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15 de Julho, 2012 Ludwig Krippahl

Treta da semana: Higgs e os padres.

Leon Lederman chamou-lhe ”the goddamned particle”, por ser tão difícil de detectar, mas o editor mudou a expressão para ”the God particle”(1). Por causa disso, o Prós e Contras sobre a experiência mais importante dos últimos anos descambou em duas horas de Fátima Campos Ferreira a fazer comentários pseudo-orgásmicos sem cabimento nem relação com o assunto. O que foi pena. Gravei o programa mas não consegui ver tudo pelo efeito da moderadora na minha tensão arterial. Por isso, por agora fico-me pelo conflito entre a fé e a ciência. À parte de um comentário muito acertado da Olga Pombo, que quem se arroga de responder a tudo não é a ciência mas sim as religiões, e cada uma à sua maneira, pareceu-me que ninguém tocou no problema fundamental. As religiões alegam muita coisa que a ciência recomenda rejeitar como mito ou ficção – milagres, nascimentos virgens, conversas com anjos ou deuses, vida depois da morte e afins – mas o problema principal é afirmarem saber coisas sem determinarem primeiro se são verdade. Isto é um erro, em ciência e em geral.

O Alfredo Dinis disse que a questão da existência de Deus não é científica porque não é testável; o Carlos Fiolhais parafraseou Galileu, que a ciência diz como vai o céu e a religião diz como se vai para o Céu; o Gaspar Barreira salientou que há cientistas crentes; e o João Varela defendeu que a religião e a ciência são domínios independentes tal como a arte é independente da ciência. Disto tudo, só o João Varela está parcialmente correcto. A arte e a ciência são independentes sempre que a arte não pretenda representar correctamente algum aspecto da realidade. Por exemplo, uma pintura abstracta ou um solo de guitarra. Mas se um documentário, uma história de ficção científica ou um romance histórico apresentam alguma falsidade ou especulação infundada com a pretensão de ser um facto, isso é cientificamente incorrecto. Só é independente da ciência aquilo que não tiver pretensões de representar qualquer aspecto da realidade.

A discussão sobre a incompatibilidade da fé com a ciência padece de três maleitas. A primeira é julgar-se que isto tem alguma coisa que ver com cientistas terem fé. Não tem, porque é trivial um ser humano aceitar umas coisas por fé ao Domingo e exigir evidências para outras durante o resto da semana. A segunda é a compreensível falta de paciência de muitos cientistas para discutir isto a sério. Alegar que são coisas separadas poupa uma data de trabalho, mesmo sendo óbvio que dizer como se vai para o Céu implica, no mínimo, dizer que sobra o suficiente de nós, depois da morte, para ir a algum lado. Isso não se pode justificar pela fé. A terceira, e pior, maleita é assumir-se uma definição arbitrária e demasiado restritiva de ciência. Por exemplo, que por a ciência exigir hipóteses empiricamente testáveis qualquer doutrina se pode safar de uma crítica científica se invocar hipóteses impossíveis de testar. Isto é, obviamente, um disparate.

A ciência é o método, sempre em aperfeiçoamento, para obter modelos que correspondam a aspectos da realidade. Podem ser modelos matemáticos, diagramas ou proposições; o que importa é que se ajustem o mais possível ao que pretendem representar. É neste sentido que “a Terra é redonda” é um modelo melhor do que “a Terra é plana”. Todos os restantes detalhes que caracterizam a ciência derivam de restrições que a nossa natureza impõe à realização deste objectivo. Por exemplo, os artigos científicos são publicados apenas após revisão pelos pares porque os seres humanos têm muito mais objectivos do que a procura de conhecimento. Para podermos confiar minimamente no que os cientistas escrevem é preciso exigir uma análise crítica independente. Mas isto não é uma fronteira que delimite a ciência, e seria um disparate dizer que algo (e.g. astrologia ou espiritismo) está num domínio independente só por não ter peer review. Se todas as pessoas fossem investigadores perfeitos, isentos e objectivos não era preciso mas, sendo como são, temos de nos precaver contra eventuais erros e aldrabices.

