No último ano, o Diário Ateísta mais do que duplicou o seu número mensal de leitores (de acordo com o Sitemeter).
A Igreja deve fazer ouvir a sua voz, incluindo nas questões políticas, disse hoje Bento XVI no Vaticano.
Há sete anos um grupo de ateus decidiu criar este blogue e, graças à dedicação de vários colaboradores, tem cumprido os fins a que se propôs. Dia após dia, mês a mês, todos os anos, cumpriu o objectivo de desmascarar as mentiras religiosas, os interesses do clero e o obscurantismo pio.
A religião católica sempre gozou de privilégios e foi favorecida pela ditadura salazarista com a qual, salvo honrosas excepções, o clero viveu em promíscuo contubérnio, sem se saber onde começava o braço da censura política e acabava o da religiosa. A ICAR foi firme apoiante da guerra colonial, da discriminação legal das mulheres, da proibição do divórcio, da criminalização da IVG, da hegemonia dos homens sobre as mulheres, do partido único e de imensas injustiças que só as sociedades livres conseguem erradicar.
Respeitando os crentes, o Diário Ateísta entra hoje no 8.º ano de existência, infatigável e firme na luta contra crenças que intoxiquem os cidadãos, envenenem as relações entre pessoas e comprometam a paz.
O DA não pensa que a Igreja católica seja pior do que outra qualquer, pela natural razão de que não há uma única prova da existência dos deuses criados pelos homens para cada uma delas, nem leva a sério a vontade que o seu clero atribui ao deus privativo.
Cada religião considera falso o deus de todas as outras e, certamente, nesse ponto, todas têm razão. Nós, ateus, só consideramos falso mais um o que nos leva a pensar que todos somos ateus.
O inventário dos malefícios que todas as religiões causaram ao longo dos séculos, dos crimes que cometeram, do progresso que tolheram e das superstições que espalharam, será feito diariamente neste espaço, criado exclusivamente por ateus, e sobretudo para ateus, sem nos deixarmos intimidar pelos ataques informáticos de que já fomos vítimas nem pelo ódio que nos devotam os avençados do divino.
O DA continuará a denunciar, como até aqui, a indústria dos milagres, o negócio das indulgências, o tráfico das relíquias, a orquestração das peregrinações, as encenações litúrgicas e o saque dos dinheiros públicos para o proselitismo pio.
Não pouparemos o imperialismo sionista dos judeus das trancinhas que fazem a guerra com base numa herança divina registada na Tora, não seremos meigos para o fascismo islâmico que aliena crentes nas mesquitas e madraças e transforma homens em suicidas e assassinos, nem nos conformaremos com a indústria da santidade que põe cadáveres a fazerem milagres que rendem emolumentos ao Vaticano. Não ficaremos insensíveis aos que adoram vacas e dividem as pessoas em castas nem a seitas mais novas que fazem milagres em directo para gáudio dos supersticiosos e incremento do dízimo.
Fiel à Declaração Universal dos Direitos do Homem e ao respeito pela Constituição da República Portuguesa, o Diário Ateísta manter-se-á defensor do pluralismo ideológico, da laicidade do Estado e do livre-pensamento.
Por
José Moreira
Tem sido dito e redito, por quem tem esse direito, que o Diário Ateísta é um espaço aberto a todos quantos o queiram frequentar, independentemente das suas convicções, religiosas ou de outra índole. O que não acontece com os “sites” religiosos. Cientes do facto, e à míngua de espaço onde depositar os dejectos intelectuais, muitos crentes procuram o Diário Ateísta, onde podem, impunemente, exibir a sua indigência intelectual ou a sua má-formação. Ou ambos, o que é pior. Alguns aparecem ostentando a máscara do debate sério e sereno; mas, ou o elástico não presta ou a máscara é fraca, a verdade é que mais tarde ou mais cedo (mais cedo do que tarde) a dita máscara acaba por cair e eles são obrigados a mostrar as suas verdadeiras intenções: a sabotagem pura e simples, o insulto soez ou, como disse um ilustre fanático do seu deus pessoal, para não deixar os ateus exporem à vontade os seus pontos de vista (cito de memória).
Vem isto a propósito de uma carta que um leitor, que exerceu o inalienável direito de não revelar a sua identidade (foi logo censurado! Esqueceram-se que é tão anónimo um “anónimo” como um “jairo entrecosto”, por exemplo. Aliás, ninguém garante que José Moreira é um nome verdadeiro…) e denunciou o facto de ter sido alvo de “evangelização” nas duas vezes que teve de acorrer a um hospital de gestão religiosa. Caiu-lhe em cima tudo quanto era cristandade, cristianismo a “amor ao próximo”, como não podia deixar de ser. A má-fé, a arrogância e “tolerância religiosa” aliaram-se alegremente contra o autor da epístola. “Masoquista” foi o menor dos insultos. Podia ser só ignorância, mas não quiseram ficar-se só por aí. O que é pena, mas não espanta.
