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24 de Maio, 2010 Carlos Esperança

O fim do limbo por cinco dólares

Por

C S F

As notícias sobre o fim do limbo são excessivamente optimistas. A Comissão Teológica Internacional da Congregação para a Doutrina da Fé publicou o documento , com o fabuloso título A Esperança da Salvação para as Crianças que Morrem sem Baptismo, após três anos de pesquisa e uma reunião entre o actual responsável, o cardeal Levada, e o seu antecessor, Ratzinger, o actual Papa.

O documento está acessível num site do Vaticano (Catholic News Service) por cinco dólares a cópia. Não sei se alguém o leu, incluindo António Marujo, o jornalista do Público que ontem escreve sobre o assunto, citando apenas extractos disponíveis na página da citada CNS. Parece que os trinta membros da Comissão tiveram ” em conta a superabundância da graça de Deus sobre o pecado original”, e esta graça pareceu-lhes ” omissa na ideia de limbo”. Mas a conclusão final é surpreendentemente humilde:

“Deve reconhecer-se claramente que a Igreja não tem um conhecimento seguro sobre a salvação das crianças que morrem sem ser baptizadas.”

A Igreja não tem ideias seguras. Devemos reconhecê-lo claramente. Ainda não é desta que as almas do Limbo se livram do pecado original e verão a face de Deus.

24 de Maio, 2010 Carlos Esperança

COPÉRNICO revisitado pela ICAR…

Por

E – Pá

Micolaj Kopernik, mais conhecido por Nicolás Copérnico [ou “Copernico” – sem acentuação – como pronunciou Cavaco Silva de visita à Polónia], foi um astrónomo polaco, grande impulsionador da teoria heliocêntrica, tendo influenciado de modo determinante a Astronomia no séc. XVI – é considerado o “pai” da Astronomia moderna – com a publicação da obra “De Revolutionibus Orbium Coelestium” […Sobre as revoluções dos corpos celestes ].

Esta obra científica viria a inspirar um outro grande vulto da Astronomia, Galileu Galilei, que – um século mais tarde – desenvolveu a concepção heliocêntrica do Universo, baseando-se nas teorias de Copérnico.

Na verdade, a concepção heliocêntrica defendida no livro de Copérnico é muito antiga. Remonta ao séc. III aC (Aristarco de Samos ) que apesar de não a referir expressamente, causou escândalo nos meios filosóficos, sendo acusado de “impiedade” [qualidade do que é ímpio] por Cleanto, um filósofo estoicista.

Vários séculos após, i.e., no século XVI, a ICAR [ainda] defendia a “teoria geocêntrica”, derivada de enviesadas interpretações bíblicas, da assimilação de concepções aristotélicas e da consagração do modelo ptolomaico do sistema solar.
De facto, a teoria geocêntrica servia a concepção universalista do poder emanado de Roma, sendo um sustentáculo para a afirmação do poder papal. O centro do Universo seria a Terra [onde os papas pontificavam] e tudo girava à sua volta.

Copérnico, conhecedor da ortodoxia científica e da rigidez doutrinária da ICAR [além de astrónomo tinha formação clerical], e dos vastos poderes inquisitórios, só publicou o seu livro quando sentiu aproximar-se o fim da sua vida [1543].
Aliás, as suas cautelas em relação à proverbial senda persecutória da ICAR a tudo o que é inovador levaram-no a tomar insólitas atitudes, por exemplo, recusar o convite da Igreja com vista à elaboração de um novo calendário com a escusa de ser um ignorante do movimento dos astros, quando dedicava grande parte do seu tempo em observações e cálculos astronômicos …

Estas atitudes e escusas evitaram a sua perseguição directa já que pertencendo às “famílias clericais tradicionais” [órfão aos 10 anos foi educado por um tio bispo], desempenhou, paralelamente à sua actividade cientifica, funções eclesiásticas na qualidade de cónego. Por outro lado, mesmo na época das trevas, era incómodo perseguir um morto…

Na verdade, a primeira reacção da Igreja Católica – ao contrário do Copérnico esperava – teria sido um misto de surpresa e curiosidade. A alta hierarquia religiosa, dominada pela influência da Companhia de Jesus [jesuítas], chegou a insinuar a Copérnico que desenvolvesse as suas novas ideias…

Claro, que esse desejo de desenvolvimento manifestado pela ICAR não passava de uma pura mistificação. Pouco tempo depois de publicar “De Revolutionibus Orbium Coelestium”, fruto de decénios de investigação pessoal, mantida em silêncio, Copérnico falecia [dois anos antes do Concílio de Trento].

