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30 de Julho, 2014 Carlos Esperança

Algumas notas religiosas para a silly season

Naquele tempo tinha sido Deus encarregado, pelas tribos nómadas dos árabes, para falar de forma definitiva e dar o alvará de profeta pela última vez.

Ajudou-o na tarefa um velho amanuense que seis séculos antes era alcoviteiro, o arcanjo Gabriel. Apesar da vasta criação de profetas e anjos, em que eram peritos os hebreus foi, Gabriel o escolhido para escriturário da fé, naquela região onde se substituíam os deuses criados para cada especialidade por um único.

Os hebreus tinham criado Deus para uso das suas doze tribos e o isolamento da época fê-los acreditar que eram o povo eleito. Apesar do êxito e de ser pouco recomendável a criatura, lembrou-se Paulo de Tarso de tentar uma nova cisão para que o Deus de Israel pudesse ser exportado para todos os cantos do mundo, conhecidos ou a descobrir.

Perderam os hebreus, especializados na criação de profetas, milagreiros, anjos e ofícios correlativos, que viram confiscado o Deus de Abraão, da sua lavra, e oferecido a todos os que quisessem adorá-lo. Aliás, o proselitismo ajudou à disseminação e foi o Império Romano que acabou por ser o seu sectário defensor e propagandista musculado.

Mais tarde, no início do séc. VII da era vulgar, ganhou o alvará de profeta, o legítimo e genuíno, um condutor de camelos, habituado a retirar-se para orar e meditar nos montes perto de Meca. No ano de 610, acredite quem quiser, o pastor de quarenta anos fazia um desses retiros espirituais, no interior de uma das cavernas do Monte Hira, quando o anjo Gabriel o achou e lhe ordenou que recitasse os versículos enviados por Deus e que ele próprio, pacientemente, o obrigara a decorar nas suas viagens entre Medina e Meca.

Sem concurso aberto, nem provas públicas, a fé quer-se oculta, o pastor foi empossado como profeta e passou a debitar uma cópia grosseira do cristianismo, misturada com as fontes do judaísmo, conhecimentos que não eram alheios aos árabes. E não lhe faltaram combatentes cruéis para serem militantes do que diziam que disse e que lutavam contra quem dizia que era diferente o que disse.

Quanto mais primária for uma crença mais sedutora se torna. Claro que não faltaram os verdadeiros intérpretes da palavra exata nem as lutas pela autenticidade. Mas do que se diz que o Misericordioso disse, apesar da violência que as tribos nómadas cultivavam, a fé mantém-se viçosa no húmus da superstição que a tradição eleva à culminância divina.

Os cinco pilares andam aí, contra as mulheres, contra a liberdade, contra um módico de modernidade, impostos à bomba por uma legião de dementes, ansiosos de virgens e de rios de mel. Até quando?

29 de Julho, 2014 Carlos Esperança

Homem Reto, segundo o Alcorão

Por

Leopoldo Pereira

Dos inúmeros contactos por mim realizados junto de amigos e simples conhecidos, no sentido de perscrutar qual a sua inclinação quanto à alternativa entre serem retos ou tortos (torcidos), obtive 100% de respostas (validadas), todas apontando inequivocamente na primeira hipótese. Mentirosos!
(Não contatei mulheres, já que o citado Livro lhes confere pouco crédito).

“Homem reto é quem crê em Deus, no Último Dia, nos Anjos, no Livro e nos Profetas”.

Por consideração para com os que infelizmente se marimbam para estes transcendentes assuntos, relembro que no ano 500 (ou lá perto), Deus trocou as voltas ao Povo Judeu, até então o seu predileto, e foi sondar Maomé, jovem árabe analfabeto, para ver se queria mudar de Clube (alinhava nos Politeístas). A princípio assustou-se, não se julgava à altura de tamanha honra, mas as condições pareceram-lhe tentadoras e o contrato ficou selado volvidos poucos dias, na presença do enviado celestial de serviço, o arcanjo Gabriel. Anjo graduado, experiente e de eficiência confirmada, já trazia as cláusulas escritas, só faltava Maomé assinar. O diabo é que não sabia ler e teve de relembrar isso ao interlocutor. Gabriel sorriu e, com ares de gozo, ripostou: “ Não te preocupes, tenta ler e verás que consegues”. Dito e feito. O primeiro “milagre” deste novo “Profeta”.

