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12 de Junho, 2013 Carlos Esperança

A gula da Igreja e as intenções pias do tribunal

Por

A. Horta Pinto (advogado)

“CASO DOS CTT” – UM PONTO CONTESTÁVEL DA DECISÃO

Foi ontem conhecida a decisão do Tribunal de Coimbra sobre o chamado “caso dos CTT”.

Um dos arguidos – pelo menos – foi condenado em pena de prisão cuja execução ficou suspensa, ficando essa suspensão subordinada ao cumprimento do dever de entregar a duas instituições de solidariedade social uma contribuição monetária de determinado valor. Tal subordinação é inquestionavelmente permitida pelo disposto nos artigos 50 e 51 do Código Penal.

O que já é contestável é a escolha feita pelo Tribunal das instituições beneficiárias dessa contribuição monetária: a “Casa de Formação Cristã da Rainha Santa Isabel” e a “Obra do Frei Gil”. Não se duvida de que ambas se dedicam também a obras caritativas. Mas a verdade é que a primeira, como o seu nome indica, tem como principal objetivo “a formação cristã” (leia-se “católica”). Quanto à segunda, informa o “Google” que um dos seus fins é “proteger a família, zelando pelo culto dos padroeiros da Ordem Dominicana”.

Não se compreende que, sendo Portugal um Estado laico, um órgão de soberania obrigue um cidadão a subsidiar a “formação cristã” e o “culto dos padroeiros da Ordem Dominicana”.

12 de Junho, 2013 Carlos Esperança

A “REFORMA” DA IGREJA E O PAPA CHICO

Por

João Pedro Moura
1- O papa reconheceu que a reforma da cúria eclesiástica é um projeto “difícil”; “Fala-se de lobby gay, e é verdade, ele existe”; “Não posso fazer eu a reforma”, continuou o chefe da Igreja Católica, que se confessou “desorganizado”, durante uma reunião, a 06 de junho, com responsáveis da Confederação latino-americana e das Caraíbas dos religiosos e religiosas (CLAR).

Logo de início, temos 2 comentários a fazer:
a) O papa reconhecer que há corrupção e um “lobby gay”, na cúria romana e, necessariamente, por extrapolação, em toda a Igreja, é uma coisa desconcertante.

b) O papa reconhecer que não pode, ele, fazer a reforma, mesmo que por interposta comissão, é duplamente desconcertante.

2- Porque, se o papa discerniu corrupção e homossexualismo em estruturas da Igreja, das quatro, uma:
– Ou ele quer eliminar isso, mas não pode… sendo impotente…
– Ou pode, mas não quer… sendo perverso…
– Ou não pode nem quer… sendo impotente e perverso…
– Ou pode e quer eliminar esses “males”… sendo determinado…

3- Dizer que é “difícil” e que não consegue fazer a reforma, é admitir a sua incapacidade e, inerentemente, uma certa condescendência, que, a seu tempo, irá demonstrar se ele apenas estranha ou… entranha…
O que não pode é sustentar, ela, a Igreja e o seu papa, doutrinariamente, que o homossexualismo é uma “grave desordem”, um pecado mortal, condenado pela Igreja, e deixá-lo grassar nas suas estruturas…
É uma contradição, uma incongruência!

4- Se um médico diagnostica um mal, vai seguidamente propor uma terapia, que pode ser uma cirurgia…
E quem diz um médico, diz um político ou qualquer outro agente social que se propõe combater “males” e preservar ou fomentar o “bem”.

5- Desde o início que este papa me pareceu mole e contemporizador…
… Agora, com estas afirmações de impotência e desconcerto, indignas dum alto cargo diretivo, mais reforço esta ideia dum papa ineficaz, em termos de agente transformador de estatuto disciplinar e doutrinário…

6- O chico-desperto do Bergoglio parece-me mais uma criatura afável e “despertada” para o populismo vulgar, de mais fácil e prazenteiro contacto público do que o “panzerpapa” B16, endurecido pela doutrina e pelo imobilismo ancestral, mas ferrugento na balística, ou o casmurro JP2, perambulador pertinaz e mundial, mas santarrão colecionador e preservador do núcleo duro e misterioso da ICAR…

