10 de Novembro, 2009 Ricardo Alves
«As Tardes da Júlia», às 14 horas
Hoje, às 14 horas, estarei no programa da TVI «As Tardes da Júlia» para discutir laicidade e crucifixos com um sacerdote católico.
Hoje, às 14 horas, estarei no programa da TVI «As Tardes da Júlia» para discutir laicidade e crucifixos com um sacerdote católico.
Por
Onofre Varela
“Criticar os costumes dos homens sem atacar ninguém em particular, será, realmente, morder? Não será antes o desejo de ensinar ou aconselhar? Além disso, quantas vezes me tenho criticado a mim próprio? Uma sátira que não poupa nenhuma das condições humanas não pretende atacar homem algum em particular, mas sim os vícios de todos.
Se alguém se ergue a gritar que foi ofendido, confessa que se sente culpado, ou, pelo menos, que em segredo se inquieta”.
(Erasmo de Roterdão, in “Elogio da Loucura”)

O tema Religião é delicado, principalmente quando abordado sob o ponto de vista de quem não alinha em credos religiosos. Corre-se sempre o risco de levar os crentes a sentirem-se ofendidos na sua fé. Isto acontece invariavelmente, por muito cuidado que se tenha na escolha das palavras e por muito que se repita que a intenção primeira não é beliscar religiosidades, mas reflectir sobre a fenomenologia que conduziu o raciocínio do Ser Humano para a criação dos deuses, e de como tal prática acabou por gerar e desenvolver culturas, sistemas de organização política e social, e fomentar uma indústria e um comércio da Religião e da fé, aprisionando consciências.
Neste Ocidente democrático e civilizado, o respeito pelas crenças não impede a expressão crítica. Era só o que faltava obrigarmo-nos ao silenciamento e à auto-censura para não ferirmos sensibilidades tão susceptíveis de rotura, só porque os clérigos estão (mal) habituados à ditatorial proibição da abordagem de temas que eles consideram intocáveis e propriedade sua, como acontece com a Bíblia (que não é pertença do Vaticano mas Património da Humanidade), da qual não aceitam leitura diversa daquela que a Igreja difunde formatada de acordo com os seus interesses. Respeitemos mas opinemos.
Um ateu não é mais do que um crítico das religiões, sem se obrigar a papar missas, tal como um crítico cinematográfico, ou literário, critica cinema ou literatura sem se obrigar a filmar e a escrever. Se a religiosidade de cada um é coisa sagrada, a liberdade de expressão é, também, igualmente sagrada. Nem o ateu, nem o religioso são donos da verdade. Nas suas deambulações filosóficas sobre o conceito civilizacional designado Deus, o ateu pode chegar a conclusões tão certas, ou tão erradas, quão certos ou errados estão os que acreditam na intervenção de uma divindade no destino dos homens… porque errare humanun est. Não há infalíbilidades em questões filosóficas e muito menos nos discursos religiosos. Todos nós, incluindo o Papa, emitimos opiniões que podem ser tão certas como certo é a chuva molhar, ou tão falíveis quanto o Orçamento Geral do Estado.
Há (e é muito bom que haja) um pensamento à margem do “politicamente-instituído-como-correcto”, que resulta da observação crítica e do constante questionamento daquilo que nos é mostrado como bem e certo, mas no que se pode detectar algum mal ou erro, e daí nasce a polémica. Todas as polémicas são necessárias e úteis, mas tornam-se desinteressantes quando aquilo que as motiva não é mais do que paixão desmedida. Todos nós sabemos, por experiências vividas na juventude, que as paixões, em regra, são muito emotivas, pouco racionais, e habitualmente têm um prazo de validade curtíssimo… tal como o iogurte e os ovos moles.
O tema Deus é interessante, absorvente, e por isso pode cair na teia das paixões empoladas, terreno onde se corre o risco de se não encontrar uma porta racional por onde se entre ou saia com dignidade e elevação intelectual e moral. A paixão é como o vinho: ou se consome com regra, moderação e racionalidade, usofruindo do prazer que a bebida produz, ou se emborca sem medida até à bebedeira total, correndo-se o risco de tomar atitudes nada dignificantes.
