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5 de Outubro, 2008 Carlos Esperança

Proselitismo

O jogador brasileiro Kaká vai participar numa maratona de leitura da Bíblia na televisão italiana. A iniciativa do Papa Bento XVI vai decorrer durante 139 horas seguidas e vai envolver 1500 pessoas. Kaká, de 26 anos, é Protestante Evangélico e assumiu publicamente que casou virgem, em 2005, com a sua namorada de infância.
(…)
A sessão de leitura vai começar a 5 de Outubro no Génesis, o primeiro livro do Velho Testamento, e vai acabar a 10 do mesmo mês com uma leitura do Livro da Revelação. Cada leitura demorará entre quatro a oito minutos e será intermediada por um excerto musical.
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Quanto ao Génesis, primeiro livro da Bíblia, que agora seria definitivamente arrumado, é preciso dizer que se trata de um livro religioso e não de ciência: utiliza linguagem mítico-simbólica para falar de Deus criador. Os crentes há muito deveriam saber isso. Quem quiser lê-lo à letra habita ainda o universo do ridículo.
(Anselmo Borges – Padre e professor de Filosofia DN.)

4 de Outubro, 2008 Carlos Esperança

U.S.A. – Em defesa da laicidade

«Grupo de ateus e agnósticos processa George W. Bush por causa do Dia Nacional da Oração

Um grupo de ateus e agnósticos nos Estados Unidos processou judicialmente o Presidente George W. Bush, o governador do Wisconsin e outros responsáveis por causa de uma lei que designa um Dia Nacional de Oração. (Leia mais…)»

4 de Outubro, 2008 Carlos Esperança

Sobre milagres

Há milagres que correm bem e milagres que correm mal. Ressuscitar um morto é um milagre ao alcance de poucos, capaz de transformar em Deus um homem qualquer e de devolver a virgindade à mãe do taumaturgo. Já a transformação da água em vinho é um truque mais fácil, com sofisticação aperfeiçoada ao longo dos séculos, e cujo segredo valeu a fortuna a muitos e a prisão de alguns.

Para combater a descrença, à medida que a ciência avança, aumentam os milagres mas baixa a qualidade. Não há candidato a santo que faça crescer a perna a um coxo, transforme em membro uma prótese ou converta em osso um implante de platina.

Aumenta no mercado a suspeita sobre os milagres. Só os nomeados para os Óscares da santidade se atrevem no ramo, quase sempre no exercício ilegal da medicina, crime cuja impunidade está garantida pela condição de morto. Os santos promovidos, com estátuas em mísulas na casa dos fiéis e nas peanhas das igrejas, raramente interrompem o sono eterno para acudirem às queixas dos aflitos. Enjeitam cunhas, indiferentes às orações e à angústia, mantendo a defunção impoluta depois de uma vida com períodos nebulosos.

A Irmã Lúcia que não obrou milagres em vida, por serem vedados pelo direito canónico, mas que tagarelava com a Senhora de Fátima, recebia visitas de Jesus na cela, encontros que se adivinham castos pela idade e defunção do visitante, e que visitou o Inferno antes da abolição canónica, ainda não se iniciou no ramo dos milagres depois de morta.

Era muito dada a visões, em vida, mas não tem sido eficiente a obrar prodígios de que necessita para a canonização, dinamização da fé e lucro dos pios investimentos na nova igreja de Fátima – a maior área coberta destinada à liturgia em países de língua portuguesa.

O Diário Ateísta, que foi vítima de ataques de crackers cuja eficiência foi demolidora, não se opõe a que a Sagrada Congregação para a Causa dos Santos declare a perfídia como milagre da Irmã Lúcia. O Diário Ateísta denuncia a superstição e os embustes mas não quer prejudicar os negócios da Cova da Iria num período de crise económica generalizada.

3 de Outubro, 2008 Carlos Esperança

Vaticano – Cego à realidade

CIDADE DO VATICANO (AFP) — O Papa Bento XVI reiterou nesta sexta-feira a condenação da Igreja Católica ao uso de anticoncepcionais, por ocasião dos 40 anos da polêmica encíclica “Humanae vitae”, de Paulo VI, sobre o tema, que fechou as portas para qualquer evolução.

3 de Outubro, 2008 Carlos Esperança

Aumenta o interesse pela ficção

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 1º de outubro de 2008 (ZENIT.org).- O arcebispo Gianfranco Ravasi, máximo expoente vaticano para a cultura, constatou um novo interesse pelas Sagradas Escrituras, assim como o desejo de apoiar seu estudo e análise.

2 de Outubro, 2008 Carlos Esperança

A queimadela do antraz (Crónica)

Era Verão. Na rua, junto à casa dos meus avós maternos, o tanoeiro do Jardo afeiçoava tábuas de carvalho antes de as equilibrar sobre um calhau, à volta do qual crepitava uma fogueira de lume brando, e de lhes amarrar pedras nas extremidades para as vergar adequadamente e produzir aduelas.