Antigos companheiros, representantes do Poder Local e Clérigos, preocupados com a atitude da “ovelha tresmalhada”, tudo fizeram para a trazer de volta, oferecendo-lhe inclusive honrarias a nível religioso e político. Nada o demoveu. Mas o campo inimigo contava com a esmagadora maioria da população e, ainda que nem sempre a razão esteja do lado da maioria, a breve trecho teve de “cavar” para Medina, caso contrário teria sido espancado ou mesmo morto em Meca, onde vivia e onde tinha espatifado 360 ídolos! (os mecanos adoravam quase um ídolo por dia. Convenhamos que não era prático…).

Depois e porque um homem, para além de alimentar o espírito também tem de alimentar o corpo, casou com uma viúva rica. Estabilizada a situação económica, com a camarada Cadja (mãe dos crentes), passou a olhar mais afincadamente para as mulheres que o rodeavam (bastantes) e a atender com maior frequência o tal Gabriel.
Tolerante e nada fanático, foi com tremenda calma e paciência que, ao longo de 23 anos, assistiu à tradução da Bíblia e às alterações que se impunham, concretamente em tudo o que dissesse respeito aos judeus.

O Corão passou a ser o Livro Verdadeiro, aquele que Deus quer.

Nós dizemos Alcorão, face às muitas palavras árabes que mantemos e começam por “al”.

“O Alcorão prega a tolerância e proclama, frequentemente, o princípio de não coerção em matéria de religião”.

Isto, aliado ao desejo de mudança e à inteligência, leva alguns estudantes universitários (por exemplo) a renegarem a cultura “ocidental”, de cariz cristã e a alistarem-se nas diversas fações islâmicas que, pela força das armas, desejam impor ao Mundo a sua religião.
É por demais evidente “a tolerância e o princípio de não coerção”… da Chechénia ao Afeganistão, do Iraque à Síria, da Somália à Nigéria.

A perseguição aos infiéis (todos quantos não praticam o islamismo) está prevista e são muitas as ameaças que Deus lhes dirige, tais como: “Terão o merecido castigo”; “Terão um castigo doloroso”; “Castigá-los-á, abandonando-os e deixando-os extraviados”; “Persegue os incrédulos”; “Se quisesse, retirar-lhes-ia o ouvido e a vista”; “ Temei o fogo, que tem por alimento os ídolos, e que foi preparado para os incrédulos”; “É inimigo dos incrédulos”; “Sereis vencidos e reunidos no Inferno. Que má morada essa!”, “Reunirá os hipócritas e os infiéis no Inferno”; “É rápido no ajuste de contas”; etc., etc.

“Deus atesta que não há outro Deus senão Ele” e se Ele atesta… está atestado.
Portanto seria Ele a castigar os infiéis e não os seus fanáticos fãs. Correto?

Porém existem no Alcorão frases como estas: “Combatei pela causa de Deus e sabei que Ele tudo ouve, é omnisciente”; “Exterminámos até ao último os que recusavam os Nossos versículos, pois não eram crentes”; “As piores bestas diante de Deus são os descrentes, pois eles não creem”; “ Terminados que sejam os meses sagrados, matai os idólatras onde os encontrardes. Apanhai-os! Preparai-lhes todas as espécies de emboscadas!”; “Combatei quer estejais mal ou bem armados! Combatei com as vossas riquezas e as vossas pessoas na senda de Deus: Isso é melhor para vós, se sabeis”; etc., etc.

Tais frases podem ser interpretadas à letra, subestimando esta outra:
“Há ignorantes que não conhecem do Livro senão a ficção e não fazem mais do que especular.”

Será que os Jihadistas (Jihad – esforço no caminho de Deus e não Guerra Santa, como é vulgo traduzir-se) são ignorantes? Ou será que pretendem mesmo eliminar todos os descrentes (as piores bestas, muito piores que os facínoras, incendiários, pederastas, pedófilos, ladrões, violadores, fanáticos, canibais, caluniadores, etc.)?

“Os que não creem e tomam por mentira os nossos versículos, esses serão entregues às chamas.”

Em sintonia com as fogueiras da “Santa Inquisição”!
Pelo que temos constatado, ainda que a uma distância considerável da Idade Média, as fogueiras (ou quejandos) andam por aí… e bem vivas.