A Bíblia tem muito peso na formação dos povos ocidentais porque todos nós fomos educados nos seus preceitos. É um conjunto de registos contendo algumas narrativas históricas à mistura com conselhos práticos, leis sociais, regras de comportamento e de higiene, poesia, conflito, crimes de vária índole, muita ficção, e fabulosas estórias para a implementação da também fabulosa ideia do monoteísmo. A difusão de tal ideia pertence aos Hebreus, e foi verdadeiramente revolucionária para o tempo em que existia um deus para cada hora do dia! O povo hebreu criou o conceito de um só deus, com o valor de todos os outros, condensado e em versão single. Tal ideia foi iniciada por Abraão, e ao longo de mais de 1.500 anos de História acabou sendo imposta por Judeus, Cristãos e Muçulmanos como Verdade Universal a ser atendida por todos com muito temor e adoração desmedida. Mas a verdade é que o valor histórico dos textos bíblicos onde a ideia é registada, é muito relativo e não inteiramente fiável.
Na existência real de um deus, e na sua intervenção junto dos homens, é que reside a questão, porque tal coisa não tem substância, não é credível à luz de qualquer lei física, e só pode ser afirmada pela fé, a qual não tem qualquer valor para além dela mesma.
O estudo sério, histórico e arqueológico, das narrativas bíblicas é recente. Foi em 1843 que o arqueólogo francês Paul Émile Botta, escavando em Korsabad, na Mesopotâmia, encontrou baixos relevos com inscrições descrevendo as campanhas do rei assírio Sargão II contra o reino de Israel na conquista de Samarina, tal como na Bíblia é referido (Isaías, 20). Só desde então os textos bíblicos saíram da incógnita de mosteiros e sacristias para serem estudados por cientistas de vários ramos da Ciência. Mercê destas consequentes novas interpretações dos textos ditos sagrados, e de outras leituras por credos não católicos, a Igreja reagiu, recentemente (7 de Outubro de 2008), através do cardeal canadense Marc Ouellet, relator geral do
sínodo dos bispos, solicitando ao papa uma encíclica sobre “a interpretação das Escrituras, por haver muitas divergências interpretativas” e algumas delas “divergirem da visão que o Magistério do Papa e dos bispos oferecem sobre a Bíblia”!… Como que se o papa fosse o autor das Escrituras, ou tivesse procuração dos seus escribas, ou a exclusividade dos direitos universais para a sua interpretação!…
Obviamente que a proposta não é ingénua. Ela pretende que a Bíblia deixe de ser interpretada nos meios científicos “apenas sob o ponto de vista académico, pois a Palavra de Deus penetra em todas as dimensões da pessoa”, e legitime, assim, as interpretações de fé colocando-as ao mesmo nível dos estudos científicos!… O que não passa de uma esperteza saloia cardinalícia.
É evidente que o estudo de tais matérias deve ser deixado a cargo de especialistas formados nos diversos ramos da Ciência inerentes à tarefa da interpretação dos textos bíblicos enquanto objecto arqueológico e documento testemunhal da evolução do pensamento, e não apenas aos teólogos que funcionam como advogados de defesa em causa própria.
Dito isto, e terminando esta minha reflexão, em verdade vos digo: todos nós, incluindo o escritor e Prémio Nobel José Saramago, somos livres de aproveitar esta porta aberta por Marc Ouellet — que pretende aferir, paralelamente à Ciência neutra e conclusiva, os entendimentos religiosos —, para também entrarmos por ela e fazermos a nossa interpretação pessoal da Bíblia, cuja liberdade foi legalizada pelo cardeal (embora não precisassemos dela para o fazermos)! Nesse sentido, direi que Abel e Caím protagonizam, metaforicamente, um exemplo ilustrativo do natural e humano espírito de inveja e ciúme — que nos retrata a todos, sem excepção —, e que também pode configurar um tipo de crime com motivações económicas, já que Caím matou o irmão Abel por interesses relacionados com as partilhas da terra e do gado.