Com uma giesta, mergulhada num caldeiro de água, molhava regularmente as tábuas expostas ao calor e logo voltava à plaina e à enxó a desbastar outras que se seguiriam para tomarem a forma ajustada e substituírem as que o tempo e a acidez do vinho tinham carcomido num tonel de cem almudes.

 

Pela rua seguia o Ti Portas, do Sabugal, soprando a gaita de capador, à espera de porcos, vitelos, cães, gatos e outros machos cujos donos decidissem pôr termo à alegria dos bichos, fosse para preservar o sabor da carne ou para os obrigar ao sedentarismo que o cio não permitia.

Os animais de grande porte eram levados ao tronco do ferrador e os cães e gatos entalados entre uma porta e o batente enquanto duravam a cirurgia e os queixumes.

 

De estômago composto, com meio trigo, uma peixota de bacalhau frito e meio quartilho de vinho, retemperadas as forças, as contrabandistas abandonavam a taberna para retomarem as cargas e rumarem ao destino, com alpercatas, pana, chocolates, bolachas e outras encomendas.

Um presságio afastou-me do tanoeiro para subir as escadas de casa, a correr, depois de ver entrar o Ti Capas, o Medo, o Zé Mateus e o Bodo, que eram usuais nas fainas agrícolas mas não era hábito, àquela hora, entrarem em casa de meus avós.

O avô andava doente, consumido por um antraz que lhe aparecera na barriga, mas resignado, habituado ao sofrimento e aos baldões da sorte. Fora cedo para a Argentina a bordo de um navio em cujo porão viajou para voltar tão pobre como partira. Pouco tempo depois de casar não o matou um carbúnculo porque lho queimaram e, com ele, o nervo óptico que lhe cegou um olho.

No lume, o cabo de um garfo de ferro, com os dentes virados para fora da lareira, incandescia. Olhei o meu avô, que, da cadeira onde se sentara, me devolveu um olhar de ternura, afecto reservado ao primeiro neto, enquanto a avó Anunciação, com voz doce, me dizia para ir brincar.

Saí com vontade de chorar. Pressenti que iam fazer mal ao avozinho, mas não percebi o silêncio, nem a presença dos homens, nem o lençol de linho feito em tiras. Cruzei-me nas escadas com o António Ferreira, o último a chegar, talvez atrasado por mor de alguma besta que estivesse a ferrar.     

O António Ferreira era ferrador por necessidade e clínico por vocação. O fogo era o tratamento que aplicava na ciática e noutras moléstias e não lhe faltavam clientes. Haviam de suceder-lhe o Jaime Gil e o Américo Ferrador na arte de aparar os cascos dos bovinos, muares, burros e cavalos e no jeito de lhes afeiçoar e pregar as ferraduras, mas nunca o imitaram na clínica.

Nessa tarde, ao descer as escadas, afastava-me do ambiente pesado que se vivia na cozinha dos meus avós enquanto regressava, indiferente, a observar o tanoeiro. Só o percebi quando um grito lancinante do meu avô, logo abafado por alguma almofada, me fez compreender a razão daquele cabo de garfo em brasa, a presença dos trabalhadores e a visita do ferrador.

Vi descer o António Ferreira, que tinha sido o último a entrar e era o primeiro a sair, a falar sozinho, queimei bem a raiz, queimei-a bem, e lá foi rua acima, de regresso a outros afazeres.

Ansioso, subi as escadas, duas a duas, a correr, num esforço apreciável para pernas tão curtas. O avô Paulo já estava na cama e a minha avó pediu-me para não o incomodar. No ar, um cheiro doce a carne queimada agoniava-me e eu só pensava em ver o meu avô, em dar-lhe um beijo, em conversar com ele; mas só no dia seguinte pude vê-lo, ainda com febre, feliz por me ver, esquecido das dores, contidos os gritos e gemidos que durante a noite se ouviram.

Ainda viveu mais uma dúzia de anos, número igual ao das férias grandes, Natal, Carnaval e Páscoa em que a ternura dos avós e a autonomia que me concederam, criaram em mim o gosto pela liberdade e formaram o cidadão.

Até ao dia 2 de Março de 1961, quando, da cama onde agonizava, o avô me agarrou a mão, balbuciou de forma quase imperceptível, Caarrlos, e se despediu. Era noite.

2 de Outubro, 2008 Carlos Esperança

OPUS DEI – Viagem ao interior da seita

Por ocasião de seus 80 anos, que hoje se completam, o Opus Dei lançará um filme de ficção e um desenho animado sobre a vida de seu fundador, Josemaría Escrivá de Balaguer, que foi proclamado santo pelo papa João Paulo II.

Diário Ateísta associa-se à efeméride, substitui a ficção pela realidade e aconselha a leitura deste livro.