7- Mais me convenço da minha tese, aparentemente extravagante, de que a Igreja foi tomada, “in illo tempore”, por um grupo de homossexuais, a começar pelo verdadeiro fundador do cristianismo, Paulo de Tarso, que, para preservar o seu (deles, grupo…) homossexualismo e a misoginia congénita e inerente daqueles tempos, erigiram uma delicada associação (igreja…), que conseguiu impor, a muito custo, o celibato, em nome de estranhos valores “espirituais”, celibato esse que era a única forma de eles próprios não só se preservarem, pois que o meio era altamente hostil à homossexualidade, mas também conseguirem juntar as riquezas de heranças dos seus aderentes profissionais, visto que estes não poderiam legá-las a seus filhos, pois que tais homossexuais não teriam filhos, normalmente nem oficialmente.
E tudo isto teve por base inicial, enquanto estrutura de poder, a aliança com o império romano, uma aliança eficaz entre o desejo de transcendente das massas e o desejo de domínio político sobre as mesmas.
Aliança essa que perdurou, muito eficazmente, ao longo dos séculos, com os diversos poderes imperiais e monárquicos, e entranhando a fundo no imaginário popular…

8- Só que as conceções religiosas não atraem só homossexuais e outras criaturas com estranhas e desvairadas conceções de castidade e sexualidade, mas conseguiram edificar uma estrutura, que tem atravessado milénios, em bom estado, mesmo que em (suave) decadência, pois que tais conceções “respondem” e vão “respondendo” aos anseios populares do transcendente e do apaziguamento de angústias e medos…

 

11 de Junho, 2013 Carlos Esperança

A Cúria não tem cura

O papa reconheceu a dificuldade da reforma da cúria romana ao referir-se a uma «corrente de corrupção» e à existência de um lobby gay durante um encontro com religiosos latino-americanos, noticia hoje a agência I.Media.

A reforma da cúria, o Governo da Igreja católica, defendida por “quase todos os cardeais” nas reuniões preparatórias do último conclave, é um projeto “difícil”, reconheceu o papa numa reunião, a 06 de junho, com responsáveis da Confederação latino-americana e das Caraíbas dos religiosos e religiosas (CLAR).

Nota: Este Papa não anda cá muito tempo.

10 de Junho, 2013 José Moreira

Afinal, quem chegou primeiro?

Devidamente gamado ao Almeida Pereira, no Facebook, transcrevo uma deliciosa história:

 

Um engenhoso exemplo de oratória e política, ocorrido recentemente na ONU, fez sorrir a comunidade mundial lá presente:

O representante de Israel na ONU: “Antes de começar o meu discurso queria contar-lhes algo sobre Moisés (todos curiosos…):

Quando Moisés golpeou a rocha e dela saiu água, pensou “ que boa oportunidade para tomar um banho”.

Tirou a roupa, deixou-a junto da pedra e entrou na água. Quando acabou de tomar banho e quis vestir-se, a roupa tinha desaparecido!

Os palestinianos tinham-na roubado!!

O representante da Palestina levantou-se furioso e bradou: Que estupidez, nem existiam Palestinianos naquela época!!!

O representante de Israel sorriu e disse:

Muito bem, e agora que ficou claro quem chegou primeiro a este território e quem foram os invasores, posso começar meu discurso…

10 de Junho, 2013 David Ferreira

Até à eternidade

Sempre que leio um artigo de opinião do beato João César das Neves, a noite cai sobre mim. Um manto nevoento de obscurantismo escorre das paredes e desagua a meus pés, formando ao meu redor um pântano lodacento e nauseabundo a exalar um cheiro ominoso a lucidez estropiada. Nesse breve e eterno momento em que me deixo envolver espontaneamente na memória mofenta de fogueiras a carbonizar gritos desesperados e de cães enraivecidos em condicionada convulsão a espumar ignorância das gengivas apodrecidas a escorbuto e devoção, sinto nascer em mim uma força redobrada, uma vontade incontrolável de ser vulcão, de me cuspir com violência sobre os dejectos estupidificantes que os esgotos incontinentes da superstição e do proselitismo religioso evacuam sobre a razão.

João César das Neves é uma aberração mental. Um ser de inusitada e hermafrodita espiritualidade que fede a pergaminho carunchoso e a bolas de naftalina por cada poro de letra que escrevinha, em altaneira posição de submissão, entre um aperto de correia do cilício e uma chibatada no lombo macerado.

Diz o espécime que “desde o Iluminismo um punhado de ideologias tenta defender a tese ingénua de que a realidade se limita ao que vemos e tocamos”. E continua, referindo-se ao falhanço do ateísmo teórico, ao secularismo e ao materialismo que inundou a sociedade como causa dos nossos males, desenhando a sangue cerimonial pérolas da interpretação económica como: “Se o juízo divino não existe, os maus ganham sempre e este mundo não tem salvação. Quem vive só para o sucesso e prosperidade, na recessão perde a razão de viver. Quem apenas conta com a justiça humana assume vingança ou impunidade. Quem não tem a perspectiva da eternidade só pode ver uma crise financeira como o inferno.”

