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3 de Agosto, 2012 Luís Grave Rodrigues

Apocalipse

2 de Agosto, 2012 Ludwig Krippahl

A fé.

O Nuno Gaspar perguntou-me, com o seu jeito cristão gentil e educado, o que eu queria dizer quando afirmei que a fé «É uma meta-convicção, uma convicção no dever de estar convicto de algo» (1). Ora aqui vai.

O termo “fé” inclui várias coisas como crença, confiança, fidelidade, esperança e perseverança, que não são exclusivas daquilo que as religiões chamam fé. Não é preciso ter fé, nesse sentido religioso, para acreditar que o Sol é uma estrela, para confiar num amigo ou lhe ser fiel, para ter esperança que o PSD saia do governo ou para perseverar naquilo que se considera importante. O que caracteriza a fé, como os religiosos a entendem, é a crença de que certas crenças acerca dos factos têm valor por si. É uma meta-crença peculiar.

Não é peculiar só por ser meta-crença. No que toca aos valores, a crença no valor da crença é comum, e até esperada. Por exemplo, se eu acredito que ajudar os outros é uma virtude, é de esperar que também acredite que essa crença é uma virtude. Julgarei ter um defeito de personalidade alguém que acreditar que nunca se deve ajudar os outros, independentemente de os ajudar ou não. Em matéria de valores, as próprias crenças têm valor, bem como as crenças no valor das crenças e assim por diante.

No entanto, apesar de isto fazer sentido com valores é absurdo com os factos. Acreditar que o Sol é uma estrela não é uma virtude, só por si. É uma boa crença, assumindo que é verdade, mas se fosse falsa seria de rejeitar. A diferença é evidente quando consideramos uma situação que ponha em causa uma crença. Em questões de valor podemos ter um dilema constrangedor. Por exemplo, se só com uma tortura terrível é que podemos obrigar o terrorista a dizer onde escondeu a bomba antes que expluda, temos de escolher entre a crença de que é sempre mau torturar e a crença de que é sempre bom salvar vidas. Mas isto é constrangedor precisamente porque é uma escolha. Em matérias de facto as coisas são como são, e resta-nos apenas ajustar as nossas crenças ao que as evidências indicam. Descobrirmos que o Sol, afinal, não é uma estrela, seria surpreendente, seria uma revolução na ciência, mas não haveria razão para dilemas ou constrangimentos. Se as evidências mostrassem claramente que o Sol não era uma estrela o sensato seria mudar de crença e pronto.

O aspecto mais característico da fé é o valor que dá a certas crenças acerca de factos, como se fossem acerca de valores. Para a maioria das pessoas, encontrar evidências de que a Terra é mais antiga do que julgavam leva simplesmente a mudarem de crença. Para um fundamentalista evangélico não é assim, e evidências de que a Terra surgiu há muitos milhões de anos em vez de poucos milhares é fonte de um grande constrangimento porque a sua fé religiosa inclui a convicção de que deve acreditar numa Terra recente. Se acreditar que a Terra tem milhares de milhões de anos de idade está a ser infiel à sua religião.

É por isto que a fé é intrinsecamente contrária à razão e à ciência. Racionalmente, uma crença acerca da realidade só tem valor na medida em que corresponder aos aspectos da realidade que refere. E, epistemicamente, o valor de uma crença depende também da justificação objectiva para concluir que há tal correspondência. Por isso, a atitude correcta é estar disposto a mudar de crenças acerca dos factos sempre que as evidências o justificarem, sem problemas de consciência ou dilemas morais. A fé rejeita essa atitude de imparcialidade atribuindo a certas crenças acerca de factos um valor – até mesmo um dever moral – maior ainda do que o valor dado às evidências. Quem acredita por fé não precisa de evidências que suportem a sua crença nem liga a evidências que a refutem. Porque está convicto do dever de acreditar assim.

«Ora a fé é garantia das coisas que se esperam e certeza daquelas que não se vêem.» Carta aos Hebreus, 11-1.