Passado um século, Galileu Galilei, um brilhante astrónomo que divulgou e desenvolveu a teoria heliocêntrica de Copérnico e simultaneamente, um homem profundamente religioso, pagou, à ortodoxia religiosa, esta factura [adiada].
Galileu, foi investigado por um tribunal presidido pelo cardeal Roberto Francisco Belarmino [jesuíta], homem culto e moderado que evitou as mais drásticas consequências [a fogueira].
Aliás este cardeal, posteriormente tornado santo, tem um percurso eclesiástico, no mínimo curioso. No seguimento da morte do papa Paulo V, realizou-se em 1621 o conclave para a eleição do seu sucessor. O colégio cardinalício era dominado pelos chamados “cardeais sobrinhos”, i.e., familiares do papa em exercício nomeados cardeais. O cardeal Borghese, sobrinho de Paulo V, seria o homem que escolheria o próximo papa, tendo indicado para o cargo o cardeal Campori. Estava seguro desta sucessão já que tinha “arrebanhado” 29 cardeais nomeados pelo seu tio [Paulo V, um borghese]. O conclave não correu bem e os arregimentados purpurados mudaram de opinião, não concretizando os combinados acordos. Seguiu-se o escrutínio e o acima citado cardeal Roberto Francisco Belarmino obteve o maior número de votos [como aliás já tinha sucedido no anterior conclave de 1605 que pôs termo ao domínio da família Médici e catapultou os Borghese na posse da tiara pontifícia].
O cardeal Roberto Francisco Belarmino, na altura com 78 anos, recusou a dignidade papal, dando origem à posterior eleição de um papa de transição, um idoso e doente cardeal que tomou o nome de Gregório XV. À luz da doutrina religiosa não se entende como pode um cardeal rejeitar a iluminada intervenção do “divino Espírito Santo”, teologicamente responsável pelas escolhas do sacro colégio cardinalício. Desconheço se esta bizarra situação é um caso único ou se existem outros precedentes.

Depois desta deriva, voltemos às concepções heliocêntricas do Universo.

Em 1615 o Tribunal do Santo Ofício declara o heliocentrismo herético e a teoria de que a Terra se move “teologicamente errada”.
Galileu é condenado à prisão domiciliar perpétua, mas a reacção da cúria romana não fica por aí.
Os livros de Galileu entram para o Index Librorum Prohibitorum e, passado um século após a sua publicação, o livro de Copérnico [“De Revolutionibus Orbium Coelestium”] é repescado e tem o mesmo destino.

Em 1623, um novo conclave elegeu Urbano VIII, um amigo pessoal de Galileu. Este papa concede a graça [uma piedosa oportunidade] ao astrónomo de Pisa, no sentido de este escrever uma obra onde dissertaria sobre as suas teorias.
Galileu escreve, então, o livro “Diálogo sobre os dois grandes sistemas do mundo” onde confronta os 2 sistemas: Ptolemaico e Coperniciano.
Esta publicação tem o condão de irritar profundamente o papa que se sente ofendido. Em consequência, a “santa” Inquisição, julga e condena Galileu a abjurar publicamente suas opiniões… etc. [segue-se a conhecida saga de Galileu na defesa da verdade científica …].

Em pleno séc. XX a Igreja católica retratou-se de alguns dos danos que causou à Humanidade com as suas “verdades teológicas”. Galileu foi um dos visados nessa pretensa reconciliação com a Ciência.
Desconheço se Copérnico também foi objecto de algum pedido de desculpas oriundo do Vaticano.

Todavia, neste mês de Maio e no ano da graça de 2010, a ICAR decicdiu homenageá-lo e, Copérnico, foi transladado da tumba rasa no pavimento da catedral de Fromborg – depois dos seus restos mortais serem confirmados por análises de ADN – para um elaborado e faraónico sepulcro [em granito negro e duas toneladas de peso], colocado em lugar de destaque no referido templo [sob o altar-mor].

Essa cerimónia foi presidida pelo representante do papa na Polónia, arcebispo Jozef Kowalczyk, que oficiou uma imponente cerimónia religiosa.

