E vou provar o que digo.
Um dia sentado num banco de jardim e fumando o meu querido cigarro tranquilamente, fui abordado por uma repórter agarrada ao microfone que me questionou sem mais nem menos:
– O senhor acha que o cigarro lhe faz bem?
– Primeiro ponto. O que eu acho é meu, o que os outros acham é deles.
Segundo ponto. O cigarro é a minha religião.
– Mas porque o considera uma religião?
– Pelo mesmo motivo que os religiosos de outras crenças afirmam que lhes faz bem à alma.
– Não entendi a sua resposta.
– Simples. Todo o local de culto provoca uma carga psicológica sobre as pessoas e por isso dizem que sentem uma paz profunda quando entram num templo. Esta carga emocional é gerada pelo efeito do espaço ornamentado com uma simples cruz ou outros adereços tais como pinturas, esculturas, etc. dependendo da religião que praticam. No meu caso, é o cigarro que me provoca esse tipo de efeito.
– Mas o fumo faz mal à saúde!
– As outras religiões também fazem mal à saúde, provocam danos cerebrais e outros. Ouvimos falar de pessoas muito apegadas à religião que sofrem muito sem o saberem, por motivos vários. As doenças do foro psiquiátrico são silenciosas e por norma não são os enfermos que procuram ajuda médica.
As pessoas afirmam que se conseguem encontrar a si próprias dentro de uma igreja. Que os seus pensamentos fluem de forma diferente. Acontece que nos locais de culto as pessoas estão despojadas dos seus bens caseiros. Tv e rádio ligados quase 24 horas, vozes de vizinhos, aves chilreando e outros sons diversos.
Eu carrego a minha cruz dependendo do cigarro, porque psicologicamente acredito que consigo ter um comportamento melhorado. Penso melhor, as ideias surgem com mais facilidade, sinto-me mais tranquilo, consigo ser mais racional e etc. e tal.
– Então está a dizer-me que fumar faz bem!
– Não! Nada disso, mesmo sabendo que cada corpo reage de forma diferente. Mas vou mais além. Ao contrário dos outros religiosos que vivem uma vida de submissão e sabendo que nunca tiraram vantagem alguma, eu digo aos não fumadores: Amigos, se vocês se sentem bem sem fumar, por favor nem sequer experimentem porque a dependência vai causar montes de problemas. Esses problemas podem ser de vária ordem, desde saúde até ao desgaste financeiro ou até todos juntos num só.
Agora diga-me, a senhora já teve conhecimento de um crente que em conversa com um descrente lhe tenha dito: Olha meu amigo, se você se sente feliz por não crer em nenhum deus, por favor nem experimente frequentar uma igreja pois você vai ser um joguete nas mãos dos outros e vai ser explorado de todo o jeito e feitio. Seja sincera e responda-me, conhece algum caso destes?
Não obtive resposta.
Por
Bons velhos tempos: Silvio Berlusconi (ex-chefe do Governo italiano) e o cardeal Angelo Bagnasco (presidente da conferência episcopal italiana e “administrador” do vastíssimo património imobiliário…) Foto colhida aqui link
Um oportuno artigo de El País em que se dá a conhecer a dimensão do património imobiliário da Igreja em Itália e como a isenção de impostos que actualmente desfruta distorce a realidade (e a equidade) fiscal neste País. link
O fundamentalismo nosso de cada dia nos dai hoje
(Publicado na secção Tendências/Debates da Folha de S. Paulo de 8/12/2011)
Segundo Ives Gandra, em recente artigo nesta Folha (“Fundamentalismo ateu“, 24/11), existe uma coisa chamada “fundamentalismo ateu”, que empreende “guerra ateia contra aqueles que vivenciam a fé cristã”. Nada disso é verdade, mas fazer os religiosos se sentirem atacados por ateus é uma estratégia eficaz para advogados da cúria romana. Com o medo, impede-se que indivíduos possam se aproximar das linhas do livre-pensamento.
É bom saber que os religiosos reconhecem o dano causado pelo fundamentalismo, mas resta deixar bem claro que essa conta não pode ser debitada também ao ateísmo.
Os próprios simpatizantes dos fundamentos do cristianismo, que pregam aderência estrita a eles, criaram a palavra “fundamentalista”. Com o tempo, ela se tornou palavrão universal. O que ninguém parece ter notado é que, se esses fundamentos fossem tão bons como querem nos fazer crer, então o fundamentalismo deveria ser óptimo!