Vamos a factos concretos, porque alguns idiotas só conseguem aprender com exemplos. E é melhor que aproveitem, porque não tenho jeito para o desenho.
CASO 1 – Há anos, tive um problema numa das mãos. O meu médico de família assegurou-me que teria de ser submetido a uma intervenção cirúrgica. Pedi-lhe que me recomendasse um cirurgião que lhe merecesse confiança, já que a cirurgia teria de ser feita ao rigor do milímetro, ou arriscava-me a ficar deficiente. Recomendou-me um que está considerado o melhor da cidade do Porto, e um dos melhores do país. Só que esse médico trabalhava – e ainda trabalha – num hospital de uma ordem religiosa. Sou ateu, mas não sou fanático e tento não ser estúpido. Além disso, um hospital não é uma igreja (e que fosse…!). Obviamente, fui internado nesse hospital. Confesso que não fui assediado nem vítima de tentativa de evangelização. Nem sequer vi um padre. Tive de aguentar os vários modelos de crucifixos, mas tive o discernimento suficiente para concluir que não estava em minha casa.
CASO 2 – Em 2007 tive de ser internado no Hospital de St.º António, para ser submetido a outra intervenção cirúrgica. Hospital público, para quem não sabe. Pago por todos nós, para quem também não sabe. Logo no primeiro dia, apareceram duas freiras que pretenderam dar-me “conforto espiritual”, como disseram. Esclareci-as, educadamente, que estavam a tratar com um ateu. Afastaram-se, não sem antes me desejarem “fique com Deus” Ainda lhes disse que preferia a “virgem” Maria, mas não sei se me ouviram. Não devem ter ouvido, porque não apareceu mais ninguém, a não ser a minha mulher que, além de não se chamar Maria, não é virgem. Nos dias seguintes, vagueou pela enfermaria um padre, que me ignorava olimpicamente, enquanto cumprimentava “tutti quanti”. Fiquei terrivelmente chateado, como devem calcular. Mas nada surpreendido, naturalmente.
Tudo isto para dizer o seguinte, aos iluminados: em questões de saúde, nem sempre a escolha depende do doente. Nem o doente deve ser censurado – nem ninguém, com dois dedos de testa, o censurará – se optar por um hospital religioso. Desprezar um hospital religioso porque se é ateu, é ainda mais estúpido e primário do que ser fanático religioso. Primeiro, a saúde! Mas esta é, claro, a minha opinião.
E toda a gente sabe (se calhar, não é bem assim…) que os bons médicos estão nos hospitais privados ou de ordens religiosas. Que é onde pagam bem.
E onde cobram melhor.
Dois afegãos convertidos ao cristianismo podem enfrentar a pena de morte por renunciar ao islamismo, segundo a legislação local, num caso que evidencia as contradições de um país que é signatário da Declaração Universal dos Direitos do Homem.
No Encontro Nacional da Pastoral da Saúde, em Fátima, a ministra da saúde disse que «é preciso garantir a assistência espiritual nos tratamentos de saúde prestados em casa dos doentes»(1). O plano parece ser expandir o contingente eclesiástico que, pago pelo Estado, já há tempos prega nos hospitais públicos. Agora querem fundos adicionais para prestar este serviço ao domicílio.
O comunicado da AAP (2) aponta várias objecções a este plano da ministra Ana Jorge. Não é preciso assegurar nada disto porque religiões que venham bater à porta não é coisa que nos falte. Além disso, a assistência religiosa é uma vocação dos sacerdotes e faz parte da vivência do crente na sua comunidade. Não é nem terapia nem serviço para prestar contra reembolso pela ADSE. Finalmente, é um desperdício. Os ordenados que os serviços de saúde pagam aos padres dariam para ajudar muita gente a comprar os medicamentos de que precisam e que não conseguem pagar. A ministra deve garantir primeiro os medicamentos, e só depois se preocupar com o tal espírito que muitos dizem ter mas que ninguém vê.