Passa-se o mesmo com a necessidade de testar hipóteses. Imaginemos que o nosso cérebro nunca podia conceber falsidades. Se assim fosse, qualquer afirmação em que pensássemos teria de ser verdadeira e não era preciso testar hipóteses para fazer ciência. Bastava concebê-las e pronto. A ciência humana precisa de testar hipóteses não por uma regra arbitrária e opcional, mas porque somos falíveis e facilmente concebemos falsidades. Por isso, não podemos procurar conhecimento sem mecanismos para corrigir erros. Quem afirma “Deus existe mas isto não pode ser testado” não está num domínio independente da ciência. Está a fazer má ciência. A menos que seja infalível, tem de ter mais cautela com o que afirma.

O objectivo da ciência é gerar conhecimento acerca da realidade. Tanto faz o assunto. Dos hábitos sexuais dos Cro-Magnon à natureza da consciência e ao destino do universo, se é real é pela ciência que o podemos modelar e descrever. Qualquer domínio da experiência humana será independente da ciência se não tiver pretensão de fazer o mesmo. Ficção, poesia, humor, música, o que for. Mas se alega saber verdades acerca da realidade então está no domínio da ciência e, tal como a ciência, tem de ter em conta as limitações de ser humano. Apesar de explicar imensa coisa sobre os atributos fundamentais da matéria, o bosão de Higgs foi considerado hipotético durante quase cinquenta anos e mesmo depois do trabalho de milhares de cientistas com a máquina maior e mais complexa jamais construída ainda exigem um desvio de cinco sigma antes de arriscar a dizer que ele existe. Deus não explica coisa nenhuma, não temos qualquer indício de que exista e, ao fim de uns milhares de anos de especulação infrutífera, até muitos dos seus proponentes já desistiram de o procurar (“não é testável”, dizem). No entanto, acham que qualquer padre pode dizer que Deus existe, como se soubesse do que fala, e que tal atitude não tem qualquer conflito com a forma como a ciência obtém conhecimento.

1- The Economist, Fantasy turned reality

Em simultâneo no Que Treta!

14 de Julho, 2012 Carlos Esperança

Religião, essa fantasia

Por

kavkaz

A religião não consegue comprovar-nos a existência dos seus deuses. A razão disso está nos deuses fazerem parte da imaginação humana. A religião divaga, insinua, apregoa, repete-se, constrói templos com bonecos à imagem que os crentes gostariam que fossem os seus deuses e séquitos de acompanhamento.

Os donos da religião convencem os crentes que estes devem-se ajoelhar, rastejar, levantar o rabo, humilhar-se por quem nunca viram na esperança de uma recompensa jamais comprovada. Um crente pode humilhar-se perante deuses que imagina existir e, logo a seguir, insultar e até agredir pessoas que não conhece por estas discordarem e argumentarem a inexistência dos deuses dos crentes. Por mais que repitam que os deuses existem nunca conseguem passar das palavras.

A Ciência analisa a realidade e tenta encontrar explicações e demonstrar as leis do funcionamento de tudo o que nos rodeia. A Ciência não fala de deuses. Ela não estuda e não analisa o que não existe. Por isso ela não irá provar não existência de deuses. Se estes existissem, há muito que a Ciência, com todo o seu arsenal de conhecimentos, falaria e concluiria da existência deles, comprovadamente.

A Ciência e as religiões têm “conversas” diferentes. A Ciência vive da realidade e prova o que afirma. Ela desvaloriza-se quando se engana. As religiões, tantas essas, apresenta os mais diversos argumentos, mas nunca demonstram ou mostram a existência dos seus deuses. A fantasia é o alicerce das sua existência. E, paradoxalmente, valoriza-se quanto mais enganar os crentes.

