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2 de Agosto, 2012 Carlos Esperança

Jesus abandonou a cruz e o altar (crónica pia)

Um dia o enorme crucifixo da velha igrejaganhou vida. Genufletida a seus pés uma beata atacava a quarta salve-rainha  enquanto, do lado direito, um pouco atrás, antes do transepto, outra beata debitava padre-nossos junto ao altar da Virgem Maria. É assim a força do hábito. Trocam-se as orações e os pedidos sem reclamação dos ícones nem reparo dos mendicantes. Ao mesmo tempo o padre vociferava latim e dizia a missa.

O senhor Jesus já por ali andava dependurado, há uns séculos, a suportar a crueza dos espinhos e o mau aspeto das chagas que nunca mais saravam. Enegreceu com o fumo das velas, suportou os odores de quem cuida melhor a higiene da alma do que a do corpo, ouviu gente em desespero e pedidos de vingança de almas danadas que lhe solicitavam o infortúnio dos inimigos.

Conheceu centenas de padres e numerosos bispos a quem nunca fez reparo pelo latim periclitante, a pobreza das homilias e a riqueza dos paramentos. Ouviu confissões eróticas sem mover a tanga, safadezas incríveis sem se ruborizar, misérias de vidas e vidas de miséria, sem um suspiro, um grito ou um vómito. A tudo o senhor Jesus se habituou, até às versões diferentes a respeito da sua própria vida.

Ouviu um bispo irado a condenar os jacobinos, outro a  amaldiçoar os judeus, e, todos, conforme as épocas, a execrar a Revolução Francesa, a república, o laicismo, a apostasia, a blasfémia e o preservativo.

A tudo o senhor Jesus assistiu, em silêncio, no bronze em que o esculpiram. Até um dia. Até ao dia em que o padre apostrofou os incréus que se afastavam do culto, faltavam à santa missa e se furtavam à eucaristia; admoestou as donzelas impacientes que não esperaram pelo casamento; ameaçou os casais que substituíam a castidade pelo preservativo e contrariavam os desígnios de Deus quanto aos filhos. Jesus despertou no preciso momento em que o oficiante explicava que naquelas rodelas de pão ázimo ia ele próprio, em corpo e sangue, pousar nas línguas ávidas de quem guardara jejum desde ameia-noite,bem confessado, melhor arrependido e excelentemente penitenciado.

Foi então que arrancou os cravos, deu um piparote na coroa de espinhos, abandonou a cruz e esgueirou-se por entre os devotos sem ninguém notar, nem a beata das salve-rainhas, nem o padre que administrava a partícula, nem os comungantes habituados a fechar os olhos. Ninguém reparou que no seu lugar ficou apenas um sinal mais em raiz de nogueira, com quatrocentos anos, aliviado do peso do freguês.

Jesus esgueirou-se pela porta principal e não mais foi visto.

1 de Agosto, 2012 Carlos Esperança

RESPOSTA DEFINITIVA AO CÍNICO

Por

ONOFRE VARELA

Não costumo responder a provocações, e é a primeira (e espero ser a única) vez que o faço publicamente.
Numa atitude de correcção e honestidade, decidi responder à observação do Cínico, relativamente à falta da fonte das estatísticas onde colhi a informação de cuja veracidade ele desconfiou (e reivindicou), e fi-lo convicto de estar a lidar com uma pessoa de bem.

Porém, pela sua reacção, apercebi-me do real nível intelectual do animal, o que me merece este comentário definitivo:
Diz o Cínico: “Não tenho por hábito ler a edição on line do El País (…)”.
Eu direi que ele não tem por hábito… ler!
Se me pediu as fontes, mesmo que não tenha o hábito de as ler, neste caso obrigava-se a fazê-lo… ou então não as reivindicava! É uma questão de honestidade intelectual. Sabe o que isso é?

Apercebi-me de que o seu raciocínio se fica pelo que “julga ter aprendido” na catequese, na tenra idade dos oito aninhos, e jamais evoluiu (quiçá, jamais pensou), caso contrário não comparava Ciência com Mitologia das Religiões.
É o problema dos fundamentalistas religiosos: não pensam para além do insidiosamente escrito nos catecismos concebidos para fomentarem a ignorância que alimenta as igrejas, e lêem o catecismo convencidos de estarem a ler a mais completa das enciclopédias!

Este Cínico é um caso perdido, e devia mudar de pseudónimo por respeito aos verdadeiros Cínicos.
Como demonstra não ter capacidades intelectuais para isso, atrevo-me a sugerir-lhe o pseudónimo “merdoso” porque reflecte verdadeiramente o teor do seu discurso, do seu pensamento e das suas convicções.