Enfim, um homem da ciência que no passado foi considerado, pela mesma Igreja [que hoje oportunisticamente o homenageia], um herege, embuído de satânicas ideias revolucionárias…

A evidência da mais pura hipocrisia e o testemunho histórico de uma incontornável e farisaica falsidade.
O Mundo assistiu atónito a mais esta manobra da ICAR. Será sempre assim no seio desta milenar instituição.

Per omnia saecula saeculorum…

23 de Maio, 2010 Carlos Esperança

Ordenada primeira mulher em Itália

Pela primeira vez em Itália, uma mulher foi, ontem, sábado, ordenada numa igreja do centro histórico de Roma, apenas a centenas de metros do Vaticano que, apesar de afectado por uma crise de vocações, nega o acesso das mulheres ao sacerdócio.

A nova sacerdotisa, Maria Vittoria Longhitano, uma italiana de 35 anos, casada e mãe de duas crianças, pertence à Igreja Vetero Católica Italiana, uma pequena congregação que abandonou o catolicismo romano no século XIX e juntou-se à União de Utreque, estreitamente ligada à Igreja Anglicana.

23 de Maio, 2010 Carlos Esperança

O nazismo nunca foi ateu

No passado dia 20 houve um debate sobre «Religião e Ateísmo», organizado pelos alunos da Faculdade de Medicina do Porto, entre Ludwig Krippahl, da Associação Ateísta Portuguesa e o padre da ICAR, José Nuno, moderado pelo jornalista Carlos Magno.

O referido padre afirmou que «os maiores genocídios do século XX foram perpetrados por ideólogos ateístas: nazis e comunistas.

«Como a memória eclesiástica é selectiva, deixo aqui um trecho da conferência que, no dia seguinte, fiz em Lisboa, no Auditório da Biblioteca-Museu República e Resistência e que refere o nazismo:

A religião alimentou a guerra da ex-Jugoslávia e foi o rastilho de ódios que o mosaico étnico e a conivência externa ajudaram a deflagrar.  No Kosovo esteve em curso um genocídio dos sérvios ortodoxos sobre sérvios e albaneses islamizados a que a ONU teve de pôr cobro.

A Croácia cometeu, uma vez mais, horrores contra os sérvios, católicos contra ortodoxos, esquecida do passado nazi, na década de 40, em que o Estado fantoche de Ante Pavelic, apoiado pelo Vaticano, quis exterminar todos os judeus e levou a cabo uma campanha de conversão forçada dos cristãos ortodoxos. O seu partido Ustashe era tão repugnante que muitos oficiais alemães protestaram, envergonhados por serem obrigados a associar-se a ele.

O nazismo, sendo um fenómeno de natureza secular, não teria levado tão longe a sua loucura genocida se o cristianismo (católicos e protestantes) não tivesse envenenado os crentes com as concepções anti-semitas que os moldaram. Quando o Terceiro Reich iniciou a vasta e metódica aniquilação dos judeus logo surgiram progroms anti-semitas na Polónia, Roménia, Hungria, Áustria, Checoslováquia, Croácia e outros países. Mas já em 1919, por exemplo, tinham sido mortos 60 mil judeus só na Ucrânia e o nazismo estava longe de ser a religião oficial do Terceiro Reich. Isto para não recordar o carácter anti-semita do concílio de Trento e da Inquisição. De algum modo os nazis foram agentes da teologia cristã para a qual os judeus são ainda piores do que simples hereges; são hereges que repudiam explicitamente a divindade de Jesus e foram autores do deicídio. O próprio Hitler, ao usar a expressão «ninho de víboras», para os judeus, tanto a pode ter ido buscar directamente ao Evangelho de Mateus (3:7) ou a Lutero, que decerto a bebeu aí, mas o anti-semitismo não pode ser alheio à educação católica que recebeu.

Perseguições aos judeus em Espanha com os ataques às judiarias (Toledo, 1355, 12 mil mortos; Palma de Maiorca, 1391, 50 mil mortos; Sevilha, 1391, etc.; com a Inquisição (1478) milhares deles procuraram refúgio em Portugal. Outros, por medo, deixaram-se converter ao catolicismo. Uma perseguição tão cruel levou as judiarias espanholas à miséria, até que em 1492 foi declarada a expulsão dos judeus da Espanha.