O Ateísmo afirma o que a Ciência e as religiões não dizem. O Ateísmo baseia-se nos conhecimentos da Ciência e nas proposições das religiões. Estuda e compara as afirmações de ambas as partes. Não bate certo o que uma e outras declaram. A conclusão é clara: a Ciência fala Verdade por provar o que afirma, as religiões fantasiam.

14 de Julho, 2012 Carlos Esperança

As mentiras dos crentes e dos ateus-R

Hoje não vou falar da falsidade das religiões mas referir as mentiras de crentes e ateus. Há ateus que frequentam a missa e a eucaristia à espera da recomendação do padre ou do bispo para o emprego nas Misericórdias ou nas aulas de Moral num estabelecimento de ensino. São muitos os indiferentes às pessoas da Trindade, tanto lhe importando que sejam três ou trezentas, desde que resolvam as suas necessidades.

Não será difícil imaginar o entusiasmo com que os muçulmanos cumprem o Ramadão, não com medo de Alá, mas com receio de serem denunciados aos saprófitas de Maomé.

O medo é o grande estímulo da fé: medo do inferno, das perseguições, dos incómodos sociais, das vinganças dos prosélitos, etc. Não é por acaso que as religiões têm um distribuição geográfica definida e, sem a herança iluminista e a Revolução Francesa, ainda hoje seríamos todos católicos no território que foi do Império Romano.

Os mentirosos mais interessantes que conheço encontram-se nas caixas de comentários do Diário Ateísta, agora por vicissitudes da sorte, de novo Diário de uns Ateus. Começam por se dizerem ateus para, segundo julgam, ganharem alguma credibilidade e passam aos ataques ao ateísmo, à defesa das seitas religiosas, especialmente do catolicismo, aos insultos aos ateus (os deste blogue, claro) e à apologia de todas as mentiras eclesiásticas e da santidade do Diretor-geral da seita.

Às vezes, perdida a vergonha e esquecidos de que se definiram como ateus, chegam ao ponto de defender os embustes da ICAR a que chamam milagres e figuras sinistras que foram canonizadas como o Sr. Escrivà.

Bem-aventurados os mentirosos porque deles é o reino dos céus, para usar a expressão canónica dos créus.

13 de Julho, 2012 Carlos Esperança

Deus, os crentes e o Diário de uns Ateus

Deus não é boa rês, criado como foi por homens da Idade do Bronze, à imagem e semelhança das tribos onde o caráter patriarcal dominava. Homens desses não podiam deixar de imaginar um ser cruel, vingativo, misógino, homofóbico e xenófobo. Esse deus inventado há 6016 anos, o deus abraâmico, ainda hoje é um detonador do ódio e da violência.

Esta é a ideia que eu tenho, como ateu, de um mito que era obrigatório nas escolas e igrejas da minha infância. É desse déspota que falo sem que ele se queixe ou se intrometa na minha vida. Lamentavelmente os que a creditam nele não admitem que haja quem pense de forma diferente.

Pelo mesmo motivo que eu seria incapaz de ir a um blogue religioso insultar os crentes, penso que tenho o direito de exigir que os crentes não venham ao Diário de uns Ateus injuriar os que não têm medo do Inferno nem da ira divina.

O Diário de uns Ateus continuará aberto a todos e, no que me diz respeito, até me podem insultar que, nem por isso, os excluo do direito de comentarem. Já não prometo que, à semelhança da Igreja católica, venham para aqui acender fogueiras contra os hereges e os deixe à solta. Só aqui entra quem quer.

Os ateus têm o direito às suas convicções sem terem a obrigação de suportar insultos. Se os crentes se sentem insultados com o desprezo que as religiões nos merecem, podem sempre trocar este local pela sacristia e a prosa ateia por litros de água benta.

Este local é bem mais asseado do que um confessionário.

11 de Julho, 2012 Luís Grave Rodrigues