Ao ter-lhe respondido fico com a desagradável sensação de ter dado pérolas a porcos, o que é um desperdício nos tempos de contenção que atravessamos!…
Acusa-me, o merdoso, de eu não ler os livros que ele lê.
Informo-o que tenho 70 anos de vida, que leio desde os sete anos, e que a minha biblioteca é composta por cerca de dez mil livros, que um quarto deles são sobre religião, e que estão todos lidos, estudados e sublinhados.
Já li mais livros sobre Religião do que alguma vez o merdoso lerá (dando por barato que o merdoso lê!).

Um ateu não é um insultador de religiosos, como alguns religiosos (só alguns, e entre os quais está o merdoso) são insultadores dos ateus.
Um ateu, só é ateu, porque lê livros de religião, porque assiste a missas e porque raciocina… o que é coisa (raciocinar) que os merdosos não fazem.
Só por ter esta prática de leitor, de assistente de missas, de observador do mundo e por raciocinar, é que sou ateu.
E respeito todos os religiosos porque percebo as suas motivações. Aprendi-as nos mesmos livros.
Livros que li com espirito isento e mente aberta, o que é coisa naturalmente interdita aos merdosos que teimam em ser um substracto foleiro da espécie Homo, antes do salto evolutivo para Sapiens Sapiens.
Aliás, os religiosos não pertencem à espécie Homo Sapiens.
Estão dispensados da condição de primatas e do processo evolutivo, porque eles não evoluem.
Eles foram feitos em barro como em Barcelos se fazem os galos e nas Caldas os caralhos!
Secaram, empederniram, e assim ficaram.

Respeito e percebo os religiosos, ao contrário de alguns religiosos que não respeitam os ateus nem se respeitam a si próprios, com as atitudes que tomam com o único fito de insultarem os ateus.
Perceber as cavalgaduras, que ainda por cima são merdosos, é que me é mais difícil. Mas a esses não tenho que perceber nem respeitar. Daí me permitir arremessar-lhes com as mesmas palavras que me arremessam.

Tenho amigos sacerdotes católicos que me respeitam exactamente como eu os respeito, e compreendem os meus pontos de vista porque não são merdosos. Temos conversas civilizadas no respeito mútuo das ideias de cada um, o que é coisa que o merdoso desconhece, não sabe, nem nunca saberá, porque não tem intelecto para isso, como merdoso que é.

Fico com pena de lhe ter respondido, mas fi-lo na convicção de estar a lidar com gente decente, o que, constatei pela sua resposta, não é. E tenho pena! Não por mim, mas por si, pois não é capaz de raciocinar para além do conteúdo do chip que lhe foi implantado naquele sítio onde os comuns mortais (a maioria dos ateus, e muitos religiosos) têm o cérebro, mas onde uns tantos merdosos têm os intestinos.

Diário de uns Ateus – Onofre Varela é escritor, jornalista, cartoonista, actor e homem de cultura. Personalidade bem conhecida no Porto é um respeitável e respeitado livre-pensador a quem o ateísmo deve muito, em Portugal.

1 de Agosto, 2012 Carlos Esperança

Como vender um produto fora de prazo

 

Vaticano: Diálogo da Igreja com não-crentes vai ser primeira iniciativa associada ao Ano da Fé

A neutralidade segundo S. Ratzinger

A realização de um encontro entre crentes e não crentes em Assis, Itália, no dia 6 de outubro, vai ser a primeira iniciativa associada ao Ano da Fé, revela hoje o jornal do Vaticano, L’Osservatore Romano.

“Deus, este desconhecido” é o tema da sessão do “Átrio dos Gentios” na cidade onde nasceu São Francisco (1182-1226), iniciativa que antecipa a abertura oficial do Ano da Fé, que decorre entre 11 de outubro e 24 de novembro de 2013.

 

1 de Agosto, 2012 Carlos Esperança

Deus é a mais desafortunada invenção humana

Os homens, à força de ouvirem que Deus existe, tornam-se crentes e, à medida que o repetem a si próprios, fazem-se beatos.

Deus é uma infeliz criação, difícil de aperfeiçoar. Enquanto as máquinas se melhoram, a partir da dúvida de que nunca são suficientemente perfeitas, Deus só pode piorar porque os clérigos garantem que é infinitamente bom e não admitem a discussão.

Com tal mercadoria minam-se as bases da civilização, perturba-se a paz, impede-se a solidariedade humana.

Deus não é apenas uma criatura pior do que o seu criador – o Homem –, e um troglodita incapaz de se regenerar, é o princípio do mal, o acicate de todos os ódios e crueldades.

