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25 de Agosto, 2013 Carlos Esperança

A política, a religião e o totalitarismo

É mais fácil ser politicamente correto do que ser politicamente justo, sobretudo quando se atinge o limiar da demência e a apoteose do extermínio.

É ocioso invocar direitos humanos perante a matança síria ou quando os ataque sunitas ressuscitam o terror sectário no Líbano. É inútil falar de democracia quando equilíbrios geoestratégicos consentem a mais negra opressão da Coreia da Norte, neste caso, quiçá, por fanáticos que não rezam nem pensam no Paraíso.

Aliás, quando o ateísmo tolera a opressão, deixa de ser uma opção filosófica e passa a ser uma religião. É por isso que, como dizia Sampaio Bruno, in «A Questão religiosa» (1907): «O Estado também não pode ser ateu, deísta, livre-pensador; e não pode ser, pelo mesmo motivo porque não tem o direito de ser católico, protestante, budista. O Estado tem de ser cético, ou melhor dizendo indiferentista».

A conivência ou mera transigência dos Estados com a inclusão confessional tem efeitos devastadores sobre o pluralismo e abre caminho ao fim da democracia, quando vigora.

Não há um único país islâmico, quando jamais devia poder definir-se um país de forma confessional, onde a democracia exista. Da Arábia Saudita ao Paquistão, de Marrocos ao Egito, dentro do território da ex-URSS ou nas antigas colónias europeias, o ódio e a violência sectárias são o quotidiano de países onde à mulher se impõe a escravatura e a todos cinco orações diárias.

No Egito, na sequência de eleições democráticas, a violência era praticada pelo Estado e as proibições da sharia estavam em marcha. O golpe militar aboliu a democracia e não consegue proteger as minorias nem prescindir de uma violência igual à dos que apeou.

Os islamitas acusam os cristãos de apoiarem o golpe e têm razão, mas para os cristãos, rodeados do ódio sectário e do proselitismo dos Irmãos Muçulmanos, só existiam duas opções, morrerem a pronto ou a prestações.

Perplexo, revoltado e impotente, não tenho coragem para defender o golpe militar e mingua-me força anímica para o condenar.

24 de Agosto, 2013 Carlos Esperança

O Vaticano e a nova assessora

A comunicação social especula sobre os problemas do Vaticano com a nova assessora, jovem e bonita, Francesca Immacolata Chaouqui, por ter chamado gay a um ministro italiano e ter criticado o cardeal Tarcisio Bertone, sendo a primeira afirmação inócua e a outra conveniente.

O problema, para o Vaticano, reside na possibilidade desejável de a menina Immacolata trocar o substantivo próprio por um adjetivo precário.

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24 de Agosto, 2013 David Ferreira

Graças a Deus

A noite aborrecia. Aborrecia como aborrecem todas as noites que não sabemos como preencher com o que verdadeiramente somos o que os outros tanto preencheram de nós com o que verdadeiramente não são. Um grupo de amigos. Ou um grupo de colegas que se tornaram amigos devido a circunstâncias sazonais. Porque a amizade também se faz de, da ou para a oportunidade. Um grupo apenas, igual a tantos outros, reunido, a descomprimir a tensão acumulada de mais um intenso dia de trabalho. E ao redor de todos, bamboleante, alheado de tudo e ansiado por todos, um catártico e desenfreado baile de copos em intenso rodopio, a competirem com a lua, ora meios, ora cheios, mas nunca completamente vazios, a substituírem a noite estática. Como se não houvesse amanhã. Como se nós, os bailarinos, não quiséssemos de novo o Sol, fartos de luz, cansados do dia passado ou de nos sentirmos cansados do dia seguinte que sabíamos inevitável.

As línguas entaramelam-se com o bailarico de sílica espirituosa e a conversa começa a destoar da hipocrisia socialmente aceite como modo de sobrevivência para a libertação do individualismo reprimido do que seriamos sempre se fossemos sem bloqueios socioculturais.

– Estou farto destes cabrões! – atira um.

– Caga nisso. – diz um outro – Vamos é beber uns copos e curtir um pouco, que bem merecemos.

A terra é estranha. Tudo é estranho e diferente. Igual, mas diferente. O clima, a paisagem, o ritmo. As pessoas…ah, as pessoas… As pessoas, essas, são sempre iguais, independentemente do vestuário ou da linguagem. São apenas pessoas, envolvidas em panos que as protegem do clima ou de si próprias, adornando-as de um determinado status, a comunicarem por necessidade.

