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9 de Setembro, 2015 Carlos Esperança

A Europa, a laicidade e os imigrantes

A Europa, sob pena de renegar os valores, cultura e civilização que a definem, não pode deixar de socorrer e tentar integrar as multidões que fogem de países falhados, Estados terroristas e regiões que o tribalismo e a demência dominam.

A Europa, tantas vezes responsável por agressões devastadoras, cujas consequências ora a confrontam, não pode renunciar ao dever de solidariedade para com os acossados, não por expiação de culpas mas por imperativo ético.

Nunca a metáfora da bicicleta, caindo quando para, foi tão certeira como aplicada à UE, que não soube ou não quis federar as nações que a compõem com o aprofundamento da política comum, nas suas vertentes económica, social, fiscal, militar e diplomática, para quem, como eu, acredita num projeto europeu.

Mal dos europeus se o medo os paralisa e preferem abandonar os náufragos a assumir o risco de salvar um terrorista, mas, pior ainda, se descuram o perigo que a exigência ética comporta, se não souber distinguir os crentes, que precisam de ajuda, das religiões que exigem combate.

A Europa civilizada morre se renunciar à solidariedade que deve e suicida-se se não se defender da perversão totalitária de culturas exógenas que vivem hoje o medievalismo cristão e o pendor teocrático do seu próprio passado que o Iluminismo erradicou.

A civilização europeia será laica ou perece. Não pode ceder a poderes antidemocráticos, permitir a confiscação de espaços públicos por quaisquer religiões que incitem ao crime, em nome de Deus ou do Diabo.

O Islão, na sua deriva sectária, é puro fascismo a exigir contenção. Enquanto não aceitar a igualdade de género, o livre-pensamento e as liberdades individuais não pode ser tratado como as religiões cujo clero se submeteu ao respeito pelas regras democráticas e à aceitação do Estado laico.

A laicidade, paradigma da cultura europeia, é a vacina que salva o pluralismo religioso, preserva a sua civilização e evita a xenofobia que alimenta a direita antidemocrática que pulula nas águas turvas do medo e da demagogia.

Não se exige mais a quem chega do que a quem já estava, a submissão às leis do Estado laico e democrático.

7 de Setembro, 2015 Carlos Esperança

O óbvio

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6 de Setembro, 2015 Carlos Esperança

Aparições

Por

Leopoldo

Como se sabe, Maria aparece de vez em quando e sempre empoleirada numa árvore, num montão de pedras, no cimo de qualquer coisa. Ou seja, a Senhora deve ter complexos por ser pouco alta.

Depois sempre pede coisas: Ou um templo para ela, ou que lhe rezem o terço, ou que a adorem por outras vias.
“Eu sou a sempre virgem, mãe do Deus vivo”.
Acredito mais depressa que Ela tenha aparecido do que nas bacoradas que dizem que Ela disse!!!
5 de Setembro, 2015 Carlos Esperança

Médicos, padres e especialidades

«Conceder a todos os padres, para o ano do jubileu, a capacidade de absolverem do pecado todos aqueles que o provocaram e que, de coração arrependido, peçam perdão».

[Papa Francisco em mensagem dirigida ao organizador deste “Ano Santo” (ou Jubileu)]

Antigamente o curso médico conferia licenciatura em Medicina e Cirurgia e era o alvará para a prática de ambas, sem restrições. Hoje, creio que a designação permanece mas exige mais cinco anos de internato complementar para um cada vez maior número de especialidades médicas e cirúrgicas.

Também os seminários maiores habilitavam para o sacerdócio e o sacramento da Ordem conferia-lhes alvará para cinco sacramentos e exorcismos. Apenas a ‘Confirmação’, ou seja, o Crisma, e a Ordem eram reserva exclusiva de bispos tal como a criação de cardeais, beatos e santos passou a ser reserva papal.

Antigamente cabia aos padres a absolvição dos pecados, por maiores que fossem, ainda que a bitola eclesiástica considerasse pecado um direito, como é o caso da apostasia, ou um ato do mero domínio da moral como o aborto (salvo circunstâncias que o Código Penal prevê), a blasfémia ou o adultério.