Na base do racismo e da xenofobia está Deus na sua despótica inexistência, no seu primitivismo demente, um ser misógino e delinquente, manejado pelos fios invisíveis, tecidos pelas religiões, através dos prestidigitadores profissionais – os clérigos.

Deus e o Diabo são irmãos gémeos, filhos do medo dos homens e explorados em benefício do clero.

As peregrinações são atos de insensatez coletiva em direção a locais onde os homens inventaram marcas de Deus, centros de exploração da fé e da superstição, locais de recetação onde se esbulham os crentes para maior glória dos parasitas de Deus.

Se Deus existisse, os crentes ficariam satisfeitos por serem os únicos com direito a uma assoalhada no Céu e para gozarem o ócio eterno na companhia da fauna celeste. Assim, vivem cheios de azedume, envergonhados da sua estultícia, ávidos de converter outros aos seus próprios erros e fazer deles infelizes, à sua semelhança.

Um mundo sem Deus, ou mesmo com muitos, seria certamente mais pacífico, mas a loucura das religiões monoteístas querem fazer do Planeta um antro de fanáticos e do Deus único, uma perigosa quimera que ensandece os homens, os assusta e imbeciliza.

Deus é um déspota imprevisível com lacaios que não o discutem nem o deixam discutir.

 

31 de Julho, 2012 José Moreira

Farinha do mesmo saco

Se nós dermos uma vista de olhos pelas doutrinas religiosas, não nos é difícil verificar que, com ligeiras variações, todas acabam por vender o mesmo tipo de produto. E nem sequer vale a pena estarmos a dissecar que tipo de produto vendem: nada que preste.

No entanto, numa questão todas são unânimes: a mulher está abaixo de cão.

Desta vez, foi um rabino que explicou qual o lugar que compete à mulher. Mas não se limitou a afirmar, explicou as razões da sua afirmação.

Foi um rabino. Mas poderia ter sido um “mullah”, ou um bispo. A farinha sai toda do mesmo saco.

 

31 de Julho, 2012 Carlos Esperança

Os milagres do santo

Disponho de vários quartos de hóspedes. Um sábado à tarde, chegaram alguns para assistir a uma festa na minha aldeia e pediram-me que os deixasse tomar o pequeno-almoço o mais tarde possível no dia seguinte.

Ler o que o defunto ainda faz, depois de ter sido um fascista em vida, neste depoimento.

31 de Julho, 2012 Luís Grave Rodrigues

Citações

30 de Julho, 2012 Carlos Esperança

ESTATÍSTICAS E CRENÇA

Por

ONOFRE VARELA

O meu último texto “O Bosão de Higgs” mereceu, de um tal Cínico — atento leitor do Diário de Uns Ateus  —, relativamente à parte final onde digo “é curioso notar que os países de raiz católica são os que, estatisticamente, têm uma pior opinião da Ciência”, a crítica de que não apresentei as fontes da estatística mencionada.

Tem toda a razão. Faço-o agora para sua satisfação.

Colhi a informação no jornal espanhol El País (págs. 30 e 31, da edição do dia 24 de Julho de 2012) numa notícia com o título “Ciencia: la fe del que no sabe”, onde se tornam públicos os resultados de um inquérito promovido pela Fundacion BBVA, divulgado no dia anterior, onde se reflectia a relação dos espanhóis com a investigação
científica. O inquérito entrevistou 1500 pessoas por país, em 11países (Estados Unidos da América, República Checa, Polónia, Alemanha, Áustria, Dinamarca, Itália, Holanda, França, Reino Unido e Espanha) totalizando 16500 pessoas. A notícia é complementada com um exaustivo quadro que responderá em pormenor à curiosidade científica do Cínico, pelo que lhe sugiro a consulta do jornal referido, emwww.elpais.com
(embora eu tivesse lido a edição em papel, que compro diariamente).

Feito este aditamento ao meu último texto, penso ter respondido ao amável leitor Cínico, tão interessado nas coisas da Religião e da Ciência, e aproveito o resto do espaço que me é concedido para dizer mais o seguinte, a respeito das coisas importantes como, por exemplo, a “importância das estatísticas”.

A importância das coisas tem a exacta medida que nós lhe queiramos (ou soubermos) atribuir. Dou o exemplo da arte. Um objecto de arte só é arte se os olhos que o observam assim o entenderem e descodificarem. Se o observador não estiver sensibilizado para a arte, a arte não existe (para aquele observador), embora exista o objecto.