Sugestão: Sê um Homem reto, ou finge (mais vale cobarde vivo que herói morto).

A propósito dos castigos divinos, que devem ser tomados em linha de conta, lembrei uma anedota, que partilho convosco:
Numa aldeia do interior, o padre jogava bilhar com um campónio. Este, sempre que errava, dizia: “Ora porra, falhei”. O padre, chateado de tanto o ouvir proferir aquela asneira, avisou: “Você devia evitar falar como fala e olhe que Deus castiga, por exemplo com o raio”. Havia trovoada e a dado momento ouviu-se enorme estampido; um raio penetrara no salão e o padre caiu morto. Então, das Alturas suou uma voz: “Ora porra, falhei.”

L. Pereira, 18/07/2014

28 de Julho, 2014 Carlos Esperança

DA LIBERDADE RELIGIOSA – O CASO DA PROCURADORA ADVENTISTA

Por

João Pedro Moura

Uma Procuradora do Ministério Público, adventista, reclamava há anos contra o seu trabalho profissional, ao sábado, que contrariava um princípio da sua confissão religiosa.
A sua reclamação não foi deferida pelo Supremo Tribunal Administrativo (STA), mas foi-o pelo Tribunal Constitucional, recentemente, como noticiou a imprensa.

Sumariamente, e sem entrar em pormenores, até porque desconheço os acórdãos, mas baseando-me no que li na imprensa, o STA indeferiu o seu pedido, alegando que os procuradores não têm flexibilidade laboral e que, como tal, a liberdade religiosa não poderia prevalecer sobre os deveres funcionais.

O TC contra-argumentou, alegando que os procuradores têm um horário flexível e por turnos, deduzindo que, assim, não haveria razão para declinar o pedido de dispensa de trabalho ao sábado.
Mais disse o TC que a liberdade religiosa não era um princípio abstrato e que, para ser exercida, havia que dar condições aos religionários e suas pretensões.

Todavia, o TC não tem razão, como eu irei fundamentar, seguidamente:

1- O exercício da liberdade religiosa jamais poderá colidir com o exercício profissional, sob pena de se prejudicar uma profissão, isto é, sob pena de se prejudicar os beneficiários de tal profissão e/ou os colegas da mesma profissão ou serviço.
A ser alguém prejudicado, e o prejuízo social é o melhor indicador de razões, então que seja o religionário, pois que só se prejudica a ele (e que prejuízo?!) e não as outras pessoas usufrutuárias do serviço ou os eventuais colegas do religionário reclamante de benesse profissional.

2- Assim, num conjunto de procuradores afetos a determinada comarca ou serviço judicial, se houver um adventista, ou mesmo 2 ou 3 ou mais, reclamadores do privilégio de folga religiosa ao sábado e a serem satisfeitos por legislação própria, irá levar à sobrecarga dos outros procuradores e fazê-los trabalhar mais ao sábado, numa regra decerto constrangente para estes últimos, pois que quereriam continuar a trabalhar ao sábado quando fosse o turno deles e não quando fosse o turno deles mais o dos religionários privilegiados…

3- Imaginemos agora uma sociedade onde se praticasse o conceito de liberdade religiosa, à moda do TC, em que um conjunto de muçulmanos reclamavam para não trabalharem à sexta-feira…
Tínhamos, por exemplo, um professor islâmico isento à sexta-feira, a que acrescia a folga normal ao sábado e ao domingo…
…Ou um procurador, militar, polícia, bombeiro, enfermeiro, médico, islâmicos, a reclamarem por folga à sexta… e a obrigar, assim, os outros, não-muçulmanos, a trabalharem mais nesse dia…

4- Imaginemos esse conjunto de profissionais, agora do quadrante judaico e daquelas igrejas cristãs fundamentalistas, tal como a adventista, todos a pedirem isenção de trabalho ao sábado, prejudicando o outro conjunto de colegas, que se obrigariam a trabalhar mais nesse dia, contra a sua vontade…

5- Imaginemos uma igreja, defensora contumaz de folga ao domingo, e que congregasse a maioria duma população sequaz, pessoas essas recusando-se a trabalhar ao domingo!…
Seria interessante chegar ao domingo e ver tudo fechado: cafés, restaurantes, bombeiros, polícias, militares, jogos desportivos, serviços de saúde, lojas comerciais, tudo…
… Ou estarem abertos alguns serviços ou algumas lojas, em modo de défice de pessoal…

