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29 de Julho, 2012 Carlos Esperança

A virgem Maria (R)

A Virgem Maria, farta das companhias e do Céu, onde subiu em corpo e alma, aborrecida do silêncio e da disciplina, cansada de quase vinte séculos de ociosidade e de virtude, esgueira-se às vezes pela porta das traseiras e desce à Terra.

Traz a ladainha do costume, a promoção do terço de que é mensageira e ameaças aos inocentes. Poisa em árvores de pequeno porte, sobe aos montes de altitude moderada e atreve-se em grutas, pouco recomendáveis para a virgindade e o reumatismo, sempre com o objectivo de promover a fé e os bons costumes, de abominar o comunismo e anatematizar os pecados do mundo.

A receita é sempre a mesma: rezar, rezar muito, rezar sempre, que, enquanto se reza não se peca. Não ajuda a humanidade mas beneficia o destino da alma e faz a profilaxia das perpétuas penas que aos infiéis estão reservadas no Inferno.
Surpreende que, sendo tão vasto o mundo, a Virgem Maria só conheça os caminhos dos seus devotos e abandone os que adoram um Deus errado e odeiam o seu divino filho que veio ao mundo para salvar toda a gente.

Fica-se pela Europa, em zonas não contaminadas pela Reforma, aventura-se na América Latina, eventualmente visita a África e nunca mais voltou a Nazaré e àqueles sítios onde suportou os maus humores do seu divino filho e as desconfianças do marido. Ficando-lhe as viagens de graça, por não precisar de combustível, não se percebe que não volte aos sítios da infância, não vá em peregrinação ao Gólgota, não deambule pela Palestina e advirta aqueles chalados de que o bruto e ignorante Maomé é uma desgraça que se espalhou pela zona como outrora a peste, que a única e clara verdade é o mistério da Santíssima Trindade.

Por ter hora marcada ou para não se deixar seduzir pelas tentações do mundo, a virgem Maria regressa ao Céu, depois de exibir uns truques e arengar uns conselhos, sem dar tempo a que alguém de são juízo a interrogue, lhe pergunte pela saúde do marido e do menino e lhe mande beijos para os anjos e abraços aos bem-aventurados que estão no céu.

Um dia a Virgem Maria, com mais tempo e autonomia de voo, encontra um ateu e fica à conversa. Há-de arrepender-se dos sustos que prega, das mentiras que divulga e chegar à conclusão de que o terço faz mal às pessoas, estimula o ódio às outras religiões e agrava as tendinites aos fregueses.

28 de Julho, 2012 Luís Grave Rodrigues

Adultério

28 de Julho, 2012 Carlos Esperança

A escola e o presépio da minha infância – Crónica (R)

Bem crucificado e suavemente chagado, numa cruz de madeira dependurada na parede, penava um Cristo de bronze em resignada agonia, ladeado à direita por uma fotografia de um homem de bigode, fardado, conhecido por marechal Carmona, e à esquerda por um eterno seminarista, com ar de gato-pingado, que infundia terror – o

Professor Salazar. Na mesma parede, em frente dos alunos, a razoável distância e muitos fungos depois, quedava-se a Senhora de Fátima, poisada numa mísula, alheada da conversão da Rússia e da salvação do mundo. Mais abaixo, à esquerda, ficava o quadro preto e o mapa do corpo humano e, à direita, rasgados, um mapa de Portugal Continental, outro das Ilhas Adjacentes e das Colónias e o mapa-múndi.

O soalho resistia aos buracos, numerosos e amplos, que a humidade e o uso se encarregavam de alargar. As carteiras alinhavam-se em rigorosa geometria com lugares destinados a mais de quarenta garotos de ambos os sexos distribuídos pela primeira, segunda e quarta classes. Entre quinze e vinte, estavam na sala oposta a frequentar a terceira, confiados à senhora Noémia, regente escolar.

Nos dias de chuva subvertia-se a ordem, numa complexa gincana de carteiras, para evitar que os pingos de água que escorriam do teto acertassem nos tinteiros e salpicassem de azul a roupa das crianças e os tampos de madeira.