Entenda-se: se, pela fé, a um religioso é dada legitimidade para interpretar os textos bíblicos de acordo com o seu entendimento místico, divorciado das interpretações históricas e científicas, então todos nós podemos reivindicar a mesma legitimidade de interpretar os mesmos textos baseando-nos no raciocínio de ateu, de agnóstico, ou de, simplesmente, curioso, divorciado de todas as interpretações de fé que, como se sabe, só têm valor (e muito relativo) no seio das respectivas crenças. Para além do mais, note-se que aquele que lê a Bíblia apenas pelo prisma da crença religiosa… na verdade não sabe nada da Bíblia!… simplesmente porque crer não é saber.
Onofre Varela
Os suíços têm medo dos minaretes e não são os únicos na Europa.
A Suíça vai referendar a construção de minaretes, as torres altas das mesquitas que simbolizam a presença muçulmana. Construir mesquitas ou erguer minaretes nos países europeus nem sempre tem sido fácil. A invasão já começou, a intolerância também, por isso é que notícias como esta, em que uma imigrante é agredida por não usar véu, em Espanha, começam a ser frequentes, onde fantasmas do franquismo permanecem e onde a Igreja teve imensa responsabilidade na Guerra Civil, e persiste a influência da Igreja Católica na Europa, particularmente em Itália, por isso Berlusconi recusa tirar crucifixos das escolas. Haja pelo menos esperança na procura do fim da “cultura da impunidade” no Médio Oriente.
Quando era miúdo tive uma professora de português de quem não gostava nada. A princípio. Mas, num momento de inspiração, ocorreu-me que aquilo de que eu não gostava era apenas uma ideia. Todo esse meu desagrado tinha por objecto a opinião que eu formara acerca de alguém que mal conhecia. A epifania serviu de imediato para tornar aquelas aulas muito mais suportáveis. E, a longo prazo, além de ainda me lembrar o que é o pretérito imperfeito do conjuntivo, tem me ajudado muito recordar que, salvo raras excepções, a ideia que formo das pessoas tem uma grande margem de erro. Há muito pouca gente na nossa vida que conheçamos suficientemente bem para ignorar lacunas na informação e estimativas erradas.
No relacionamento com os outros podemos assumir que os juízos que fazemos são fiáveis e evitar desilusões julgando os outros de forma mais pessimista. Ou podemos assumir o melhor das outras pessoas, dar-lhes o benefício da dúvida dentro da margem de erro e precavermo-nos contra dissabores tendo consciência que esse juízo é muito incerto. A experiência com a professora de português levou-me a optar pela segunda alternativa. É mais agradável, e mais justo, desconfiar da minha capacidade de julgar os outros em vez de ser pessimista acerca das pessoas.
Por isso concordo, em parte, com o que me descrevem os crentes quando dizem confiar no seu deus. Dão-lhe o benefício da dúvida. Se não conhecemos alguém, podemos assumir que é boa gente. Mas só concordo em parte porque é preciso considerar que podemos formar um juízo errado. Se um estranho me toca à porta eu assumo que é boa pessoa e incapaz de maltratar crianças. Mas como posso estar enganado acerca disto não vou deixar que leve os meus filhos a passear sem mais informação que reduza a tal margem de erro. Para isso já tem de ser alguém que eu conheça o suficiente para que, além da confiar que é boa pessoa, também confie nesse juízo que fiz dele.
E é nisto que os crentes se espalham. A religião, dizem-me, é uma relação com Deus. Ou com um deus, pelo menos. É confiar nesse deus. Mas o que quer que sintam por esse deus será sempre função da ideia que formaram dele. Ou dela. E o problema é não terem qualquer informação onde basear essa ideia. Eu, ao menos, tinha aulas com a professora de português. Não era suficiente para saber se era boa ou má pessoa, mas sempre sabia alguma coisa acerca dela. E neste universo não se vê vestígio de qualquer divindade. Tudo o que se pensava indicar intervenção divina tem vindo a desaparecer, como a magia do ilusionismo quando se explica o truque. Acerca do deus, da deusa ou dos deuses, nenhum religioso tem informação. Só especulação.
Por isso não me convencem quando dizem que se tem de interpretar o Antigo Testamento de uma maneira especial por esse deus não ser como os hebreus julgavam. Concordo que o Antigo Testamento relata o relacionamento dos hebreus com o seu deus, e que o relacionamento dos católicos com o deus católico é diferente daquele que os hebreus tinham com o seu. O dos católicos é chatinho mas é menos ameaçador, se descontarmos a tortura eterna com que castiga quem discorde dele. Mas ninguém, nem católicos, nem hebreus, nem seja quem for, faz ideia de como Deus é. Não se sabe sequer se existe tal coisa, quanto mais saber o que quer, o que manda, de que gosta ou desgosta ou como se deve interpretar o que se escreve acerca dele.
