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29 de Dezembro, 2014 Carlos Esperança

Notícias

France Presse

27/12/2014 14h58 – Atualizado em 27/12/2014 15h04

Ativista do Femen que pegou estátua de presépio no Vaticano é libertada

Mulher está proibida de entrar no Vaticano e ou propriedades da Igreja.
Ativista tentou levar estátua de menino Jesus no dia de Natal.

Combinação de fotos mostra ativista do grupo feminista Femen sendo detida ao tentar roubar a estátua do Menino Jesus do presépio do Vaticano. Ela exibia a frase 'God is woman' (Deus é mulher) escrita no corpo (Foto: Vincenzo Livieri/AFP)Combinação de fotos mostra ativista do grupo feminista Femen sendo detida ao tentar roubar a estátua do Menino Jesus do presépio do Vaticano. Ela exibia a frase ‘God is woman’ (Deus é mulher) escrita no corpo (Foto: Vincenzo Livieri/AFP)

As autoridades vaticanas ordenaram neste sábado (27) a libertação da ativista do grupo Femendetida após tentar roubar uma estátua do menino Jesus, na última quinta-feira (25) na Praça de São Pedro.

28 de Dezembro, 2014 Carlos Esperança

Correio dos leitores

De

Frei Bento

Caríssimo irmão em Cristo: com pedido de publicação no Diário de uns Ateus, remeto, em anexo, um resumo de um extenso relatório por mim elaborado. Esse relatório é fruto de intensos estudos, não só da Bíblia mas também, e principalmente, de documentos existentes nas catacumbas da nossa Abadia e pretende, de uma vez por todas, desmontar a desonesta falácia ateísta de que o Nascimento de Nosso Senhor é uma cópia de outros pretensos nascimentos. Deus só há um, é Aquele e mais nenhum.

Faço notar que este relatório teve a bênção do nosso venerável Abade Faria, também auto-intitulado Abade de Priscos, tendo merecido o “Enviatur”, que veio, graças às novas tecnologias, substituir o arcaico “Imprimatur”.

Saúde e merda, que Deus não pode dar tudo.

***

Natal, e tal…

Caríssimos irmãos em Cristo, eu vos abençoo em nome do Pai, natural e compreensivelmente babado e ainda a distribuir charutos por tudo quanto é santos, anjos, arcanjos, serafins e querubins, e que até deixou Satanás tirar umas passas de ganza, do Filho, que berra como um desalmado quando não está a chupar nas tetas da Maria, e mama como se fosse morrer já a seguir, o que todos sabemos não ser verdade, ainda demorou mais de trinta anos mas Ele ainda não sabe, e tem dado uma trabalheira do caraças, porque fica com cólicas provocadas pelos gazes e a desgraçada da Maria é que tem de andar de noite com o puto de cu para o ar para ver se ele se peida e alivia a tripa, e do Espírito Santo, que tem andado escondido, não se sabendo se por razões celestes ou terrenas.

Amém.

Por esta época, alguns ateus ignorantes ou malformados, ou ambas as coisas, que essa gentalha é perita em malformações e ignorância, aparecem aí a comparar o nascimento de Jesus Nosso Senhor com toda essa catrefada de deuses – Mitra, Apollo, Soyuz, Hórus, eu sei lá! Esquecem-se, ou não querem saber, que Satanás encenou tudo para que o Nascimento, assim com letra maiúscula, fosse tido como uma cópia dos “nascimentos” dos tais deuses. Foi ao contrário, e só um filho da puta daqueles é que era capaz de engendrar o “mimetismo diabólico”. Mas não nos alonguemos. Porque podem os ateus correr e saltar: esses pretensos “nascimentos” nunca existiram!

Os evangelhos não mentem, e nós, frades neo-Goliardos em busca do transcendente, não andamos aqui para enganar ninguém. Basta ler Lucas e Mateus e analisar, por exemplo a árvore genealógica de Jesus para concluir, sem o menor vislumbre de dificuldade, que ela só poderia ter sido elaborada após rigorosos estudos científicos e infindáveis pesquisas pelos registos civis lá do sítio. Ali não falha nada, pelo contrário: até há antepassados a mais, para o que der e vier.
Adiante.

