões…

Enquanto o judaísmo e o cristianismo se vão desabituando de torturar e matar hereges e recorrem cada vez menos à censura, não por falta de vontade e de bons conselhos dos seus livros sagrados, mas porque o clero foi metido nos eixos, o Islão continua fiel à palavra de Deus na louca felicidade com que lapida mulheres, degola homens e treina mártires.

Até na imitação pedófila do profeta, que «casou» com uma menina de nove anos, graças à riqueza da viúva que desposou primeiro, até nisso os crentes tribais o imitam com desvelo.

Claro que as três religiões são farinha do mesmo saco e o Corão é o plágio grosseiro dos mitos judeus e cristãos, mas falar de humanidade ou de moral a respeito das religiões urge esquecer os livros sagrados e ouvir os pregadores que, por ignorância e bondade, podem eventualmente reflectir os princípios humanistas do Iluminismo.

Quando uma alimária como Moisés ordena aos pais que apedrejem os filhos até à morte para punir a indisciplina (Deuteronómio); quando se descende de Abraão, um selvagem que estava disposto a sacrificar o filho porque o Deus da sua cabeça estúpida lho tinha pedido; quando se acredita num Deus que fez o Mundo em seis dias, não é na religião que crê, é num rol de mentiras e num manual de terrorismo.

Foi neste clima de demência que os santos padres da Inquisição descobriram que havia mulheres que fornicavam com o diabo, que Pio IX descobriu a virgindade de Maria e os trogloditas do Islão fanatizam crianças que se imolam castos com sonhos eróticos das 70 virgens que os aguardam, sem saberem que são um erro de tradução que queria dizer «passas de uvas brancas doces» e que acabam por morrer e matar a troco de uma cesta de fruta que não existe. 

10 de Janeiro, 2008 Carlos Esperança

Andar aos gambozinos

Na minha infância soía enganar os pacóvios com um animal imaginário que habitava os campos das aldeias. Havia sempre um pateta disponível para segurar um saco junto de um buraco de qualquer parede, enquanto os foliões iam tocar os gambozinos que viriam parar ao saco que o idiota segurava e logo fecharia quando os ditos entrassem.

Era a chacota que o esperava quando, farto da demora, desistia e voltava á aldeia. Não sei como uma ideia tão próxima da de Deus não deu origem a uma cadeira universitária, a Gambozinologia, tão próxima da teologia, uma ciência sem objecto.

Se a ideia lograsse o êxito da invenção de deus, teríamos hoje gambozinólogos de muito prestígio que nada ficariam a dever aos santos doutores da Igreja e aos eruditos teólogos que fazem a exegese de textos pouco recomendáveis onde os instintos mais primários dos homens contaminaram o deus que inventaram.

Certamente que, à semelhança de Agostinho, o santo que inventou o Limbo para as almas das crianças não baptizadas, teríamos gambozinólogos a estudarem a vida dos gambozinos, filhos de virgens, espetados em cruzetas para salvação dos outros, que se fingiam mortos durante algum tempo e ressuscitariam ao terceiro dia.

Hoje, quando perguntassem a uma criança, quem fez o mundo ela responderia com a maior convicção: foram os gambozinos que ao 7.º dia descansaram.