Em suma, até compreendo que queiram confiar num deus. Quando não tenho informação em contrário acerca de alguém também prefiro pensar que é boa pessoa. Mas neste caso é um exagero. A ideia que fazem do respectivo deus – e, no fundo, é sempre com a ideia que nos relacionamos – é fruto unicamente da imaginação dos crentes. Nem sequer é alguém que encontrem de vez em quando, nas aulas de português ou assim, porque na missa só está lá o padre e o cenário. Se estivesse lá um deus notava-se bem.
E este exagero nem é o pior. Na verdade, se é exagero ou não é um juízo subjectivo, e admito podermos discordar disto por divergências de valor. É legítimo alguém querer confiar tanto num ser que até confia, sem evidências, que esse ser existe. É estranho, mas está no seu direito. O que é objectivamente incorrecto é ignorar a margem de erro. Que é enorme. Infinita. Todas as religiões que há, que houve e que algum dia inventem cabem nessa margem de erro, porque não há quaisquer dados que a reduzam.
Daí que as minhas críticas não sejam por crerem, ou quererem confiar, naquilo que nem sabem se existe. O que critico é dizerem que sabem. Que sabem que deus é assim e assado, que aquele trecho deve ser interpretado daquela maneira, que condena o preservativo, transubstancia a hóstia, engravidou Maria e milhentos outros pontos tirados ao acaso do grande chapéu das margens de erro. O que critico é venderem erro como se fosse conhecimento.
Em simultâneo no Que Treta!
Os Dez Mandamentos:
(cf. Êxodo 20:3-17)
Os cristãos dizem que os Dez Mandamentos são o fundamento da lei.
Nada poderia ser mais absurdo. Muito antes de esses mandamentos aparecerem, havia códigos legislativos na Índia e no Egipto – leis contra o assassínio, o perjúrio, o furto, o adultério e a fraude. Tais leis, são tão antigas quanto a sociedade humana; tão antigas quanto o amor à vida; tão antigas quanto a noção de prosperidade e o amor humano.
Nos Dez Mandamentos todas as ideias boas são antigas; todas as novas são tolas. Se Jeová fosse civilizado, teria dispensado o mandamento sobre guardar os sábados para o santificar, e no seu lugar diria: “Não escravizarás o teu próximo”.
Teria deixado de lado aquele sobre imagens esculpidas, e diria: “Não provocarás guerras de extermínio”.
Se Jeová fosse civilizado, os Dez Mandamentos seriam melhores.
Tudo o que chamamos de progresso, emancipação do homem, a substituição da pena de morte pela prisão e da prisão pela fiança, a liberdade de expressão, os direitos de consciência; em suma, tudo que favoreceu o desenvolvimento da civilização humana; todos os frutos da investigação, da observação, da experimentação e do livre-pensamento; tudo que o homem conquistou em benefício do próprio homem desde o fim da Idade das Trevas – de tudo isso prescindiu o Velho Testamento.
Permitam-me ilustrar a moral, a misericórdia, a filosofia, a poesia e a bondade do Velho Testamento:
A história de Acã:
(cf. Josué 7)
Josué tomou a cidade de Jericó. Antes da queda da cidade ele declarou que todos os despojos deveriam ser entregues ao Senhor. Apesar dessa ordem, Acã escondeu numa capa um pouco de prata e ouro. Posteriormente, Josué tentou tomar a cidade de Ai. Fracassou e muitos soldados foram mortos. Josué procurou a causa da derrota e descobriu que Acã havia escondido numa capa, duzentos siclos de prata e uma cunha de ouro.
Diante disso, Acã confessou.
Imediatamente Josué tomou Acã, seus filhos, filhas, esposa, bois e ovelhas, apedrejou-os até a morte e queimou os seus corpos.
Nada indica que seus filhos e filhas haviam cometido qualquer crime. Certamente, os bois e ovelhas não deveriam ser apedrejados até à morte pelo crime do seu proprietário. Essa foi a justiça, a clemência de Jeová!