Pois os ditos evangelhos mencionam, com o mesmo rigor com que descrevem as também ditas árvores genealógicas, a presença de uma entidade incontornável, mas ainda não é por aí que eu quero ir.

Jesus Nosso Senhor nasceu à meia-noite do dia 24/25 de Dezembro, ponto final. Há registos em iluminuras, gravuras, e até um primoroso fresco pintado a óleo sobre tela, de autor desconhecido, que mostram São José que, na altura era José “tout-court” uma vez que o São só apareceu após a devida defunção, como vem sendo rigorosamente tradicional na Igreja, dizia eu que há registos pictóricos de José contemplando, alternadamente, as estrelas para ver as horas, e a genitália de Maria, para ver se o puto nascia à hora consagrada nas Escrituras Sagradas. Pois bem, e era aqui que eu queria chegar, os Evangelhos, com o rigor que lhes conhecemos, atestam sem margem para dúvidas que os primeiros a chegar junto ao Menino, estava Maria a mudar a fralda da primeira cagada, foram os pastores. Os pastores, senhores! Como sabeis, ou deveríeis saber, naquele tempo era normal os pastores andarem de noite, não só porque a erva era mais tenra entre as vinte e três horas e as duas da manhã, mas também porque os pastores aproveitavam para ir tomar vez para tirar senha para a consulta na Caixa, pois o Serviço Nacional de Saúde local ainda não tinha sido inventado e, muito menos, destruído. Naturalmente, não se pode destruir uma coisa que nem sequer está inventada. E agora digam-me, senhores: em que “nascimento” dessa catrefada de deuses aparecem os pastores? Vá, respondam! Eu digo: em nenhum. Pois se não houve pastores, também não houve nascimentos.
Acho que ficam devidamente elucidados.

Saúde e merda, que Deus não pode dar tudo.

Abadia, aos 25 de Dezembro de 2014

28 de Dezembro, 2014 Carlos Esperança

Os monoteísmos e a violência

As religiões provaram ao longo dos séculos a sua nocividade e falsidade, sobrevivendo através dos interesses instalados e de constrangimentos provocados. Os sistemas criados mantêm os povos na sujeição do clero e a intoxicação começa à nascença.

Os monoteísmos distinguiram-se pela sua intolerância e inquinaram as sociedades onde se consolidaram. Nem a modernidade os conseguiu implodir. De um livro da Idade do Bronze, o Antigo Testamento, de matriz hebraica, surgiu o judaísmo cujos seguidores residuais (cerca de 18 milhões) ainda creem na Conservatória do Registo Celeste, onde estará guardada a escritura que lhes garante direitos imprescritíveis sobre a Palestina.

Paulo de Tarso fez a única cisão bem conseguida do judaísmo, criando a primeira seita de vocação global, que o Imperador Constantino imporia com inaudita violência como a religião do Império Romano, a que serviu de cimento.

O catolicismo romano só viria a reconhecer a liberdade religiosa na década de sessenta do século XX, durante o Concílio Vaticano II. Nem o Renascimento, o Iluminismo e a Revolução Francesa o conseguiram vergar.

No entanto, o mais implacável dos monoteísmos, o Islamismo, fez da cópia grosseira do cristianismo com laivos de judaísmo, um inflexível é totalitário código de conduta que se agrava com a decadência da civilização árabe mas mantém, no seu primarismo dos 5 pilares, um poder de sedução a que não são alheios radicalismos em certas idades e em várias fases da adolescência de indivíduos que vivem à margem dos valores humanistas que a Europa herdou do Iluminismo e da Revolução Francesa.

Se as democracias continuarem a abdicar da laicidade, única forma de conter o carácter prosélito dos dois últimos monoteísmos, em especial o Islão, ficam desarmadas contra os surtos terroristas de superstições à escala global, que se reclamam da vontade divina para imporem aos outros o que só têm direito de usar como crença doméstica.

O proselitismo é a mais nefasta nódoa das crenças e a laicidade o único antídoto para o conter.