A escassez de demónios a exorcizar, com o aumento da escolaridade e melhoria da saúde e alimentação, levou os bispos a reservar o alvará de exorcista para um só padre da diocese. Foi assim que o padre Sousa Lara se tornou especialista.

Os padres estão reduzidos à clínica geral da alma onde, para lá da celebração de missas, casamentos e batizados, apenas pecados de pequena e média dimensão ficam ao alcance do seu perdão. E nem uma peleja com o demónio, armados de cruz, hissope e latim, lhes é consentida sem delegação episcopal.

Valeu o Ano Santo, e eu a pensar que todos os dias e anos eram santos para a Igreja do Papa, para ser atribuída aos padres a faculdade de perdoar os pecados que ora considera maiores. Quem diria que o reverendo encartado para proceder ao fenómeno alquímico da transubstanciação precisa de licença especial para absolver do aborto a mulher com o feto malformado, a grávida de uma violação ou a mãe que teria morrido sem a IVG!?

Mistérios insondáveis a que nem o papa Francisco é capaz de fugir, depois de ter sido na Argentina o grande adversário da única IVG legal, no caso de violação!

4 de Setembro, 2015 Carlos Esperança

O pastor de peregrinos (crónica)

Por

[Pode dizer que é um texto da autoria dos Irmãos Cavaco da escrita criativa, texto esse que integrará um livro de contos variados a publicar em breve…

Sua benção,
a) ]

Embora haja muitos pastores peregrinos, raros são os pastores de peregrinos. Flávio Manso é um deles.

Um dia, levado por um súbito assomo de crença, decidiu passar a apascentar os caminhantes impelidos pelo poderoso motor da fé.

Como voluntário da Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, em Viana do Castelo, conduz rebanhos de peregrinos ao longo das estradas nacionais e florestais, impedindo que se tresmalhem, que saiam do trilho, que sejam “aspirados” por pesados de mercadorias, que utilizem os SOS para “acicatarem” a líbido das amantes…

Condu-los com um cajado, reagrupa-os à “calhoada” quando se afastam do grupo e, sempre que atravessam cadeias montanhosas, coloca-lhes uma coleira de espinhos à volta do cachaço, para evitar que se tornem presas fáceis das famintas alcateias.. Os peregrinos “alzheimarados”, esses, são municiados com o respectivo chocalho.

Flávio não se poupa a esforços para que os seus rebanhos realizem, nas melhores condições possíveis e a médias assinaláveis, as longas e penosas transumâncias religiosas. Para tal, e depois de lhes ministrar workshops de marcha olímpica, organizou uma eficaz e cómoda rede de lameiros (devidamente mapeada), onde os caminhantes pastam num ambiente pousado e bucólico, hidratando-se nas bermas baixas.

Montou diversos pontos de tosquia ao longo da estrada, onde os peregrinos de pêlo mais comprido podem aliviar-se do excesso de carga capilar.

Transformou ainda uma série de casas de cantoneiro abandonadas em confortáveis currais. E que bem acantonados ali ficam os “papa-léguas”, vigiados por diligentes párocos que, atentos ao menor perigo ou movimento suspeito, cumprem na perfeição a exigente função de cães de guarda.

Mas tal como qualquer pastor, Flávio tem de fazer pela vida. Por isso ordenha as peregrinas mais carregadas de leite, fabricando com tão precioso líquido o saboroso queijo de leite de peregrina, pago a peso de ouro por retalhistas gourmet. E aproveitando o bigode dos peregrinos e o buço das peregrinas, que emprestam uma maleabilidade única à grossa lã caseira, confeciona resistentes peças de burel e de surrobeco.

Com a bênção e o apoio da Diocese de Leiria-Fátima, assim vai Flávio Manso cumprindo, como Bom Pastor da Igreja, a devota missão de guiar pelos caminhos da Fé os rebanhos de cristãos que Deus lhe confiou, recompensando os mais obedientes com periódicas visitas a lojas de turismo religioso, cuja perspectiva os deixa sedentos de consumir…

Enviado do púlpito do meu dispositivo Samsung

a) ………………….