No intervalo, meninos e meninas, em amplas correrias e direções opostas, procuravam os quintais próximos para se aliviarem dos fluidos que os apoquentavam.

À entrada da escola o presépio anunciava todos os anos o Natal. Na armação de tábuas e pedras cobertas de musgos, um menino de barro, seminu e de perna alçada, jazia em decúbito dorsal sobre uma caminha de palha centeeira. Era o Menino Jesus. De um lado uma virgem colorida, moderadamente recatada e com pouco uso, substituía a que se partira, interessada na companhia do filho que herdara. Do outro, um S. José, a quem a corrosão deixara em pior estado do que o dogma da Imaculada Conceição, parecia um erro de casting, indiferente ao aspeto, perdidas as cores, diluídas as formas, conformado com os olhares e as súplicas, incapaz de operar milagres, resignado com o frio de Dezembro.

O burro e a vaca comportavam-se a preceito, facilmente se adivinhando o gosto por erva se eles e esta fossem verdadeiros.

Os reis magos, eternos almocreves com ar de ladrões de camelos, virados para uma estrela recortada em papel colorido, permaneciam imóveis na lendária caminhada, quais amoladores de tesouras, à espera de fregueses para ganharem o sustento e um presente para o Menino.

As ovelhas, que placidamente decoravam a montanha, eram figurantes experientes, desinteressadas da importância que acrescentavam ao quadro e do exemplo de submissão que transmitiam. Nem um só carneiro as acompanhava, talvez para lembrar que é na renúncia ao prazer que se encontra a redenção da alma. Apenas um cão e o pastor.

Reflito hoje sobre a predileção por musgos, muitos musgos, para cobrir o chão do presépio. Na religião tudo se deve cobrir ou, no mínimo, disfarçar. Talvez esteja na ocultação dos órgãos de reprodução, característica das plantas criptogâmicas, a razão da preferência, a funcionar como metáfora.

Ah! Já me esquecia, pintados de branco, anjos de barro, junto ao caminho de serradura que conduzia à manjedoura, voavam baixinho, com asas quebradas, incapazes de regressar ao Céu. E o algodão em rama imitava os flocos de neve que lá fora rodopiavam ao sabor do vento. Eu gostava do Presépio. Não era o catecismo a aterrorizar-me com o Inferno onde as almas que ali frigiam, em perpétua flutuação no azeite fervente, eram mergulhadas com um garfo de três dentes empunhado pelo diabo.

A minha escola caiu, pelo Natal, ficando de pé uma única parede e a fé das pessoas que atribuíram à proteção divina a ausência de aulas durante a derrocada.

28 de Julho, 2012 Carlos Esperança

Opus Dei – o exército do Papa

Ela é acusada de ultraconservadora, totalitária e conspiradora.Imagine sua mente sendo monitorada 24 horas por dia. Você está num lugar onde não é permitido ver televisão ou ir ao cinema. Até o jornal chega editado às suas mãos. Ninguém pode ter amigos do lado de fora e o contato com a família é restrito. Pelo menos duas horas por dia, você tem de amarrar um cilício na coxa – espécie de instrumento de tortura com pontas metálicas que machucam a pele. Quanto maior for o seu desconforto, […]

27 de Julho, 2012 Carlos Esperança

O BOSÃO DE HIGGS

Por 

Onofre Varela 

Não saber do que se fala, não impede que se opine, e a opinião de cada um tem o valor que tem, mais o que os outros lhe queiram dar, e por aí se fica. Mas os responsáveis de instituições, e os jornais de grandes tiragens e de distribuição nacional, estão obrigados a saberem do que falam. Nesta linha está o folclore que se fez à volta do Bosão de Higgs, com os jornais a darem voz a padres católicos para opinarem sobre o que não diz respeito à Igreja.

Em linhas gerais e poucas palavras, podemos dizer que o cientista britânico Peter Higgs, trabalhando sobre umas ideias de Philip Anderson, interrogou-se, num documento publicado em 1964, sobre a possível existência de um bosão (partícula com determinadas características) que explicaria a razão de a matéria possuir massa.

