A Igreja católica goza de privilégios incompatíveis com a laicidade a que o Estado está obrigado. Há situações bem piores, e trágicas, onde as teocracias se mantêm instaladas, mas isso não exonera o Estado português da obrigação de defender a igualdade entre os cidadãos e de se declarar incompetente em questões de fé.
A ausência de sentido de Estado e de respeito pela Constituição permitiu ao atual PR ter sido presidente da Comissão de Honra da canonização de Nun’Álvares Pereira, a cuja intercessão se deve a cura do olho esquerdo de uma cozinheira que o queimou com óleo fervente de fritar peixe. Não descubro como o economista de Boliqueime soube que foi D. Nuno e não Afonso Costa, por exemplo, o autor do milagre.
É um abuso de qualquer religião a interferência na esfera pública, tal como a ingerência do Estado nas religiões.
A neutralidade do Estado é condição sine qua non para evitar conflitos religiosos. A própria Espanha, onde a Igreja conta com um Governo amigo do peito e da hóstia, já se encontra em litígio por causa das leis da família. O cardeal Rouco deseja o regresso ao franquismo e Rajoy pretende manter um módico de sentido de Estado.
Sabemos o que custou à Europa a liberdade religiosa. Só após a Guerra dos 30 Anos, graças à paz de Vestefália, foi possível viver sem acreditar ou crer de forma diferente do Papa. A Igreja católica só aceitou a liberdade religiosa durante o concílio Vaticano II, reconhecimento que Bento XVI aceitou com azedume e ranger de dentes antes da sua jubilação. Do papa Francisco ainda não conhecemos as intenções.
Não se percebe que em época de contenção salarial o Estado português continue a pagar o ensino religioso em escolas oficiais, a professores livremente nomeados e exonerados pelo bispo da diocese, ou a subsidiar escolas religiosas onde a coeducação é proibida e as leis da família, votadas livremente pelos portugueses, combatidas pelo proselitismo beato de quem cumpre a vontade divina sem prescindir da remuneração profana.
Em época de austeridade que sentido faz ter duas embaixadas em Roma, uma para Itália e outra para o vaticano, esta última certamente para proceder ao intercâmbio de bênçãos e de óbolos gerados em Fátima.
Invocar a tradição é apelar à traição. Só a laicidade garante a liberdade religiosa.
«O Estado também não pode ser ateu, deísta, livre-pensador; e não pode ser, pelo mesmo motivo porque não tem o direito de ser católico, protestante, budista. O Estado tem de ser céptico, ou melhor dizendo indiferentista» Sampaio Bruno, in «A Questão religiosa» (1907).
Milhares de sacerdotes na Europa e nos Estados Unidos se uniram a uma chamada à “desobediência” de hierarquia, o que não veem como heresia, mas uma advertência: se o papa Francisco não realizar a modernização da Igreja, os católicos, decepcionados, abandonarão a religião em massa.
Sou ateu porque não há a mais leve suspeita nem o menor indício de que Deus exista ou tenha feito alguma vez prova de vida.
Sou ateu porque duvido das afirmações sem provas e das palavras criadas e decifradas pelos que vivem à custa de um ser imaginário e fanatizam crianças desde o nascimento; porque confio na igualdade dos géneros e repudio a herança misógina herdada das tribos patriarcais que criaram Deus como explicação por defeito de todas as dúvidas e medos que os habitavam; porque repudio a explicação contraditória de um ser inventado que, sendo omnipotente não consegue, sequer, parar o sangue derramado em seu nome.
Ser ateu é a opção filosófica de quem se assume responsável pelos seus atos e forma de viver, de quem respeita a vida – a sua e a dos outros –, de quem cultiva a razão e confia na ciência para elaborar modelos de racionalidade, sem necessidade de recorrer a um ser hipotético ou à esperança de outra vida para além da morte.
Ser ateu é descrer de verdades únicas e transcendentes, de um deus violento e vingativo, de uma casta que vive à custa das mentiras que os constrangimentos sociais e os hábitos de séculos transformaram em verdades.
Ser ateu é repudiar os manuais terroristas que os funcionários de Deus lhe atribuem e substituir as superstições tribais da Idade do Bronze pela herança do Iluminismo; é preferir os trinta artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos a quaisquer versículos dos livros sagrados e repudiar os sacrifícios exigidos pela perversão do clero.
Ser ateu é confiar na ciência e na sua capacidade para compreender o que não se sabe e eliminar os medos que oprimem os simples e aterrorizam os crédulos. É entender que há uma vida, única e irrepetível, que vale a pena viver sem angústias inúteis pela esperança de outro mundo, criado na infância do conhecimento e no apogeu da violência.
Ser ateu é rejeitar o júbilo divino com o sofrimento humano e evitar que a alegada fúria de um ser imaginário se converta no ódio irracional que dilacera os que acreditam em mentiras diferentes a seu respeito.
Ser ateu é, finalmente, respeitar todos os crentes, descrentes e anti crentes, enjeitar o proselitismo e combater as superstições e as crenças detonadoras do ódio e das guerras.
ROMA — O Vaticano teria minimizado os relatórios sobre as mortes provocadas pelo ditador chileno Augusto Pinochet após o golpe de 1973 e manifestou sua compreensão e tolerância pelo derramamento de sangue depois do golpe de Estado no Chile, segundo revelações feitas pelo Wikileaks nesta segunda-feira.