Após Josué ter cometido esse crime, com a ajuda de Jeová, capturou a cidade de Ai.
É esta uma história bonita para ensinar a uma criança?
A história de Eliseu:
(cf. II Reis 2:23-24)
“Então subiu dali a Betel; e, subindo ele pelo caminho, uns meninos saíram da cidade, e zombavam dele, dizendo: Sobe, calvo; sobe, calvo!” “E, virando-se ele para trás, os viu, e os amaldiçoou em nome do Senhor. Então duas ursas saíram do bosque, e despedaçaram quarenta e dois daqueles meninos.”
Essa foi a obra do bom Deus – do misericordioso Jeová! Esta é a tal poesia de que tanto ouvimos falar aos “especialistas bíblicos”.
Linda história para educar as nossas crianças!
O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, D. Manuel Clemente, acha que José Saramago utilizou um discurso de «tipo ideológico, não histórico nem científico» e que revela uma «ingenuidade confrangedora quando faz incursões bíblicas».
Negar que a Bíblia é «um manual de maus costumes» ou «um catálogo de crueldade» é, de facto de uma hipocrisia tão confrangedora, que normalmente só é acessível a pessoas de muita fé.
A Bíblia não é mais do que um catálogo das malfeitorias de um Deus cruel e sanguinário e o repositório de critérios sociais e de moralidade de pastores primitivos da Idade do Bronze.
O pior, é que foram precisamente os ensinamentos bíblicos que determinaram a mortífera vida das sociedades ocidentais nos últimos 1700 anos.
E negar este simples facto, é de uma impudica desonestidade intelectual, bem típica das pessoas de muita fé.
Tal como o é a afirmação de que a Bíblia «não pode ser interpretada literalmente» porque deve antes ser lida de acordo com uma integração histórica, como uma parábola e os seus ensinamentos e determinações como «simbólicos».
Contudo, nunca consegui que alguém me explicasse: simbólicos de quê?…
Como também nunca consegui que me explicassem como é que um Deus omnisciente deixa a sua Palavra escrita de uma forma tão defeituosa que precisa de uma interpretação humana para a integrar num contexto, qualquer que ele seja. É como se de repente coubesse aos Homens a tarefa de corrigir aquilo que Deus deixou mal explicado.
Para um crente isso deve ser de facto muito gratificante…
Ora, como é por demais óbvio, sei bem que o Antigo Testamento começou a ser escrito há qualquer coisa como quatro mil anos. E sei bem que a Igreja Católica do século XXI já não defende – como o fazia antigamente – o assassínio de judeus, apóstatas, ateus, homossexuais, adúlteros ou de quem simplesmente apanha lenha aos sábados.
Mas não é por isso que a Bíblia deixa de ter escrito aquilo que lá está escrito.
E não é por isso que dizer que a Bíblia é «um manual de maus costumes» ou «um catálogo de crueldade» passa a ser mentira.
Como não é por isso que uma interpretação histórica e dentro do contexto actual apaga o cristalino facto de que a História da Igreja Católica não é mais do que um gigantesco banho de sangue e do que um indizível sofrimento da Humanidade durante séculos e séculos.
Mas a maior de todas a hipocrisias dos bons e fiéis católicos é, sem dúvida, andarem a fazer de conta que a sua religião está completamente afastada – em TODOS os aspectos – da doutrina formulada na Bíblia, designadamente no Antigo Testamento.
Basta dar um salto ao «Catecismo da Igreja Católica» para afastar essa gigantesca mentira.
E bastam algumas citações, respigadas ao acaso:
«§81 – A Sagrada Escritura é a Palavra de Deus enquanto redigida sob a moção do Espírito Santo».
«§106 – Deus inspirou os autores humanos dos livros sagrados. Na redacção dos livros sagrados, Deus escolheu homens, dos quais se serviu fazendo-os usar as suas próprias faculdades e capacidades, a fim de que, agindo ele próprio neles e por meio deles, escrevessem, como verdadeiros autores, tudo e só aquilo que ele próprio queria».