Reconhecer o fundamentalismo como uma praga é dizer implicitamente que a religião só se torna aceitável quando não é levada lá muito a sério, ideia com que enfaticamente concordam centenas de milhões de “católicos não praticantes” e religiosos que preferem se distanciar de todo tipo de igrejas e dogmas.
Já o ateísmo é somente a ausência de crença em todos os deuses, e não tem qualquer doutrina. Por isso, fundamentalismo ateu é um oximoro: uma ficção ilógica como “círculo quadrado”.
Gandra defende uma encíclica papal dizendo que “quem não é católico não deveria se preocupar com ela”. No entanto, quando ateus fazem pronunciamentos públicos preocupa-se tanto que chama isso de “ataque orquestrado aos valores das grandes religiões”.
Parece que só é ataque orquestrado se for contra a religião. Contra o ateísmo, “não se preocupem”.
Aparentemente, para ele os ateus não têm os mesmos direitos que religiosos na exposição de ideias.
A religião nunca conviveu bem com a crítica mesmo. Já era hora de aprender. Se há ateus que fazem guerra contra cristãos, eu não conheço nenhum. Nossa guerra é contra ideias, não contra pessoas.
Os ateus é que são vistos como intrinsecamente maus e diuturnamente discriminados pelos religiosos, não o contrário. Existem processos movidos pelo Ministério Público e até condenação judicial por causa disso.
O jurista canta loas ao “respeito às crenças e aos valores de todos os segmentos da sociedade”, mas aqui também pratica o oposto do que prega: ele está ao lado da maioria que defende com entusiasmo que o Estado seja utilizado como instrumento de sua própria religião.
Para entender como se sente um ateu no Brasil, basta imaginar um país que dá imunidade tributária e dinheiro a rodo a organizações ateias, mas nenhum às religiosas; que obriga oferecimento de estudos de ateísmo em escolas públicas, onde nada se fala de religião.
Um país que assina tratados de colaboração com países cuja única atividade é a promoção do ateísmo; cujos eleitores barram candidatos religiosos; que ostenta proeminentes símbolos da descrença em tribunais e Legislativos (onde se começam sessões com leitura de Nietzsche) e cuja moeda diz “deus não existe”.
E depois os fundamentalistas que fazem ataque orquestrado somos nós.
(Daniel Sottomaior é presidente da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos)
Chamo-me Isabel Merino, sou do Opus Dei há 25 anos. Sou casada e mãe de quatro filhos.
Os salesianos holandeses indemnizarão as vítimas de abusos sexuais perpetrados em um dos seus internatos, Los Jóvenes de Don Rua, situado em Heerenberg.
Trata-se de 21 varões que têm agora entre 45 e 75 anos e foram vexados entre 1950 e 1970.
É a primeira vez que uma ordem religiosa católica nacional, aceita compensar os que sofreram estas agressões.
Vaticano surpreende ao fazer conferência sobre tatuagens
Nota: Não tarda a fazer homilias sobre os piercings.
No De Rerum Natura, o Carlos Fiolhais publicou há dias um texto sobre ciência e religião. É pena que não tenha abordado este tema com o rigor com que normalmente escreve. A ciência, começa, «trata do conhecimento do mundo natural» enquanto a religião «trata da relação do homem com o “transcendente”, com o qual ele toma conhecimento através da “revelação” ou “graça”.» (1) Pôs as aspas, mas não tocou no problema de sabermos se existem tais coisas como as religiões assumem, cada uma à sua maneira e sem consenso. Além disso, as religiões também dizem conhecer o mundo natural. Quase todas as religiões têm alguma versão de criacionismo, relatando como e porquê o universo foi criado, e alegações acerca do nascimento de Jesus, milagres ou a assunção de Maria não são estritamente sobre o “transcendente”. Têm implicações acerca do mundo natural também. E, em rigor, também não podemos dizer que «Na nossa cultura, [o transcendente] é o Deus da Igreja Católica.» O máximo que se pode dizer é que muita gente acredita que seja, mas daí a ser verdade ainda falta um bom bocado.