Critica quem se manifesta nas ruas veementemente contra a injustiça da tirania das elites endinheiradas, não percebendo que um grito de revolta não tem cotação na bolsa de valores, é uma catarse libertadora de quem não se permite à castração existencial, seja ela de origem ideológica, material ou metafísica. Confunde materialismo filosófico com a avidez de possuir bens, como se o segundo não fosse, porventura, apenas o resultado de uma patologia sociocultural, não tendo absolutamente nada a ver com o primeiro. Termina o economista com estilo e em apoteose, numa conclusão que não destoaria dos primitivos escritos bíblicos, onde alimenta a dependência e acalma o vício: “Alguns anos de aperto parecem muito pouco a quem se dirige à vida eterna. Sofrer na companhia de uma Providência benevolente, que acompanha amorosamente cada passo da nossa vida, permite afrontar sem medo os perigos mais assustadores. O testemunho dos mártires de todos os tempos é um consolo para quem apenas enfrenta falência ou desemprego. A certeza de que o Deus de amor terá a última palavra em todos os assuntos humanos liberta-nos de dúvidas ou temores. Da sua fé, o crente obtém a liberdade face aos acasos, a segurança nas tribulações e, acima de tudo, o bem mais raro nas crises financeiras, a esperança.”

João César das Neves é um crente inveterado, um cruzado moderno que a comunicação social parcial, abstrusa e politicamente correta patrocina desavergonhadamente. Acredita na vida após a morte. Não explica como será essa vida. Mas, como não é ingénuo como os ateus, tem a certeza que ela existe. A história faz-se de pessoas inteligentes como João César das Neves. Não da realidade, mas da interpretação que essas pessoas fazem dela. Basta ter poder, basta ter dinheiro. É com estas duas realidades que se constroem e cimentam as mentiras que a ilusão de uns determina como status quo para que os outros lhes satisfaçam as vontades e lhes apaziguem o medo, o medo do desconhecido, o pior dos medos, pelo sim pelo não.

Para o beato indefetível, a crise é uma bem-aventurança. O desespero que provoca deixa campo aberto para a espiritualidade, para a servidão e para as oferendas do pouco que sobra a bonecos de madeira e barro, ouro que a caridade pia da hierarquia católica derrete para oferendar ao seu Deus invisível e indiferente majestosas catedrais de adoração, quiçá mais umas quantas pistas de rastejamento a acrescentar ao joelhódromo da Nossa Senhora da Inocência.

A caridade torna-se então mais que uma necessidade, uma inevitabilidade. É desta virtude que se alimentam os parasitas sociais; os que falam em nome da fome sem lhe saber o gosto; os que falam nos valores da família mas cuja cobardia moral os impede de apontar o dedo aos amigos da mesma cor que, nos bastidores das elites, tomam opções políticas e económicas que irão contribuir para desmembrar essas mesmas famílias, as famílias dos outros; os que querem atribuir culpas à sociedade pela pandemia que eles próprios criaram em laboratório.

Para o esbirro de Escrivá, os problemas da humanidade apenas se resolvem sobre os joelhos, de mãos postas a adorar dois paus em cruz. Deus, esse ser que a imaginação pia confirma, não obstante toda a realidade não o demonstrar e muito menos certificar, entretanto, vai assistindo a tudo, impávido e sereno, enquanto querubins, seres imateriais mas luzentes como uma estrela a emitir fotões, se atarefam na construção do tribunal onde um dia o criador irá julgar todas as almas pelos pecados cometidos com que ele próprio os infetou à nascença.

O julgamento de Deus faz tanto sentido como a doutrina cristã. Os que introduzem a doença são os mesmos que incriminam os doentes por não serem sãos.

João César das Neves será, neste teatro surrealista onde rasteja a loucura credibilizada que publicita, uma alma privilegiada que atravessará a passadeira vermelha rumo à eternidade. O ter dado esmola a um pobre e não se ter coibido de ter feito alarde de tão caridoso e honroso ato num artigo de sua autoria, confere-lhe toda a credibilidade, que os Santos atestarão em consonância. Para todos os que vivem com os pés assentes na terra, é apenas um ser inferior a merecer escárnio, porque o seu discurso é um atentado à inteligência de todos os seres humanos, crentes ou não, tenham-na ou não; um economista transtornado, cujo estado avançado de insanidade o impede de ajuizar com clareza os verdadeiros “pecadores” apesar de conviver com eles todos os dias. Um verdadeiro religioso, então, como gosta de se auto-intitular.

Deus, um Deus qualquer, teria vergonha desta gente que o vende para obter lucro, mesmo que seja um lucro imaterial, metafísico. Um lucro narcisista até à eternidade.