28 de Dezembro, 2014 Carlos Esperança

Hoje há Igrejas piores.

Anselmo Borges, padre, doutorado em Filosofia e professor da Universidade de Coimbra fala da miséria moral em que a Igreja Católica esteve mergulhada, das mudanças operadas e expectáveis de Francisco e defende o fim do celibato obrigatório dos padres e da condenação de divorciados e homossexuais.

O pretexto foi o livro “Deus ainda tem futuro?”.

Diário de uns Ateus – A humanização e modernização das Igrejas não as torna verdadeiras mas podem contribuir para um menor sofrimento imposto à Humanidade.

27 de Dezembro, 2014 Carlos Esperança

A Cúria romana não vale tanto

«A Cúria tem feito mais ateus e provocado mais abandonos da Igreja do que Marx, Nietzsche, Freud e outros ateus juntos».

(Anselmo Borges, padre católico e catedrático de Filosofia em Coimbra, in D. N., hoje)

27 de Dezembro, 2014 Carlos Esperança

Honre as crianças do Paquistão

ASSINE A PETIÇÃO

 Para o primeiro-ministro do Paquistão, principais países doadores e líderes mundiais:

Para honrar as mais de 100 crianças assassinadas em Peshawar, nós – jovens, professores, pais e cidadãos de todo o mundo – exortamos nossos governos a cumprirem a promessa, feita na Organização das Nações Unidas em 2000, de assegurar a todas as crianças que ainda não estão estudando o direito à educação antes do fim de 2015. Estamos unidos para acabar com as barreiras que impedem que meninos e meninas frequentem a escola, dentre as quais estão o trabalho e casamento forçados, conflitos e ataques contra escolas, exploração e discriminação. Todas as crianças merecem a oportunidade de estudar e alcançar seu potencial. Somos

Há dois dias, um bando entrou em uma escola e massacrou mais de 100 crianças no Paquistão. CEM CRIANÇAS! Que tipo de pessoa faz uma coisa dessas?Pessoas que veem escolas como uma das formas mais eficazes de evitar que jovens sejam recrutados para uma vida de violência. Além de ser o melhor antídoto contra a pobreza, a educação é uma das melhores táticas antiterroristas: ajuda crianças a sair do desespero e a aproveitar oportunidades. Vamos responder a esta tragédia com um pedido global, em massa, para colocarmos todas as crianças na escola.

Nossos governos prometeram matricular todas as crianças, do mundo inteiro, até o fim de 2015. Vamos tornar isso realidade agora mesmo, no Paquistão e em outros países: participe da campanha para honrar a memória das crianças de Peshawar. Nossa petição será entregue por Gordon Brown, enviado especial para educação da ONU, ao primeiro ministro do Paquistão e aos líderes que podem realizar esse plano. Assine agora.

26 de Dezembro, 2014 Carlos Esperança

A demência do Estado Islâmico

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Um jornalista passou dez dias com o Estado Islâmico, às abertas. Conseguiu autorização para visitar a Mossul ocupada. Sobreviveu e diz que é muito pior do que se julga.

Os assassínios, as execuções, as decapitações são as imagens mais chocantes de uma propaganda cada vez mais sofisticada. É a Jihad, que recruta guerrilheiros no ocidente para matar e morrer na Síria.

(in Expresso)

25 de Dezembro, 2014 Carlos Esperança

Natal

Em meados do século XX o Natal era oportunidade para reunir as famílias. Os ausentes voltavam todos os anos à aldeia de origem, nas carruagens de 3.ª classe de comboios apinhados de pessoas e cabazes, com odores a que se resignavam as pituitárias de então.

Através do vidro partido, ou da janela avariada, o ar gélido entrava nas carruagens e nos corpos. Os passageiros partilhavam a vida e as merendas nas penosas e longas viagens de pára-arranca. Os Senhores Passageiros precisavam de embarcar, ou de desembarcar, e a máquina a vapor, de abastecer de carvão a fornalha e de água a caldeira.