«§121 – O Antigo Testamento é uma parte indispensável das Sagradas Escrituras. Os seus livros são divinamente inspirados e conservam um valor permanente, pois a Antiga Aliança nunca foi revogada».
«§123 – Os cristãos veneram o Antigo Testamento como a verdadeira Palavra de Deus. A Igreja sempre rechaçou vigorosamente a ideia de rejeitar o Antigo Testamento sob o pretexto de que o Novo Testamento o teria feito caducar
Mas talvez nada melhor do que um exemplo concreto para ilustrar e deixar bem demonstrada a profunda hipocrisia católica no que a este assunto respeita.
E o melhor exemplo é o dogma de Onan:
Um dia Deus resolver matar Er. O motivo não podia ser mais justo para o bom Deus o matar: Er era iníquo.
Pois bem: de acordo com a lei da altura, por morte de um homem o seu irmão deveria tomar a viúva como esposa, e assegurar-lhe uma descendência.
E aqui entra, de facto, a necessidade de uma interpretação histórica:
Obviamente sem segurança social, uma mulher sem marido e sem filhos estaria certamente condenada a morrer de fome. Entende-se por isso a razão de ser da obrigatoriedade do irmão do morto casar com a cunhada. Tratava-se certamente da própria sobrevivência desta.
Ora, o irmão do morto era Onan, que por qualquer motivo não queria casar com a viúva do seu irmão e muito menos fazer-lhe filhos.
Vai daí, sempre que «se deitava» com a cunhada, o bom do Onan derramava «a sua semente» para a terra, para evitar que ela engravidasse.
Está bom de ver qual o resultado de tudo isto: o bom Deus matou o Onan porque, já sabemos, a semente do homem é sagrada e não se pode desperdiçar, sob pena de morte.
É deste dogma bíblico que resulta a expressão «onanismo» e, como toda a gente sabe, o horror que a Igreja Católica tem à masturbação, ao ponto de… poder causar cegueira (e no mínimo borbulhas) aos adolescentes católicos mais incautos e insistentes.
Mas é também a este dogma que se deve o horror da Igreja Católica ao preservativo!
E é aqui que entra a suprema hipocrisia e a mais profunda imbecilidade dos católicos que acham que a Bíblia é um poço de virtudes quando sujeita a uma interpretação mais actualista.
Interpretação actualista uma ova!!!
Porque a Igreja Católica valoriza bem mais esta porcaria deste dogma que a própria vida humana e que o efeito que a proibição do preservativo tem na infernal disseminação da SIDA.
Nem o Papa, nem os cardeais, nem os bispos nem todo aquele exército de ociosos facínoras vestidos de saias se condoem com o autêntico drama que é a infernal percentagem de infecções com SIDA na África ao sul do Saara, especialmente nos países de maior influência católica.
Se virmos bem, a Igreja Católica continua a preconizar a morte – desta vez por SIDA – de quem derrama a semente para a terra, e não há «interpretação actualista» que lhe valha.
E não me venham com a velha história da castidade.
Porque se a Igreja sabe bem autorizar como anticoncepcional o método da contagem dos dias, não é por isso que permite o uso do preservativo mesmo entre pessoas casadas que estejam a ter relações sexuais nos dias inférteis da mulher.
Nem sequer nesses dias a Igreja Católica permite o preservativo.
Porque, afinal, que Diabo: um dogma é um dogma!!!
Muitas vezes dou comigo a pensar até que ponto o Antigo Testamento pode ser considerado um livro “inspirado” por Deus. Se assim for, esse será um livro que ninguém jamais conseguirá igualar pois deverá conter a perfeição filosófica e moral, estar totalmente de acordo com cada facto ocorrido na natureza e dar-nos a conhecer o mais ínfimo pormenor da vida e do universo. As suas normas de conduta deverão ser justas, sábias e perfeitas. Jamais ambíguas. Deverá estar repleto de inteligência, justiça e principalmente de liberdade.
Deverá opor-se à guerra, à escravatura, à cobiça, ignorância e superstição. Numa palavra: deverá ser Verdadeiro.
Haverá no Antigo Testamento, na história que lá se descreve, na teoria, na lei, na moral e na ciência, algo de transcendente ou sobrenatural que não corresponda aos costumes, preconceitos, crenças e ideias dos povos daquela época?