1- Comentários em Treta da semana: o que eles querem sei eu.

Em simultâneo no Que Treta!

2 de Agosto, 2012 Carlos Esperança

Jesus abandonou a cruz e o altar (crónica pia)

Um dia o enorme crucifixo da velha igrejaganhou vida. Genufletida a seus pés uma beata atacava a quarta salve-rainha  enquanto, do lado direito, um pouco atrás, antes do transepto, outra beata debitava padre-nossos junto ao altar da Virgem Maria. É assim a força do hábito. Trocam-se as orações e os pedidos sem reclamação dos ícones nem reparo dos mendicantes. Ao mesmo tempo o padre vociferava latim e dizia a missa.

O senhor Jesus já por ali andava dependurado, há uns séculos, a suportar a crueza dos espinhos e o mau aspeto das chagas que nunca mais saravam. Enegreceu com o fumo das velas, suportou os odores de quem cuida melhor a higiene da alma do que a do corpo, ouviu gente em desespero e pedidos de vingança de almas danadas que lhe solicitavam o infortúnio dos inimigos.

Conheceu centenas de padres e numerosos bispos a quem nunca fez reparo pelo latim periclitante, a pobreza das homilias e a riqueza dos paramentos. Ouviu confissões eróticas sem mover a tanga, safadezas incríveis sem se ruborizar, misérias de vidas e vidas de miséria, sem um suspiro, um grito ou um vómito. A tudo o senhor Jesus se habituou, até às versões diferentes a respeito da sua própria vida.

Ouviu um bispo irado a condenar os jacobinos, outro a  amaldiçoar os judeus, e, todos, conforme as épocas, a execrar a Revolução Francesa, a república, o laicismo, a apostasia, a blasfémia e o preservativo.

A tudo o senhor Jesus assistiu, em silêncio, no bronze em que o esculpiram. Até um dia. Até ao dia em que o padre apostrofou os incréus que se afastavam do culto, faltavam à santa missa e se furtavam à eucaristia; admoestou as donzelas impacientes que não esperaram pelo casamento; ameaçou os casais que substituíam a castidade pelo preservativo e contrariavam os desígnios de Deus quanto aos filhos. Jesus despertou no preciso momento em que o oficiante explicava que naquelas rodelas de pão ázimo ia ele próprio, em corpo e sangue, pousar nas línguas ávidas de quem guardara jejum desde ameia-noite,bem confessado, melhor arrependido e excelentemente penitenciado.

Foi então que arrancou os cravos, deu um piparote na coroa de espinhos, abandonou a cruz e esgueirou-se por entre os devotos sem ninguém notar, nem a beata das salve-rainhas, nem o padre que administrava a partícula, nem os comungantes habituados a fechar os olhos. Ninguém reparou que no seu lugar ficou apenas um sinal mais em raiz de nogueira, com quatrocentos anos, aliviado do peso do freguês.

Jesus esgueirou-se pela porta principal e não mais foi visto.

1 de Agosto, 2012 Carlos Esperança

RESPOSTA DEFINITIVA AO CÍNICO

Por

ONOFRE VARELA

Não costumo responder a provocações, e é a primeira (e espero ser a única) vez que o faço publicamente.
Numa atitude de correcção e honestidade, decidi responder à observação do Cínico, relativamente à falta da fonte das estatísticas onde colhi a informação de cuja veracidade ele desconfiou (e reivindicou), e fi-lo convicto de estar a lidar com uma pessoa de bem.

Porém, pela sua reacção, apercebi-me do real nível intelectual do animal, o que me merece este comentário definitivo:
Diz o Cínico: “Não tenho por hábito ler a edição on line do El País (…)”.
Eu direi que ele não tem por hábito… ler!
Se me pediu as fontes, mesmo que não tenha o hábito de as ler, neste caso obrigava-se a fazê-lo… ou então não as reivindicava! É uma questão de honestidade intelectual. Sabe o que isso é?