“Como é natural, infelizmente, após um golpe de Estado é preciso admitir que houve derramamento de sangue nas operações de limpeza no Chile”, afirmou na época o monsenhor Giovanni Benelli, substituto da Secretaria de Estado, segundo os documentos consultados pela internet na página do Wikileaks e parcialmente divulgados pela revista italiana L’Espresso e pelo jornal La Repubblica, entre os meios de comunicação que assinaram a exclusiva.
Havia muito que S. Victor ouvia as preces dos devotos e as deferia na medida das suas disponibilidades, de acordo com a modéstia dos mendicantes. Afeiçoaram-se os créus ao taumaturgo e este aos paroquianos que o fizeram patrono da maior paróquia da Arquidiocese de Braga.
No ano de 2004 foi retirado do «Martirológio» – o rol da Igreja católica que arrola todos os santos e beatos declarados desde o início da ICAR. O argumento é pouco persuasivo e deveras injusto. Não se retira do catálogo um santo por ser apenas uma lenda. Que o tenham feito a S. Guinefort, cão e mártir injustamente morto pelo dono, aceita-se porque a santidade não se estende aos animais domésticos. Duas mulas, que o rudimentar conhecimento do grego pelos padres confundiu com duas piedosas mulheres, aceita-se que fossem apeadas dos altares, que não são feitos para solípedes.
Mas um santo com provas dadas, clientela segura, devoção fiel, é uma maldade que não se faz aos pios fregueses, tementes a Deus e cumpridores dos Mandamentos. O padre Sérgio Torres afirmou ao «Correio do Minho» que os paroquianos «reagiram com desagrado e muita surpresa». Não lhe permitiu o múnus e a educação dizer que foi uma patifaria do Vaticano. O séc. IV, em que o jovem Victor foi condenado à morte por se recusar a participar numa cerimónia pagã, segundo a tradição, agora desmentida, foi há tanto tempo! Que importa uma pequena mentira numa religião que vive das grandes?
E agora? Que fazer? Arrancam-se os azulejos que documentam a mentira? Transfere-se a devoção para os santos criados por PP2 e B16, alguns tão pouco recomendáveis e tão detestáveis, apenas com a sorte de terem dois milagres no currículo?
O presidente da Junta de Freguesia de São Victor, Firmino Marques, embora revelando “algum desconforto”, justificou a retirada do orago do calendário litúrgico «somente pelos critérios científicos usados atualmente para a proclamação dos santos e beatos da Igreja Católica». Este autarca é um admirador confesso da ciência.
Hoje, 13 de Abril de 2013, faria anos, se ainda fosse vivo, um dos maiores e mais importantes intelectuais das últimas décadas, Christopher Hitchens.
Ateu orgulhoso e antiteísta sempre que as circunstâncias o exigiram, foi um temível orador que enfrentou e humilhou intelectualmente todos os prosélitos de crenças, mitos e superstições, inteligentemente alheio a ameaças, à desonestidade intelectiva e ao mais puro ódio, que só o fanatismo de quem adora um Deus criador de tudo mas impotente para resolver as questões mundanas da espécie humana pode atear.
Descobri-o um pouco tarde. As vicissitudes da vida levam-nos a empenhar os recursos disponíveis em várias frentes de combate. Mas, do muito que aprendi com ele em tão curto tempo, só tenho a agradecer.
No imaginário dos crentes existe uma vida para além da morte, onde nos reuniremos com os nossos antepassados. Quer a balança do julgamento final ceda para um ou outro lado, encontraremos sempre alguém. Como ateu, sei que serei apenas uma insignificante mas importante parte do rejuvenescimento da natureza. E sou feliz assim. E sei também que, de certa forma, todos somos imortais. Enquanto vivermos na memória de todos os que nos amam, seremos sempre vivos. Nada mais existe, nada mais importa e nada é mais belo.
Parabéns, Christopher. Porque continuas vivo.
Reig Plá considera que o marxismo e as ideologias liberais vão destruir as “bases que possibilitam a vida humana”
Crê que Espanha está “perante uma verdadeira sociedade doente e uma cultura da morte”
Do novo Papa esperam-se mudanças, muitas no interior do governo da Igreja, a Cúria Romana. Antes de se conhecerem os seus nomeados para os principais cargos, como a secretaria de Estado, Francisco criou um comité de oito cardeais para o aconselharem nas desejadas reformas no Vaticano.
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A correspondência, que retrata uma Cúria podre e entregue às lutas de poder de grupos adversários, tem muitos protagonistas, mas Bertone é figura central. Para além do funcionamento interno da Igreja, espera-se que Francisco imponha mudanças radicais no Instituto para as Obras da Religião (o banco do Vaticano), cujas transacções foram bloqueadas pelo Banco de Itália por falta de respeito das normas que visam impedir que os bancos sejam usados para lavar dinheiro.
O Diário de uns ateus é o blogue de uma comunidade de ateus e ateias portugueses fundadores da Associação Ateísta Portuguesa. O primeiro domínio foi o ateismo.net, que deu origem ao Diário Ateísta, um dos primeiros blogues portugueses. Hoje, este é um espaço de divulgação de opinião e comentário pessoal daqueles que aqui colaboram. Todos os textos publicados neste espaço são da exclusiva responsabilidade dos autores e não representam necessariamente as posições da Associação Ateísta Portuguesa.