Depois, aponta que a ciência e a religião têm, em comum, «a procura de um sentido», o que também é pouco rigoroso. A ciência é uma procura por modelos que correspondam aos aspectos da realidade que visam modelar. É verdade que podemos encontrar sentido nisso, tal como podemos encontrar sentido na pintura, na literatura, no desporto, na família ou em qualquer aspecto da nossa vida. Até numa religião. Mas as religiões, que são muitas, não são necessariamente uma procura. Algumas, como o hinduísmo, deixam em aberto as questões fundamentais e toleram abordagens diversas. Outras, como o catolicismo ou o cristianismo evangélico, são mais dogmáticas e, por livros sagrados, inspiração divina ou líderes infalíveis, declaram que o essencial já está encontrado. E ai de quem procurar alternativas.
O Carlos Fiolhais aponta que «a observação e a experimentação permitem decidir se uma dada hipótese a respeito do mundo está errada. O reconhecimento do erro logo que haja evidência suficiente para ele tem assegurado à ciência uma notável capacidade de progressão ao longo dos tempos». Mas, depois, alega que «a religião não assenta no mesmo tipo de racionalidade, nem na observação e na experimentação, mas sim na fé, a crença que é obtida pela “graça” ou “revelação”» e que «existem diversas religiões, com diferentes verdades, cuja unificação é na prática impossível». Não me parece que recusar admitir a possibilidade de erro e o hábito de chamar “verdades diferentes” a alegações contraditórias mereça o rótulo de “racionalidade”, seja de que tipo for. O panteísmo hindu afirma que todos somos Brahman, enquanto o monoteísmo (triteísmo?) católico diz sermos criação do Pai-Filho-e-Espirito-Santo mas separados deste(s). Parece-me que o mais racional é chamar a isto crenças e admitir que não há razão objectiva para as considerar verdadeiras. Se chamamos a ambas “verdades” ficamos a precisar de uma palavra nova para designar a verdade a sério.
Depois, o Carlos Fiolhais parece confundir correlação com causalidade quando afirma que «Importa sublinhar que a ciência moderna surgiu no contexto do pensamento cristão e católico. Não se deu no quadro cultural do judaísmo ou do islamismo, nem no quadro de outras religiões». Antes da maturação da ciência nos dar alternativas persuasivas, todo o mundo estava dominado pelo pensamento religioso. O instante exacto em que a ciência começou é arbitrário. Há com certeza bons candidatos entre os arquitectos egípcios, filósofos gregos, engenheiros romanos e matemáticos árabes. Mas, onde quer que se ponha o “surgir” da ciência moderna, calhará sempre “no contexto” de uma religião qualquer. Ter calhado no cristianismo não nos diz se isso foi uma vantagem, desvantagem ou irrelevante. À partida, isto é tão importante como os primeiros cientistas serem todos homens, viverem em climas moderados ou saberem latim.
Finalmente, o «facto de que se pode ser crente e ao mesmo tempo cientista» e a alegação de que basta «abandonar a ideia de que a Bíblia é um livro de ciência» para que a ciência seja compatível com “a religião”. Isto não serve. A incompatibilidade não está na pessoa. Está no método. A ciência progride pela correcção de erros e, por isso, não pode aceitar como verdadeira uma proposição que não se possa testar ou à qual falte evidências que o justifiquem. Não me parece que o Carlos Fiolhais considere compatível com a ciência a alegação de que, pela “revelação” e fé, eu possa saber verdades transcendentes sobre os duendes invisíveis que habitam os núcleos dos átomos ou as fadas da quinta dimensão. A possibilidade um cientista acreditar nestas coisas – ou no criacionismo, ou nas pulseiras com hologramas – também não prova que estas crenças sejam compatíveis com a ciência.
Estes argumentos pela compatibilidade entre religiões e ciência mostram bem como estas são incompatíveis. Porque, invariavelmente, para argumentar isto é preciso abdicar do rigor e da exigência de fundamento que caracterizam a ciência.
1- Carlos Fiolhais, EM BUSCA DE SENTIDO: CIÊNCIA E RELIGIÃO
Em simultâneo no Que Treta!
O Diário de uns ateus é o blogue de uma comunidade de ateus e ateias portugueses fundadores da Associação Ateísta Portuguesa. O primeiro domínio foi o ateismo.net, que deu origem ao Diário Ateísta, um dos primeiros blogues portugueses. Hoje, este é um espaço de divulgação de opinião e comentário pessoal daqueles que aqui colaboram. Todos os textos publicados neste espaço são da exclusiva responsabilidade dos autores e não representam necessariamente as posições da Associação Ateísta Portuguesa.