Às vezes o comboio parava nas subidas para que a caldeira ganhasse pressão e pudesse rebocar o peso acrescido que deslocava. Entre Lisboa e a Guarda era normal um atraso de duas ou três horas, pela Beira Alta, e mais ainda pela Beira Baixa.

Nas estações e apeadeiros esperavam bestas e pessoas, impacientes e enregeladas. À chegada do comboio havia abraços, ternos e demorados, e lágrimas de alegria. Do comboio acenavam mãos e ouviam-se votos de Feliz Natal quando o apito anunciava o retomar da marcha. Aos que se apeavam, só o caminho lamacento os separava, então, da casa da aldeia onde aguardavam os parentes que ficaram em ansiosa espera.

Quando eram pequenas as casas e numerosas as famílias, sobrava sempre lugar para os que chegavam. A ceia de Natal era o momento mágico que matava fomes ancestrais e a saudade das ausências.

Na lareira fumegavam panelas cheias, cujos odores, fundidos com os que vinham da sala, traziam à memória os sabores da infância.

A candeia de azeite iluminava os trajetos domésticos enquanto o candeeiro a petróleo projetava as sombras dos familiares reunidos em conciliábulo.

Estranhava-se o milagre que permitira tantas postas de bacalhau, já que os repolhos e as batatas os dava a horta e os frutos eram secos no tempo devido. Rabanadas, arroz doce, sonhos, filhós e toda aquela variedade de guloseimas eram fruto dos ingredientes próprios e de segredos herdados, a que o lume brando da lareira requintava o sabor.
Não deixava de ser estranho que tanto desse, quem tão pouco tinha, e negasse, avaro, quem muito podia. Eram esses os tempos, ainda são assim as pessoas que restam.

Ceavam primeiro as crianças, por questão de espaço e de impaciência; passavam, depois, à sopa, os mais velhos, antes de se saciarem no bacalhau, repolho e batatas, regados com azeite. Só depois de esgotado o vinho no garrafão e de se ver o fundo à panela se entrava nas sobremesas, nas aguardentes e na jeropiga.

As crianças impacientavam-se com a demora do menino Jesus que raramente trazia os presentes que ansiavam, mas conformavam-se com os que lhes coubessem. Os adultos sugeriam-lhes a cama enquanto os sapatos rodeavam a lareira à distância conveniente do lume que ainda crepitava. O sono acabava por vencê-las, adormecendo primeiro as mais pequenas, que as mães e a avó iam depositando em camas improvisadas.

No pouco espaço disponível havia ainda lugar para o presépio, uma ingénua encenação do mito cristão, que o pinheiro, oriundo de outras culturas, havia de substituir num prenúncio da globalização, para acabar feito de plástico, coberto de bolas coloridas.
De manhã, à medida que acordavam, os miúdos corriam para a chaminé, ansiosos por encontrar as prendas e exultavam com os presentes.

O Menino Jesus que, então, descia pelas chaminés, foi trocado pelo Pai Natal, a viajar de trenó, puxado por renas, em terras onde só a neve fazia jus à nova fábula que roubou o encanto dos musgos, da serradura, do algodão em rama e dos animais que rodeavam o menino de barro, deitado em berço de palha.

Nos sapatinhos, onde então cabiam os chocolates e os carrinhos de corda, que faziam as delícias das crianças, o terço para a tia beata ou a onça de tabaco para o avô, não cabem hoje os jogos de computador, esperados sem ansiedade, nem os presentes embrulhados em papel reluzente.

Alguns pais ainda voltam aos sítios de origem para mostrar, aos avós, os netos, com o mesmo ar de enfado com que os levam ao Jardim Zoológico, a verem a girafa e o elefante, ou os metem nos Centros Comerciais. Mas o mais frequente é tirar os velhos da toca e pô-los a fazer o percurso inverso, com 50% de desconto no preço do bilhete, num exílio que começa na véspera da consoada e termina, no início do Ano Novo, com a devolução ao habitat.

Mudaram-se os tempos. Do Natal que havia, resta a recordação das crianças que foram.

O cronista, serve-se do texto que há anos publicou no Jornal do Fundão para, à guisa de boas-festas, o dedicar aos leitores do Diário de uns Ateus.