Apercebi-me de que o seu raciocínio se fica pelo que “julga ter aprendido” na catequese, na tenra idade dos oito aninhos, e jamais evoluiu (quiçá, jamais pensou), caso contrário não comparava Ciência com Mitologia das Religiões.
É o problema dos fundamentalistas religiosos: não pensam para além do insidiosamente escrito nos catecismos concebidos para fomentarem a ignorância que alimenta as igrejas, e lêem o catecismo convencidos de estarem a ler a mais completa das enciclopédias!

Este Cínico é um caso perdido, e devia mudar de pseudónimo por respeito aos verdadeiros Cínicos.
Como demonstra não ter capacidades intelectuais para isso, atrevo-me a sugerir-lhe o pseudónimo “merdoso” porque reflecte verdadeiramente o teor do seu discurso, do seu pensamento e das suas convicções.

Ao ter-lhe respondido fico com a desagradável sensação de ter dado pérolas a porcos, o que é um desperdício nos tempos de contenção que atravessamos!…
Acusa-me, o merdoso, de eu não ler os livros que ele lê.
Informo-o que tenho 70 anos de vida, que leio desde os sete anos, e que a minha biblioteca é composta por cerca de dez mil livros, que um quarto deles são sobre religião, e que estão todos lidos, estudados e sublinhados.
Já li mais livros sobre Religião do que alguma vez o merdoso lerá (dando por barato que o merdoso lê!).

Um ateu não é um insultador de religiosos, como alguns religiosos (só alguns, e entre os quais está o merdoso) são insultadores dos ateus.
Um ateu, só é ateu, porque lê livros de religião, porque assiste a missas e porque raciocina… o que é coisa (raciocinar) que os merdosos não fazem.
Só por ter esta prática de leitor, de assistente de missas, de observador do mundo e por raciocinar, é que sou ateu.
E respeito todos os religiosos porque percebo as suas motivações. Aprendi-as nos mesmos livros.
Livros que li com espirito isento e mente aberta, o que é coisa naturalmente interdita aos merdosos que teimam em ser um substracto foleiro da espécie Homo, antes do salto evolutivo para Sapiens Sapiens.
Aliás, os religiosos não pertencem à espécie Homo Sapiens.
Estão dispensados da condição de primatas e do processo evolutivo, porque eles não evoluem.
Eles foram feitos em barro como em Barcelos se fazem os galos e nas Caldas os caralhos!
Secaram, empederniram, e assim ficaram.

Respeito e percebo os religiosos, ao contrário de alguns religiosos que não respeitam os ateus nem se respeitam a si próprios, com as atitudes que tomam com o único fito de insultarem os ateus.
Perceber as cavalgaduras, que ainda por cima são merdosos, é que me é mais difícil. Mas a esses não tenho que perceber nem respeitar. Daí me permitir arremessar-lhes com as mesmas palavras que me arremessam.

Tenho amigos sacerdotes católicos que me respeitam exactamente como eu os respeito, e compreendem os meus pontos de vista porque não são merdosos. Temos conversas civilizadas no respeito mútuo das ideias de cada um, o que é coisa que o merdoso desconhece, não sabe, nem nunca saberá, porque não tem intelecto para isso, como merdoso que é.

Fico com pena de lhe ter respondido, mas fi-lo na convicção de estar a lidar com gente decente, o que, constatei pela sua resposta, não é. E tenho pena! Não por mim, mas por si, pois não é capaz de raciocinar para além do conteúdo do chip que lhe foi implantado naquele sítio onde os comuns mortais (a maioria dos ateus, e muitos religiosos) têm o cérebro, mas onde uns tantos merdosos têm os intestinos.

Diário de uns Ateus – Onofre Varela é escritor, jornalista, cartoonista, actor e homem de cultura. Personalidade bem conhecida no Porto é um respeitável e respeitado livre-pensador a quem o ateísmo deve muito, em Portugal.