Antecipo um pé de dança, mas tropeço. Tenho pés de gesso e a gravidade dificulta-me a dança que a tenta contrariar.

– Graças a Deus que tudo correu bem! – a voz rouca atinge-me sem que a previsse, familiar mas incompreensível.

– Graças a nós! – brindo, a contrariar sem o pretender, a ser eu.

Silêncio breve.

– A nós! – alguém berra. E todos brindamos, como se fosse necessário.

E tudo esquecemos relembrando, celebrando. O amanhã será sempre mais reconfortante que o ontem, se o esperançarmos, e o hoje é o que fazemos dele sem pensar muito nisso.

O baile, entretanto, decorria como outro baile qualquer, tímido a princípio, logo decidido, finalizando introspetivo, como que a morrer aos poucos para dentro de nós, envenenado pelos aditivos sensoriais que sentimos necessários quando deixamos de conseguir sentir sempre que somos, quase inevitavelmente, o que os outros pretendem que sejamos, como se nós não fossemos também outros para os que não somos. O cansaço, contudo, haveria de nos deixar ser. Apenas ser.

– Tenho saudades de África… – desabafa o Pedro.

Olho para ele, sorrindo, à procura de um olhar. Um olhar que só reconheci espelhado no reflexo do copo meio vazio de lua-cheia que embalava entre os dedos, como se de uma máscara de oxigénio se tratasse.

– Eu também, sabes. – anui – Já lá vivi, em Angola, em Nova Lisboa, agora Huambo. Lembro-me de tudo como se tivesse sido ontem. Há algo de África que fica em nós e que não se consegue bem explicar…

Pedro sorri, em meia-lua. Compreende-me. Ambos viramos o mundo e o pior que a humanidade tinha para oferecer nos últimos anos. Em vários continentes. Em terras estranhas com pessoas iguais. E sabíamos.

– Deves ter comido poucas pretas enquanto lá estiveste, deves… – interjeiciona o que dera graças a Deus.

Pedro sorri, em quarto minguante. Roda o copo com os dedos como que a desfazer nele o luar que o seu olhar já não conseguia iluminar.

– Comi. Por acaso comi.

Os olhares direcionam-se para Pedro, mais rápidos que o raciocínio. Os lábios dilatam-se e os sorrisos antecipam o alarde coletivo.

– Conta lá! Conta lá!

– Sabes… – continua Pedro – Uma vez fui com uma. Tinha ido à discoteca e aconteceu. Saí com ela e fomos passear para a praia.

– E o que é que lhe fizeste?

– Pá, nada demais… – responde Pedro, ensimesmado – Eu já estava com os copos e ela também. Chupou-me apenas.

Os sorrisos replicam-se entre os olhares que a testosterona atraíra.

– Ganda maluco! E como é que foi? A tipa chupava bem?

Pedro sorri também, aparentemente contagiado, a camuflar o remorso na parvoíce alheia.

– Dizem que elas são quentes como o caraças! – ouve-se alguém.

Pedro pousa o copo, mais cheio de noite que de espirito.

– Sabes… – diz – as gajas de lá, as que andam ao ataque, chupam sempre até ao fim.

– Engolem tudo? Ah gandas malucas! Eu sempre disse, pá, as pretas são as mais quentes!

Os olhares cruzam-se a assentir a masculinidade e atiçam ainda mais a balburdia.

Pedro olha para mim enquanto as vozes do baile faziam e aconteciam e a noite bocejava enfastiada.

– Sabem porque é que elas chupam até ao fim? – dispara Pedro, sem fazer pontaria.

Os olhares silenciam subitamente, não suspeitando o motivo da interrogação.

– Porquê? – interrogam os mais curiosos.

– A miséria lá é muito grande, sabem. E como o esperma é nutritivo, é uma das formas que elas arranjam para matar a fome…

Silêncio súbito. Há fronteiras morais que nem a mais estupidificante carraspana se atreve a transpor.

– Este mundo é lixado. – ouve-se ao fundo, sumido.

O baile, entretanto, morrera, deixando a todos uma incómoda sensação de vazio.

– Graças a Deus, ao menos não vieste de lá com nenhuma dessas doenças esquisitas… – escuta-se, por entre o orvalho que começava a cair com abundancia.

Pedro olha para mim, de soslaio, e encara o agradecido.