6- Ao que chegaria o conceito de que a liberdade religiosa passaria pela sobrecarga de trabalho dos outros, em certos dias, para que suas excelências, os religionários fanáticos e contumazes, nos seus preceitos religiosos, tivessem o privilégio de folga, mas os outros não, mesmo que estes quisessem, sem presunção religiosa, continuar a folgar em modo normal…

7- Aqui há tempos, foi uma candidata a advogada, também adventista, que se recusou a fazer uma prova ao sábado. Isto é, para que sua excelência tivesse a benesse e o privilégio de não fazer tal prova ao sábado, ela e os outros teriam que fazer de segunda a sexta, ou então, ter-se-ia que fazer uma prova específica para sua excelência, a adventista, noutro dia, obrigando os fazedores de provas a trabalhos redobrados, que certamente não gostariam de fazer…

8- Para estes males, existe a laicidade, que é o reconhecimento da religiosidade, sem outorga de privilégio a ninguém, pois que o privilégio de uns seria o ónus doutros.
As pessoas deverão ter liberdade religiosa, desde que esta não colida com o funcionamento normal dos serviços e da própria sociedade.
A não ser assim, está-se a colocar a liberdade religiosa acima do restante direito, beneficiando uns e prejudicando outros.

9- A base mínima do entendimento social e fundamento da agregação de pessoas é o direito que as une a todas e que passa pelo funcionamento de serviços comuns, como saúde, educação, habitação, trabalho, lazer, etc.
O direito e a consequente respeitabilidade cívica está aí!
A liberdade religiosa, concomitantemente, é uma parte do direito, que se subpõe ao direito geral e às liberdades gerais, não podendo, portanto, subjugá-las.

27 de Julho, 2014 Carlos Esperança

A religião, a misoginia e a brutalidade divina

Num tempo em que a opinião pública é formada nas madraças da contrainformação, os ódios e os amores nascem nos jornais e televisões, e o livre-pensamento está sujeito aos constrangimentos sociais, como outrora a fé, ao pároco, às catequistas e aos devotos, há obrigação de enfrentar os preconceitos e a fúria dos amigos e adversários, para quem as más notícias prejudicam os seus credos.

Há violências mudas no interior das guerras de rockets e tanques de guerra ou à margem delas. Há tragédias de mulheres condenadas à escravidão ou à não existência, mutiladas, insultadas e feridas pelo mais feroz dos fascismos, que persiste em contexto islâmico.

No Iraque, onde exaltados cruzados lançaram o caos e intensificaram a violência, surge agora um bando sinistro, o grupo jihadista Estado Islâmico (EI) a impor, em nome de Alá, severas restrições às mulheres de Mossul, cidade que conquistaram em junho.

Na demência de uma bulimia misógina, a caterva de trogloditas de Deus exigiu a todas as mulheres o uso do véu integral, de roupas largas que não revelem as formas do corpo e que tenham sempre as mãos e os pés cobertos, para evitarem «castigos severos».

Os comunicado dos piedosos selvagens avisava, segundo o jornal El País: «Isto não é uma restrição de liberdade, apenas impede que as mulheres caiam na humilhação e vulgaridade de ser um espetáculo».

Na quinta-feira, essa canalha medieval ordenou que todas as mulheres da cidade, entre os 11 e os 47 anos, se submetessem à mutilação genital, segundo denunciou à BBC a coordenadora das Nações Unidas no Iraque, Jacqqueline Badcock.

A fatwa do EI submete as mulheres de Mossul à violência brutal, medonha e criminosa que as expõe a hemorragias, riscos urinários, infeções e infertilidade, para além de as privar do prazer sexual e dos mais elementares direitos humanos, para satisfação de um profeta analfabeto e violento que entrou em defunção há 1382 anos.

Oiço falar de multiculturalismo e fico com brotoeja. Há um manual terrorista chamado Corão e devotos criminosos. Chamem-me xenófobo e esquizofrénico, pretextem as más interpretações dos hadiths, digam-me que é excessiva a generalização e que, na revolta que sinto me assemelho a essa canalha maldita.

As mulheres, que os pulhas de Deus destroem, são minhas companheiras, irmãs, filhas e netas. Maldita religião, malditos cúmplices.