Em Portugal, o anti-judaísmo provocou a revolta popular contra os cristãos-novos e os judeus ocorrida em Abril de 1506 – o infame Progrom de Lisboa. A superstição agravou o medo da peste que grassava na cidade e as dúvidas de um judeu em relação ao suposto milagre desencadeou uma onda de ódio, estimulada por um frade, que perseguiu, matou espancou e arrastou semi-vivos para as fogueiras que logo se acenderam na Ribeira e no Rossio – um massacre de 4 mil judeus, enquanto dois frades, o português João Mocho e o aragonês Bernardo, um com uma cruz e o outro com um crucifixo erguido, bradavam: Heresia! Heresia!, atiçando o ódio.»

22 de Maio, 2010 Carlos Esperança

Ateísmo, laicidade e democracia

Dia 21 de Maio – 18H30: Carlos Barroco Esperança

Tema: Ateísmo, Laicidade e democracia

Comentário: Não cabe ao autor pronunciar-se sobre o mérito. Embora com as diferenças normais entre um discurso de improviso e o texto escrito, vou procurar a forma de colocar à disposição dos leitores o referido texto.

20 de Maio, 2010 Carlos Esperança

Lisboa – Ateísmo, Laicismo e Anti-clericalismo em Portugal

Dia 21 de Maio – 18H30: Carlos Barroco Esperança

Tema: Ateísmo, Laicidade e democracia

Biblioteca-Museu República e Resistência – Espaço Cidade Universitária
(Próximo da Faculdade de Farmácia)

Rua Alberto de Sousa, 10 – A  (Zona B do Rego) – Lisboa

Estações de Metro: Cidade Universitária; Entrecampos

20 de Maio, 2010 Carlos Esperança

A história de uma visita papal

Num bairro de 44 hectares habitava um cardeal que a idade e o múnus tornaram casto. Na adolescência passou pela juventude hitleriana onde a disciplina o moldou.

Despida a farda, perdida a guerra, vestiu a sotaina onde não faltaram adereços com que a hierarquia o foi adornando. João Paulo II, papa polaco, viu nele o bispo ideal para lhe guiar a Prefeitura da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé (ex-santo Ofício).

A idade canónica para a resignação (75 anos) não o removeu das funções. Com o prazo de validade excedido o Papa nomeou-o Decano do Colégio Cardinalício, quiçá grato pela preparação do Catecismo da Igreja Católica de que o havia encarregado.

Foi esse Decano que ascenderia a papa perante o desmazelo do Espírito Santo e o olhar atento do Opus Dei. Mal sonhava que a ocultação dos crimes de alguns padres lhe cairia como nódoa indelével na brancura dos paramentos e o travaria  na pressa beatificadora dos antecessores, igualmente manchados pelo encobrimento. Hoje, uma confissão bem feita já não é benzina capaz de desencardir tal nódoa, por mais sincero que seja o arrependimento e a promessa de não mais pecar.

Foi neste vendaval de vergonha, sob pressão da comunicação social de todo o mundo, que o recandidato a PR de um país ansioso por romarias e tolerâncias de ponto convidou o Papa infamado.

São duas caras que não inspiram paixões mas atraem cúmplices, não induzem simpatia mas fazem confluir interesses, não se comportam como deviam mas são reverenciados pelas funções. Foi assim que a recandidato Cavaco convidou o futuro santo e actual regedor do Vaticano.

Em Lisboa, o Papa Ratzinger elogiou o cardeal Cerejeira, cúmplice da ditadura fascista e da guerra colonial; no Porto olvidou o bispo Ferreira Gomes que, por honradez, sofreu 10 anos de exílio, mas nem o Papa nem o anfitrião alguma vez se distinguiram no amor à democracia.

O País viajou de joelhos, os ministérios pareceram sacristias, a família presidencial deu o exemplo aos mordomos das festas sacras e até os cadetes militares fizeram uma pausa na carreira das armas, transportando o andor da senhora de Fátima, para mostrarem  que a glória militar não se compara com a de carregadores de padiolas pias.

Finalmente, o PR promulgou a lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo, com a raiva de quem não tem alternativa e a azia de uma decisão amarga.

Esperemos que o país volte ao normal, que não é bom, depois dos dias de Papa, em que foi pior.

19 de Maio, 2010 Carlos Esperança

Porto – Debate: Religião e Ateísmo

Nota: Entrada livre. Todos serão bem recebidos. Podem perguntar ao segurança do HSJ, à entrada, que ele indicará o caminho.