Os antigos hebreus acreditavam que a Terra era o centro do Universo, que o sol, a lua e as estrelas eram manchas no céu. A Bíblia assim o afirma. Os antigos hebreus pensavam que a Terra era plana, com quatro cantos; que o céu, o firmamento, era sólido, sendo essa a morada de Deus. A Bíblia ensina precisamente o mesmo.
Também imaginavam que o sol viajava ao redor da Terra e que, parando-se o sol, o dia poderia ser prolongado. A Bíblia também o diz. Acreditavam que Adão e Eva foram os primeiros seres humanos; que haviam sido criados poucos anos antes deles – os hebreus –, e que eles próprios eram os seus directos descendentes. Também a Bíblia ensina isso.
Ora, admitindo que Deus é o autor da bíblia, esta não deveria conter erros tão flagrantes em astronomia, geologia ou quaisquer outros assuntos.
Lendo a bíblia ficamos a saber que os seus autores estavam enganados acerca da criação do homem, da Astronomia, da Geologia, sobre as causas dos fenómenos, a origem do mal e as causas da morte. Ficamos a saber que Deus não domina as ciências e erra com demasiada frequência para um Deus Omnisciente.
É óbvio que a bíblia foi escrita por seres ignorantes e equivocados. No entanto durante séculos, a Igreja insistiu que a bíblia era verdadeira, e não podia conter erros porque ela era a Palavra de Deus, que os relatos nela descritos sobre a astronomia e geologia estavam rigorosamente certos, que a história da criação era verdadeira, e que os que dela discordavam eram infiéis e Ateus, sendo por isso condenados às penas do Inferno e à fogueira.
Hoje as coisas são diferentes. Foram necessários muitos séculos para forçar os teólogos a admitirem as mentiras bíblicas.
Com relutância, cheios de malícia e ódio, os padres tomaram outra posição. Admitem que os autores da bíblia não estariam assim tão “inspirados” para as coisas das ciências. Que Deus não tinha como objectivo instruir o mundo sobre astronomia ou geologia. Que os homens que escreveram a bíblia desconheciam qualquer ciência, e que escreveram sobre a Terra as estrelas, o sol, a lua e o universo de acordo com a ignorância da época. Que Jeová queria que os seus filhos tomassem apenas conhecimento do seu amor infinito e da sua vontade. Que Jeová quis apenas corrigir o seu povo depravado, ignorante e corrompido, tornando-o espiritualmente sábio, moralmente justo e compassivo.
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Os bispos entraram em febre referendária que alastra de forma epidémica aos padres e seus assalariados que descobriram agora as delícias da participação popular.
Não vou acusar os actuais bispos da cumplicidade com a ditadura salazarista, um delito dos antecessores, mas é bom lembrar-lhes que o divórcio, por exemplo, é hoje um direito dos cidadãos que foi conquistado contra a vontade do clero e a exigência de uma Concordata que o Vaticano negociou com Portugal e vários outros Estados fascistas.
Em matéria de direitos individuais talvez valha a pena dizer que a liberdade religiosa só foi reconhecida pelo Concílio Vaticano II e que vem incomodando o actual pontífice.
Voltemos à febre referendária que agita as mitras e faz tremer os báculos: os direitos individuais não se referendam. Entendem os senhores bispos que deve ser submetida a referendo a possibilidade de ser budista, adventista do 7.º dia ou Testemunha de Jeová?
Além de o referendo ter demonstrado que não interessa ao eleitorado, há o direito de pôr em causa a legitimidade representativa da Assembleia da República, legitimidade que os bispos da ditadura não contestaram em mais de quatro décadas de partido único?
Acresce que os partidos disseram durante a campanha eleitoral qual era a posição sobre os casamentos homossexuais e até houve partidos que se comprometeram a viabilizá-los. Foram esses programas que os portugueses sufragaram e cujo cumprimento cabe aos partidos honrar.
O casamento gay é um direito de uma minoria discriminada injustamente, não é uma decisão a que alguém se sinta obrigado.
– Para aqueles que acham que o mundo devia ter a Bíblia como guia, que esse livro foi “revelado” por Deus e quem aspira à santidade deve adoptá-lo como código moral:
Há milhões de pessoas que acreditam ser a Bíblia a “Palavra de Deus”, ou por Ele inspirada. Milhões de pessoas acreditam que a Bíblia é um guia moral, um livro conselheiro e consolador que incentiva a paz e esperança no futuro.