27 de Julho, 2014 Carlos Esperança

A verdade e a sua difícil descoberta

É difícil descobrir a verdade entre catadupas de desinformação e contrainformação que têm o apoio sectário dos dois lados da barricada.

Acreditem, leitores, que me esforço por navegar entre destroços da propaganda, à espera de identificar factos e fotos reais, quando se deturpam os primeiros e se manipulam as segundas, quando se atribuem a uma guerra em curso imagens de um acidente passado.

Espero que, nos erros que cometo, vejam a boa fé que me anima, o contributo do zelo de quem lança temas à reflexão de quem visita este blogue. Espero que apreciem o esforço com que uso a única arma de que disponho – a palavra –, e que me ajudem a corrigir os enganos, apontando-os.

A Ucrânia, onde a UE, no meu ponto de vista, foi responsável pela provocação à Rússia, e Israel, onde uma provocação do Hamas foi pretexto para a cruel retaliação, não são os únicos pontos do planeta onde a violência atinge o paroxismo da crueldade. O Iraque, a Nigéria, a Síria vivem dramas, e outros obscuros países têm populações onde se morre à fome, onde as epidemias atacam e os déspotas governam.

Não há autoridade mundial que impeça manifestações de racismo, xenofobia, vingança e misoginia. Parece que a vitória dos preconceitos de cada um é mais importante do que o combate à discriminação de género, ao tribalismo, à fome e às epidemias.

Uns rezam, outros acirram ódios, e todos somos responsáveis pela espiral de violência que grassa no Planeta.

Que raio de Mundo onde as religiões envenenam tudo!

26 de Julho, 2014 Carlos Esperança

A guerra que mata e a guerrilha que envenena

O exacerbamento dos ódios que corroem Israel e a Palestina passam por osmose para a comunicação social e explodem irracionalmente nas redes sociais.

A tragédia não se compadece com a neutralidade, mas os preconceitos ideológicos são a marca das opções políticas de cada um, exoneradas de um módico de serenidade. Só há quem veja a mais hedionda manifestação de terrorismo de um dos lados e um imaculado comportamento no lado contrário, numa deriva que envenena as discussões e as reduz a um diálogo de surdos. A guerrilha verbal das redes sociais é um exemplo de intolerância e do ódio mimetizados do conflito.

A guerra é sempre violenta, e esta luta associa às injustiças históricas o ódio que embala os berços de cada lado. Duvido que a paz tornasse à região se fosse banido o Estado de Israel e, no entanto, um dos lados só pensa na exclusão de um país que teima em existir, e o outro, na conquista do território que julga seu por herança divina arquivada no livro da Idade do Bronze e cujo registo jaz numa Conservatória do Registo Predial Celeste.

À espera do Armagedão, a batalha final no Monte Megido, os cristãos cínicos e hebreus sionistas alimentam uma guerra em que os palestinianos escolheram terroristas para os liderar, sem que os direitos humanos ou a democracia integrem as suas preocupações.

Recuso quem não aceita a existência de Israel ou a devolução, por este, dos territórios usurpados à Palestina, conforme deliberação da ONU.

Continuarei a considerar terroristas os que de um lado e doutro se colocam à margem da legalidade internacional, os que provocam com rockets o martírio e os que respondem com a superioridade militar sem cumprirem as decisões da ONU.

25 de Julho, 2014 Ludwig Krippahl

Ciência e religiões.

No que tenho lido e discutido sobre isto tenho encontrado três reacções à incompatibilidade entre a ciência e as crenças religiosas. Uma consiste em afirmar a crença religiosa como cientificamente sólida mesmo que isso exija mentir descaradamente. É o que fazem os fundamentalistas, dos criacionistas aos cientólogos. Outra é alegar que ciência e religião são separadas e nunca interferem. É atraente para quem não quer chatices, como os agnósticos, por exemplo. A terceira é defender que ciência e religião se complementam porque lidam com realidades diferentes. Esta é popular entre os católicos que, apesar das evidências em contrário, insistem que fé e razão não se podem contradizer.