1 de Agosto, 2012 Carlos Esperança

Como vender um produto fora de prazo

 

Vaticano: Diálogo da Igreja com não-crentes vai ser primeira iniciativa associada ao Ano da Fé

A neutralidade segundo S. Ratzinger

A realização de um encontro entre crentes e não crentes em Assis, Itália, no dia 6 de outubro, vai ser a primeira iniciativa associada ao Ano da Fé, revela hoje o jornal do Vaticano, L’Osservatore Romano.

“Deus, este desconhecido” é o tema da sessão do “Átrio dos Gentios” na cidade onde nasceu São Francisco (1182-1226), iniciativa que antecipa a abertura oficial do Ano da Fé, que decorre entre 11 de outubro e 24 de novembro de 2013.

 

1 de Agosto, 2012 Carlos Esperança

Deus é a mais desafortunada invenção humana

Os homens, à força de ouvirem que Deus existe, tornam-se crentes e, à medida que o repetem a si próprios, fazem-se beatos.

Deus é uma infeliz criação, difícil de aperfeiçoar. Enquanto as máquinas se melhoram, a partir da dúvida de que nunca são suficientemente perfeitas, Deus só pode piorar porque os clérigos garantem que é infinitamente bom e não admitem a discussão.

Com tal mercadoria minam-se as bases da civilização, perturba-se a paz, impede-se a solidariedade humana.

Deus não é apenas uma criatura pior do que o seu criador – o Homem –, e um troglodita incapaz de se regenerar, é o princípio do mal, o acicate de todos os ódios e crueldades.

Na base do racismo e da xenofobia está Deus na sua despótica inexistência, no seu primitivismo demente, um ser misógino e delinquente, manejado pelos fios invisíveis, tecidos pelas religiões, através dos prestidigitadores profissionais – os clérigos.

Deus e o Diabo são irmãos gémeos, filhos do medo dos homens e explorados em benefício do clero.

As peregrinações são atos de insensatez coletiva em direção a locais onde os homens inventaram marcas de Deus, centros de exploração da fé e da superstição, locais de recetação onde se esbulham os crentes para maior glória dos parasitas de Deus.

Se Deus existisse, os crentes ficariam satisfeitos por serem os únicos com direito a uma assoalhada no Céu e para gozarem o ócio eterno na companhia da fauna celeste. Assim, vivem cheios de azedume, envergonhados da sua estultícia, ávidos de converter outros aos seus próprios erros e fazer deles infelizes, à sua semelhança.

Um mundo sem Deus, ou mesmo com muitos, seria certamente mais pacífico, mas a loucura das religiões monoteístas querem fazer do Planeta um antro de fanáticos e do Deus único, uma perigosa quimera que ensandece os homens, os assusta e imbeciliza.

Deus é um déspota imprevisível com lacaios que não o discutem nem o deixam discutir.

 

31 de Julho, 2012 José Moreira

Farinha do mesmo saco

Se nós dermos uma vista de olhos pelas doutrinas religiosas, não nos é difícil verificar que, com ligeiras variações, todas acabam por vender o mesmo tipo de produto. E nem sequer vale a pena estarmos a dissecar que tipo de produto vendem: nada que preste.

No entanto, numa questão todas são unânimes: a mulher está abaixo de cão.

Desta vez, foi um rabino que explicou qual o lugar que compete à mulher. Mas não se limitou a afirmar, explicou as razões da sua afirmação.

Foi um rabino. Mas poderia ter sido um “mullah”, ou um bispo. A farinha sai toda do mesmo saco.

 

31 de Julho, 2012 Carlos Esperança

Os milagres do santo

Disponho de vários quartos de hóspedes. Um sábado à tarde, chegaram alguns para assistir a uma festa na minha aldeia e pediram-me que os deixasse tomar o pequeno-almoço o mais tarde possível no dia seguinte.

Ler o que o defunto ainda faz, depois de ter sido um fascista em vida, neste depoimento.

31 de Julho, 2012 Luís Grave Rodrigues

Citações