Milhões de pessoas acreditam que a Bíblia é a fonte da lei, da justiça e da clemência, pela qual o mundo devia reger-se na base da liberdade nela expressa e na riqueza civilizacional dos seus sábios ensinamentos. Milhões de pessoas acreditam que a Bíblia é a revelação do amor de Deus ao homem. Mas também milhões de pessoas ignoram ou tentam omitir, a selvajaria, o ódio à liberdade, o incentivo à perseguição religiosa, à vingança e à dor eterna, expressa na Bíblia. Omitem que ela é inimiga da liberdade intelectual, e incentiva à superstição.
A Bíblia tem na sua origem umas famílias errantes, pobres e ignorantes, sem educação, sem qualquer forma de arte ou poder. Descendentes daqueles que foram escravizados, acabaram fugidos dos seus senhores, no deserto. O seu líder, Moisés, é descrito como um homem criado pela família do Faraó. Aprendeu a lei e a mitologia egípcia, falava assiduamente com Deus, chegando inclusivamente a encontrar-se “face a face” com Ele, recebeu das mãos deste, umas tábuas de pedra com dez mandamentos escritos. Deus informou Moisés sobre os sacrifícios que lhe agradavam ou não, e as leis que deviam governar esse povo.
Afirmaram que o Pentateuco era da autoria de Moisés. Hoje sabemos de fonte segura que não, porque nele são mencionadas cidades que nem sequer existiam na época em que Moisés viveu, é mencionado dinheiro que só foi cunhado muitos séculos após a sua morte. Muitas leis que são mencionadas no livro, sobre agricultura, sacrifício, sobre tecelagem de roupas, sobre o cultivo da terra, sobre as colheitas, o debulho do grão, casas e templos, sobre cidades e sobre muitos outros assuntos; não têm relação possível com uns quantos viajantes famintos, errantes no deserto.
Todos os teólogos são unânimes em afirmar que o Pentateuco não foi escrito por Moisés, nem por uma só pessoa. Todos admitem que não é possível saber quem foram os autores daqueles livros. Todos são unânimes em reconhecer que esses textos estão repletos de erros e contradições, por exemplo:
– Jusué não escreveu o livro que tem o seu nome, porque nele existem referências a eventos que ocorreram muito tempos após a sua morte. Ninguém conhece o autor de Juízes; mas sabe-se que foi escrito séculos após os juízes terem deixado de existir. No 25º capítulo de I Samuel, é narrada a criação de Samuel pela feiticeira de Endora, mas ninguém conhece o autor do Primeiro ou do Segundo de Samuel; sabe-se apenas que Samuel não escreveu os livros que têm o seu nome. Ninguém sabe quem foi o autor de Rute ou o autor de I e II Reis ou de I e II Crónicas; tudo o que sabemos, é que tais livros não têm qualquer valor. Sabemos que os Salmos não foram escritos por David. Neles fala-se da escravidão, a qual só ocorreu cinco séculos após David ter “dormido” com os seus pais. Sabemos que Salomão não escreveu os Provérbios nem os Cânticos; que Isaías não foi o autor do livro que tem o seu nome; que ninguém conhece o autor de Jó, Eclesiastes, Éster ou qualquer outro livro do Novo Testamento, com excepção de Esdras. Sabemos que Deus não é citado no livro de Éster, mas basta lê-lo para constatar que o livro é cruel, absurdo e impossível.
Podemos constatar que Deus não é mencionado no Cântico dos Cânticos, – o melhor livro do Velho Testamento. Mas sabemos que Eclesiastes foi escrito por um incrédulo, e que até ao século II da N.E. (nossa era), os judeus não haviam decidido que livros seriam considerados como “inspirados”. Sabemos também que a ideia da “inspiração” se foi difundindo lentamente, e que essa pretensa inspiração foi determinada por “indivíduos” que tinham objectivos muito bem definidos.
O problema começa quando estes ”indivíduos” alegam que essa lei foi “revelada” e estabelecida para ser aplicada a toda a humanidade.
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