A primeira abordagem deturpa os resultados da ciência. As “evidências científicas” para o Dilúvio, para a dianética ou para a misoginia muçulmana são tão disparatadas que os crentes mais esclarecidos até pedem que não se mencione essas coisas, não vá alguém notar que “religião” abarca mais do que a versão light que estes defendem. A tese da não-interferência assume que a investigação dos factos está isolada da procura pelos melhores valores. Isto é fundamentalmente falso porque a ciência assume valores e qualquer discussão ética depende de factos. No entanto, mesmo considerando ciência e ética superficialmente independentes, as religiões não são ética. As religiões são sistemas de regras assentes em alegações acerca do que os deuses querem e toda a autoridade religiosa deriva desses alegados factos.

A tese da complementaridade deturpa a ciência, mas a deturpação passa mais facilmente despercebida. A ideia fundamental é a de que a ciência lida com a matéria enquanto “a religião” (no singular, como se só houvesse uma) lida com o espírito. Assim, como disse recentemente o filósofo Michael Ruse: «Se a pessoa de fé quiser dizer que Deus criou o mundo, não acho que se possa negar isto por razões científicas»(1). O que Deus faz está no campo da religião e fora dos assuntos da ciência. Isto parece razoável mas está errado.

O erro é julgar que a ciência lida com aspectos da realidade como a matéria, o espaço e energia como o carpinteiro trabalha com a madeira e o pedreiro com a pedra. Assim, tal como o carpinteiro não solda e o pedreiro não aduba, o cientista não toca no sobrenatural. Desde que seja aquele deus, é claro. Os religiosos não levantam objecções quando a ciência refuta as crenças sobrenaturais dos outros; só as suas é que estão fora do âmbito da ciência, noutro “nível da realidade”. Isto está errado porque o propósito da ciência é encontrar as ideias – modelos, hipóteses, teorias e afins – que melhor correspondam à realidade. Por isso, aquilo que a ciência molda, esculpe, serra e martela são as ideias e não a realidade em si.

Para se ir aproximando da verdade, a ciência confronta constantemente todas as ideias umas com as outras e com tudo o que, a cada momento, justificadamente se julga saber. Não é um processo linear nem isento de retrocessos porque por vezes revela que o que se julgava ser conhecimento era erro. Mas só isso já é uma vantagem sobre as alternativas e a história da relação entre a ciência e as religiões é uma prova de como a ciência é a mais fiável. Apesar de inicialmente terem tentado, pela força, que fosse a ciência a ceder, o que tem sempre acontecido é a ciência revelar erros nas crenças religiosas. O contrário nunca aconteceu.

Também é errado pensar que a ciência só serve para avaliar ideias que sejam empiricamente testáveis. O conhecimento não é um saco de alegações soltas. É um edifício de modelos e teorias fortemente interligados. As fundações têm de assentar em dados empíricos mas, desde que seja sólido, o edifício pode ir muito mais alto. É por isso que a ciência pode responder a perguntas hipotéticas como o que acontece se explodir uma bomba nuclear no Chiado ou como se pode cultivar plantas em Marte. Mesmo sem testar directamente as respostas pode-se avaliá-las pela sua consistência com o edifício de conhecimento que já está construído. É também assim que podemos concluir, com legitimidade científica, que a Alexandra Solnado não fala com Jesus, que o professor Bambo não tem poderes videntes e que as biópsias que a Maya faz por telefone não são de fiar. Não por podermos testar cada alegação individualmente mas porque o conhecimento que temos, assente num fundamento empírico, faz com que a hipótese mais plausível seja a de que essas alegações são falsas.

Aplica-se o mesmo às doutrinas religiosas. Considerando o que sabemos, desde a física e cosmologia à psicologia e sociologia, a hipótese que tem melhor fundamento é a de que os deuses são uma invenção humana. Se bem que a ciência não explique tudo, sem deuses explica muita coisa enquanto os deuses não explicam nada. A imaginação humana tem limites e não chegaria para inventar a mecânica quântica ou a teoria da relatividade sem ser guiada, passo a passo, por muitos indícios experimentais. Mas os mitos religiosos são comparativamente simples e vagos e estão bem dentro daquilo que os humanos conseguem inventar por si. Se a pessoa de fé quiser dizer que Deus criou o mundo, está no seu direito. Diz e acredita o que quiser. Mas é legítimo que a ciência rejeite essa hipótese porque há uma hipótese alternativa com um fundamento muito mais sólido: os deuses são personagens fictícios.

1- New York Times, Opinionator, Does Evolution Explain Religious Beliefs?

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