Mas só agora — meio século depois — foi possível conseguir as condições técnicas para o desenvolvimento de experiências a propósito, com a construção, em 2008, do Grande Colisor de Hádrons (LHC), um laboratório localizado num túnel com 27 Km de circunferência, construído a 175 metros abaixo do nível do solo, na fronteira franco-suíça, próximo de Génebra. Um dos objectivos do LHC é explicar a origem da massa das partículas elementares, e encontrar outras dimensões do espaço.

A 4 de Julho de 2012, cientistas do Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (CERN), anunciaram que na sequência dos seus trabalhos no LHC, descobriram uma partícula nova que pode ser o tal bosão de que Higgs previu a existência.

Entretanto, no início dos anos de 1990, o físico Leon Lederman, que ganhou o Prémio Nobel em 1988, escreveu um livro com a intenção de explicar ao público não especializado em Ciência, a teoria sobre o bosão de Higgs. O autor escolheu o título “The Goddam Particle” (A Partícula Maldita) para falar sobre o tal elemento difícil de descobrir e que ocupava todo o tempo a Higgs. Mas como o editor estava mais interessado em vender do que, simplesmente, publicar, num golpe de marketing, trocou o termo “Goddam” por “God”, e o livro “The God Particle” (A Partícula de Deus) foi um êxito de vendas! O nome pegou, e não tardou que a imprensa apelidasse o bosão que Higgs procurava, como sendo a “partícula de Deus”!

O termo Deus é conhecido de todos, e bosão… ninguém sabe o que seja…

O meu espanto foi ver e ouvir, em Julho de 2012, as televisões e os jornais a entrevistarem religiosos sobre a partícula de Deus (como se a Igreja tivesse algo a ver com as descobertas científicas!), talvez convictos de que a Ciência acabara de encontrar a prova da existência real e concreta de Deus!…

A RTP procurou o padre e jornalista José Tolentino de Mendonça, na qualidade de director do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura da Igreja Católica, para que falasse sobre o bosão, e ele disse que “tudo o que é a procura da verdade interessa muito aos crentes e à Igreja” (!?), que mais poderia ele dizer?!…

O jornal do Vaticano, “L’Osservatore Romano”, atingiu o paradigma de (…não sei que palavra usar!…) com a manchete “Comoção e Entusiasmo” para se referir ao anúncio da descoberta do bosão de Higgs (!?).

Deve estar tudo doido!…

O cientista Carlos Fiolhais teve a frase mais correcta e honesta: “Se existe Deus, todas as partículas são de Deus, ou, se não existe Deus, nenhuma partícula será de Deus”. Tão simples!

“Partícula de Deus” é apenas um nome. Um título para um livro, que foi encontrado com o interesse de vender, e o nome do livro não vale mais do que isso. Imagine que você, em 1990, encontrava um livro com o título “Bosão de Higgs”. Comprava-o?… E se fosse “Partícula de Deus”?…

 

Há termos que atingem a sensibilidade das pessoas e que, por isso, podem, mais facilmente, ser aceites ou repudiados. É o caso das “Células-Mãe”. Em inglês recebem outro nome. Não são referidas por “Motther-cells”, mas por “Stem [tronco, raíz] Cells”.

A palavra “mãe” desperta paixões! Mãe há só uma. E tu não tocas na minha mãe, porque para mim ela é sagrada! Daí ser mal vista a manipulação das células-mães! Já manipular as células-raiz… é outra coisa, mais permissível, o milho transgénico é isso mesmo, e aqueles que se preocupam com o termo “mãe” estão-se nas tintas para as manipulações do milho!

Já que falo em raíz, é curioso notar que os países de raíz católica são os que, estatisticamente, têm uma pior opinião da Ciência. Porque será?!…

26 de Julho, 2012 Carlos Esperança

Jesus visitou o Vaticano e continua misógino

O novo prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (CDF), D. Gerhard Müller, afirmou que a exclusão das mulheres da ordenação sacerdotal na Igreja Católica deriva da “vontade” de Cristo.

“Muitas declarações sobre a admissão das mulheres ao sacramento da Ordem ignoram um aspeto importante do ministério sacerdotal: ser sacerdote não significa ganhar uma posição”, refere o arcebispo alemão, de 64 anos, em entrevista hoje publicada pelo jornal do Vaticano.