– Sim, – diz – dêmos graças a Deus para que a fé que temos possa servir de salvação para uns e de muito alimento para outros…

E retirou-se da festa como se nunca tivesse sido convidado.

Para trás ficou-nos apenas a noite a envelhecer aos poucos os restos do que julgávamos ter sido até ali.

24 de Agosto, 2013 Carlos Esperança

Vaticano com nova imagem

A nova imagem da Igreja, que o Papa Francisco tem procurado transmitir, conta com um elemento que tem merecido atenção mediática e causado alguma vergonha. A nova assessora do Vaticano, Francesca Immacolata Chaouqui, tem 27 anos, é filha de um marroquino e conhecida no Twitter pelas suas fortes opiniões religiosas e politicas.

Diário de uns Ateus – Certamente que o nome piedoso, Francesca Immacolata Chaouqui, terá sido determinante.

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23 de Agosto, 2013 José Moreira

Humor de Verão – a Bíblia revisitada

Por determinação divina, o Versículo 16 do Capítulo 3 da Bíblia, passa a ter a seguinte redacção:

16 -E à mulher, disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará.

16/A – Além disso, pagarás com teu sangue a afronta que Me fizeste.

16/B – E eis que Eva tomou consciência da gravidade do pecado cometido, e implorou: Senhor, para tão grande pecado, não terei sangue que chegue.

16/C – Então o Senhor Deus disse à mulher: Grande é a Minha misericórdia. Autorizo-te o pagamento em prestações mensais.

 

Palavras de salvação.

22 de Agosto, 2013 Carlos Esperança

Negócios de Deus

O monsenhor Núnzio Scarano, ex-homem forte das finanças do Vaticano, vai ter que dar explicações à polícia sobre as novas denúncias contra ele.

Segundo a imprensa italiana, 3 milhões de euros (quase R$ 9 milhões) foram encontrados na conta do padre, que é suspeito de comandar uma série de transações ilegais envolvendo o banco do Vaticano, onde movimentava pelo menos três contas. O monsenhor foi preso em junho deste ano, acusado de lavagem de dinheiro, evasão fiscal e corrupção.

22 de Agosto, 2013 Carlos Esperança

A Humanidade a caminho do fim?

Quando deixaram de fazer sentido as profecias do fim do mundo, que infundiam o terror e a fé, numa hábil manipulação religiosa, os factos converteram em certeza a chantagem que então despertava terrores noturnos nas crianças e submissão pia nos adultos.

A bomba demográfica explodiu num planeta que tem limites físicos à sua capacidade de regeneração e se encontra já sob stress. É impossível alimentar a população atual cuja estabilização não é previsível. Faltam, a largas camadas, água, alimentos e a satisfação das mais elementares necessidades básicas.

A fé na capacidade ilimitada na ciência assemelha-se à que, desde sempre, vigorou para a Providência divina. É absolutamente irracional. Nem os acidentes nucleares, como a fuga de água radioativa em Fukushima, nem as catástrofes naturais parecem interessar já as pessoas. A aflição pela sobrevivência amolece a nossa capacidade de vigilância e embota o espírito crítico.

A democracia, os direitos humanos e as liberdades sucumbem sob os escombros de um mundo desregulado e à beira da catástrofe. Os velhos demónios totalitários acordam sob a capa de antigas mitologias transformadas em ideologia.

Os países ricos e civilizados não foram capazes de prever e, muito menos, de conter os demónios que se ocultavam por entre a brisa que parecia soprar nas insurreições árabes, apressadamente designadas de primaveras. Hoje temos o Egito a ferro a fogo, a Síria a gás e a Turquia, por comodidade, catalogada de país islâmico moderado, como se o seu primeiro-ministro Erdogan não tivesse sido o aliado incondicional da deriva demencial do ex-presidente egípcio, Morsi, e do seu braço prosélito, a Irmandade Muçulmana.

No desespero do falhanço da civilização árabe emerge o fascismo islâmico a contaminar a Turquia, o Irão e franjas apreciáveis da população caucasiana da Europa e dos EUA. As primeiras vítimas são os próprios crentes fanatizados nas madraças e mesquitas mas a tragédia da intolerância e do ódio alastra como combustível da instabilidade mundial.

Os dirigentes mundiais parecem estar à espera de um milagre como se o céu pudesse ter resposta para as desgraças que temos de enfrentar.