A dimensão das coisas importantes é sempre essa. Ela tem de partir de uma base cultural, ou antropológica, que atribua importância àquela coisa, caso contrário existe a coisa, mas não existe a escala de importâncias onde a coisa pode ser medida, apreciada, catalogada e referenciada. Esta escala de valores é-nos transmitida pela cultura da
sociedade onde nos inserimos, quer seja a cultura local (antropológica) ou a cultura universal, mais abrangente, academicamente adquirida, e que faz do seu detentor um verdadeiro conhecedor… isto se, entretanto, não for atropelado por interesses
desfavoráveis ao verdadeiro conhecimento…

O que acontece com o “conhecimento” transmitido pelas religiões é coisa diferente, e pertence ao chamado “conhecimento iniciático” reservado a membros de seitas secretas ou grupos de religiosos. A escala dessa medida religiosa é-nos formatada na mente desde tenra idade por ensinamentos aferidos pela sociedade que nos concebe e produz, e é independente dos conhecimentos universais, como Matemática, Filosofia, História, Geografia ou Línguas.

Dou este exemplo: um crucifixo tem, para um cristão, rigorosamente o mesmo valor religioso que um tótem toscamente esculpido num tronco de árvore, tem para o índio norte-americano, e uma vaca para um fanático do Sri Lanka. Um católico pode considerar uma estupidez adorar uma vaca e beber-lhe a urina com fé religiosa, mas ajoelha com o mesmo fervor religioso diante de uma imagem de Fátima e de uma cruz com a representação de uma figura humana sofredora escorrendo sangue! E engole uma fina rodela de farinha, convicto de estar a deglutir o corpo do seu deus, exactamente com o mesmo fervor religioso dos fanáticos do Sri Lanka quando bebem urina das vacas consideradas animais sagrados!

É nesta adoração de elementos criados por ritos e intenções religiosas, que se encontra o verdadeiro valor das acções de religiosidade e fé. Elas são matéria de estudo de sociólogos e antropólogos que as olham com o mesmo interesse intelectual com que o
entomólogo francês Jean-Henri Fabre (1823-1915) olhava para as moscas.
Para além do valor etnológico e antropológico que faz a essência e a identificação genuína de um povo, os rituais de fé só valem pela função psicológica do efeito placebo que produzem (quando produzem, e se produzirem). A importância das religiões termina aí. A sua parte mais visível fica-se nas práticas terreais, folclóricas e sazonais.

O etéreo, o encontro real com Deus ou santos num lugar excepcional, num paraíso ou num poço infernal, para além da morte, é fábula sem quaisquer resquícios da mínima realidade. Insistir na veracidade de Deus, dos santos interventores (os eternos intermediários parasitas), e na vida além túmulo, é fábula, é paranoia, é estupidez e ignorância nata, debilidade mental… ou fé!…

Mas também pode ser poesia!…
Deus é uma criação humana. De Deus apenas existe o conceito voando dentro da cabeça do crente. Fora da cabeça das pessoas religiosas não há Deus em lado algum. Não existindo Deus, os homens criaram a paranoia de falarem por ele, com a mesma convicção de uma criança que brinca aos supermercados, cobrando pelos artigos que vende, sem possuir artigos, nem caixa registadora, nem clientes.
E depois, aqueles que brincam às religiões e às ladainhas, fazem do acto de brincar aos deuses a coisa mais importante do mundo! Mas pior do que isso é quererem impor a sua brincadeira a toda a comunidade, convictos de que é verdadeira a ideia de Deus fora das
suas cabeças, e que não há no mundo nada que se lhe compare em termos de seriedade e importância!…

É obra!?…
Querem fazer-nos crer que a divindade não só existe, como nos criou, nos protege, nos guia, nos controla, nos espia, nos premeia, nos castiga… e que todos nós estamos obrigados a crer fervorosamente nestas tretas!

E zangam-se connosco se recusarmos acreditar nessas patranhas! Inclusive, apelidam-nos de “odiosos” (mesmo sem nos conhecerem pessoalmente para poderem aquilatar do nosso amor ou do nosso ódio, o que me leva a supor que nos medem pelos suas próprias escalas e estaturas mentais) só porque não dizemos ámen com eles!

Continua a ser obra!…
Pior ainda: os fundamentalistas islâmicos, quando zangados, degolam excelentes cidadãos por isso mesmo… e assassinam, através de actos terroristas, gente anónima, animados pela convicção de as vítimas serem “infiéis”, e que Deus quer vê-las mortas!…
Terrorismo e demência em nome do bom Deus!
Disto que acabei de dizer, não tenho estatísticas.
Apenas tenho raciocínio. Serve?!…