Mas aqui, falando só por mim, gostava de acrescentar uma objecção importante. A assistência “espiritual” é uma mentira. Não é apenas uma questão das pessoas gostarem de ter lá o representante da sua religião. Não é assistência psicológica ou mero consolo emocional. Em geral, as pessoas sentem necessidade deste apoio porque as convenceram de que aquilo é verdade. Julgam, conforme lhes foi ensinado, que o padre, o rabino, o imã, o monge, ou o que lhes tenha calhado, sabe mesmo o que os deuses querem, tem poderes mágicos para perdoar pecados, dá impulso extra às orações e é mediador indispensável na negociação com as divindades.
Isto não é o mesmo que gostar de música clássica ou de ficção científica, ao contrário do que sugerem alguns que argumentam em favor de subsidiar os padres porque também se subsidia artes e espectáculos. A diferença é que gostar deste cantor ou daquela actriz não implica acreditar em mentiras. Não é o mesmo que acreditar em Shiva, ou que Maomé falava com o criador do universo ou que só a fé em Jesus nos pode salvar.
Este problema afecta toda a sociedade. Não temos leis no código penal punindo quem diga mal do Benfica ou da Madonna, mas “vilipendiar” religiões pode dar prisão. Não se deve troçar da religião das pessoas, segundo dizem. Só da sua afiliação política, crença na astrologia, convicção de que somos visitados por extraterrestres ou tudo o resto que não seja religioso. Alguns crentes religiosos têm a honestidade de afirmar que só a religião deles é verdadeira. Esses vemos logo que são presunçosos e prepotentes. Outros preferem dizer, condescendentes, que todas as religiões são igualmente válidas, cada uma à sua maneira. Só que não tão igualmente válidas que aceitem que os filhos escolham uma diferente da sua.
Isto tudo porque a experiência religiosa depende sempre de assumir como verdadeiros, e em exclusivo, os dogmas de uma religião específica. Ninguém é religioso genérico. É sempre de uma marca qualquer. A “assistência espiritual” é um eufemismo enganador para uma diversidade conflituosa de “assistências”: católicas, evangélicas, judaicas, muçulmanas e assim por diante, todas afirmando-se como a única virtuosa e verdadeira. O apoio estatal só incentiva esta divisão nefasta. Quer façam como agora, subsidiando apenas os católicos em detrimento dos outros, quer passem a contratar ministradores de tudo o que é religião, acabam por pagar a cada um para dizer que só ele tem razão e que os outros estão enganados.
Para mais, é pura superstição. As crenças acerca do Buda, de Maomé, de Moisés, de Jesus, de Xenu ou das placas de Mórmon são tão infundadas como o medo do dia 13 ou a confiança em amuletos. Não digo que o Estado deva reprimir estas crenças. Se alguém achar que a figa de ouro ajuda a curar uma infecção, que atribui a um mau olhado em vez de micróbios, os serviços de saúde devem limitar-se a dar a medicação e deixar a pessoa acreditar no que quiser. Mas o Estado também não deve incentivar estas parvoíces. Será um mau exemplo a ministra garantir que todos os pacientes tenham acesso gratuito a figas de ouro.
Uma objecção importante a esta medida é ser asneira incentivar estas tretas que tanto dividem qualquer sociedade. O que está em causa aqui não são apenas gostos pessoais ou sequer a fé de cada um, já de si fracas desculpas para gastar o parco orçamento do Serviço Nacional de Saúde. A crença religiosa é mais do que meramente pessoal. Quem adere a uma religião compromete-se não só a aceitar como verdade hipóteses sem qualquer fundamento, mas também a condenar como imoral a sua rejeição. Por exemplo, que o menino Jesus criou todo o universo e que quem não acreditar nisso merece uma eternidade no inferno. Não é racional investir os nossos impostos na propagação destas ideias.
1- Ecclesia, Ministra da Saúde quer assistência religiosa em casa dos doentes
2- Diário Ateísta, Serviço Nacional Religioso (SNR) Comunicado da AAP
Em simultâneo no Que Treta!
Foto: Veja online [ soldado na intervenção desta manhã no Complexo do Alemão] veja
APOSTILA: Nem sempre o Velho Testamento deve ser interpretado “à letra”!
Por E -Pá
O Diário de uns ateus é o blogue de uma comunidade de ateus e ateias portugueses fundadores da Associação Ateísta Portuguesa. O primeiro domínio foi o ateismo.net, que deu origem ao Diário Ateísta, um dos primeiros blogues portugueses. Hoje, este é um espaço de divulgação de opinião e comentário pessoal daqueles que aqui colaboram. Todos os textos publicados neste espaço são da exclusiva responsabilidade dos autores e não representam necessariamente as posições da Associação Ateísta Portuguesa.