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3 de Agosto, 2013 David Ferreira

APARIÇÃO

nesse mundo alucinado

descrito pela crendice

há um ser afeminado

que surge desesperado

a incentivar a doidice

 

se das cidades se aparta

é no ermo que fulgura

se ao douto não escreve carta

porque o delírio o enfarta

ao ignaro aduz a cura

 

e ei-lo que parte luzindo

esse ser hermafrodita

os olhos de luz ferindo

a quem anda desavindo

com sua própria desdita

 

com sussurros se escrevinha

do engano a inocência

traço a traço linha a linha

se  alicia e se adivinha

uma anuente audiência

 

cega-se o espírito ao pobre

com votos de salvação

nega-se o sossego ao nobre

e todo o logro se encobre

comerciando a absolvição

 

os olhos cegos de Sol

não vêem mais que clarões

são espelhos de um farol

com que se engoda o anzol

que naufraga em emoções

2 de Agosto, 2013 Carlos Esperança

A Virgem Maria_1

A Virgem Maria, farta das companhias e do Céu, onde subiu em corpo e alma, aborrecida do silêncio e da disciplina, cansada de quase vinte séculos de ociosidade e virtude, esgueira-se às vezes pela porta das traseiras e desce à Terra.

Traz a ladainha do costume, a promoção do terço de que é mensageira e ameaças aos inocentes. Poisa em árvores de pequeno porte, sobe aos montes de altitude moderada e atreve-se em grutas, pouco recomendáveis para a virgindade e o reumatismo, sempre com o objetivo de promover a fé e os bons costumes,  de abominar o comunismo e anatematizar os pecados do mundo.

A receita é sempre a mesma: rezar, rezar muito, rezar sempre, que, enquanto se reza não se peca. Não ajuda a humanidade mas beneficia o destino da alma e faz a profilaxia das perpétuas penas que aos infiéis são reservadas no Inferno.

Surpreende que, sendo tão vasto o mundo, a Virgem Maria só conheça os caminhos dos seus devotos e abandone os que adoram um Deus errado e desprezam o seu divino filho que veio ao mundo para salvar toda a gente.

Fica-se pela Europa, em zonas não contaminadas pela Reforma, aventura-se na América Latina, eventualmente visita a África e nunca mais voltou a Nazaré e àqueles sítios onde suportou os maus humores do seu divino filho e as desconfianças do marido. Ficando-lhe as viagens de graça, por não precisar de reabastecer o combustível, não se percebe que não volte aos sítios da infância, não vá em peregrinação ao Gólgota, não deambule pela Palestina e advirta aqueles chalados de que o bruto e ignorante Maomé é uma desgraça que se espalhou pela zona como outrora a peste, que a única e clara verdade é o mistério da Santíssima Trindade.

Por ter hora marcada ou para não se deixar seduzir pelas tentações do mundo, a virgem Maria regressa ao Céu, depois de exibir uns truques e arengar uns conselhos, sem dar tempo que alguém de são juízo a interrogue, lhe pergunte pela saúde do marido e do menino e lhe mande beijos para os anjos e abraços aos bem-aventurados.

Um dia a Virgem Maria, com mais tempo e autonomia de voo, encontra um ateu e fica à conversa. Há de arrepender-se dos sustos que prega, das mentiras que divulga e chegar à conclusão de que o terço faz mal às pessoas, estimula o ódio às outras religiões e agrava as tendinites aos fregueses.

1 de Agosto, 2013 Carlos Esperança

Vai ser precisa muita benzina

Banco do Vaticano lança site em ação de transparência

Presidente Ernst von Freyberg disse que site vai publicar relatório anual.
Instituto para Obras de Religião tem sido alvo de várias investigações.

O banco do Vaticano inaugurou nesta quarta-feira (31) uma página na internet, em mais uma tentativa de melhorar uma imagem manchada por uma sucessão de escândalos e críticas por falta de transparência.

30 de Julho, 2013 Carlos Esperança

O sexo, a hipocrisia e a ICAR

“Quem sou eu para julgar os gays?”, disse o Papa Francisco, na primeira conferência de imprensa na viagem de regresso ao Vaticano.

***
Esta interrogação do Papa católico, ainda que fosse um gesto estudado para limpar a face da sua Igreja, destinado a atenuar a erosão moral causada por sucessivos escândalos, não deixa de marcar uma diferença abissal com a tradição romana e o seu antecessor.

Bento 16, ressentido da longa repressão sexual, nutria pela sexualidade a animosidade e o constrangimento que caracteriza a ICAR. Negar o sacerdócio a homens com «tendências homossexuais profundamente enraizadas» era espantoso em quem reclamava a castidade
Bento 16 não conhecia o desejo. Jamais percorreu um corpo, saboreou uma boca ávida ou sentiu o afago; não descobriu no seminário um púbere adolescente ou um diácono curioso; não contemplou, na paróquia, o cio de uma catequista; não sentiu, na diocese, o assédio de um presbítero ou a languidez da freira que lhe engomava os paramentos.

A raiva às mulheres e o desvario perante opções sexuais minoritárias remete para uma adolescência em que o pecado solitário é a única fonte de prazer e vergonha, o coito uma obsessão reprimida e a ejaculação noturna se tornou um remorso com sabor a genocídio.

Se, em vez de orações e jejuns, amassem, os vetustos inquisidores gostariam do amor.

A pergunta do Papa Francisco, “Quem sou eu para julgar os gays?”, traz uma mudança capaz de aliviar a infelicidade e dissimulação a que, durante séculos, a Igreja condenou parte da humanidade. Finalmente parece existir um pensamento humano sob uma tiara.

É justo saudar a leve brisa que parece percorrer os soturnos corredores do Vaticano.
absoluta. Que interessava a orientação sexual se era vedada a atividade?

Para Bento XVI o paradigma de sacerdote era um ‘homem com tendências heterossexuais profundamente enraizadas e nunca experimentadas’. Não admira. A ICAR nega à mãe do seu Deus o êxtase de um orgasmo e ao marido a consumação do matrimónio. Até o Deus mais velho da trilogia quis reduzir a reprodução a um trabalho de olaria.

29 de Julho, 2013 Carlos Esperança

O papa Francisco defende a “laicidade do Estado”

O papa Francisco surpreendeu claramente ao defender o Estado secular: “a coexistência pacífica entre as diferentes religiões fica beneficiada pelo estado secular, que, sem assumir como própria, nenhuma posição confessional, respeita e valoriza a presença do fator religioso na sociedade “.

Como se conciliam tais palavras, que admito sinceras, com o que se passa em Portugal:

– Isenções de impostos de que beneficia a Igreja católica Apostólica Romana (ICAR);
– Pagamento pelo Estado dos capelães militares, hospitalares e prisionais;
– Existência de uma disciplina de EMRC;
– Contratação de professores da EMRC, livremente nomeados e exonerados por bispos;
– Presença de cavalos, músicos e militares nas procissões e em outros espetáculos pios;
– Profusão da iconografia católica nas paredes dos edifícios públicos;
– Presença de sotainas em cerimónias do Estado;
– Designação pia de hospitais quando não há uma só Igreja com nome de políticos;
– Com restrições orçamentais, uma embaixada exclusiva para o bairro do Vaticano;
– Etc., etc., etc..

29 de Julho, 2013 Carlos Esperança

A fé e a prudência

O pára-raios na Igreja
Serve para lembrar aos ateus
Que um cristão, por mais que o seja,
Não tem confiança em Deus!

António Aleixo

PARA-RAIOS NA IGREJA